O paradoxo de Fermi - por Tim Urban

O Paradoxo de Fermi: onde estão as outras Terras?

Em Ciência, Consciência por Tim UrbanComentários

PARADOXO DE FERMI | Quando você está em algum lugar pro­pí­cio para admi­rar as estre­las, e se a noite esti­ver espe­ci­al­mente boa para vê-las, é incrí­vel olhar para o alto e se depa­rar com algo seme­lhante à ima­gem acima.

Algu­mas pes­soas ficam impres­si­o­na­das com a beleza do céu, ou se des­lum­bram com a vas­ti­dão do uni­verso. No meu caso, eu passo por uma leve crise exis­ten­cial, e depois ajo bem estra­nha­mente por meia hora. Cada um reage de um jeito dife­rente.

O físico Enrico Fermi tam­bém rea­gia dife­rente, e se per­gun­tou: “cadê todo mundo?”

 

Os números

Um céu estre­lado parece imenso, mas tudo o que esta­mos vendo é a nossa vizi­nhança.

Nas melho­res noi­tes estre­la­das, nós pode­mos ver até 2.500 estre­las (mais ou menos um cen­té­simo de mili­o­né­simo do total de estre­las em nossa galá­xia). Quase todas estão a menos de mil anos-luz de nós (ou 1% do diâ­me­tro da Via Lác­tea).

Então, na ver­dade esta­mos olhando para isto:

galaxia | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

Quando somos con­fron­ta­dos com o assunto de estre­las e galá­xias, uma ques­tão que ator­menta a maior parte dos huma­nos é: “há vida inte­li­gente lá fora?” Vamos colo­car alguns núme­ros nessa ques­tão; se você não gosta de núme­ros, pode ler só o negrito.

Nossa galá­xia pos­sui entre 100 bilhões e 400 bilhões de estre­las; no entanto, este é quase o mesmo número de galá­xias no uni­verso obser­vá­vel. Então, para cada estrela da imensa Via Lác­tea, há uma galá­xia inteira lá fora. No total, exis­tem entre 10^22 e 10^24 estre­las no uni­verso.

Isso sig­ni­fica que para cada grão de areia na Terra, há 10.000 estre­las no uni­verso.

O mundo da ciên­cia não está em total acordo sobre qual por­cen­ta­gem des­sas estre­las são pare­ci­das com o Sol (simi­la­res em tama­nho, tem­pe­ra­tura e lumi­no­si­dade). As opi­niões tipi­ca­mente vão de 5% a 20%.

Indo pela mais con­ser­va­dora (5%) e o número mais baixo na esti­ma­tiva total de estre­las (10^22), isso nos dá 500 quin­ti­lhões, ou 500 bilhões de bilhões de estre­las simi­la­res ao Sol.

Tam­bém há um debate sobre qual por­cen­ta­gem des­sas estre­las simi­la­res ao Sol pode­riam ser orbi­ta­das por pla­ne­tas simi­la­res à Terra (com con­di­ções pare­ci­das de tem­pe­ra­tura, que pode­riam ter água líquida e que pode­ria sus­ten­tar vida simi­lar à da Terra).

Alguns dizem que é até 50%, mas vamos ficar com os con­ser­va­do­res 22% que apa­re­ce­ram em um recente estudo no PNAS. Isso sugere que há um pla­neta simi­lar à Terra, poten­ci­al­mente habi­tá­vel, orbi­tando pelo menos 1% do total de estre­las do uni­verso: um total de 100 bilhões de bilhões de pla­ne­tas simi­la­res à Terra.

Então exis­tem 100 pla­ne­tas pare­ci­dos com a Terra para cada grão de areia do mundo. Pense nisso na pró­xima vez que for à praia.

Daqui para a frente, nós não temos outra esco­lha senão ser­mos espe­cu­la­ti­vos.

Vamos ima­gi­nar que, depois de bilhões de anos de exis­tên­cia, 1% dos pla­ne­tas pare­ci­dos com a Terra tenham desen­vol­vido vida (se isso for ver­dade, cada grão de areia repre­sen­ta­ria um pla­neta com vida). E ima­gine que em 1% des­ses pla­ne­tas avance até o nível da vida inte­li­gente, como acon­te­ceu na Terra.

Isso sig­ni­fi­ca­ria que tería­mos 10 qua­tri­lhões, ou 10 milhões de bilhões de civi­li­za­ções inte­li­gen­tes no uni­verso obser­vá­vel.

Vol­tando para a nossa galá­xia e fazendo as mes­mas con­tas usando a esti­ma­tiva mais baixa de estre­las na Via Lác­tea, esti­ma­mos que exis­tam 1 bilhão de pla­ne­tas simi­la­res à Terra, e 100 mil civi­li­za­ções inte­li­gen­tes na nossa galá­xia (a Equa­ção de Drake traz um método for­mal para esse pro­cesso limi­tado que esta­mos fazendo).

