valentoes

Os valentões da justiça social

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Aristotelis OrginosComentários

Jus­tiça social, como um con­ceito, já existe há milê­nios — pelo menos enquanto houve desi­gual­dade na soci­e­dade e havia indi­ví­duos escla­re­ci­dos o sufi­ci­ente para ques­ti­oná-la. Quando estu­da­mos a his­tó­ria, vemos, como num famoso escrito do trans­cen­den­ta­lista norte-ame­ri­cano The­o­dore Par­ker, que “o arco [do uni­verso moral]… se inclina em dire­ção à jus­tiça.” E isso parece rela­ti­va­mente evi­dente quando se olha para a his­tó­ria como se fosse uma única linha de enredo. As coi­sas melho­ram. E, se a his­tó­ria é lida como um livro, os par­ti­dá­rios da jus­tiça social são nor­mal­mente con­si­de­ra­dos os heróis, enquanto seus adver­sá­rios são os vilões.

Tal­vez esse seja o meu cora­ção pro­gres­sista falando, o fato de que eu cresci em uma cidade pro­gres­sita, aprendi a his­tó­ria dos Esta­dos Uni­dos com um soci­a­lista com S maiús­culo e estu­dei numa das uni­ver­si­da­des mais pro­gres­sis­tas do país —  mas vejo essa ideia como uma coisa boa. A noção de que os males da soci­e­dade deve­riam ser cor­ri­gi­dos, de modo que a deter­mi­nado grupo não é dada uma van­ta­gem injusta sobre outro, não é, para mim, uma ideia radi­cal.

Mas os jovens da Gera­ção Y estão cres­ci­dos agora — e eles estão com raiva. Quando cri­an­ças, foram infor­ma­dos de que pode­riam ser qual­quer coisa, fazer qual­quer coisa, e que eram espe­ci­ais. Como adul­tos, eles cri­a­ram uma novo tipo de iden­ti­dade polí­tica, em que os gru­pos com os quais cada indi­ví­duo se iden­ti­fica são uti­li­za­dos como parâ­me­tros. Com essa con­cep­ção tão for­te­mente focada nos gru­pos aos quais cada um per­tence, houve uma cres­cente seg­men­ta­ção das iden­ti­da­des polí­ti­cas. Numa ten­ta­tiva de ter a mente aberta em rela­ção a outros gru­pos para tra­tar de ques­tões de jus­tiça social atra­vés de uma lente de inter­sec­ci­o­na­li­dade, linhas cla­ras e dis­tin­tas foram tra­ça­das entre as pes­soas. As pala­vras de uma única pes­soa, bem como suas ações, são inse­pa­rá­veis da sua pró­pria iden­ti­dade. Por exem­plo: este não é um artigo, mas um artigo escrito por uma pes­soa branca, de classe média, do sexo mas­cu­lino (e por essa razão, será desa­cre­di­tado por mui­tos, pois meu pri­vi­lé­gio me cega — trato disso mais tarde).

E se por um lado isso é muito bom (o orgu­lho de si mesmo e de sua iden­ti­dade), por outro a cul­tura soci­o­po­lí­tica resul­tante da Gera­ção Y e de seus pre­cur­so­res polí­ti­cos um pouco mais velhos é cor­ro­siva e des­tru­tiva para o pro­gresso da jus­tiça social. E aqui reside o pro­blema: na ten­ta­tiva de resol­ver ques­tões soci­ais pre­men­tes e impor­tan­tes, os jovens dessa nova gera­ção que são defen­so­res da jus­tiça social sabo­tam vio­len­ta­mente as opor­tu­ni­da­des reais para o pro­gresso, infec­tando uma con­cep­ção polí­tica pro­gres­sista com, iro­ni­ca­mente, ódio.

