Talvez você sinta a mesma dúvida que eu sempre tive: A arte é mesmo capaz de influenciar nossas vidas?

Em outubro do ano passado, realizei uma série de auto-retratos na intenção de fazer um trabalho pela conscientização do câncer de mama. No entanto, o objetivo se mostrou outro e até hoje descubro tantas outras nuances de um entendimento que vai além do câncer de mama, que vai além do outubro rosa.

"Eu faria tudo de novo, é uma experiência inexplicável." Carol (29 anos), mãe da Valentina.
“Eu faria tudo de novo, é uma experiência inexplicável.” Carol (29 anos), mãe da Valentina.

Outras mulheres viram as fotos e quiseram vivenciar a mesma experiência libertadora que eu havia criado para mim, e foi assim que surgiu o projeto Além do Rosa.

A Isabela (22 anos) se dedica aos estudos, ao trabalho e à mãe, que está em tratamento. Tão jovem, e com tanta força, ela não tira o sorriso do rosto. No ensaio dela, tive vontade de parar de fotografar e assisti-la, e eu realmente fiz isso algumas vezes. Tamanha foi a sua entrega à música quando fechou os olhos.
A Isabela (22 anos) se dedica aos estudos, ao trabalho e à mãe, que está em tratamento. Tão jovem, e com tanta força, ela não tira o sorriso do rosto. No ensaio dela, tive vontade de parar de fotografar e assisti-la, e eu realmente fiz isso algumas vezes. Tamanha foi a sua entrega à música quando fechou os olhos.

Sem a pretensão de entrar no campo da compreensão do comportamento humano, relato apenas o que enxerguei da experiência dessas dez mulheres e da minha própria experiência, como fotógrafa e, principalmente, como mulher.

A ideia do ensaio de cada uma se manteve igual à minha primeira experiência: no corpo, apenas uma peça íntima ou shorts preto. Com tinta neon rosa, cada uma delas se pintou como quis, reconhecendo cada parte do seu corpo. Demos um mínimo de direção para a fotografia, principalmente no início da sessão, que era o momento mais crítico para elas, ainda mais tendo três homens na equipe. Sempre tive em mente que o ideal seria que elas se dirigissem, elas se entregassem a si mesmas, deixando de lado receios, vergonhas e tivessem a chance de serem completamente autênticas.

Por estarmos gravando um documentário ao mesmo tempo, coletamos ainda depoimentos antes e depois da experiência.

A Kathia, 29 anos, perdeu uma grande amiga na luta contra o câncer de mama devido um diagnóstico tardio. Como ela disse em uma homenagem à sua amiga: "Me pintei de rosa pra você! E o neon? O neon é pra você me enxergar melhor daí do céu!"
A Kathia, 29 anos, perdeu uma grande amiga na luta contra o câncer de mama devido um diagnóstico tardio. Como ela disse em uma homenagem à sua amiga: “Me pintei de rosa pra você! E o neon? O neon é pra você me enxergar melhor daí do céu!”

Tivemos mulheres das mais variadas idades, biotipos, profissões, hobbies, crenças, histórias de vida e os motivos pelos quais decidiram participar. Entretanto, as que tiveram a oportunidade de se conhecerem durante os ensaios se uniram de uma forma muito especial, acalmando umas às outras como se fossem irmãs e foram fazendo parte do clima que procuramos criar desde o início: o de uma família, a fim de transformar uma experiência que tinha tudo para ser traumática em algo transformador, leve e que gerasse bons frutos, inclusive em vínculos de amizade.

“Pra mim é muito difícil, eu sou de uma época em que a Leila Diniz escandalizou ao simplesmente posar de biquíni estando grávida." A Eglaucia (67 anos) passou por um momento muito delicado de diagnóstico de câncer de mama e a perda do seu marido. Provavelmente, ela foi nossa participante mais corajosa, rompendo muitas de suas barreiras com o incentivo das filhas.
“Pra mim é muito difícil, eu sou de uma época em que a Leila Diniz escandalizou ao simplesmente posar de biquíni estando grávida.” A Eglaucia (67 anos) passou por um momento muito delicado de diagnóstico de câncer de mama e a perda do seu marido. Provavelmente, ela foi nossa participante mais corajosa, rompendo muitas de suas barreiras com o incentivo das filhas.