A SETI (Busca por Inte­li­gên­cia Extra­ter­res­tre, na sigla em inglês) é uma orga­ni­za­ção dedi­cada a ouvir sinais de outras vidas inte­li­gen­tes. Se nós esti­ver­mos cer­tos e hou­ver 100 mil ou mais civi­li­za­ções inte­li­gen­tes na nossa galá­xia, uma fra­ção delas esta­ria emi­tindo ondas de rádio, ou raios laser, ou qual­quer coisa para rea­li­zar con­tato.

Então os saté­li­tes da SETI deve­riam estar rece­bendo sinais de todo tipo, certo?

Mas não estão. Nunca rece­be­ram.

Cadê todo mundo?

 

Tipos de civilização

E tudo fica mais estra­nho. Nosso Sol é rela­ti­va­mente jovem em rela­ção ao uni­verso. Há estre­las muito mais velhas, com pla­ne­tas muito mais velhos e seme­lhan­tes à Terra, o que em teo­ria repre­sen­ta­ria civi­li­za­ções muito mais avan­ça­das que a nossa.

Por exem­plo, vamos com­pa­rar nossa Terra de 4,54 bilhões de anos com um hipo­té­tico pla­neta X, com seus 8 bilhões de anos.

planeta-x | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

Se o pla­neta X tiver uma his­tó­ria simi­lar à da Terra, vamos olhar para onde sua civi­li­za­ção esta­ria hoje:

tempo-de-vida | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

Hoje, o Pla­neta X esta­ria a 3,46 bilhões de anos de desen­vol­vi­mento além do nosso.

A tec­no­lo­gia e o conhe­ci­mento de uma civi­li­za­ção mil anos à nossa frente pode­ria ser tão cho­cante quanto nosso mundo seria para uma pes­soa medi­e­val. Uma civi­li­za­ção um milhão de anos à frente pode­ria ser tão incom­pre­en­sí­vel para nós quanto a cul­tura humana é para chim­pan­zés.

E o pla­neta X está a 3.4 bilhões de anos à frente de nós…

Existe algo cha­mado de Escala Kar­dashev, que nos ajuda a agru­par civi­li­za­ções inte­li­gen­tes em três gran­des cate­go­rias, de acordo com a quan­ti­dade de ener­gia que usam:

  • uma Civi­li­za­ção Tipo I tem a habi­li­dade de usar toda a ener­gia de seu pla­neta. Nós não somos exa­ta­mente uma Civi­li­za­ção Tipo I, mas esta­mos perto (Carl Sagan criou uma fór­mula para essa escala que nos coloca como uma Civi­li­za­ção Tipo 0,7);
  • uma Civi­li­za­ção Tipo II pode colher toda a ener­gia de seu sis­tema solar. Nosso débil cére­bro Tipo I mal con­se­gue ima­gi­nar como alguém faria isso, mas nós ten­ta­mos nosso melhor, ima­gi­nando coi­sas como a Esfera de Dyson.

dyson | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

  • uma Civi­li­za­ção Tipo III ultra­passa fácil as outras duas, aces­sando poder com­pa­rá­vel ao da Via Lác­tea inteira.

Se esse nível de avanço parece difí­cil de acre­di­tar, lem­bre-se do pla­neta X e de seus 3,4 bilhões de anos de desen­vol­vi­mento além do nosso (cerca de meio milhão de vezes mais do que o tempo que a raça humana existe).

Se uma civi­li­za­ção no pla­neta X for simi­lar à nossa e foi capaz de sobre­vi­ver até che­gar no Tipo III, é natu­ral pen­sar que a essa altura eles pro­va­vel­mente já domi­na­ram a via­gem inte­res­te­lar, pos­si­vel­mente até mesmo colo­ni­zando a galá­xia inteira.

Como essa colo­ni­za­ção galác­tica teria acon­te­cido?

Uma hipó­tese: cria-se um maqui­ná­rio que pode via­jar para outros pla­ne­tas, pas­sam-se uns 500 anos se auto-repli­cando usando os mate­ri­ais que encon­tra­rem no novo pla­neta, e então enviam-se duas répli­cas para faze­rem a mesma coisa.

