Outubro Rosa

Em Comportamento, Tempo de Curtir por Natalia MarquesComentário

Tal­vez você sinta a mesma dúvida que eu sem­pre tive: A arte é mesmo capaz de influ­en­ciar nos­sas vidas?

Em outu­bro do ano pas­sado, rea­li­zei uma série de auto-retra­tos na inten­ção de fazer um tra­ba­lho pela cons­ci­en­ti­za­ção do cân­cer de mama. No entanto, o obje­tivo se mos­trou outro e até hoje des­cu­bro tan­tas outras nuan­ces de um enten­di­mento que vai além do cân­cer de mama, que vai além do outu­bro rosa.

"Eu faria tudo de novo, é uma experiência inexplicável." Carol (29 anos), mãe da Valentina.

Eu faria tudo de novo, é uma expe­ri­ên­cia inex­pli­cá­vel.” Carol (29 anos), mãe da Valen­tina.

Outras mulhe­res viram as fotos e qui­se­ram viven­ciar a mesma expe­ri­ên­cia liber­ta­dora que eu havia cri­ado para mim, e foi assim que sur­giu o pro­jeto Além do Rosa.

A Isabela (22 anos) se dedica aos estudos, ao trabalho e à mãe, que está em tratamento. Tão jovem, e com tanta força, ela não tira o sorriso do rosto. No ensaio dela, tive vontade de parar de fotografar e assisti-la, e eu realmente fiz isso algumas vezes. Tamanha foi a sua entrega à música quando fechou os olhos.

A Isa­bela (22 anos) se dedica aos estu­dos, ao tra­ba­lho e à mãe, que está em tra­ta­mento. Tão jovem, e com tanta força, ela não tira o sor­riso do rosto. No ensaio dela, tive von­tade de parar de foto­gra­far e assisti-la, e eu real­mente fiz isso algu­mas vezes. Tama­nha foi a sua entrega à música quando fechou os olhos.

Sem a pre­ten­são de entrar no campo da com­pre­en­são do com­por­ta­mento humano, relato ape­nas o que enxer­guei da expe­ri­ên­cia des­sas dez mulhe­res e da minha pró­pria expe­ri­ên­cia, como fotó­grafa e, prin­ci­pal­mente, como mulher. 

A ideia do ensaio de cada uma se man­teve igual à minha pri­meira expe­ri­ên­cia: no corpo, ape­nas uma peça íntima ou shorts preto. Com tinta neon rosa, cada uma delas se pin­tou como quis, reco­nhe­cendo cada parte do seu corpo. Demos um mínimo de dire­ção para a foto­gra­fia, prin­ci­pal­mente no iní­cio da ses­são, que era o momento mais crí­tico para elas, ainda mais tendo três homens na equipe. Sem­pre tive em mente que o ideal seria que elas se diri­gis­sem, elas se entre­gas­sem a si mes­mas, dei­xando de lado receios, ver­go­nhas e tives­sem a chance de serem com­ple­ta­mente autên­ti­cas.

Por estar­mos gra­vando um docu­men­tá­rio ao mesmo tempo, cole­ta­mos ainda depoi­men­tos antes e depois da expe­ri­ên­cia.

A Kathia, 29 anos, perdeu uma grande amiga na luta contra o câncer de mama devido um diagnóstico tardio. Como ela disse em uma homenagem à sua amiga: "Me pintei de rosa pra você! E o neon? O neon é pra você me enxergar melhor daí do céu!"

A Kathia, 29 anos, per­deu uma grande amiga na luta con­tra o cân­cer de mama devido um diag­nós­tico tar­dio. Como ela disse em uma home­na­gem à sua amiga: “Me pin­tei de rosa pra você! E o neon? O neon é pra você me enxer­gar melhor daí do céu!”

Tive­mos mulhe­res das mais vari­a­das ida­des, bio­ti­pos, pro­fis­sões, hob­bies, cren­ças, his­tó­rias de vida e os moti­vos pelos quais deci­di­ram par­ti­ci­par. Entre­tanto, as que tive­ram a opor­tu­ni­dade de se conhe­ce­rem durante os ensaios se uni­ram de uma forma muito espe­cial, acal­mando umas às outras como se fos­sem irmãs e foram fazendo parte do clima que pro­cu­ra­mos criar desde o iní­cio: o de uma famí­lia, a fim de trans­for­mar uma expe­ri­ên­cia que tinha tudo para ser trau­má­tica em algo trans­for­ma­dor, leve e que gerasse bons fru­tos, inclu­sive em vín­cu­los de ami­zade.

“Pra mim é muito difícil, eu sou de uma época em que a Leila Diniz escandalizou ao simplesmente posar de biquíni estando grávida." A Eglaucia (67 anos) passou por um momento muito delicado de diagnóstico de câncer de mama e a perda do seu marido. Provavelmente, ela foi nossa participante mais corajosa, rompendo muitas de suas barreiras com o incentivo das filhas.

