O “Outubro Rosa” jamais termina

Em Consciência por Natalia MarquesComentário

Come­cei a escre­ver esse texto sobre essa série de auto-retra­tos acre­di­tando que fala­ria sobre a cons­ci­en­ti­za­ção do cân­cer de mama decor­rente da cam­pa­nha Outu­bro Rosa. Um cân­cer que é o segundo tipo mais fre­quente no mundo, mas que entre as mulhe­res é o mais comum e res­ponde a cada ano por 22% dos novos casos, segundo a Soci­e­dade Bra­si­leira de Mas­to­lo­gia.

No Bra­sil, ainda é ele­vado o número de mor­tes por esse tipo de cân­cer, e isso se dá pelo diag­nós­tico tar­dio. Ape­sar de não ser um método de diag­nós­tico, o auto-exame ajuda muito a mulher a per­ce­ber pos­sí­veis alte­ra­ções em suas mamas e pro­cu­rar um médico.

No entanto, quando fiz as fotos, vi que as mulhe­res não se tocam, e eu era uma delas.

Neon Outubro Rosa

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Mesmo sem­pre ter tido enca­rado com natu­ra­li­dade, achar o peito femi­nino lindo e atu­al­mente estar tra­ba­lhando com isso, o peito em ques­tão nunca tinha sido o meu.

A ideia veio com um tra­ba­lho em maqui­a­gem neon que havía­mos feito, e como era outu­bro, pen­sei em fazer um outro rosa. Com ins­pi­ra­ção nos tra­ba­lhos do fotó­grafo Hid Saib tam­bém em neon e um tra­ba­lho de Mario Tes­tino com Cara Dele­vingne me pro­pus um desa­fio: me jogar na tinta como cri­ança e olhar para mim como mulher sem o uso de qual­quer aspecto sen­sual.

É engra­çado como nos­sas con­vic­ções e os anti­gos padrões da soci­e­dade nos pren­dem a esse pedaço de maté­ria que é o nosso corpo, impe­dindo que alcan­ce­mos nos­sos voos mais altos e livres, pren­dendo-nos ao nosso pró­prio eu, atra­vés dos medos, pre­con­cei­tos e tabus. Mar­cas que nos dei­xam inse­gu­ros em mos­trar algo tão bonito, que ali­menta, que dá colo e que tam­bém dá pra­zer.

Neon Outubro Rosa

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São como memó­rias em laços, pas­sa­dos de pais para filhas, de homens para mulhe­res — e de homens para homens, e de mulhe­res para mulhe­res — amar­ra­dos com tama­nha fir­meza, mas que ao mesmo tempo a ponta está ali, pronta para ser puxada por você, de forma fácil e fluida.

Foi esse o sen­ti­mento que tive ao abai­xar o ves­tido e come­çar a me pin­tar. Tive a sen­sa­ção de estar nua na frente de uma estra­nha, e a estra­nha, era eu mesma, dona do meu pró­prio corpo mas sub­me­tida a tan­tos outros donos anô­ni­mos.

Me ver nas ima­gens e na edi­ção me fez ver meu corpo de uma forma que nunca havia visto antes. Me fez conhe­cer um corpo que eu con­vi­via há 28 anos mas não o conhe­cia. E isso teve um efeito den­tro de mim muito maior do que quando pen­sei em publi­car algu­mas ima­gens.

Neon Outubro Rosa
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O peito femi­nino, assim como qual­quer outra parte do nosso corpo, é natu­ral. O nosso pró­prio estigma o trans­forma em algo que deve ser escon­dido, difi­culta a ida de mui­tas mulhe­res aos seus médi­cos e terem um diag­nós­tico pre­coce, como no caso do cân­cer de mama, e o faz objeto de uma sen­su­a­li­za­ção tão exa­ge­rada como vemos hoje em dia.

Se você, lei­tor, me per­mite um con­se­lho, faça isso. Tire a roupa, olhe-se no espe­lho. Tire fotos e observe-as. Per­mita-se sen­tir estra­nho a você mesmo. Per­mita-se conhe­cer.

(Agra­deço imen­sa­mente sócio-amigo Ronaldo Bispo por todo apoio e pela maqui­a­dora-amiga Regina Gia­como por todas as boas dicas de maqui­a­gem neon que eu infe­liz­mente não usei, a diver­são em me pin­tar foi maior). 

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