Mui­tos enten­de­rão esse termo que eu usei — jovens defen­so­res da jus­tiça social — como um sinô­nimo para os pejo­ra­ti­vos “Social Jus­tice War­ri­ors” (SJW — Guer­rei­ros da Jus­tiça Social). É um termo que per­deu sua força por conta do uso exces­sivo, mas ilus­tra uma ques­tão-chave aqui: que, com espada em punhos e seden­tos por san­gue, os defen­so­res da jus­tiça social têm se dei­xado levar pela vio­lên­cia ver­bal, emo­ci­o­nal — e, às vezes, física.

vigilancia

Em uma exi­bi­ção des­lum­brante e arque­tí­pica da Teo­ria da Fer­ra­dura (nota do tra­du­tor: teo­ria segundo a qual a extrema direita e a extrema esquerda se apro­xi­mam), esse tipo par­ti­cu­lar de jovens defen­so­res da jus­tiça social tem defor­mado uma causa admi­rá­vel para a igual­dade social, econô­mica e polí­tica, em um movi­mento social auto­ri­tá­rio que tem divi­dido e desu­ma­ni­zado indi­ví­duos com base em uma ide­o­lo­gia segre­ga­dora dis­far­çada de teo­ria aca­dê­mica. O moderno movi­mento de jus­tiça social dis­se­mi­nado no Twit­ter, Tum­blr e Face­book é muito mais uma remi­nis­cên­cia da Guerra Fria do que de um movi­mento his­tó­rico em defesa dos Direi­tos Civis.


Quando George Orwell escre­veu 1984 (e aqui alguns vão me desan­car por esco­lher um autor homem, branco, nas­cido numa potên­cia his­to­ri­ca­mente colo­ni­a­lista, ape­sar do fato de que ele lutou e escre­veu con­tra esse colo­ni­a­lismo), ele o fez para aler­tar con­tra os vários peri­gos do extre­mismo em ambos os lados do espec­tro polí­tico. A maior obra de Orwell é sobre auto­ri­ta­rismo em ambos os polos do espec­tro polí­tico. Se o arco do uni­verso moral se inclina para a jus­tiça, em seguida o arco do espec­tro polí­tico se inclina para o auto­ri­ta­rismo em ambas as extre­mi­da­des.

O pró­prio fato de que eu estou fazendo uma cone­xão com o livro mais lem­brado quando se dis­cute dege­ne­ra­ção polí­tica é um pro­blema em si mesmo. Mas ele merece uma maior explo­ra­ção.

 

2 + 2 = 5

 

No final, o Par­tido anun­ci­a­ria que dois e dois são cinco, e você teria que acre­di­tar. Era ine­vi­tá­vel que eles fizes­sem tal decla­ra­ção cedo ou tarde: a lógica da sua posi­ção exi­gia. Não ape­nas a vali­dade da expe­ri­ên­cia, mas a pró­pria exis­tên­cia da rea­li­dade externa, foi taci­ta­mente negada por sua filo­so­fia.” — George Orwell, 1984.

Este tipo par­ti­cu­lar de jus­tiça social ataca a razão de um modo espe­ci­al­mente assus­ta­dor: negando-a intei­ra­mente e uti­li­zando a inti­mi­da­ção para  desen­co­ra­jar a dis­si­dên­cia. Não há nenhum meio-termo: somente preto ou branco. É pre­ciso mime­ti­zar esse pen­sa­mento radi­cal ou ser escar­ne­cido pela comu­ni­dade e expulso do grupo. Dis­cor­dar do radi­ca­lismo da jus­tiça social da nova gera­ção é tor­nar-se volun­ta­ri­a­mente um pária. Ade­rir a essa nar­ra­tiva é o teste deci­sivo para a acei­ta­ção social na comu­ni­dade (e além dela) nos dias de hoje.

Tome­mos, por exem­plo, um exem­plo tópico: o caso da revista Rol­ling Stone e a his­tó­ria do estu­pro na Uni­ver­si­dade da Vir­gí­nia. A jor­na­lista Sabrina Rubin Erdely escre­veu um artigo acu­sando vários mem­bros do corpo dis­cente da uni­ver­si­dade de estu­prar uma garota cha­mada “Jac­kie”. O pro­blema é “Jac­kie” era a única fonte de Erdely. Pos­te­ri­or­mente, num edi­to­rial da Rol­ling Stone, foi colo­cada em dúvida a con­fir­ma­ção dos fatos rea­li­zada pela revista e pela jor­na­lista, e argu­men­tou-se que “havia várias manei­ras de Elderly con­fir­mar, por conta pró­pria, a vera­ci­dade do  que Jac­kie tinha dito a ela.” Erdely acre­di­tou em Jac­kie sem ques­ti­o­nar. Por quê? Por­que, em obe­di­ên­cia aos defen­so­res da jus­tiça social, somos ori­en­ta­dos a não ques­ti­o­nar as víti­mas de estu­pro. Ques­ti­oná-las é “cul­par a vítima” e isso é capaz de vol­tar a trau­ma­tizá-la.