Pra mim é muito difí­cil, eu sou de uma época em que a Leila Diniz escan­da­li­zou ao sim­ples­mente posar de biquíni estando grá­vida.” A Eglau­cia (67 anos) pas­sou por um momento muito deli­cado de diag­nós­tico de cân­cer de mama e a perda do seu marido. Pro­va­vel­mente, ela foi nossa par­ti­ci­pante mais cora­josa, rom­pendo mui­tas de suas bar­rei­ras com o incen­tivo das filhas.

Leve… Esse tal­vez tenha sido o maior cui­dado que tive­mos e que nos deman­dou muita dedi­ca­ção e empe­nho em todo o pro­cesso, desde as con­ver­sas pré­vias mui­tos dias antes com elas, até o momento de des­pe­dida após o tér­mino dos ensaios e gra­va­ções.

Foi muito recom­pen­sa­dor ouvir da Camila, a única par­ti­ci­pante que não conhe­cia nin­guém da equipe, que tudo tinha sido leve, muito dife­rente do que ela havia ima­gi­nado — algo frio e sis­te­má­tico.

Poucos meses antes do ensaio, a mãe da Regina (43 anos) faleceu após uma longa luta contra a leucemia. Uma batalha grande que lutaram juntas dia após dia e, como ela diz, essa experiência foi como um grito para sua dor.

Pou­cos meses antes do ensaio, a mãe da Regina (43 anos) fale­ceu após uma longa luta con­tra a leu­ce­mia. Uma bata­lha grande que luta­ram jun­tas dia após dia e, como ela diz, essa expe­ri­ên­cia foi como um grito para sua dor.

Inde­pen­dente da idade, eu per­cebi que tirar a roupa foi o momento mais difí­cil para todas. Esse tam­bém havia sido meu momento mais difí­cil na pri­meira vez. É aquele momento de trans­por alguma bar­reira que você ainda não sabe ao certo qual é. Algu­mas par­ti­ci­pan­tes dis­far­ça­ram o momento apre­en­sivo e outras nem tanto. Mas todas tinham tudo aquilo como um obje­tivo tão certo, que se fixa­ram nele, e de maneira muito con­fi­ante tira­ram o robe.

Os moti­vos pelos quais cada uma deci­diu par­ti­ci­par tam­bém foram vari­a­dos. His­tó­ri­cos pes­so­ais ou de paren­tes pró­xi­mos com cân­cer, depres­são, a busca pela que­bra de padrões que nos colo­ca­mos como mulhe­res, sol­tar um grito guar­dado den­tro de si. Se abrir, desa­bro­char, sair de alguma bolha que já lhe era pequena demais… 

"Eu gostaria de ter uma sessão dessa por mês, como terapia mesmo…" Cecília, 20 anos.

Eu gos­ta­ria de ter uma ses­são dessa por mês, como tera­pia mesmo…” Cecí­lia, 20 anos.

Quando nos empe­nha­mos em melho­rar a nós mes­mos, pro­cu­ra­mos detec­tar quais com­por­ta­men­tos e pen­sa­men­tos nos ado­e­cem de inú­me­ras for­mas e, assim, mudá-los, a fim de sanar peque­nos e gran­des pro­ble­mas de nos­sas vidas. O fato é que, quando se está empe­nhado nisso, encon­trar essas cau­sas não é tão difí­cil. No entanto, repro­gra­mar-nos é uma tarefa árdua e dolo­rosa.

Em seus treinos no fisioculturismo, Camila (27 anos) busca seu fortalecimento e superação. Mas aqui, ela deixou vir à tona e encontrou um outro tipo de força. Uma força que nasce conosco e dá a coragem de nos abrirmos para o mundo. Uma força que nos une.

Em seus trei­nos no fisi­o­cul­tu­rismo, Camila (27 anos) busca seu for­ta­le­ci­mento e supe­ra­ção. Mas aqui, ela dei­xou vir à tona e encon­trou um outro tipo de força. Uma força que nasce conosco e dá a cora­gem de nos abrir­mos para o mundo. Uma força que nos une.

O que pude per­ce­ber nas duas expe­ri­ên­cias que tive e ao estar junto com essas mulhe­res é que uma expe­ri­ên­cia artís­tica fun­ci­ona como um cata­li­sa­dor para as mudan­ças que gos­ta­ría­mos de rea­li­zar em nós. É uma expe­ri­ên­cia física que nos impo­mos e que ace­lera um pro­cesso de trans­for­ma­ção.

Nesse caso, o fato da exis­tên­cia de tinta e a neces­si­dade de se pin­tar se mos­trou como uma rela­ção lúdica às brin­ca­dei­ras infan­tis, faci­li­tando ainda mais todo esse pro­cesso.

"Eu sentia como se tivesse voltado a ser criança, me pintando, querendo passar a tinta em tudo, em mim, na parede. E ao mesmo tempo, parecia vendo a minha mãe falando: Menina, olha o que você está fazendo!" Camila Wenceslau, 49 anos. A Camila, com toda sua didática de professora de Geografia, nos passou sua experiência de vida e o que aprendeu na sua batalha contra o câncer de forma tão clara, que se eu tivesse que dizer o que aprendi com ela, seria: A vida é curta demais pra gente se importar com o que quer que pensem de nós.

