carne

Cinco coisas que aconteceriam se todos parassem de comer carne

Em Ciência, Comportamento, Economia, Sociedade, Tempo de Saber por Rodrigo ZottisComentários

Os moti­vos aqui lis­ta­dos são uma breve aná­lise de alguns dados cole­ta­dos ao redor do mundo. Sabe­mos que a con­sequên­cia da dimi­nui­ção ou (atual utó­pica) ine­xis­tên­cia do con­sumo de carne é impos­sí­vel de des­cre­ver de forma breve, pois depende do clima, região, e PIB do país ana­li­sado. 

1 — A fome no mundo seria menor do que a de hoje em dia.

Sim, seu bife pode ser pro­du­zido den­tro de seu pró­prio país ou estado, mas e o ali­mento que esses ani­mais con­so­mem? Vege­ta­ri­a­nos e vega­nos não estão devo­rando todos os grãos de soja do pla­neta — os ani­mais estão. 97% dos grãos de soja do mundo são usa­dos para ali­men­tar gado. Seria neces­sá­rio apro­xi­ma­da­mente 40 milhões de tone­la­das de comida para eli­mi­nar os casos de fome extrema.

Ainda assim, mais de 20 vezes desse valor é neces­sá­rio para ali­men­tar os ani­mais de abate a cada ano. A pro­por­ção de vege­tais para carne é alar­mante. É pre­ciso cerca de 2 qui­los de grãos de soja para con­se­guir menos de meio quilo de carne suína. Em um mundo onde se estima que 850 milhões de pes­soas não têm o sufi­ci­ente para comer, é um pre­o­cu­pante des­per­dí­cio usar essa quan­ti­dade absurda de soja e outros grãos para ali­men­tar ani­mais com a fina­li­dade de pro­du­zir ham­búr­guer, que pode ser subs­ti­tuído por outro ali­mento.

Embora a causa da fome mun­dial não seja por falta de ali­men­tos, mas sim por mau geren­ci­a­mento dos gover­nos, a carne está se tor­nando mais cara para pro­du­ção e con­sumo. Aque­les que não pos­suem dinheiro para arcar com essas des­pe­sas, encon­tram-se em um cená­rio des­fa­vo­rá­vel, já que para uma dieta vege­ta­ri­ana, cer­tos cui­da­dos e ali­men­tos espe­cí­fi­cos, às vezes, são neces­sá­rios, e esses cui­da­dos não são tão bara­tos pois ainda há pouca demanda e oferta para bara­tear o ser­viço.

2- Haveria mais terra para moradia.

Paí­ses ao redor do mundo estão aplai­nando gran­des quan­ti­da­des de terra com a fina­li­dade de fazer mais fazen­das e áreas de pasto para gali­nhas, vacas e outros ani­mais, assim como para dis­po­ni­bi­li­zar mais área para as quan­ti­da­des de grãos neces­sá­rias para os ali­men­tar.

Veg­fam, uma  ins­ti­tui­ção de cari­dade que pos­sui pro­je­tos de ali­men­tos sus­ten­tá­veis, estima que uma fazenda de 10 acres pode ali­men­tar 60 pes­soas plan­tando soja, 24 pes­soas plan­tando trigo ou 10 pes­soas plan­tando milho, mas pode ali­men­tar ape­nas 2 cri­ando gado. Além do mais, cien­tis­tas holan­de­ses pre­veem que 2,7 bilhões de hec­ta­res de terra que atu­al­mente são uti­li­za­dos para pasto seriam “libe­ra­dos para esta­be­le­ci­mento humano”, se a popu­la­ção ado­tasse uma dieta sem carne, libe­rando ainda uma área de 100 milhões de hec­ta­res de terra para o uso de plan­tio de ali­men­tos.

Iro­ni­ca­mente, mui­tas medi­das já estão sendo tes­ta­das, mas nenhuma delas pro­põe a mudança do pala­dar dos con­su­mi­do­res. Uma des­sas medi­das é o aumento de massa mus­cu­lar em vacas para fina­li­dade de con­sumo, as cha­ma­das “Super Vacas”.

Isso não sig­ni­fica que pes­soas sem mora­dia seriam rea­lo­ca­das nes­sas ter­ras, mas sim que as metró­po­les pode­riam tomar novas pro­por­ções, aumen­tado o número de esta­be­le­ci­men­tos comer­ci­ais de cunho ali­men­tar, ofe­re­cendo ali­men­ta­ção mais barata para os que pos­suem baixa renda. Quanto maior é a con­cor­rên­cia e a quan­ti­dade de certo ali­mento em deter­mi­nado local, mais barato ele se torna.

Em futu­ros cená­rios, as cida­des fica­riam res­trin­gi­das devido às fazen­das que ali­men­ta­riam a popu­la­ção, a carne tor­na­ria-se mais escassa e cara, tanto para pro­du­ção quanto para con­sumo.

