Todos aprendemos na escola sobre os três setores da economia. O primário, correspondente à agricultura e à pecuária; o secundário, que é o setor industrial; e por fim o terciário, o comércio varejista e a prestação de serviços. Todos os três em constante correlação direta e situados geograficamente. Os setores primário e secundário costumam ficar à margem de zonas urbanas residenciais, onde se concentra o terciário, voltado à distribuição de produtos para o consumidor.

Até aí, tudo bem. É o básico da escola. O problema é que nós agimos como se não soubéssemos disso.

Não costumamos ver o copo plástico como o que um dia foi petróleo líquido. Não costumamos ver uma panela de aço como o que um dia foi ferro e carbono. Não costumamos ver um saquinho de iogurte como o que um dia foi uma vaca leiteira. Da mesma forma, não costumamos ver um pedaço de carne embalada à vácuo como o que um dia foi um filhote de gado inocente.

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Por mais corriqueira e aparentemente sem grandes problemas, essa desconexão não é por acaso. Desde o século XX, o terciário foi o setor econômico que mais se desenvolveu, decorrente de uma grande redução da população rural. Essa urbanização das relações mercantis não afeta apenas a economia, mas também aspectos sociais, políticos e culturais, e inclusive visões de mundo de caráter individual.

A maioria de nós nasce, vive e morre em contato íntimo e direto com o ambiente urbano, o que enraíza no imaginário coletivo a ideia de que os produtos que usamos e os alimentos que servimos à mesa são, de fato, aquilo o que vemos e não há muito o que se questionar sobre isso.

O leite branquinho e fresco, os ovos enfileirados em caixas, a carne com coloração sempre vermelha, fatiada e higienicamente embalada: Todos os produtos que utilizamos são vistos como nada além de bens de consumo, que basta pagarmos ao atendente de caixa para os termos e nada há além disso.

O vínculo habitual que cultivamos com produtos embalados à pronta entrega está associado às nossas urgências por praticidade e simplicidade, que são nossas duas aliadas numa sociedade na qual o tempo é um recurso escasso e há uma constante imposição externa de prioridades.

Se ao cidadão mediano não é uma prioridade saber a origem e o processo vinculado aos produtos que consome, podemos nos perguntar sobre as perdas que disso decorrem em relação à carne que comemos.

1 – Perda de valores

Atualmente vivemos em uma sociedade que adota, dentre seus valores morais coletivos, o de que é ético comer carne. Essa ideia não é de todo equivocada. A alimentação humana não pode ser considerada dissociada da cultura e das conquistas históricas e sociais, e justamente por isso os hábitos socialmente arraigados estão vinculados a certa visão de mundo.

Homem orgulhosamente posando à frente de uma montanha de dezenas de milhares de crânios de bisão, assassinados em 1870.
Homem orgulhosamente posando à frente de uma montanha de dezenas de milhares de crânios de bisão, assassinados em 1870.

Embora seja comumente o motivo principal, as pessoas não comem carne apenas pelo prazer que sentem. A carne ocupa posição central na cultura ocidental, sendo vista como o principal alimento. Comer carne em nossa sociedade é sinônimo de “comer bem”, e é por isso que a simples presença de carne em um prato designa o próprio nome do prato.

Porém, e justamente por isso, temos de levar em consideração o fato de que os valores morais de qualquer sociedade não são imutáveis. Se os fossem, a escravidão ainda hoje seria aceita, o voto feminino não teria qualquer reconhecimento e o casamento entre pessoas de mesmo sexo sequer seria cogitado.

Nessa constante mudança de paradigmas, temos de reavaliar constantemente nossas perspectivas frente ao mundo e aos novos valores que surgem, entendendo o motivo de seu surgimento e a que preocupações eles pretendem apresentar uma resposta.

E um desses novos valores é o da conscientização em relação aos direitos dos animais. Esse valor coloca-se contra o uso de peles de animais, as rinhas de animais, a farra do boi, as touradas, bem como contra o consumo da carne. São práticas que reduzem a qualidade valorativa do mundo à medida em que negam a seres vivos o direito à plena dignidade.

2 – Perda de sentimentos

“Você é um homem ou um rato?”

rato laboratorio

Perguntar isso a alguém geralmente tende a soar ofensivo, mas, conforme estudo publicado no periódico científico Science, talvez seja um elogio. Em pesquisas realizadas na Universidade de Chicago, ratos eram presos enquanto outros estavam livres para comer chocolate. Os ratos livres comumente optavam por, antes de comer, liberarem seus parceiros, para a seguir dividirem o doce. O estudo concluiu que ratos têm compaixão por seus semelhantes.

É bem possível que tenha lhe passado pela cabeça que nós, humanos, temos compaixão, mas, como no caso dos ratos, ela é dirigida apenas àqueles que são da nossa espécie.