Mesmo sem alcan­çar nada perto da velo­ci­dade da luz, esse pro­cesso colo­ni­za­ria a galá­xia inteira em 3,75 milhões de anos, rela­ti­va­mente um pis­car de olhos quando esta­mos falando de uma escala de bilhões de anos:

colonizar-galaxia | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

Nesta evo­lu­ção expo­nen­cial, a galá­xia esta­ria com­ple­ta­mente colo­ni­zada em 3,75 milhões de anos. Fonte: J. Schom­bert, U. Ore­gon

Con­ti­nu­ando a espe­cu­lar, se 1% da vida inte­li­gente sobre­vi­ver tempo sufi­ci­ente para se tor­nar uma colo­ni­za­dora de galá­xias Civi­li­za­ção Tipo III em poten­cial, nos­sos cál­cu­los acima suge­rem que have­riam mil Civi­li­za­ções Tipo III só em nossa galá­xia.

Dado o poder de tal civi­li­za­ção, sua pre­sença pro­va­vel­mente seria fácil de se notar. E, ainda assim, nós não vemos nada, não ouvi­mos nada e não fomos visi­ta­dos por nin­guém.

Então cadê todo mundo?

 

Sejam bem-vindos ao Paradoxo de Fermi.

 

Ainda não há uma res­posta para o Para­doxo de Fermi. O melhor que pode­mos fazer é con­se­guir “expli­ca­ções pos­sí­veis”. E se você per­gun­tar a dez cien­tis­tas dife­ren­tes qual o pal­pite deles sobre a expli­ca­ção cor­reta, você terá dez res­pos­tas dife­ren­tes.

Sabe quando huma­nos de anti­ga­mente dis­cu­tiam se a Terra era redonda, ou se o Sol girava em torno da Terra, ou acha­vam que os raios acon­te­ciam por causa de Zeus? Por isso, hoje eles pare­cem pri­mi­ti­vos e igno­ran­tes; no entanto, esse é mais ou menos o ponto em que esta­mos neste assunto.

Ao ana­li­sar as hipó­te­ses mais dis­cu­ti­das sobre o Para­doxo de Fermi, vamos dividi-las em duas gran­des cate­go­rias: as expli­ca­ções que supõem que não há sinal de Civi­li­za­ções Tipo II e III por­que elas não exis­tem; e as expli­ca­ções que suge­rem que elas estão lá, só que não esta­mos vendo ou ouvindo nada por outros moti­vos.

 

Grupo 1 de Explicações: não há sinais de civilizações superiores (Tipos II e III) porque elas não existem.

Aque­les que acre­di­tam em expli­ca­ções do Grupo 1 recu­sam qual­quer teo­ria do tipo “exis­tem civi­li­za­ções mai­o­res, mas nenhuma delas fez qual­quer tipo de con­tato conosco por­que todas _____”.

O pes­soal do Grupo 1 vê os núme­ros, entende que deve­ria haver milha­res (ou milhões) de civi­li­za­ções supe­ri­o­res, e intui que pelo menos uma delas deve­ria ser a exce­ção à regra. Mesmo se uma teo­ria abar­casse 99,99% das civi­li­za­ções supe­ri­o­res, o 0,001% res­tante se com­por­ta­ria de alguma outra forma e nós per­ce­be­ría­mos sua exis­tên­cia.

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Por isso, dizem as expli­ca­ções do Grupo 1, não entra­mos em con­tato com civi­li­za­ções supe­ra­van­ça­das por­que não exis­tem. Como a mate­má­tica sugere que exis­tem milha­res delas só na nossa galá­xia, alguma outra coisa deve estar acon­te­cendo.

Essa “outra coisa” é o Grande Fil­tro.

A teo­ria do Grande Fil­tro diz que, em algum ponto entre o iní­cio da vida e a inte­li­gên­cia Tipo III, há uma bar­reira. Há algum está­gio naquele longo pro­cesso evo­lu­ci­o­ná­rio que é impro­vá­vel ou impos­sí­vel de ser atra­ves­sado pela vida. Esse está­gio é cha­mado de O Grande Fil­tro.

grande-filtro-pre | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

As linhas ama­re­las mos­tram sal­tos evo­lu­ci­o­ná­rios comuns de serem alcan­ça­dos. A linha ver­me­lha é o Grande Fil­tro. A linha verde repre­senta uma espé­cie que, pas­sando por even­tos extra­or­di­ná­rios, con­se­gue ultra­pas­sar o Grande Fil­tro.

Se essa teo­ria for real, a grande ques­tão é: quando acon­tece o Grande Fil­tro na linha do tempo?

Acon­tece que, quando o assunto é o des­tino da huma­ni­dade, essa ques­tão é muito impor­tante. Depen­dendo de quando O Grande Fil­tro ocorre, sobram para nós três pos­sí­veis rea­li­da­des: nós somos raros; nós somos os pri­mei­ros; ou nós esta­mos fer­ra­dos.

