você precisa perder seu tempo

Você precisa perder seu tempo

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Bruna ReginaComentários

(Para ler ouvindo Time:)

 

Não faz muito dias, um amigo me fez essas três per­gun­tas:

- O que você enxerga quando fecha os olhos?
- Qual o seu desejo mais pro­fundo?
- Você pre­fere que a vida pare, siga ou volte?

Não pude res­pondê-las ins­tan­ta­ne­a­mente.

Ao longo daquele dia, três inter­ro­ga­ções fica­ram coçando no meu pes­coço. Qual seria o embargo que impe­dia que eu as res­pon­desse? Qual seria o empe­ci­lho que boi­co­tava minha refle­xão?

Sem pen­sar muito, eu logo soube. É o tempo. Tempo esse do reló­gio que me impõe o peso da sua hora, e adverte que não há bre­chas para deba­tes inter­nos, nem à meia-noite, nem ao meio-dia.

Da inven­ção da roda até o sur­gi­mento do cos­mos vir­tual, o modo como o homem pas­sou a enca­rar o tempo mudou radi­cal­mente. Antes, tempo e espaço man­ti­nham uma rela­ção intrín­seca, e a deter­mi­na­ção do tempo levava em conta o espaço a ser per­cor­rido. Com inven­ções capa­zes de ace­le­rar nosso movi­mento no espaço, o tempo pôde, então, come­çar a ser con­tro­lado.

A par­tir do domí­nio sobre o tempo, o homem sente que pode vir a con­quis­tar o espaço. O homem está agora mais veloz do que jamais esteve. Com suas fer­ra­men­tas, ele ultra­passa empe­ci­lhos geo­grá­fi­cos e vence sem mui­tas difi­cul­da­des qual­quer dis­tân­cia. É perante essa pers­pec­tiva, que mais tarde ouvi­mos afir­mar que tempo é dinheiro.

Tal ale­ga­ção pro­pa­gou-se em ecos que atin­gi­ram todas as gera­ções pos­te­ri­o­res, impri­mindo em seus espí­ri­tos a ideia de que o tempo não pode­ria ser des­per­di­çado de modo algum. E desde então, esta­mos nas­cendo, cres­cendo e mor­rendo no modo ace­le­rado com a sen­sa­ção de que, mesmo assim, sem­pre che­ga­mos atra­sa­dos. Até o modo como lemos o reló­gio assi­nala essa trans­for­ma­ção – dize­mos fal­tar 20 minu­tos para as 2h, ao invés de 1h40, deste modo, já infor­ma­mos ao outro quanto tempo ele ainda tem para pegar suas coi­sas e se man­dar antes que che­gue atra­sado ao seu des­tino.

A publi­ci­dade assi­nala que atra­vés da velo­ci­dade ofer­tada pela tec­no­lo­gia do mundo con­tem­po­râ­neo pode­mos che­gar a qual­quer lugar e ocu­par qual­quer posi­ção, basta que seja­mos rápi­dos, que fique­mos sem­pre um passo a frente do outro. Tal é a lógica do capi­ta­lismo: tenha pressa, pois time is money!

baumantempo

Zyg­munt Bau­man

O soció­logo polo­nês, Zyg­munt Bau­man retrata no livro Moder­ni­dade Líquida que a con­cep­ção do domí­nio do homem sobre o tempo trouxe para o corpo social uma nova ques­tão: o que posso fazer? Já que o mundo se tor­nou essa esfera de infi­ni­tas pos­si­bi­li­da­des, um con­têi­ner cheio até a boca com uma quan­ti­dade incon­tá­vel de opor­tu­ni­da­des a serem explo­ra­das ou per­di­das, um bufê com tan­tos pra­tos deli­ci­o­sos que nem o mais dedi­cado comen­sal pode­ria pro­var todos. O que posso fazer?  Essa tor­nou-se a ques­tão cen­tral da soci­e­dade que não per­mite inter­va­los, dos hiper­mo­der­nos com seus celu­la­res sem­pre conec­ta­dos.

Temos pro­gra­ma­ção para pre­en­cher nos­sas 24 horas, mas ainda assim anda­mos nos sen­tindo tris­tes e ente­di­a­dos. Para Bau­man, seria pela impos­si­bi­li­dade da comi­lança abso­luta que o con­su­mi­dor se encon­tra infe­liz, pelo excesso de esco­lhas que lhe são apre­sen­ta­das mas não pode­rão ser total­mente expe­ri­men­ta­das. Por isso, con­vi­ve­mos com o sen­ti­mento de estar­mos ina­ca­ba­dos, incom­ple­tos e sub­de­ter­mi­na­dos, um estado cheio de ris­cos e ansi­e­dade. Nossa angús­tia pro­vém da per­cep­ção de que não esta­mos con­se­guindo apro­vei­tar todas as ofer­tas. Então saí­mos com a boca aberta e faminta mas­ti­gando todas as pro­mes­sas como exí­mios con­su­mi­do­res que nos tor­na­mos. Então saí­mos com o nariz alar­gado, fare­jando o que pode­mos con­quis­tar, e vol­ta­mos para casa com a sen­sa­ção de que não explo­ra­mos o sufi­ci­ente.

O que fazer? Ocupa hoje o lugar do antigo enigma sha­kes­pe­a­ri­ano O que ser?

Em seu livro, O Mal-Estar na Atu­a­li­dade, o psi­ca­na­lista, Joel Bir­man defende que os regi­mes de buro­cra­ti­za­ção das ins­ti­tui­ções, jun­ta­mente com a raci­o­na­li­za­ção das prá­ti­cas soci­ais, têm o poder de rea­li­zar a extra­ção do tempo do sujeito, que seguindo as regu­la­men­ta­ções soci­ais perde o poder de esco­lher como anseia uti­li­zar seu tempo.