3 — Bilhões de animais evitariam uma vida de sofrimento.

Nas fazen­das indus­tri­a­li­za­das, ani­mais são man­ti­dos em con­di­ções pre­cá­rias com a fina­li­dade de que não pro­criem. A mai­o­ria ape­nas che­gará a sen­tir o sol sobre sua pele ou res­pi­rar um ar fresco no tra­jeto entre o aba­te­douro e o cami­nhão que os trans­porta. Sem falar do estresse diá­rio ou de medi­das bru­tais como a cas­tra­ção sem anes­te­sia em por­cos e o corte de bico em aves (para não se bica­rem por estresse).

Existe tam­bém a famosa “vál­vula” ane­xada às vacas com a fina­li­dade de que pos­sa­mos ver seus intes­ti­nos e assim acom­pa­nhar o sur­gi­mento de pos­sí­veis doen­ças ou má diges­tão, com o fim de pro­du­zir uma carne “mais pró­xima do ideal”.

Não há melhor maneira de aju­dar os ani­mais e evi­tar o seu sofri­mento do que optar por não comê-los.

4 — Seria menor risco de surgimento de novas doenças humanas.

Ani­mais cri­a­dos em fazen­das indus­tri­a­li­za­das pos­suem alto risco de desen­vol­ver doen­ças, como resul­tado de serem amon­to­a­dos em locais com higi­ene pre­cá­ria. Isso resulta em novas gera­ções de bac­té­rias e vírus. Por­cos, gali­nhas e outros ani­mais nas fazen­das indus­tri­a­li­za­das são ali­men­ta­dos dia­ri­a­mente com uma quan­ti­dade de dro­gas embu­tida à comida para mantê-los vivos nes­sas con­di­ções insa­lu­bres e estres­san­tes, aumen­tado a chance da cri­a­ção de super­bac­té­rias resis­ten­tes a medi­ca­men­tos.

carne galinha

Um ofi­cial sênior da Orga­ni­za­ção para a Ali­men­ta­ção e Agri­cul­tura das Nações Uni­das cha­mou a agri­cul­tura inten­siva indus­trial de gado de “opor­tu­ni­dade para uma doença emer­gente, enquanto os cen­tros dos EUA para Con­trole e Pre­ven­ção de Doen­ças decla­rou que “muito do uso de anti­bió­ti­cos em ani­mais é des­ne­ces­sá­ria e ina­de­quada, aumen­tado o risco de doen­ças se espa­lha­rem”.

Claro, a pres­cri­ção exces­siva de anti­bió­ti­cos para os seres huma­nos desem­pe­nha um papel no aumento da resis­tên­cia a esse tipo de medi­ca­mento. Mas eli­mi­nar as fazen­das indus­tri­ais de onde sur­gem mui­tas bac­té­rias resis­ten­tes tor­na­ria mais pro­vá­vel que pudés­se­mos con­tar com os anti­bió­ti­cos atu­ais para tra­tar de doen­ças gra­ves.

5 — O serviços públicos de saúde estariam sob menor pressão.

A obe­si­dade está lite­ral­mente matando grande parte da popu­la­ção mun­dial. Carne, lati­cí­nios e ovos — todos com alto nível de coles­te­rol e gor­dura satu­rada — são os prin­ci­pais cul­pa­dos da obe­si­dade, que con­tri­bui para ata­ques car­día­cos, der­ra­mes, dia­be­tes e vários tipos de cân­cer.

Sim, há vege­ta­ri­a­nos e vega­nos com excesso de peso, assim como há magros que comem carne. Mas, em média, os vega­nos pos­suem cerca de um décimo de pro­ba­bi­li­da­des de ser obe­sos do que quem come carne. Depois de subs­ti­tuir o alto teor de gor­dura dos ali­men­tos de ori­gem ani­mal por fru­tas sau­dá­veis, legu­mes e grãos, torna-se muito mais difí­cil engor­dar. Além disso, mui­tos pro­ble­mas de saúde podem ser ate­nu­a­dos e mesmo rever­ti­dos se optar­mos por uma dieta base­ada em vege­tais.

O vega­nismo e o vege­ta­ri­a­nismo podem não tor­nar o mundo um lugar per­feito (afi­nal nenhuma medida sin­gu­lar vai), mas aju­da­riam a torná-lo um local mais verde e sau­dá­vel, para nós huma­nos, para os outros ani­mais e a natu­reza.


Para saber mais, leia tam­bém:

1 — Quer Sal­var o Pla­neta? Pare de Comer Carne
2 — As per­das soci­ais de se con­su­mir carne
3 — Con­su­mismo e Ética Ani­mal

 

Rodrigo Zottis
Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

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