No artigo “Lutar con­tra a cul­tura do estu­pro sig­ni­fica nunca ter que pedir des­cul­pas”, o autor Char­les Cooke ana­lisa esse caso da Rol­ling Stone. Cooke escreve que houve um ques­ti­o­na­mento ini­cial de Jac­kie e Erdely e observa que essa linha de inves­ti­ga­ção foi rece­bida com extrema hos­ti­li­dade. Cooke diz:

No Washing­ton Post, Zer­lina Maxwell argu­men­tou que “deve­mos acre­di­tar, de regra, naquilo que alguém que acusa outros [de estu­pro] diz”, pois, “os cus­tos de equi­vo­ca­da­mente desa­cre­di­tar a vítima supe­ram em muito os cus­tos de cha­mar alguém de um estu­pra­dor.” Essa visão foi apoi­ada pela advo­gada e jor­na­lista Rachel Sklar, que afir­mou, para regis­tro da pos­te­ri­dade, que con­si­dera “as mulhe­res que falam de suas pró­prias expe­ri­ên­cias de estu­pro” auto­ma­ti­ca­mente “crí­veis”, e que qual­quer um que faz per­gun­tas a elas carac­te­riza-se como um apo­lo­gista do estu­pro. No Twit­ter, por sua vez, a jor­na­lista Amanda Mar­cotte con­cluiu que qual­quer pes­soa que tenha dúvi­das sobre um deter­mi­nado relato de estu­pro está envol­vida numa ten­ta­tiva covarde de demons­trar que his­tó­rias de estu­pro nem sem­pre são ver­da­dei­ras, enquanto que Sally Kohn, da CNN, indig­nou-se com Jonah Gold­berg quando pediu mais pro­vas. Tal­vez o melhor exem­plo da pre­sun­ção de que “todos os céti­cos são heré­ti­cos” vie­ram da nota­vel­mente desa­gra­dá­vel Anna Mer­lan, que recom­pen­sou Robby Soave por seu tra­ba­lho inves­ti­ga­tivo atri­buindo-lhe um rótulo: “idi­ota.”

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Os nomes foram edi­ta­dos, o diá­logo é real.

Grande parte dessa retó­rica vem da idéia de que há uma cul­tura do estu­pro gene­ra­li­zada nas uni­ver­si­da­des de todo o país que deve ser erra­di­cada; mais exa­ta­mente, have­ria mani­fes­ta­ções do patri­ar­cado opres­sor das mulhe­res que seriam soci­al­mente e ins­ti­tu­ci­o­nal­mente endos­sa­das. As ideias apre­sen­ta­das no tre­cho acima pro­cu­ram resol­ver isso atra­vés de algo que cha­mam de jus­tiça social. Mas em que mundo essas afir­ma­ções são pro­gres­sis­tas e repre­sen­ta­ti­vas da jus­tiça social?

No artigo “Não importa o que Jac­kie disse, deve­mos em geral acre­di­tar em ale­ga­ções de estu­pro”, Zer­lina Maxwell sugere que deve­ría­mos geral­mente dar o equi­va­lente a um che­que em branco para alguém que apre­senta uma acu­sa­ção de estu­pro. Isso não é jus­tiça e cer­ta­mente não é a jus­tiça social tam­bém. É uma per­ver­são não-pro­gres­sita da jus­tiça. Sir Wil­liam Blacks­tone é famoso pelo que é conhe­cido como a Regra de Blacks­tone: “É melhor dez pes­soas cul­pa­das esca­pa­rem do que um ino­cente sofrer.” Este axi­oma é uma fun­da­ção dos moder­nos sis­te­mas de jus­tiça em todo o mundo. É uma regra que pre­sume a ino­cên­cia; con­de­nar alguém com base numa acu­sa­ção em vir­tude da iden­ti­dade ou da situ­a­ção de opri­mido do acu­sa­dor é uma peri­gosa estrada morro abaixo. Ela cor­rói o prin­cí­pio mais essen­cial do pro­gres­sismo: o devido pro­cesso legal.

