Família patriarcal. Patriarcado é mesmo um bicho-papão?

Patriarcado é mesmo um bicho-papão?

Em Consciência, Sociedade por Renata CarvalhoComentários

Em cada 5 tex­tos femi­nis­tas, pelo menos 3 falam do patri­ar­cado como sendo uma estru­tura social onde o poder é con­cen­trado nas mãos dos homens, refor­çando os papéis de gênero de forma a sub­ju­gar a figura femi­nina na soci­e­dade atra­vés de meca­nis­mos soci­ais.

E, ale­gam, é este o modelo polí­tico-social ado­tado no mundo inteiro; esteja você no multi-face­tado e pro­gres­sista Canadá ou na retró­grada Ará­bia Sau­dita. Isso torna o patri­ar­cado em algo muito fácil de con­cei­tuar, porém difí­cil de com­pre­en­der.

A teo­ria femi­nista pós-moderna base­ada em Michel Fou­cault afirma que o patri­ar­cado tem suas raí­zes na fabri­ca­ção de um corpo dócil, obtido atra­vés de ades­tra­mento social. Desta feita, o patri­ar­cado seria o con­trole mas­cu­lino sobre as mulhe­res atra­vés de meca­nis­mos soci­ais sutis, todos levando à subor­di­na­ção pela cons­tru­ção social.

Pela ótica evo­lu­ci­o­nista, o patri­ar­cado sur­giu a par­tir de seis ele­men­tos:

  1. redu­ção de ali­an­ças femi­ni­nas;
  2. ela­bo­ra­ção de ali­an­ças mas­cu­li­nas;
  3. o aumento do con­trole mas­cu­lino sobre os recur­sos;
  4. o aumento na for­ma­ções de hie­rar­quia entre os homens;
  5. estra­té­gias femi­ni­nas que refor­ça­vam o con­trole mas­cu­lino; e
  6. a evo­lu­ção da lin­gua­gem e sua capa­ci­dade de criar ide­o­lo­gias.

O termo “patri­ar­cado” deriva do grego; a pala­vra patri­arkhés sig­ni­fica “pai da raça”. Esta pala­vra, por sua vez, é oriunda da jun­ção de patria, lite­ral­mente “o pai”, e arkhó, “eu governo”. Isso indica o sen­tido ori­gi­nal do termo.

Mais inte­res­sante que a teo­ria pós-moderna é a aná­lise do sur­gi­mento do patri­ar­cado pela ótica evo­lu­ci­o­nista.

Se a relei­tura de Fou­cault pro­põe um escla­re­ci­mento acerca dessa estru­tura social como um meio para um fim, sem expli­car os porquês, a teo­ria da evo­lu­ção con­se­gue res­pon­der aos moti­vos de seu sur­gi­mento ao mos­trar o patri­ar­cado como um pro­duto das rela­ções huma­nas e do seu desen­vol­vi­mento no meio ambi­ente.

Ao con­trá­rio da teo­ria pós-moderna, a visão evo­lu­ci­o­nista mos­tra que as con­di­ções pro­pí­cias ao desen­vol­vi­mento do sis­tema patri­ar­cal não são con­di­ções imu­tá­veis; desta forma o patri­ar­cado não é uma estru­tura social enges­sada, a qual ape­nas uma inver­são total da soci­e­dade pode­ria alte­rar.

Saindo do campo das ori­gens do termo e da estru­tura em si e falando das soci­e­da­des atu­ais, existe grande con­fu­são entre sis­tema patriarcal/patriarcado e prá­ti­cas ou cren­ças patri­ar­cais iso­la­das, sendo todos tra­ta­dos sob a mesma alcu­nha: PATRIARCADO.

Isso difi­culta muito o debate e o enten­di­mento entre pes­soas ten­tando falar sobre o mesmo termo, porém dando a ele sig­ni­fi­ca­dos dife­ren­tes, desta forma então falando sobre fenô­me­nos dife­ren­tes.

 

O Brasil é um patriarcado?

Se o patri­ar­cado é uma estru­tura polí­tico-social como des­crito acima, ela não pode estar pre­sente ape­nas em célu­las espar­sas da soci­e­dade, tam­pouco se refe­rir a ape­nas alguns aspec­tos cul­tu­rais da mesma.

Sendo uma estru­tura, deve pos­suir cará­ter rela­ti­va­mente homo­gê­neo den­tro do grupo obser­vado.

Assim, uma soci­e­dade patri­ar­cal seria aquela onde todas as rela­ções soci­ais fos­sem pau­ta­das na pre­va­lên­cia do homem sobre a mulher,

  • desde a par­ti­ci­pa­ção femi­nina nos car­gos de deci­são e admi­nis­tra­ção da soci­e­dade (na polí­tica, admi­nis­tra­ção pública, magis­tra­tura);
  • pas­sando pelo papel femi­nino em célu­las de com­po­si­ção da soci­e­dade (como a defi­ni­ção de atri­bui­ções mas­cu­li­nas e femi­ni­nas em uma famí­lia ou res­tri­ções à par­ti­ci­pa­ção femi­nina no mer­cado de tra­ba­lho);
  • até a auto­no­mia femi­nina na esfera estri­ta­mente indi­vi­dual (como o con­trole da liber­dade de ir e vir ou na esco­lha de ele­men­tos da sua apa­rên­cia, tais como rou­pas e maqui­a­gem, etc).

