Será que as ações recentes da prefeitura paulistana na chamada cracolândia refletem um pânico moral?

Explicando: “pânico moral” é o nome dado por cientistas sociais a situações em que a sociedade, ou uma parte da sociedade, é tomada por uma preocupação irracional e exagerada em relação a uma circunstância que, por algum motivo, é vista como um problema social. Alguns críticos desse conceito queixam-se de que “pânico moral” é apenas um pejorativo usado por uma parcela da sociedade para desqualificar as preocupações de outra, já que não há uma definição objetiva do que seria um “exagero”.

Os defensores da validade da expressão, por sua vez, citam exemplos como a Caça às Bruxas do fim da Idade Média e a onda de medo que tomou conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, nos anos 80, associada a alegações de que cultos satânicos estariam sequestrando e abusando de crianças. Nada pode ser mais objetivamente exagerado, apontam, do que uma convulsão social em torno de um problema inexistente — no caso, cultos satânicos caçadores de criancinhas ou mulheres que voam em vassouras e fazem sexo com o diabo.

Um dos principais livros sobre o tema, Moral Panics: The Social Construction of Deviance, sugere alguns critérios objetivos para avaliar exagero mesmo quando o problema atacado é real, e não imaginário. Entre eles, o de que o problema é antigo e endêmico, mas num dado momento torna-se foco de uma atenção concentrada e frenética, sem que as condições objetivas tenham-se agravado; e o de que outros problemas, próximos ou muito semelhantes, causam mais dano que o visado, mas seguem sem despertar paixões (por exemplo, ver a maconha ou a cocaína como “destruidores da juventude”, quando é o álcool a droga que mais causa dano aos adolescentes, sob a forma de brigas, acidentes de trânsito, intoxicações, etc.).

Falando especificamente, agora, do caso da cracolândia paulistana, os critérios parecem bem representados: trata-se de um problema endêmico que, de repente, passa a ser enfrentado por meio de ações pontuais e espetacularizadas; a força usada é desproporcional (derrubar prédios para deslocar supostos infratores? isso é coisa de distopia à la Juiz Dredd); e há regiões da periferia paulistana onde a violência contra o cidadão comum é muito maior, mas que não recebem o mesmo tipo de atenção.

Outra característica obrigatória dos pânicos morais é o “folk devil” (“demônio do povo”, ou “diabo folclórico”), uma figura estereotipada que é tida como causadora do problema que desencadeia o pânico, e com quem “alguma coisa precisa ser feita”. Podem ser os comunistas, os muçulmanos, os traficantes de drogas, os delinquentes juvenis, os empreiteiros, os petistas, os tucanos…

No caso da cracolândia, o folk devil lógico seria o traficante, mas a narrativa atual parece ter deslocado esse papel, perversamente, para a pessoa do próprio morador de rua. Outra personagem comum nesses condições é o empreendedor moral, a figura que se propõe a encabeçar a cruzada e personificar a necessária purificação. Às vezes há até mais de um — não raro, pânicos morais deixam atrás de si um rastro de ONGs, lideranças políticas e movimentos sociais. Ouvi alguém aí dizer o nome do prefeito?

Os autores de Moral Panics,  Erich Goode e Nachman Ben-Yehuda, elencam os recorrentes surtos de “guerra às drogas” como casos típicos de pânicos morais. De fato, há todo um capítulo do livro dedicado ao assunto. Citando um de seus parágrafos iniciais:

“Embora a droga específica que é o foco das narrativas da mídia, do medo do público e da ação legislativa mude, a estrutura do medo e do pânico se mantém. Alguns episódios bizarros, reais ou imaginários, são apresentados como se representassem a experiência típica, característica ou paradigmática com a droga. No calor de um pânico sobre drogas, esses episódios passam a ser vistos como eventos resumidores, representando ou simbolizando a experiência que a maioria, ou muitos, dos usuários tem com a substância. O pior cenário possível é apresentado como típico ou comum”.

No mundo moderno, a mídia é sempre parte importante desse fenômeno.

Goode e Ben-Yehuda veem esse mesmo padrão se repetindo ao longo do século 20, indo da maconha ao crack (a ilustração que abre esta postagem é o cartaz de um filme de 1936 cujo título pode ser traduzido como “Loucura Maconheira”). Eles também apontam para o fato de que pânicos morais muitas vezes constituem a performance pública de uma ansiedade difusa voltada contra o diferente, o estrangeiro ou a novidade, e funcionam como uma reafirmação, dos limites do aceitável dentro da sociedade — pânicos trazem um reforço temporário às paliçadas da normalidade, quando não provocam um recuo drástico de seus contornos.

Pânicos morais geralmente são sobre alguma outra coisa: o medo das bruxas no fim do período medieval era o medo das novas possibilidades de autonomia feminina que então despontavam; o pânico contra o abuso de crianças por satanistas nos anos 80 era o medo do efeito desestabilizador da teologia liberal que relativizava a mitologia cristã. Vendo as coisas dessa forma, seria interessante determinar sobre o que é a cracolândia, afinal.