josmaelcorsoJosmael Corso – Conversando com um cara da África ele disse que lá também houve protestos e que foram repelidos e escondidos. Mas uma coisa que o povo fez foi boicote aos patrocinadores, e começou uma longa campanha na internet para não consumir produtos deles. Inclusive nos jogos as pessoas usaram camisetas contra os patrocinadores. Interessante nosso ataque se direciona basicamente a Copa per si, as vezes a FIFA, mas não diretamente a quem lucra.


victorlisboaVictor Lisboa – A pergunta que faço é quem é que lucra e quem é que perde com uma copa bem sucedida, e o que se ganha e o que se perde com uma copa?


josmaelcorsoJosmael Corso – Também tenho essas perguntas. Mas acontece que a Copa por si já é um lance sujo. E pode ser especulativo, mas essa escolha dos países esta correlacionada a locais que podem lucrar facil sobre o povo. Um povo fraco politicamente. Não tenho como ficar favorável a ela, mesmo que ela trouxesse lucros positivos. Pois não vejo eles chegando até o povo. Colocaram o tatu de símbolo, uma espécie ameaçada, mas ninguém falou em criar um parque, ou direcionar uma grana pra proteção. Ate o momento não estou convencido que a Copa, que é apenas negócio e não esporte, seja uma coisa boa.


victorlisboaVictor Lisboa – Quanto ao tatu bola, essa reportagem [clique aqui] tem uma explicação interessante sobre o assunto.

Eu também não vejo vantagem alguma, exceto a de proporcionar alguma reflexão e maior autoconsciência coletiva (é pouco, claro, e ainda assim só uma possibilidade). Tenho coletado material sobre a copa há algum tempo, e me parece mais uma tragédia calculada para beneficiar cartolas, empreiteiros e possivelmente detentores de cargos públicos. É a copa mais cara da história, em uma estimativa que chega a 33 bilhões de dólares – o que me parece um algo com traços de surrealidade. Por outro lado, não sei se sou a favor das manifestações, as reivindicações dos manifestantes não são claras (é contra tudo e, portanto, é contra coisa alguma) e as movimentações cheiram a massa de manobra de quem espera lucrar dividendos políticos com possíveis batalhas campais durante a Copa. Como eu disse, acredito que a única vantagem do evento estaria em utilizarmos toda essa história como um “espaço laboratorial”, uma experiência na qual o melhor e o pior da sociedade brasileira fica mais visível, mais facilmente observável e, contando inclusive com o “espelho” que é a cobertura de jornalistas estrangeiros (capazes talvez de perceber características nossas que estamos perto de mais para notar), fazermos um levantamento de quem somos nós, brasileiros, neste momento.


josmaelcorsoJosmael Corso – Beleza, mas percebe que para achar um ‘alvo’ é preciso que ele esteja sinalizado? Não, esta como sabemos. Então, contra quem/que deve ser as manifestações? Nessa difusão dos alvos é claro que já estão tirando vantagens politicas. Mas essa é outra coisa que sempre vai existir… cabe saber se é possível evita-las. Uma massa geral, o povo, não vai ter como fazer essa analise em coletivo…


davidborgesDavid G. Borges – Quem ganha se o Brasil for bem: Dilma. A um custo altíssimo (manifestações, violencia policial e desgaste político). Quem ganha se o Brasil for mal: Aécio e Campos. Visão de quem é contra a copa: Os colonizadores estão voltando! Visão de quem é a favor da copa: Os colonizadores estão voltando e a gente tem de receber bem, porque eles devem estar curiosos para saber o que andamos fazendo desde 1822. Tipo pai quando vai visitar o filho que foi estudar fora e mora em uma república (Só percebi a duplicidade de sentido do termo “república”, neste caso, agora).


vitorceiVitor Cei – Eu percebo duas mobilizações, simbolizadas por duas hashtags: #NãoVaiTerCopa e #VaiTerCopa, sendo a segunda uma reação à primeira, que ganhou força. O grupo do contra defende que devíamos sabotar a Copa, protestar e torcer contra a seleção brasileira, porque o país investiu muito dinheiro na realização de um evento elitista, sendo que essa verba poderia ser investida na qualidade de vida da população. Em contrapartida, outros querem usar a Copa para vender ao mundo uma imagem boa do país e lucrar com a oportunidade de sediar o maior evento esportivo do planeta. Eu, particularmente, preferia que o Brasil não tivesse organizado a Copa. Um dos efeitos negativos que mais me atinge diretamente – no bolso – é o superfaturamento de tudo em Belo Horizonte. Desde a Copa das Confederações tudo ficou absurdamente caro – do aluguel ao supermercado. Das obras de infra-estrutura prometidas – nada. Ver jogo no Mineirão? Impensável para mim, que vivo de bolsa de doutorado. Os ingressos têm preços proibitivos para a maioria dos brasileiros. Espero que tudo funcione com eficiência e os turistas saiam daqui com uma boa imagem do Brasil. Mas o legado da Copa é nulo ou negativo.