Sob este prisma, exis­tem pou­cas soci­e­da­des real­mente patri­ar­cais no mundo, feliz­mente ace­nando para sua total ine­xis­tên­cia, muito embora este­ja­mos longe de eli­mi­nar os sis­te­mas e cren­ças patri­ar­cais do mundo tão cedo.

Isso não sig­ni­fica que soci­e­da­des não-patri­ar­cais sejam total­mente igua­li­tá­rias; há uma certa con­fu­são entre patri­ar­cado e sexismo tam­bém. O patri­ar­cado cons­truiu suas bases no sexismo e jus­ta­mente por isso, ainda que acabe-se com o pri­meiro, ainda res­ta­rão tra­ços do segundo na cul­tura.

Isso fica evi­dente ao ana­li­sar-se as dife­ren­ças entre as duas soci­e­da­des cita­das no começo do texto.

O Reino da Ará­bia Sau­dita é con­si­de­rado um dos esta­dos patri­ar­cais mais rígi­dos do mundo, enquanto o Canadá é um país pau­tado na igual­dade social, incluindo-se a igual­dade de gênero. Não obs­tante, é impos­sí­vel afir­mar que ine­xista, no país, qual­quer núcleo social (famí­lia, reli­gião, etc) em que sis­te­mas patri­ar­cais pre­do­mi­nem.

De forma iso­lada, as cren­ças patri­ar­cais ainda se mani­fes­tam de diver­sas for­mas dife­ren­tes.

  • em reli­giões que pre­gam que homens e mulhe­res não devem ocu­par o mesmo lugar na soci­e­dade base­a­das na noção de exis­tên­cia de uma hie­rar­quia natu­ral entre os sexos;
  • em uni­da­des fami­li­a­res onde o homem pos­sui maior poder de tomar deci­sões refe­ren­tes aos inte­res­ses da famí­lia;
  • ou em qual­quer situ­a­ção social base­ada em hie­rar­quia entre os gêne­ros.

O Bra­sil, assim como a maior parte dos paí­ses oci­den­tais, não é um patri­ar­cado.

Temos par­ti­ci­pa­ção polí­tica femi­nina na admi­nis­tra­ção pública e no legis­la­tivo. Nas elei­ções de 2014 para a Pre­si­dên­cia, entre os can­di­da­tos mais vota­dos 3 eram mulhe­res: Luci­ana Genro, Marina Silva e Dilma Rous­seff, sendo que o cargo foi con­quis­tado pela última nas urnas.

Em um patri­ar­cado nenhuma das três pode­ria sequer se ele­ger, quanto mais teriam apoio nas urnas. A pró­pria Ará­bia Sau­dita con­ce­deu às mulhe­res a pos­si­bi­li­dade de votar ape­nas em 2011.

  • Temos leis espe­cí­fi­cas recri­mi­nando a vio­lên­cia come­tida con­tra mulhe­res, como A Lei Maria da Penha e a inclu­são de femi­ni­cí­dio no código penal.
  • O estu­pro come­tido por um homem con­tra uma mulher é soci­al­mente con­si­de­rado um ato abo­mi­ná­vel e os cri­mi­no­sos são fre­quen­te­mente sepa­ra­dos dos con­de­na­dos por outros cri­mes nas pri­sões, para que sua inte­gri­dade física seja pre­ser­vada, evi­tando ata­ques dos demais.
  • Em paí­ses como Vietnã, Haiti e Etió­pia o estu­pro mari­tal não é con­si­de­rado um crime e sim um direito do esposo.

As mulhe­res bra­si­lei­ras gozam das mes­mas garan­tias legais que os homens, par­ti­ci­pando do mer­cado de tra­ba­lho e for­mando a mai­o­ria dos estu­dan­tes com curso de nível supe­rior.

Nada disso implica que não exista o pro­blema do sexismo no país; porém, ao con­trá­rio, este sexismo é um pro­blema cul­tu­ral que não encon­tra res­so­nân­cia legal.

Tam­bém con­vém lem­brar que o sexismo geral­mente cria situ­a­ções de con­forto e des­con­forto para ambos os gêne­ros e pode, igual­mente, ser mani­fes­tado tanto por homens quanto por mulhe­res.

Embora exis­tam, ainda, alguns per­cal­ços liga­dos à ideia de supe­ri­o­ri­dade mas­cu­lina aqui e ali por parte de algu­mas pes­soas e de demons­tra­ções de sexismo na nossa cul­tura de maneira geral, o Bra­sil não é um patri­ar­cado.

Isso está longe de ser motivo de revolta. Tam­bém está longe de ser motivo de des­canso.

O que importa é com­pre­en­der os ter­mos e ter a exata noção de onde esta­mos numa hipo­té­tica escala de evo­lu­ção que vai de Paquis­tão à Canadá e, ouso dizer, que esta­mos mais pró­xi­mos do segundo que do pri­meiro.


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Renata Carvalho
Feminista liberal, com alergia ao pós-modernismo. Administradora da página Feminismo Liberal no Facebook. Groselheira nas horas vagas.

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