Leve… Esse talvez tenha sido o maior cuidado que tivemos e que nos demandou muita dedicação e empenho em todo o processo, desde as conversas prévias muitos dias antes com elas, até o momento de despedida após o término dos ensaios e gravações.

Foi muito recompensador ouvir da Camila, a única participante que não conhecia ninguém da equipe, que tudo tinha sido leve, muito diferente do que ela havia imaginado – algo frio e sistemático.

Poucos meses antes do ensaio, a mãe da Regina (43 anos) faleceu após uma longa luta contra a leucemia. Uma batalha grande que lutaram juntas dia após dia e, como ela diz, essa experiência foi como um grito para sua dor.
Poucos meses antes do ensaio, a mãe da Regina (43 anos) faleceu após uma longa luta contra a leucemia. Uma batalha grande que lutaram juntas dia após dia e, como ela diz, essa experiência foi como um grito para sua dor.

Independente da idade, eu percebi que tirar a roupa foi o momento mais difícil para todas. Esse também havia sido meu momento mais difícil na primeira vez. É aquele momento de transpor alguma barreira que você ainda não sabe ao certo qual é. Algumas participantes disfarçaram o momento apreensivo e outras nem tanto. Mas todas tinham tudo aquilo como um objetivo tão certo, que se fixaram nele, e de maneira muito confiante tiraram o robe.

Os motivos pelos quais cada uma decidiu participar também foram variados. Históricos pessoais ou de parentes próximos com câncer, depressão, a busca pela quebra de padrões que nos colocamos como mulheres, soltar um grito guardado dentro de si. Se abrir, desabrochar, sair de alguma bolha que já lhe era pequena demais…

"Eu gostaria de ter uma sessão dessa por mês, como terapia mesmo…" Cecília, 20 anos.
“Eu gostaria de ter uma sessão dessa por mês, como terapia mesmo…” Cecília, 20 anos.

Quando nos empenhamos em melhorar a nós mesmos, procuramos detectar quais comportamentos e pensamentos nos adoecem de inúmeras formas e, assim, mudá-los, a fim de sanar pequenos e grandes problemas de nossas vidas. O fato é que, quando se está empenhado nisso, encontrar essas causas não é tão difícil. No entanto, reprogramar-nos é uma tarefa árdua e dolorosa.

Em seus treinos no fisioculturismo, Camila (27 anos) busca seu fortalecimento e superação. Mas aqui, ela deixou vir à tona e encontrou um outro tipo de força. Uma força que nasce conosco e dá a coragem de nos abrirmos para o mundo. Uma força que nos une.
Em seus treinos no fisioculturismo, Camila (27 anos) busca seu fortalecimento e superação. Mas aqui, ela deixou vir à tona e encontrou um outro tipo de força. Uma força que nasce conosco e dá a coragem de nos abrirmos para o mundo. Uma força que nos une.

O que pude perceber nas duas experiências que tive e ao estar junto com essas mulheres é que uma experiência artística funciona como um catalisador para as mudanças que gostaríamos de realizar em nós. É uma experiência física que nos impomos e que acelera um processo de transformação.

Nesse caso, o fato da existência de tinta e a necessidade de se pintar se mostrou como uma relação lúdica às brincadeiras infantis, facilitando ainda mais todo esse processo.

