Nota do Editor. Ano Zero sempre prima pela diversidade e complementaridade entre pontos de vistas e abordagens de um mesmo tema. Assim, em complemento ao artigo de Douglas Donin sobre Mujica, publicado ontem e de natureza mais analítica e objetiva, apresentamos o artigo de Fabio Pinto, uma crônica de suas impressões pessoais após assistir o pouco convencional discurso do Presidente uruguaio quando ele esteve na cidade de Fabio, Porto Alegre.

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Dia desses, uma quarta, se não me engano, esteve em Porto Alegre o presidente do Uruguai para abrir uma conferência. Foi aqui, perto de casa, mas preferi não ver ao vivo. Multidões me deixam ansioso, quase em pânico. Fiz questão, porém, de assistir*. E não esperava muito. Esperava um estadista como qualquer outro, apenas um pouco mais solto, mais ‘pop’, talvez populista. E o que vi foi outra coisa.

Primeiro: usava óculos escuros. Minhas referências sobre óculos escuros ligados a homens importantes eram as piores: Pinochet e Onassis. Do Onassis, aliás, diziam que não tirava os óculos pra não exibir o brilho cruel do olhar. Enfim. Não acho que seja o caso do Mujica. Se o olhar do presidente uruguaio brilha, deve ser por algo que a própria natureza alcançou ao homem. Ou a qualquer outro ser vivo. Por que esse tal Mujica é um tipo que parece admirar as coisas simples, aquelas tantas que se tornaram invisíveis a muitos olhos do grande e complexo mundo globalizado.

onassispinochet

O negócio é que o Mujica, naquela mesa, com aqueles óculos, me pareceu o velho homem humano, do mundo natural, o homem atemporal, por aqui desde sempre. O que se confirmou assim que ele abriu a boca. Um presidente sem intimidade com microfone. Sem intimidade com os agradecimentos e rapapés com os quais qualquer outro perderia uns vinte minutos. Nada. Foi direto ao ponto. E o ponto era o essencial.

Não falou mais que meia hora. E disse muito. Falou sobre a pobreza, a que lhe atribuem e a dos outros. E sobre isso não lançou mão de imagens prontas, não falou do povo sofrido, não desenhou desdentados esqueléticos pedindo na rua. E os há, claro, lá e aqui e por todo lado. Estão no hall de entrada dos prédios e por isso não é preciso mostrá-los para que todos os vejam.

Preferiu falar de má-distribuição de renda. E da causa, o consumismo. E do quanto ele não tem vontade nenhuma de consumir mais do que precisa. E de que isso é uma opção disponível. Falou também das pessoas acharem que ele é pobre por isso, e que por isso, por ser pobre, consome assim tão pouco. E se algo não ficou claro quanto a respeito, fez questão de soletrar: “soy pobre um carajo!” (sou pobre é o caralho). E o “carajo” foi ovacionado. Nunca antes na história deste país. Que aqui presidentes não tem isso.

E seguiu o velho de óculos escuros, bigodinho, o homem humano que há tempos não se via. Falou de um barco. Não de um avião, de uma nave, de um trem. Um barco, o transporte mais antigo, que substituiu o andar a pé. Mas que foi longe, e atravessou cabos, estreitos, planuras. Nesse barco, todos nós. Só que uns, segundo ele, acham que podem comer todas as provisões sem compartilhar. E falou do quão imbecil é o individualista que só pensa em si, cercado de gente de quem depende pra sobreviver. O individualista, consumidor, que está no mesmo barco e não percebe. E da outra gente ele também falou. Aquela que pensa que nasceu pra sofrer, pra sustentar o consumo dos outros e que precisa perceber que o que está no barco também é seu.

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E o velho, de óculos escuros, bigodinho, pulôver e blazer puídos, chega a um nervo exposto, a Igreja. A grande e poderosa instituição, responsável por manter os pobres pobres e os ricos ricos. Responsável por naturalizar a pobreza e a riqueza. E por engambelar aqueles que sofrem, econômica e socialmente, com a fábula da felicidade que os espera, do outro lado da vida, com as portas escancaradas. “Dicen que por ser pobrecito y sufridor me voy al cielo. No me jodan!” (Dizem que por ser pobrezinho e sofredor vou para o Céu. Não me fodam!) Aplausos novamente, claro. Sabemos do que ele falou. Que por aqui a Igreja (qualquer uma) fode a todos, democraticamente.

E o velho foi chegando ao fim de sua fala. Fez o convite, o chamamento, mostrando a necessidade de união de nosotros, latino-americanos. Sugeriu que deixemos de lado o velho mundo europeu colonialista que não pode mais nem com as pernas, que paremos de temer os Estados Unidos e outras grandes potências que se alimentam desse nosso medo.

E depois de falar sobre tanta coisa que todo mundo sabe, que a maioria conhece na pele, que a minoria também conhece mas finge que não, de guerra, de paz, de fome, de utopias, o velho se recostou na cadeira, olhou em silêncio a platéia por alguns segundos e, do alto de sua humildade de homem mais do campo que da cidade, que parece não fazer questão de andar com dinheiro nem verdades no bolso, talvez seco por um mate naquele começo de noite fria em Porto Alegre, finalizou:

No concordan, pero piensem

* A Universidade Federal do Rio Grande do Sul passou, no seu site, a fala do Mujica, ao vivo.

escrito por:

Fabio Pinto

Fabio Pinto gosta de comprar livros usados, de dormir assistindo filmes antigos e de tomar um expresso duplo pra começar a tarde. Além disso, também é professor de literatura e, principalmente, o pai do António.


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