 

1. Nós somos raros (já passamos do Grande Filtro)

Uma espe­rança é que já tenha­mos pas­sado do Grande Fil­tro. Nós con­se­gui­mos atra­vessá-lo, por­tanto é extre­ma­mente raro que a vida alcance nosso nível de inte­li­gên­cia. O dia­grama abaixo mos­tra ape­nas duas espé­cies pas­sando por ele; nós somos uma delas.

grande-filtro | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

Esse cená­rio expli­ca­ria por que não exis­tem Civi­li­za­ções Tipo III… mas isso tam­bém pode­ria sig­ni­fi­car que nós pode­mos ser uma das exce­ções, já que che­ga­mos até aqui. Isso sig­ni­fi­ca­ria que há espe­rança para nós.

Super­fi­ci­al­mente, isso parece com as pes­soas de meio século atrás, suge­rindo que a Terra é o cen­tro do uni­verso. Sugere que nós somos espe­ci­ais.

Mas se nós somos espe­ci­ais, quando exa­ta­mente nos tor­na­mos espe­ci­ais? Isto é, qual passo nós supe­ra­mos, ape­sar de quase todo mundo ficar preso nele?

Uma pos­si­bi­li­dade: o Grande Fil­tro pode estar no come­ci­nho de tudo; pode ser incri­vel­mente raro que a vida comece.

Esse é um can­di­dato por­que demo­rou um bilhão de anos para a vida na Terra final­mente acon­te­cer, e por­que nós ten­ta­mos exaus­ti­va­mente repli­car esse evento em labo­ra­tó­rios e jamais con­se­gui­mos.

Se este é mesmo o Grande Fil­tro, isso sig­ni­fi­ca­ria que não deve exis­tir vida inte­li­gente lá fora – pode sim­ples­mente não haver vida.

Outra pos­si­bi­li­dade: o Grande Fil­tro pode ser o salto de célu­las pro­ca­ri­on­tes sim­ples para célu­las euca­ri­on­tes com­ple­xas.

Após o sur­gi­mento das pro­ca­ri­on­tes, elas per­ma­ne­ce­ram dessa forma por quase dois milhões de anos antes de darem o salto evo­lu­ci­o­ná­rio para se tor­na­rem com­ple­xas e ganha­rem um núcleo.

Se esse é o Grande Fil­tro, isso sig­ni­fi­ca­ria que o uni­verso está repleto de célu­las pro­ca­ri­on­tes sim­ples e quase nada além disso.

Há outras pos­si­bi­li­da­des. Alguns acham até que nosso salto evo­lu­ci­o­ná­rio mais recente, alcan­çando nossa inte­li­gên­cia atual, é um can­di­dato a Grande Fil­tro. Ainda que o salto de vida semi-inte­li­gente (chim­pan­zés) até a vida inte­li­gente (huma­nos) a prin­cí­pio não pareça um passo mira­cu­loso, Ste­ven Pin­ker rejeita a ideia de que a “esca­lada ascen­dente” da evo­lu­ção seja ine­vi­tá­vel:

Uma vez que a evo­lu­ção ape­nas acon­tece, sem ter um obje­tivo, ela usa a adap­ta­ção mais útil para um certo nicho eco­ló­gico. O fato que, na Terra, até hoje isso levou a inte­li­gên­cia tec­no­ló­gica ape­nas uma vez, pode suge­rir que essa con­sequên­cia da sele­ção natu­ral é rara e, con­se­quen­te­mente, não é um desen­vol­vi­mento infa­lí­vel da evo­lu­ção de uma árvore da vida.

A mai­o­ria dos sal­tos não se qua­li­fica como can­di­da­tos a Grande Fil­tro. Qual­quer Grande Fil­tro pos­sí­vel deve ser algo que só acon­tece uma vez em um bilhão, onde uma ou mais ano­ma­lias devem ocor­rer para pro­por­ci­o­nar uma enorme exce­ção.

Por esse motivo, algo como pular de uma vida uni­ce­lu­lar para uma mul­ti­ce­lu­lar está fora de ques­tão como fil­tro, por­que isso acon­te­ceu pelo menos 46 vezes em inci­den­tes iso­la­dos, só no nosso pla­neta.

Pela mesma razão, se nós encon­trar­mos uma célula euca­ri­onte fos­si­li­zada em Marte, ela iria tirar o salto “de-célula-sim­ples-para-com­plexa” da lista de pos­sí­veis Gran­des Fil­tros (assim como qual­quer outra coisa que esteja antes desse ponto na cadeia evo­lu­ci­o­ná­ria).

Se isso acon­te­ceu tanto na Terra quanto em Marte, cla­ra­mente não é uma ano­ma­lia.

Se nós for­mos mesmo raros, isso pode ser por causa de um aci­dente bio­ló­gico, mas isso tam­bém pode ser atri­buído ao que se chama de Hipó­tese da Terra Rara.