Porém, de acordo com outro estudo, humanos têm mais empatia por cães maltratados do que por outros humanos. “Cachorros e gatos são animais de estimação e costumam fazer parte da família. São animais aos quais muitas pessoas atribuem características humanas”, concluiu-se.

Dessa forma, a familiaridade e a intimidade adquirida em relação a um ser vivo define o que você pensa e o que você faz por ele.

macaco

É muito comum que o ser humano seja extremamente sensível a ponto de, diante de qualquer maldade, sentir nojo, repulsa, asco ou qualquer atitude de desaprovação frente a isso. Sabendo disso, empresas do ramo alimentício despendem milhões de reais em propagandas na tentativa de ludibriar seus consumidores, os fazendo acreditar que, durante o processo de composição do produto que lhe servirá à mesa, o abate é “humanitário” e os animais não passam por qualquer sofrimento.

É muito comum que empresas se utilizem de símbolos totalmente contrários à ideia de dor e sofrimento para vender seus produtos. Temos, por exemplo, a McDonald’s, com o seu “McLanche Feliz”; a Sadia, com o seu “querido” e nacionalmente reconhecido “Lequetreque” (sim, esse é o nome do peruzinho com óculos de motoqueiro), mascote oficial que pede aos consumidores que comam seus parentes mortos; bem como a JBS-Friboi, que se utiliza de contratos milionários com grandes símbolos nacionais, como Roberto Carlos e Tony Ramos, para firmar proximidade com o público consumidor, além de abusar do termo “qualidade” na venda de seus produtos – o que já está provado se tratar de propaganda enganosa.

O desconhecimento dos processos de extração, fabricação e comércio dos produtos que utilizamos, de roupas a restos de animais embalados, é necessário para que tais empresas continuem a fazer o que fazem e a lucrar em cima disso. É preciso que sejamos enganados sentimentalmente para que consumamos carne como se não houvesse qualquer problema nisso.

Se você ainda duvida de nossa empatia em relação aos seres de outras espécies, de nossa incapacidade de provocar sofrimento desnecessário a seres inocentes, então dê uma olhada neste vídeo de pegadinha, de Ivo Holanda, no qual as pessoas se recusam – e ainda se prostram contra – a fazer parte desse processo que fingem não conhecer:

 O Moedor de Porco - Ivo Holanda https://www.youtube.com/watch?v=5d_y9Hhk2r8

 

Definitivamente, somos seres dotados de compaixão e empatia. O problema é que as empresas que pagamos para que matem animais em nosso nome sabem disso, e se esforçam para que não venham a público os processos de exploração animal. A elas, só importa que vejamos recortes da realidade – ou seja, pedaços de animais embalados, com a aparência de serem apenas coisas, sem vida e sem sentimentos, sem poderem sentir dor, afeto ou mesmo empatia por seus semelhantes.

Ainda está em dúvida? Então deixe que Kate Cooper, consultante de marketing da indústria alimentícia, fale a você sobre os interesses que existem em você não saber nada sobre os processos que tornaram possíveis o seu bife na mesa:

 Os segredos do marketing de alimentos - https://www.youtube.com/watch?v=-zF4iF09fXY

“Quando está no super-mercado, você não quer pensar de onde vieram os produtos. Não quer pensar como os animais foram criados, como foram tratados. O poder da ignorância intencional não pode ser subestimado. Isso é crueldade sistematizada, em escala gigantesca, e só conseguimos ficar sem culpa porque todo mundo está condicionado para fingir que não vê.”

Viver uma vida sem exercer a compaixão e empatia por outros seres, portanto, é viver uma perda de sentimentos.

E aí, você é um homem ou um rato?

 

3 – Perda de racionalidade

Não se trata de afirmar que uma pessoa que adere a uma dieta sem carne seja “melhor” que uma que come carne por prazer. Embora a sociedade ocidental esteja baseada em princípios racionais, ainda assim podemos afirmar que a racionalidade, se tomada como único critério para aprovação de determinados valores, não necessariamente valida qualquer postura que se pretenda ética. Afinal, é justamente por isso que tratei de explorar as perdas emocionais antes de chegar aqui, mostrando que compaixão e empatia são valores de natureza humana tão relevantes quanto os valores racionais.  A racionalidade, por si só, pode ser egoísta.

Porém, falaremos dos efeitos do consumo de carne sob o enfoque racional.

A indústria da criação de animais para consumo (carne, leites, ovos etc.) é uma das mais degradantes do ponto de vista ambiental. Não é a toa que Rajendra Pachauri, presidente do IPCC e principal cientista climático da ONU, após estudo que comprovou que a produção de carne lança mais gases de efeito estufa do que o setor de transportes, fez um apelo de caráter público: “as pessoas deveriam considerar comer menos carne como uma forma de combater o aquecimento global”.

pachauri

Porém, a indústria não apenas contribui para o aquecimento global com a emissão de gases de efeito estufa (de forma ainda mais prejudicial que todos os poluentes emitidos por aviões, carros e caminhões do planeta inteiro), como também exige uma demanda colossal por cada vez mais terrenos para monocultura de grãos, que serão usados para alimentação dos animais de corte (sendo que poderiam servir diretamente para a alimentação humana). Essa necessidade de expansão da indústria de animais acaba por pressionar a derrubada das florestas, em especial a amazônica, na procura de mais pasto para criação de gado.