davidborgesDavid G. Borges – Vou jogar mais uma questão na roda: a música da copa: [cliquem aqui]. Embora eu ache a análise dessa reportagem de um saudosismo bizarro, gostei do comentário de Cravo Albin, citado no link: “É uma Copa da Fifa, que alugou o Brasil para fazê-la, construindo determinados estádios que são hoje objetos de tanta observações, preocupações e críticas”.


victorlisboaVictor Lisboa – A “profecia” de Raul, sobre alugarmos o Brasil, tornou-se real mas com um detalhe: estamos pagando todos, e o valor do aluguel não está indo para nossos bolsos. A reportagem é saudosista sim, porque acho que a suposta ingenuidade daquela época, que fazia a população se empolgar com um hino de Copa, servia para esconder muita coisa debaixo do tapete. Mas, por outro lado, não deixa de ser também bizarro a forma como um evento de apelo popular se tornou uma grande máquina de fazer dinheiro para um grupo seleto de cartolas e patrocinadores.



vitorceiVitor Cei – Raul dizia que “nós não vamos pagar nada, que é tudo free”. Pois nós estamos pagando caro – muito caro. Muitos serão expoliados, poucos terão lucro. E Cravo Albin, com todo o respeito, me parece equivocado. Não há um hit da Copa porque a população não está empolgada com o torneio.


davidborgesDavid G. Borges – Será que é só isso, Vitor? Em tempos de maior liquidez nas relações humanas (sim, liquidez: o trocadilho é não só com Bauman, mas com o mercado de capitais), me pergunto se ainda há a identificação cultural de determinados grupos – incluindo nações – com determinados eventos – no caso, um evento esportivo. Claro que você pode contrapor meu argumento citando torcidas organizadas, mas elas representam uma parcela tão ínfima da população que não me parece algo representativo.


vitorceiVitor Cei – De fato, David. Liquidez é um conceito importante para pensar o assunto. Não obstante, a indústria cultural (publicidade das multinacionais, propaganda do governo, jornais) tenta o tempo todo criar um clima de ufanismo, patriotismo e empolgação para forçar a identificação cultural do povo brasileiro com a Copa, mas dessa vez parece haver uma resistência maior.


victorlisboaVictor Lisboa – Até as torcidas organizadas acabaram economicamente cooptadas pelo clubes mediante suporte financeiro a seus organizadores. As eleições para conselheiros e presidentes de clubes já inclui a cooptação, através de favores ou promessa de favores, dessas torcidas organizadas.


felipeguemartiniFelipe Martini – Eu acho que o evento não é tão dramático assim, apenas mais explícito. A bolha onde a copa acontece dentro do Brasil é o paraíso perdido, mas há muitas destas bolhas por aí nas grandes e pequenas cidades, espaços de segurança e luxo para poucos. e as empresas, corporações etc não possuem qualquer tendência solidária de respeitar nações e suas leis, o mercado é imperioso, seja visivelmente ao banir o acarajé da copa, seja sutilmente nos vendendo internet, transporte, serviços precários a preços ridículos. Sim, os governos e nós somos responsáveis por isso, mas em boa parte dos casos, uma boa quantia numa conta na Suíça ou um salário polpudo em alguma tarefa burocrática fazem calar a fome e a indignação, além do ideário propriamente político. A Copa é uma lente que escancara isso tudo por onde passa, acho que foi um aprendizado para a população da África do Sul, será para o Brasil, desde que consigamos enxergar com certa clareza menos apaixonada. Pro vai ou pro não vai.


josmaelcorsoJosmael Corso – É interessante notar os movimentos grevistas nessa ”jogada”. Para a PF foram reajustados uma boa grana. Em Porto Alegre, os municipiários não aceitaram a proposta e vão seguir a greve. Quem vai ceder? Então a COPA esta sim gerando aprendizados, ainda desconectados e particulares. Se houvesse uma bandeira comum, o passo dado seria maior…


victorlisboaVictor Lisboa – Uma bandeira, qualquer bandeira concreta, exequível, específica, representaria um passo enorme. Mas talvez os próprios manifestantes intuam que o motivo de suas insatisfações é sistêmico, não pode ser resumido em uma só reinvidicação, uma só exigência – eles, os manifestantes, integram também o “problema”. A iniciativa da Copa prevalesce justamente porque seus objetivos são claros e pontuais: fazer o evento, ganhar dinheiro, devolver o território alugado ao locatário.


vitorceiVitor Cei – A Copa se aproxima e a tensão se intensifica. Governistas cumprindo o seu papel e gritando #VaiTerCopa. Oposicionistas gritando #NãoVaiTerCopa. Coxinhas niilistas no clima de decepção, sem esperança por um futuro melhor. O primeiro grupo pode contribuir para curar o complexo de vira-lata. O segundo grupo cria distopias e contribui para o debate. O terceiro senta no sofá e fica na torcida por um país melhor.

escrito por:

Papo de Bar

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