Ela sugere que, ainda que exis­tam mui­tos pla­ne­tas simi­la­res à Terra, as con­di­ções par­ti­cu­la­res do nosso pla­neta o tor­nam tão con­ve­ni­ente à vida — sejam as rela­ci­o­na­das a seu sis­tema solar, seu rela­ci­o­na­mento com a Lua (uma lua tão grande é inco­mum para um pla­neta tão pequeno, con­tri­buindo para as con­di­ções pecu­li­a­res de nosso clima e nosso oce­ano), ou algo sobre o pla­neta em si.

 

2. Nós somos os primeiros

nos | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

Para pen­sa­do­res do Grupo 1, se já não tiver­mos pas­sado pelo Grande Fil­tro, nossa única espe­rança é que, do Big Bang até hoje, as con­di­ções no uni­verso estão alcan­çando um nível que per­mita o desen­vol­vi­mento de vida inte­li­gente.

Nesse caso, nós pode­mos estar a cami­nho da super inte­li­gên­cia, mas isso ainda não acon­te­ceu. Por acaso, nós esta­ría­mos na hora certa para nos tor­nar­mos uma das pri­mei­ras civi­li­za­ções super inte­li­gen­tes.

Um exem­plo de um fenô­meno que pode­ria tor­nar isso rea­lís­tico é o pre­do­mí­nio de explo­sões de raios gama, deto­na­ções absur­da­mente imen­sas que obser­va­mos em galá­xias dis­tan­tes. Levou algu­mas cen­te­nas de milhões de anos para que os aste­roi­des e vul­cões se acal­mas­sem e a vida se tor­nasse pos­sí­vel.

Da mesma forma, pode ser que o começo das exis­tên­cias no uni­verso esteja cheio de even­tos cata­clís­mi­cos, como explo­sões de raios gama que inci­ne­ra­riam tudo à sua volta de tem­pos em tem­pos, evi­tando que qual­quer vida se desen­volva a par­tir de um certo está­gio.

Tal­vez este­ja­mos agora no meio de uma fase de tran­si­ção astro­bi­o­ló­gica, e essa seja a pri­meira vez que qual­quer vida tenha sido capaz de se desen­vol­ver inin­ter­rup­ta­mente por tanto tempo.

 

3. Nós estamos ferrados (o Grande Filtro está chegando)

problems | paradoxo de fermi - por Tim Urban, do site Wait But Why

Se nós não somos nem raros nem pio­nei­ros, os pen­sa­do­res do Grupo 1 con­cluem que O Grande Fil­tro deve estar no nosso futuro.

Isso impli­ca­ria que a vida fre­quen­te­mente evo­lui até onde esta­mos, mas alguma coisa impede, em quase todos os casos, que a vida vá muito adi­ante e alcance a inte­li­gên­cia avan­çada — e difi­cil­mente nós sere­mos uma exce­ção.

Um pos­sí­vel Grande Fil­tro seria algum evento cata­clís­mico que ocorra regu­lar­mente, como as já men­ci­o­na­das explo­sões de raio gama. Só que ela ainda não teria ocor­rido e, infe­liz­mente, é uma ques­tão de tempo até que ela acabe com toda a vida na Terra.

Outra can­di­data é a des­trui­ção pos­si­vel­mente ine­vi­tá­vel que quase todas as civi­li­za­ções inte­li­gen­tes aca­ba­riam tra­zendo para si mes­mas, uma vez atin­gido certo nível de tec­no­lo­gia.

É por isso que o filó­sofo Nock Bos­trom, da Uni­ver­si­dade de Oxford, diz que “boa novi­dade é não haver novi­dade“. Se des­co­bri­rem vida em Marte, mesmo que sim­ples, isso seria devas­ta­dor, por­que eli­mi­na­ria diver­sos poten­ci­ais Gran­des Fil­tros no pas­sado.

E se encon­trar­mos fós­seis de vida com­plexa em Marte, Bos­trom diz que “seria a pior notí­cia já impressa em uma pri­meira página de jor­nal”, por­que sig­ni­fi­ca­ria que o Grande Fil­tro está quase que defi­ni­ti­va­mente à nossa frente, con­de­nando toda nossa espé­cie de uma vez.

Bos­trom acre­dita que, quando se trata do Para­doxo de Fermi, “o silên­cio do céu noturno é ouro”.

 

Grupo 2 de Explicações: civilizações inteligentes dos Tipos I e II existem, mas há razões lógicas para que não tenhamos ouvido falar delas.

As expli­ca­ções do Grupo 2 aban­do­nam qual­quer ideia de que nós somos raros, espe­ci­ais ou qual­quer coisa pare­cida.

