Para quem ainda não sabe, o lateral brasileiro Daniel Alves foi um dos responsáveis pela virada do Barcelona sobre o Villareal no jogo desse domingo pelo campeonato espanhol. Mas seu protagonismo foi além dos limites da disputa. Diante das provocações racistas da torcida adversária, que o chamava de macaco, Daniel Alves catou uma banana jogada em campo, descascou-a e comeu-a.

Na segunda, Neymar lançou uma campanha na internet, com direito a hashtag e apoio de celebridades e pseudocelebridades, todas posando para fotos e comendo banana, acompanhadas de exortações contra o racismo e da frase “SOMOS TODOS MACACOS”.

É o que basta para o pessoal do Ano Zero reunir-se e, em um novo Papo de Bar, trocar ideias sobre um fato que, apesar de aparentemente banal, diz respeito a vários temas: a duvidosa eficácia de aceitarmos um estereótipo como forma de combater o preconceito, a adesão simplória e somente “para mostrar nas redes sociais” de parte da população e, até mesmo, incursões sobre a antiga celeuma entre evolucionistas e criacionistas.

Então puxe uma cadeira, sente-se e chame o garçom!

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victorlisboa Victor Lisboa – Uma primeira questão é a validade ou não de assumir um estereótipo como estratégia de combate: apropriar-se de um elemento de preconceito como forma de combatê-lo é realmente eficaz? Até que ponto, nesse caso, é válido assumir-se como “macaco”? Como Carolina Costa, amiga da nossa colega Cecília Olliveira, disse:

“Não nos enganemos, a vida sob o racismo tem muito de engolir. Todo dia é um desaforo que a gente engole, sem contar todo o resto que a gente passa e finge que num vê, pra tornar a vida suportável. Sem contar o que a gente num vê, sem contar o que a gente só supõe, sem contar o estrago diário no nosso amor próprio. Tem gente que cresce no processo, tem quem se reinvente, mas tem quem se magoe, se ressinta, se odeie. Além de saber que ele é absolutamente lindo, eu sei pouco do Daniel Alves. Tenho certeza de que ele é protagonista da própria luta, mas acho que a apropriação que estão fazendo da tal banana engolida é mais um capítulo do nosso negacionismo.

Eu amo banana e acho macacos muito fofinhos. Mas não vou ficar negando a minha humanidade nessa de somos todos macacos não. Sinto muito, eu sou gente. Sou demasiado humana. É como me perguntou a Jacque Torres ontem: “ele vai comer banana em todo jogo?”. Porque, né, não nos enganemos, as bananas continuarão sendo jogadas. São os racistas que vão nos alimentar agora?”

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vitorcei Vitor Sei – Comer a banana jogada pela torcida racista foi uma reação irônica. Uma ironia que ridiculariza e denuncia o racismo. A ironia pode ser vista como manifestação da capacidade do jogador de tomar a si mesmo como objeto de reflexão e, com isso, transcender a partida de futebol, colocando em xeque o problema social do preconceito. Parabéns para o Daniel Alves. E o Neymar é um oportunista. Segundo os sites Carta Capital e Meio e Mensagem a hashtag #SOMOSTODOSMACACOS foi criada por uma agência de publicidade.

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victorlisboa Victor Lisboa – De qualquer forma, seria legítimo que o cidadão comum, de pele negra ou parda, fizesse o mesmo e assumisse um estereótipo, o de “macaco que come banana”, com toda a conotação negativa que essa palavra carrega quando utilizada por um racista? Dito de outro modo, é muito fácil para uma celebridade ou para as pessoas de pele clara participarem dessa campanha, já que não sabem o quanto é doído ouvir por toda a vida essa palavra, “macaco”, com a conotação pesada que ela carrega.

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gabrieldivan Gabriel Divan – Sem falar que estou louco para ver qual será a evasiva de parte da torcida do meu time, que julga que chamar os adversários de ‘macacos’, apenas no seu exclusivíssimo caso, “não tem a ver” com racismo…

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victorlisboa  Victor Lisboa – Ah boa! Para quem não é do Rio Grande Sul, vou explicar: aqui, alguns gremistas (não todos, mas uma parte considerável) começaram há alguns anos a chamar os torcedores do Internacional de “macacos”. A razão histórica é que o Grêmio originalmente apenas contratava jogadores de pele branca, enquanto o Internacional admitia jogadores afrodescendentes. Disso veio o apelido pejorativo “macacada”, com que alguns gremistas se referem aos torcedores adversários. A solução dos dirigentes do Internacional foi fazer como o Daniel Alves: assumiram com orgulho a expressão e adotaram o macaco como mascote do time. Mas ainda assim até hoje há muitos gremistas que continuam a chamar os jogadores e a torcida do Internacional de “macacos” ou “macacada”, com evidente conotação racista. Embora isso não me incomode nem um pouco (sou torcedor do Internacional), é uma lástima que a prática continue, e ela incomoda na verdade os torcedores do Grêmio que não são racistas, pois acabam sendo associados com esse tipo de gente preconceituosa.