Ainda segundo a ONU, até o ano de 2050 estima-se que a população mundial seja de nove bilhões de pessoas. Como já mostrado aqui, se optássemos por uma dieta diária à base de carne, só conseguiríamos alimentar cerca de duas bilhões de pessoas no mundo, sendo que, atualmente, temos sete. Para as estimativas da ONU, é definitivamente inviável mantermos nossos costumes alimentares.

Somos seres em constante busca da sobrevivência. Porém não é possível sobreviver sem ter solo firme e fértil para pôr os pés e perpetuar a espécie. O fato é que todos os dados indicam que o consumo de produtos animais é, a médio e longo prazo, inviável para a nossa própria existência. O planeta Terra é incapaz de acompanhar o atual ritmo de consumo de carnes.

 

4 – Perda de autocrítica

É realmente necessário que eu coma carne? Há algo de errado em meu prazer individual estar acima da vida de seres inocentes? A minha preferência pela carne deve estar acima da necessidade de comer carne?

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Poucas são as pessoas que, durante uma vida inteira, chegam a se fazer essas perguntas. Tais perguntas, embora possam soar agressivas aos costumes de alguém totalmente habituado ao consumo de pedaços de animais, estão ligadas à mais plena autocrítica frente ao mundo e frente a si mesmo.

Autocrítica é, por definição, a capacidade de reconhecer as qualidades e os defeitos do próprio caráter, assim como os erros e acertos de cada uma de suas ações. Ser autocrítico, portanto, é distribuir suas possíveis ações e suas possíveis intenções sobre os dois lados de uma balança, na tentativa de descobrir para qual dos lados você está mais apto a agir e quais as consequências positivas e negativas disso.

Estamos habituados a agir de modo automático, inseridos num processo massificante de alienação do consumo. A tendência é a sumissão acomodada a condicionamentos externos. Agir assim, sem reflexão, sem ao menos formular intimamente aquelas três perguntas e tentar respondê-las para si com honestidade, é uma perda de autocrítica.

 

5 – Perda de humanidade

 

Perder valores, perder sentimentos, perder racionalidade, perder autocrítica: o que mais o consumo de carne poderia tirar de você?

A própria composição da soma dessas perdas: humanidade.

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E não falo de humanidade como algo comum a todos nós, que designe a espécie humana. Falo de humanidade como a mescla das qualidades que levam os seres humanos a estenderem os seus valores, o seus sentimentos de compaixão e empatia, a sua racionalidade e a sua autocrítica a patamares e a níveis para além do seu próprio campo de visão, para além do seu umbigo.

Há no mundo 1,35 bilhão de bois e vacas. Criamos 930 milhões de porcos, 1,7 bilhão de ovelhas e cabras, 1,4 bilhão de patos, gansos e perus, 170 milhões de búfalos. Some todos eles e temos uma população de animais quase equivalente à humana dedicando sua vida a nos alimentar. Além disso, temos a população de frangos e galinhas abastecendo a Terra de ovos e carne branca: 14,85 bilhões. Só no Brasil há 172 milhões de cabeças de gado bovino – uma para cada cabeça humana.

Ou seja: a quantidade de seres vivos que temos em nossas mãos, neste mundo, para explorarmos e matarmos, é muito além da quantidade de membros da nossa espécie. E mesmo assim precisaremos aumentar essa exploração ainda mais para dar conta de alimentar as próximas gerações.

Mas não precisamos ter sentimentos por animais para deixarmos de consumir carne. Além dos avisos já alertados pela ONU, continuar a manter os animais e os alimentos de origem animal como sendo as fontes principais de alimentos para a população humana do planeta é condenar milhares de milhões de pessoas à fome.

Se as terras cultiváveis, atualmente utilizadas na criação de animais, fossem usadas na produção de vegetais, gerariam uma quantidade substancialmente maior de alimentos para consumo humano, permitindo alimentar um número muito superior de seres humanos – e de modo ético e ecologicamente mais correto.

Viver uma vida que não se estenda para além de seu próprio umbigo, portanto, é viver uma perda de humanidade.

Assista à introdução do filme-documentário Terráqueos. Não contém cenas fortes.


 Terráqueos - https://www.youtube.com/watch?v=B09JFDNKn_A

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escrito por:

Alysson Augusto

Escritor que não compactua com o rótulo. Graduando em Filosofia pela PUCRS. Professor de ensino médio. E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.


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