"Eu sentia como se tivesse voltado a ser criança, me pintando, querendo passar a tinta em tudo, em mim, na parede. E ao mesmo tempo, parecia vendo a minha mãe falando: Menina, olha o que você está fazendo!" Camila Wenceslau, 49 anos. A Camila, com toda sua didática de professora de Geografia, nos passou sua experiência de vida e o que aprendeu na sua batalha contra o câncer de forma tão clara, que se eu tivesse que dizer o que aprendi com ela, seria: A vida é curta demais pra gente se importar com o que quer que pensem de nós.
“Eu sentia como se tivesse voltado a ser criança, me pintando, querendo passar a tinta em tudo, em mim, na parede. E ao mesmo tempo, parecia vendo a minha mãe falando: Menina, olha o que você está fazendo!” Camila Wenceslau, 49 anos. A Camila, com toda sua didática de professora de Geografia, nos passou sua experiência de vida e o que aprendeu na sua batalha contra o câncer de forma tão clara, que se eu tivesse que dizer o que aprendi com ela, seria: A vida é curta demais pra gente se importar com o que quer que pensem de nós.
Minha segunda experiência. Ao contrário da primeira, que fiz uma série de autorretratos, nessa eu pedi que uma das pessoas que mais admiro me fotografasse. É interessante descobrir o olhar do outro sobre nós.
Minha segunda experiência. Ao contrário da primeira, que fiz uma série de autorretratos, nessa eu pedi que uma das pessoas que mais admiro me fotografasse. É interessante descobrir o olhar do outro sobre nós.

Com quadros depressivos desde jovem, e, há alguns anos com endometriose, senti minha insegurança como mulher ir ao seu limite, principalmente devido a dispareunia. Mas muita coisa mudou após a minha primeira experiência.

A mudança dos padrões de comportamento tem sido duradoura e com efeitos constantes, e ver em mim tais mudanças como saber determinar o que quero para mim, conseguir ter minha auto-estima e confiança estabelecidas, reaprender a lidar com meu corpo, a estar aberta a poder sentir prazer novamente e falar disso abertamente me fez querer proporcionar essa experiência a mais mulheres, de forma que, delas, eu só recebo suas histórias e o aprendizado que elas têm a me oferecer com as situações que mais lhe marcaram. Com a finalização do documentário, espero que outras mulheres possam ser alcançadas com as experiências relatadas e, assim, se conheçam melhor, se aceitem e se permitam mais.

Após sofrer uma lesão, Aline (33 anos) deixou de lado uma das suas paixões: a dança. Após anos sem dançar, ela se pintou de rosa e com uma postura linda, se deixou levar pela música e dançou novamente, pois sentiu que não é o corpo em que estamos que dança, mas sim nossa alma. Depois da experiência, ela voltou a fazer aulas de dança.
Após sofrer uma lesão, Aline (33 anos) deixou de lado uma das suas paixões: a dança. Após anos sem dançar, ela se pintou de rosa e com uma postura linda, se deixou levar pela música e dançou novamente, pois sentiu que não é o corpo em que estamos que dança, mas sim nossa alma. Depois da experiência, ela voltou a fazer aulas de dança.

Se na minha primeira experiência eu percebi o quanto a questão do toque está excessivamente ligada à sexualidade e como isso interfere negativamente na relação que temos com nossos corpos, dessa vez pude me certificar de que isso afeta mais mulheres do que eu imaginava.

Não nos examinamos, e muito menos nos tocamos pois sequer conhecemos nossos corpos. Não falamos disso entre nós, mulheres, e muitas mulheres não se sentem à vontade de falar nem mesmo para os seus médicos. E aqui, eu me refiro ao nosso corpo como um todo.

Criamos tantos tabus, sexualizamos tanto o corpo e, ao fim das contas, temos vergonha de nós mesmas. Não nos sentimos completamente à vontade de nos olhar no espelho sem roupa nem quando estamos sozinhos.

E aqui eu te deixo novamente o mesmo conselho da primeira vez: Mulher, homem, tire a roupa. Descubra partes do seu corpo que você jamais reparou, se olhe no espelho até que isso deixe de lhe parecer estranho. Permita se conhecer por completo e ser você por completo.

escrito por:

Natalia Marques

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