Pelo con­trá­rio, elas acre­di­tam no Prin­cí­pio da Medi­o­cri­dade: ou seja, até que se prove o con­trá­rio, não há nada de espe­cial ou inco­mum em nossa galá­xia, sis­tema solar, pla­neta ou nível de inte­li­gên­cia.

Além disso, elas são mais cau­te­lo­sas antes de assu­mir que, se não há evi­dên­cias de uma inte­li­gên­cia supe­rior, ela não existe. Elas enfa­ti­zam o fato de nos­sas bus­cas por sinais só alcan­ça­rem mais ou menos até 100 anos-luz de nós (0,1% da galá­xia) e só terem ocor­rido há menos de uma década, o que é pouquís­simo tempo.

Pen­sa­do­res do Grupo 2 têm uma ampla gama de pos­sí­veis expli­ca­ções para o Para­doxo de Fermi. A seguir, eis as nove mais dis­cu­ti­das:

Possibilidade 1: a vida superinteligente pode ter visitado a Terra antes de estarmos aqui.

Huma­nos sen­ci­en­tes só estão por aí há uns 50 mil anos, um pis­car de olhos se com­pa­rado à exis­tên­cia do uni­verso. Se o con­tato ocor­reu antes disso, deve ter assus­tado alguns patos e só.

Além disso, nossa his­tó­ria docu­men­tada só vai até uns 5.500 anos atrás. Por isso, tal­vez tri­bos huma­nas de caça­do­res-cole­to­res tenham pas­sado por algu­mas expe­ri­ên­cias lou­cas com ali­ens, mas não tinham como contá-las para as pes­soas do futuro.

Possibilidade 2: a galáxia foi colonizada, mas nós moramos em uma área despovoada.

As Amé­ri­cas podem ter sido colo­ni­za­das pelos euro­peus muito antes de qual­quer um daquela pequena tribo Inuit ao norte do Canadá ter per­ce­bido o ocor­rido.

Pode haver um ele­mento de urba­ni­za­ção nas mora­dias este­la­res das espé­cies mais avan­ça­das: todos os sis­te­mas sola­res de uma certa área são colo­ni­za­dos e estão em comu­ni­ca­ção, mas seria pouco prá­tico e inú­til pra qual­quer um deles vir até o canto dis­tante e ale­a­tó­rio em que vive­mos.

Possibilidade 3: todo o conceito de colonização física é comicamente atrasado para uma espécie mais avançada.

Uma Civi­li­za­ção Tipo II con­se­gue usar toda a ener­gia de sua estrela. Com toda essa ener­gia, eles podem ter cri­ado um ambi­ente per­feito para eles, satis­fa­zendo todas as suas neces­si­da­des.

Eles podem ter meios hipe­ra­van­ça­dos de redu­zir a neces­si­dade de recur­sos, e inte­resse zero em dei­xar sua uto­pia feliz para explo­rar um uni­verso frio, vazio e pouco desen­vol­vido.

Uma civi­li­za­ção ainda mais avan­çada pode­ria ver todo o mundo físico como um lugar hor­ri­vel­mente pri­mi­tivo, tendo há muito domi­nado sua pró­pria bio­lo­gia e feito upload de seus cére­bros para uma rea­li­dade vir­tual, um paraíso da vida eterna.

Viver em um mundo físico de bio­lo­gia, morte, dese­jos e neces­si­da­des pode soar para eles da mesma forma como nos soam as espé­cies pri­mi­ti­vas vivendo no oce­ano escuro e gelado.

Possibilidade 4: há civilizações predatórias e assustadoras lá fora, e as formas de vida mais inteligentes sabem que não devem transmitir sinais e divulgar sua localização.

Essa é uma ideia desa­gra­dá­vel, mas que aju­da­ria expli­car a falta de sinais rece­bi­dos pelos saté­li­tes SETI. Ela tam­bém sig­ni­fi­ca­ria que, ao trans­mi­tir nos­sos sinais lá pra fora, esta­mos sendo nova­tos ino­cen­tes e des­cui­da­dos.

Há um debate envol­vendo METI (Men­sa­gem às Inte­li­gên­cias Extra­ter­res­tes na sigla em inglês; o inverso de SETI, que só escuta). Basi­ca­mente, deve­ría­mos mesmo enviar men­sa­gens para o uni­verso? A mai­o­ria das pes­soas diz que não.

Stephen Haw­king adverte: “se ali­ens nos visi­ta­rem, o resul­tado pode ser pare­cido com a che­gada de Colombo nas Amé­ri­cas, que não ter­mi­nou bem para os nati­vos”.