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vitorcei Vitor Cei – Merece menção a reflexão do meu ex-aluno e colega de profissão El-Buainin Vieira Machado Nunes:

“É impressionante a omissão dos artistas, jogadores e demais famosos do Brasil. Qualquer coisa que eles façam ou digam – principalmente os jogadores – toma repercussão nacional, às vezes mundial, mas já reparou que só repercutem bobagem ou temas generalizados?

Já pensou se um desses fizesse algo para além de falar “eu sou a favor da educação” (nem isso dizem)? Já imaginou se o Neymar fosse pessoalmente a uma escola de verdade e denunciasse o abandono do ambiente escolar e dos profissionais da educação? E se o Ronaldo visitasse um hospital e visse a condição de trabalho da equipe médica ou a espera infindável dos pacientes na fila? Quem sabe Luciano Huck e Faustão mostrando os desmandos que as famílias agrícolas sofrem das grandes empresas exploradoras do solo brasileiro?

Daniel Alves comeu uma banana em desaforo ao que lhe fizeram em campo. Só os ingênuos acham que ele tenha comido aquela fruta impulsionado por uma forte consciência política de luta contra o racismo. Ele pode até se aproveitar disso e, é claro, a publicidade “cair matando”, mas foi um gesto decorrente do que aconteceu a ele, não uma preocupação com o que ocorre no cotidiano de todos que sofrem racismo.”

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gabrieldivan  Gabriel Divan – Se o papo é de bar, é como se eu estivesse aberto o “fêyssi” no meu celular e mostrado para vocês as ideias e a postagem de uma senhorita chamada Kátia Custódio, na qual ela resmunga o seguinte:

“Na moral, tô ficando de saco cheio de hashtag e campanha de facebook. Somos todos macacos, mas pra que cotas né, se cada um se esforçar consegue atingir seus objetivos. Ninguém merece ser estuprada, mas a Marcha das Vadias é coisa de mulher que deveria arrumar uma pia de louça pra lavar ao invés de ficar mostrando os peitos. Justiça para as crianças Bernardo, Isabela Nardoni e Joaquim, mas vamos reduzir a maioridade penal e/ou quem bate também está educando. Cuidemos dos nossos idosos, desde que eles não queiram fazer as atividades deles no horário de pico dos ônibus. Todos contra a homofobia, mas a família (tradicional) deve ser preservada, pq se separar pra viver com outra pessoa é modinha”. Concordei, uma vez que engajamentos genéricos em campanhas que são mote para Luciano Huck e seu bom-mocismo IRRITANTE e mau caráter vender camisetas e para celebridades pagarem de quem “anda de ônibus” não me serve.”

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victorlisboa Victor Lisboa – Sensacional a ironia da Kátia, tocando o dedo na ferida dos que aderem a campanhas divulgadas por celebridades globais desde que o hashtag deixe suas convicções reaças intocadas.

 

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vitorcei Vitor Cei – Tem evangélicos na minha timeline falando bobagem sobre Darwin e dizendo #NãoSouMacaco. Agora o Papo de Bar muda de fisionomia.

 

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victorlisboa Victor Lisboa – Sério Vitor? Hilário, veja como de repente a discussão pública assume toda uma outra conotação e foco!

 

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davidborges David G. Borgees – Eles são parentes do tijolo e da costela, com uma parcela de culpa da cobra falante.

 

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ceciliaolliveira

 

 Cecília Olilveira – [compartilhou uma imagem:]

 

neymarmacaco

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douglasdonin Douglas Donin – Eu já fui em um evento sobre laicidade do Estado onde foram alguns líderes religiosos “dar sua contribuição”. Levei um deles para almoçar, depois, e conversamos um pouco, como quem não quer nada. Eu pude então ouvir de uma fonte primária o que se passa na cabeça de um deles.

É espantosa a ignorância deles sobre a teoria da evolução. Eles não têm a mínima ideia de que a coisa se desenrola ao longo de bilhões de anos, que as modificações surgem entre as gerações (acham que o mesmo indivíduo “mudaria” durante a vida), não entendem o mecanismo básico da seleção natural, nada. Na cabeça deles, é uma coisa meio mágica mesmo. Não é à toa que negam: eu também negaria, se fosse eles, aquela coisa que eles imaginam que é a evolução.

Por outro lado, conheço alunos do ensino médio que “aceitam” a evolução, mas também desconhecem o mecanismo básico. Eles também escolheram “uma mágica” ao invés de outra, talvez, porque a professora disse que esta é a certa.

É um problema educacional grave. No final, resta a muita gente escolher entre uma ou outra mágica. Os fundamentos mais básicos da teoria são desconhecidos por muita gente.

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davidborges David G. Borges – Escrevi um capítulo de livro a respeito, meu texto começa na página 45. A biblioteca da Universidade Federal do Espirito Santo botou o livro todo como domínio público. Resumidamente, eu afirmo que o problema do criacionismo não é mero fundamentalismo, mas ignorância científica e filosófica, e parte da culpa é dos professores. Interessante que no mesmo livro há um quebra-pau acadêmico entre dois professores: o Mauricio Abdalla (UFES, filosofia) e o Albert Ditchfield (UFES, C. Bio). O Abdalla defende que o modelo darwinista de evolução está errado (mas ele NÃO É criacionista, apenas afirma que o modelo baseado em competição é incorreto), enquanto o Albert defende a visão tradicional.