Joel Bir­man

Para Bir­man, o modo como gas­ta­mos nosso tempo está sendo pré-deter­mi­nado por um sis­tema que não per­mite pau­sas e nos impõem um fre­nesi inin­ter­rupto, que leva à prá­tica da Goza­ção do Tempo, ao invés, do Gozo do tempo. O menu ofer­tado é tão vari­ado que não per­ce­be­mos que exis­tem sim limi­tes den­tro do mundo glo­ba­li­zado: o limite ao desen­vol­vi­mento da sub­je­ti­vi­dade do sujeito, que deixa de exis­tir sin­gu­lar­mente ao ser ultra­pas­sado por pro­ces­sos de homo­ge­nei­za­ção, pro­ces­sos esses que tam­bém se dão no con­trole sobre o que faze­mos com o nosso tempo, visto que o car­dá­pio ofe­re­cido nunca é cri­ado medi­ante a opi­nião de quem pagará pelo pedido.

O eslo­veno, Sla­voj Žižek, filó­sofo, crí­tico con­tem­po­râ­neo e ciné­filo, com­par­ti­lha em seu Livro – Como Ler Lacan – alguns dos prin­ci­pais con­cei­tos do psi­ca­na­lista Jac­ques Lacan segundo a sua inter­pre­ta­ção. Den­tre os con­cei­tos apre­sen­ta­dos, está o Sujeito Inter­pas­sivo, o qual seria a repre­sen­ta­ção do homem con­tem­po­râ­neo, aquele que pela impos­si­bi­li­dade da posi­ção pas­siva, coloca um objeto para ocu­par o seu lugar, sem per­ce­ber que priva a si mesmo de par­ti­ci­par dos even­tos que cer­cam sua vida. Ou seja: con­cedo ao objeto a pas­si­vi­dade, a facul­dade de gozar em meu lugar, enquanto me ocupo ati­va­mente em outras tare­fas — posso tomar pro­vi­dên­cias finan­cei­ras rela­ti­vas à for­tuna do fale­cido enquanto as car­pi­dei­ras pran­teiam por mim. Isso nos leva à noção de falsa ati­vi­dade.

De acordo com o pen­sa­mento de Zizek, gui­ado por Lacan, nos movi­men­ta­mos o tempo todo para pro­var que somos donos de nosso pró­prio des­tino. Assim segui­mos a reco­men­da­ção capi­ta­lista e nega­mos o arbí­trio cris­tão, isto é, da crença pas­siva na deli­be­ra­ção do des­tino pela von­tade de Deus, pas­sa­mos à ilu­são da dinâ­mica com­pul­só­ria, con­ta­mi­na­dos pela cons­ci­ên­cia da super­ve­lo­ci­dade do tempo, sem per­ce­ber que o nosso apres­su­ra­mento é a engre­na­gem que man­tém a Orga­ni­za­ção fun­ci­o­nando.

Esse é o grande jogo. Pri­meiro iluda o cida­dão anun­ci­ando um uni­verso repleto de pers­pec­ti­vas, tan­tas que ele nunca con­se­guirá testá-las. Lem­bre-se: o que abas­tece o sis­tema é jus­ta­mente a insa­tis­fa­ção do cli­ente. Depois, não esqueça de mar­car qual­quer pro­duto com seu devido código de vali­dade, pois isso man­terá o con­su­mi­dor ativo e per­se­guindo novi­da­des, cor­rendo em dire­ção ao futuro, com medo de que o item must have da esta­ção fuja de suas mãos, ou se torne obso­leto.

Per­gunto-me se daqui pou­cos anos ainda tere­mos memó­ria (posto que o pre­sente hoje tem a dura­ção de um ins­tante e o pas­sado parece ser uma espé­cie ame­a­çada de extin­ção) ou se regu­la­re­mos tal fun­ção para os nos­sos HD´s? E que novo tempo será esse do esque­ci­mento? Ainda exis­tirá tempo? Ainda haverá his­tó­ria?

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Sla­voj Zizek

Zizek pro­põe como pri­meiro passo ver­da­dei­ra­mente deci­sivo para a mudança, reti­rar-se para a pas­si­vi­dade, recu­sar-se a par­ti­ci­par, abrindo o ter­reno para uma ati­vi­dade ver­da­deira, para um ato que mudará efe­ti­va­mente as coor­de­na­das da cena. O que não impli­ca­ria em sim­ples­mente ‘dei­xar as coi­sas como estão’, mas em renun­ciar a essa movi­men­ta­ção con­vul­siva e parar de modo a apre­sen­tar um modelo de resis­tên­cia.

Estou de acordo, mesmo que possa a lei inci­dir sob mim ante a acu­sa­ção de vadi­a­gem. Eu real­mente acre­dito no ócio como pro­pul­sor da cri­a­ti­vi­dade e da refle­xão. Com meu machado ima­gi­ná­rio abri uma fenda no tempo. Acer­tei bem no meio da segunda-feira. Ela sen­tiu a fis­gada, mas eu estava con­victa e não titu­beei, pelo con­trá­rio, fui ainda mais ousada, sen­tei no sofá e tirei os sapa­tos.

Retor­nei às per­gun­tas do meu amigo, para res­pondê-las, pre­ci­sei que a vida parasse, pre­ci­sei fechar os olhos, pre­ci­sei de tempo. ‘Perdi’ muito, muito tempo.  Gas­tei a segunda-feira inteira. O que eu sou vol­tava agora a ocu­par o seu devido lugar. O que eu sou tomava conta do espaço que se ampli­ava per­cor­rendo nova­mente em sime­tria com o tempo.


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Bruna Regina
Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.

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