Eu sen­tia como se tivesse vol­tado a ser cri­ança, me pin­tando, que­rendo pas­sar a tinta em tudo, em mim, na parede. E ao mesmo tempo, pare­cia vendo a minha mãe falando: Menina, olha o que você está fazendo!” Camila Wen­ces­lau, 49 anos. A Camila, com toda sua didá­tica de pro­fes­sora de Geo­gra­fia, nos pas­sou sua expe­ri­ên­cia de vida e o que apren­deu na sua bata­lha con­tra o cân­cer de forma tão clara, que se eu tivesse que dizer o que aprendi com ela, seria: A vida é curta demais pra gente se impor­tar com o que quer que pen­sem de nós.

Minha segunda experiência. Ao contrário da primeira, que fiz uma série de autorretratos, nessa eu pedi que uma das pessoas que mais admiro me fotografasse. É interessante descobrir o olhar do outro sobre nós.

Minha segunda expe­ri­ên­cia. Ao con­trá­rio da pri­meira, que fiz uma série de autor­re­tra­tos, nessa eu pedi que uma das pes­soas que mais admiro me foto­gra­fasse. É inte­res­sante des­co­brir o olhar do outro sobre nós.

Com qua­dros depres­si­vos desde jovem, e, há alguns anos com endo­me­tri­ose, senti minha inse­gu­rança como mulher ir ao seu limite, prin­ci­pal­mente devido a dis­pa­reu­nia. Mas muita coisa mudou após a minha pri­meira expe­ri­ên­cia.

A mudança dos padrões de com­por­ta­mento tem sido dura­doura e com efei­tos cons­tan­tes, e ver em mim tais mudan­ças como saber deter­mi­nar o que quero para mim, con­se­guir ter minha auto-estima e con­fi­ança esta­be­le­ci­das, rea­pren­der a lidar com meu corpo, a estar aberta a poder sen­tir pra­zer nova­mente e falar disso aber­ta­mente me fez que­rer pro­por­ci­o­nar essa expe­ri­ên­cia a mais mulhe­res, de forma que, delas, eu só recebo suas his­tó­rias e o apren­di­zado que elas têm a me ofe­re­cer com as situ­a­ções que mais lhe mar­ca­ram. Com a fina­li­za­ção do docu­men­tá­rio, espero que outras mulhe­res pos­sam ser alcan­ça­das com as expe­ri­ên­cias rela­ta­das e, assim, se conhe­çam melhor, se acei­tem e se per­mi­tam mais.

Após sofrer uma lesão, Aline (33 anos) deixou de lado uma das suas paixões: a dança. Após anos sem dançar, ela se pintou de rosa e com uma postura linda, se deixou levar pela música e dançou novamente, pois sentiu que não é o corpo em que estamos que dança, mas sim nossa alma. Depois da experiência, ela voltou a fazer aulas de dança.

Após sofrer uma lesão, Aline (33 anos) dei­xou de lado uma das suas pai­xões: a dança. Após anos sem dan­çar, ela se pin­tou de rosa e com uma pos­tura linda, se dei­xou levar pela música e dan­çou nova­mente, pois sen­tiu que não é o corpo em que esta­mos que dança, mas sim nossa alma. Depois da expe­ri­ên­cia, ela vol­tou a fazer aulas de dança.

Se na minha pri­meira expe­ri­ên­cia eu per­cebi o quanto a ques­tão do toque está exces­si­va­mente ligada à sexu­a­li­dade e como isso inter­fere nega­ti­va­mente na rela­ção que temos com nos­sos cor­pos, dessa vez pude me cer­ti­fi­car de que isso afeta mais mulhe­res do que eu ima­gi­nava.

Não nos exa­mi­na­mos, e muito menos nos toca­mos pois sequer conhe­ce­mos nos­sos cor­pos. Não fala­mos disso entre nós, mulhe­res, e mui­tas mulhe­res não se sen­tem à von­tade de falar nem mesmo para os seus médi­cos. E aqui, eu me refiro ao nosso corpo como um todo. 

Cri­a­mos tan­tos tabus, sexu­a­li­za­mos tanto o corpo e, ao fim das con­tas, temos ver­go­nha de nós mes­mas. Não nos sen­ti­mos com­ple­ta­mente à von­tade de nos olhar no espe­lho sem roupa nem quando esta­mos sozi­nhos.

E aqui eu te deixo nova­mente o mesmo con­se­lho da pri­meira vez: Mulher, homem, tire a roupa. Des­cu­bra par­tes do seu corpo que você jamais repa­rou, se olhe no espe­lho até que isso deixe de lhe pare­cer estra­nho. Per­mita se conhe­cer por com­pleto e ser você por com­pleto.

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