Mesmo Carl Sagan, que geral­mente acre­dita que qual­quer civi­li­za­ção avan­çada o bas­tante para via­gens inte­res­te­la­res seria altruísta, não hos­til, diz que a prá­tica de METI é “pro­fun­da­mente impru­dente e ima­tura“, e reco­men­dou que

as cri­an­ças mais novas de um cosmo estra­nho e incerto deve­riam ouvir em silên­cio por um longo tempo, apren­dendo paci­en­te­mente e tomando notas sobre o uni­verso, antes de gri­tar para uma selva des­co­nhe­cida que não con­se­gui­mos com­pre­en­der”. Assus­ta­dor.

Possibilidade 5: existe apenas uma única inteligência superior, uma civilização “superpredadora” (mais ou menos como os humanos aqui na Terra) que é muito mais avançada que todas as outras e mantém as coisas assim, exterminando qualquer civilização que ultrapasse um certo nível de inteligência.

Isso seria um saco. Pode­ria fun­ci­o­nar se o exter­mí­nio de todas as inte­li­gên­cias emer­gen­tes fosse um des­per­dí­cio de recur­sos, já que a mai­o­ria se mata sozi­nha. Mas, ultra­pas­sado um certo ponto, esses super seres agi­riam por­que, para eles, uma espé­cie inte­li­gente emer­gente se tor­na­ria um vírus, con­forme come­çasse a cres­cer e se expan­dir.

Essa teo­ria sugere que a vitó­ria é de quem foi o pri­meiro a alcan­çar a inte­li­gên­cia supe­rior. Nin­guém mais tem chance. Isso expli­ca­ria a falta de ati­vi­dade lá fora, por­que o número de civi­li­za­ções supe­rin­te­li­gen­tes seria 1.

Possibilidade 6: há muito barulho e atividade lá fora, mas nossas tecnologias são muito primitivas e nós estamos procurando pelas coisas erradas.

É como entrar em um pré­dio de escri­tó­rios, ligar um wal­kie-tal­kie (que nin­guém mais usa) e, ao não ouvir nada, con­cluir que o pré­dio está vazio.

Ou tal­vez, como apon­tou Carl Sagan, pode ser que nos­sas men­tes tra­ba­lhem expo­nen­ci­al­mente mais rápido ou mais len­ta­mente do que a de qual­quer outra forma de vida lá fora.

Ou seja, eles levam 12 anos pra dizer “oi” e, quando nós ouvi­mos essa comu­ni­ca­ção, isso parece ape­nas ruído.

Possibilidade 7: civilizações mais avançadas sabem sobre nós e estão nos observando, mas se ocultam de nós (a “Hipótese do Zoológico”).

Até onde sabe­mos, civi­li­za­ções super inte­li­gen­tes exis­tem em uma galá­xia con­tro­lada rigi­da­mente, e nossa Terra é tra­tada como parte de um safári amplo e pro­te­gido, e pla­ne­tas como o nosso estão sob uma estrita regra de “olhe, mas não toque”.

Nós não esta­mos cien­tes deles por­que, se uma espé­cie muito mais inte­li­gente qui­sesse nos obser­var, ela sabe­ria como fazer isso sem nos dei­xar saber.

Tal­vez haja uma regra simi­lar à “Pri­meira Dire­triz” de Jor­nada nas Estre­las, que proíbe seres super inte­li­gen­tes de faze­rem qual­quer con­tato aberto com espé­cies infe­ri­o­res como a nossa, ou de se reve­la­rem de qual­quer forma, até que a espé­cie infe­rior alcance um certo nível de inte­li­gên­cia.

Possibilidade 8: civilizações superiores existem à nossa volta, mas somos primitivos demais para percebê-las.

Michio Kaku resu­miu isso assim:

Diga­mos que há um for­mi­gueiro no meio da flo­resta. Ao lado do for­mi­gueiro, estão cons­truindo uma super auto­es­trada de dez fai­xas. E a ques­tão é, “as for­mi­gas seriam capa­zes de enten­der o que é uma super auto­es­trada de dez fai­xas? Elas seriam capa­zes de enten­der a tec­no­lo­gia e as inten­ções dos seres cons­truindo a auto­es­trada a seu lado?”

Então não é que, usando nossa tec­no­lo­gia, não seja­mos capa­zes de rece­ber os sinais do pla­neta X. É que nós não con­se­gui­mos sequer enten­der o que são os seres do pla­neta X, ou o que eles estão ten­tando fazer.

É tão além de nós que mesmo se eles qui­ses­sem nos escla­re­cer, seria como ten­tar ensi­nar às for­mi­gas sobre a inter­net.

Seguindo essa linha, essa pode ser uma res­posta para “se exis­tem tan­tas exu­be­ran­tes Civi­li­za­ções Tipo III, por que ainda não entra­ram em con­tato conosco?”.