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vitorcei Vitor Cei – Charles Darwin, autor do polêmico livro “A Origem das Espécies”, até onde eu saiba nunca escreveu que ‪#‎SomosTodosMacacos‬ ou que o homem é descendente do macaco. A teoria de Darwin é que todos os primatas (macacos e seres humanos) têm um ancestral comum. Com a evolução, os humanos e macacos chegaram aos seus estágios atuais. A teoria de Darwin – goste ou não goste, concorde ou não concorde – não é hipótese ou achismo, mas comprovada por fatos e evidências.

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davidborges David G. Borges – Olha, o termo “primata” compreende macacos de pequeno porte, de grande porte (como os africanos – e nós somos macacos africanos) e lêmures. Então, a rigor, todo macaco é um primata mas nem todo primata é um macaco. E sim, somos macacos. Macacos antropóides. “Apes”, se preferirem. E na verdade é bem fácil: se o bicho é um mamífero com dois braços, duas pernas, mãos com 5 dedos que se fecham para dentro (normalmente um deles é o polegar), vive em bandos, tem comportamento social complexo, cuida dos filhotes por um tempo após nascerem, é onívoro, tem os olhos na frente do crânio, possui unhas e tem uma enorme tendência a usar ferramentas… Bem, é um primata. E essa de “ah, mas não somos macacos porque somos especiais” é puro antropocentrismo. Não tem nada que a gente faça que seja qualitativamente diferente do que nossos primos mais próximos fazem. Só quantitativamente diferente.

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victorlisboa Victor Lisboa – Também concordo que não há absolutamente nada que autorize um estatuto de superioridade do animal humano em relação aos animais não-humanos, David (na verdade, penso às vezes se não é o contrário…).

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vitorceiVitor Cei – A palavra Primata designa a “ordem de mamíferos que compreende o homem, os macacos, os lêmures e formas relacionadas”. E macaco é a “designação comum aos primatas, com exceção do homem e dos prossímios”. Logo, o homem não é um macaco, mas pertence à mesma ordem dos macacos. É bom deixar isso claro porque muita gente diz besteira sobre a teoria da evolução achando que o homem evoluiu dos macacos atuais. Josmael Corso, estou enganado?

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davidborges David G. Borges – Cei, nós somos macacos. Grandes e metidos a sábios, mas somos. Dizer que a ordem primatas engloba macacos, humanos e lêmures (como se fôssemos diferentes dos demais macacos, uma “categoria especial”), é puro antropocentrismo. Como diz o título de um livro aí, somos “apenas mais uma espécie única”. Como todas as demais.

 

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josmaelcorsoJosmael Corso – Bem, já que foi citado sobre o que Darwin havia dito em ‘sermos macacos’. Na obra ‘Origem das espécies – 1859’ ele não chega a descrever sobre o assunto.
Numa carta de Wallace (1857), ou seja antes da publicação do livro, pergunta se ele iria aprofundar a origem do homem no seu livro. Darwin respondeu “Acho que eu devo evitar o assunto tão cercado de preconceitos, embora eu admita plenamente que é o maior e mais interessante problema para o naturalista”. Na sua obra ‘A descendência do homem – 1871’ ele aborda a similaridade entre o homem e os primatas. Frequentemente usa a palavra ‘monkey’ mas no sentido de ‘primata’.
Quando especificamente se refere a ‘macacos’ ele ordena pela classificação de Thomas Huxley (‘Darwin’s bulldog, assim ficou popularmente conhecido, defensor do trabalho de Darwin). Que classificava, naquela época, os primatas em três subordens: Anthropidae, apenas o homem; Simiadae, incluindo macacos de todos os tipos; Lemuridae, com os lêmures.
Acrescento ainda que esta correta a lembrança do Vitor Ceii em dizer que o homem pertence à mesma ordem dos macacos, de certo modo não o é um. Assim como esta correto o fechamento do David G. Borges “todo macaco é um primata, mas nem todo primata é um macaco”.
Digo, que se quisermos fazer uma campanha desprovida de qualquer dificuldade conceitual lancemos: “somos todos primatas

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Natalia Natalia Marques – David, tem algo que só os humanos fazem sim, esse comportamento humano de se considerar superior às demais espécies e também em relação a indivíduos da nossa espécie. Viva os bonobos que não são mal amados!

 

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victorlisboaVictor Lisboa – Mentira, Vitor! Você está errado, seu herege! O homem é macaco sim! Foi ELE quem disse, palavra do Senhor:

inrimacaco
INRI CRISTO: “Meus filhos do coração, sou o primata, o macaco mais antigo de todos, o primeiro que caminhou ereto sem rabo. Darwin estava inspirado pelo PAI. Tenham todos a minha paz.” #somostodosmacacos

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NataliaNatalia Marques – Alguém reparou que ele comeu a banana numa mordida só? Hahaha

 

escrito por:

Papo de Bar