Para res­pon­der isso, vamos nos per­gun­tar: quando Pizarro che­gou ao Peru, ele parou um tempo em um for­mi­gueiro e ten­tou se comu­ni­car com ele? Ele foi mag­nâ­nimo, ten­tando aju­dar as for­mi­gas? Ele foi hos­til e atra­sou sua mis­são ori­gi­nal só para esma­gar e des­truir o for­mi­gueiro? Ou, para Pizarro, o for­mi­gueiro era com­pleta e abso­luta e eter­na­mente irre­le­vante? Essa pode ser a nossa situ­a­ção nesse caso.

Possibilidade 9: nós estamos completamente enganados sobre nossa realidade.

Há mui­tas manei­ras pelas quais nós pode­mos estar total­mente ilu­di­dos em tudo que pen­sa­mos.

O uni­verso pode pare­cer ser de um jeito e ser de outro com­ple­ta­mente dife­rente, como um holo­grama. Ou tal­vez nós seja­mos os ali­e­ní­ge­nas e fomos plan­ta­dos aqui como um expe­ri­mento.

Há até mesmo a chance de que seja­mos parte de uma simu­la­ção de com­pu­ta­dor de algum pes­qui­sa­dor de outro mundo, e outras for­mas de vida sim­ples­mente não foram pro­gra­ma­das na simu­la­ção.

 

Conclusão

Con­forme con­ti­nu­a­mos em nossa pos­si­vel­mente inú­til busca por inte­li­gên­cia extra­ter­res­tre, eu não tenho cer­teza o que que­re­mos encon­trar.

Fran­ca­mente, tanto faz saber se esta­mos ofi­ci­al­mente sozi­nhos no uni­verso ou se esta­mos ofi­ci­al­mente na com­pa­nhia de outros, ambas são opções assus­ta­do­ras.

É um tema recor­rente em todos os enre­dos sur­re­ais acima: qual­quer que seja a ver­dade, ela é de enlou­que­cer.

Além de seu cho­cante ingre­di­ente de fic­ção cien­tí­fica, o Para­doxo de Fermi tam­bém me deixa pro­fun­da­mente humilde. Não só lem­bra que sou micros­có­pico e minha exis­tên­cia dura uns três segun­dos, algo que me vem à cabeça sem­pre que penso sobre o uni­verso.

O Para­doxo de Fermi traz à tona uma humil­dade mais mor­daz, mais pes­soal, do tipo que só acon­tece depois de pas­sar horas de pes­quisa ouvindo os mais reno­ma­dos cien­tis­tas de nossa espé­cie apre­sen­tando as teo­rias mais insa­nas, mudando de ideia e con­tra­di­zendo uns aos outros fre­ne­ti­ca­mente.

Ele nos faz lem­brar que as futu­ras gera­ções olha­rão para nós da mesma forma que nós olha­mos para os anti­gos, que tinham cer­teza que as estre­las esta­vam sob o domo do céu; no futuro, lem­bra­rão de nós dizendo “uau, eles não tinham ideia nenhuma do que estava acon­te­cendo”.

E ainda temos mais outro golpe à auto­es­tima com todo esse assunto de Civi­li­za­ções Tipos II e III. Aqui na Terra, nós somos os reis de nosso pequeno cas­telo, coman­dando os rumos do pla­neta mais do que qual­quer outra espé­cie.

Nessa bolha, sem com­pe­ti­ção e sem nin­guém para nos jul­gar, é raro que seja­mos con­fron­ta­dos com a ideia de ser­mos uma espé­cie infe­rior a qual­quer outra. Mas não somos nem uma Civi­li­za­ção Tipo I!

Dito isso, toda essa dis­cus­são é mara­vi­lhosa para mim. Sim, tenho minha pers­pec­tiva de que a huma­ni­dade é uma órfã soli­tá­ria em uma pequena rocha no meio de um uni­verso soli­tá­rio. Mas as hipó­te­ses apon­tam que pro­va­vel­mente não somos tão esper­tos como pen­sa­mos.

Além disso, muito do que temos cer­teza pode estar errado. Tudo isso me deixa espe­ran­çoso em conhe­cer e des­co­brir mais, nem que seja um pou­qui­nho, por­que exis­tem muito mais coi­sas do que nós temos cons­ci­ên­cia.


Este artigo foi repu­bli­cado com per­mis­são do site WaitButWhy.com. Siga-os no Face­book e no Twit­ter, e assine a news­let­ter para rece­ber os posts sema­nais às ter­ças-fei­ras.


Tra­du­ção do texto: Giz­modo Bra­sil
Tra­du­ção das ima­gens: Rodrigo Zot­tis | Revi­são: Alys­son Augusto


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Tim Urban
Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.

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