estupro

O devido pro­cesso legal, ou a idéia de que um órgão deve res­pei­tar todos os direi­tos de um indi­ví­duo, é con­ce­dido aos ame­ri­ca­nos pela 5ª e 14ª Emenda. Suge­rir que não há recurso para o acu­sado — e de que exi­gir isso é apo­lo­gia ao estu­pro — é absurdo, rea­ci­o­ná­rio e lança uma maior luz sobre a natu­reza preto-ou-branco des­ses defen­so­res da jus­tiça social da Gera­ção Y. Dis­cor­dar (ou até ques­ti­o­nar) esse radi­ca­lismo é ter suas pala­vras dis­tor­ci­das para uma inter­pre­ta­ção des­fa­vo­rá­vel: você não está defen­dendo o “devido pro­cesso legal”, você está defen­dendo que os racis­tas não sejam puni­dos, per­pe­tu­ando a cul­tura do estu­pro e for­ta­le­cendo a apo­lo­gia ao estu­pro. Por que, afi­nal de con­tas, alguém exi­gi­ria o devido pro­cesso legal quando uma mulher está acu­sando um homem de estu­pro? Do ponto de vista da jus­tiça social da Gera­ção Y, essa é uma exi­gên­cia que resulta em sexismo con­tra as mulhe­res e que tem por base, eles acham, uma taxa esta­tis­ti­ca­mente insig­ni­fi­cante de fal­sas acu­sa­ções de estu­pro.


Para o defen­sor da jus­tiça social dos nos­sos tem­pos, as con­clu­sões não depen­dem dos fatos; ao invés, os fatos depen­dem das con­clu­sões. Em um exem­plo geral de viés da con­fir­ma­ção, a ver­dade é maleá­vel. A ver­dade maleá­vel é mol­dada em torno dos pon­tos de vista teó­ri­cos da jus­tiça social. A fim de pre­ser­var a san­ti­dade des­ses pon­tos de vista, os adep­tos exi­lam quem dis­corda. Não é nada novo — é uma tática tão antiga quanto a pró­pria reli­gião. Em vez de tex­tos sagra­dos, porém, a jus­tiça social con­tem­po­râ­nea curva-se diante da trin­dade ide­o­ló­gica atu­al­mente vigente:  mar­xismo, femi­nismo e pós-colo­ni­a­lismo.

 

Novilíngua

 

Você não vê que todo o obje­tivo da Novi­lín­gua é limi­tar o alcance do pen­sa­mento? No final, tor­na­re­mos lite­ral­mente impos­sí­veis as mani­fes­ta­ções de pen­sa­men­tos cri­mi­no­sos, pois não haverá pala­vras para expressá-los. Qual­quer con­ceito que seja neces­sá­rio será expresso por uma única pala­vra, com seu sig­ni­fi­cado rigi­da­mente defi­nido e todos os demais sig­ni­fi­ca­dos sub­si­diá­rios apa­ga­dos e esque­ci­dos.” — George Orwell, 1984

A Novi­lín­gua da jus­tiça social da Gera­ção Y é um meca­nismo intri­cado e pode­ro­sa­mente con­ce­bido que pro­cura erra­di­car e soci­al­mente cri­mi­na­li­zar a dis­si­dên­cia.

Fale­mos do racismo, por exem­plo. O man­tra do movi­mento é assim: é impos­sí­vel ser racista con­tra os bran­cos, pois o racismo é a soma do pre­con­ceito com a posi­ção domi­nante. Já que os bran­cos detêm um poder social e econô­mico ins­ti­tu­ci­o­na­li­zado, aque­les que são raci­al­mente opri­mi­dos não podem ser racis­tas con­tra os bran­cos na medida em que não têm poder.

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Por que não posso sim­ples­mente refu­tar isso com uma incur­são ao dici­o­ná­rio? Por­que esse gesto é objeto de gar­ga­lha­das da turma da jus­tiça social. A ideia de uma pes­soa branca indo ao dici­o­ná­rio para encon­trar uma defi­ni­ção de racismo é, lite­ral­mente, uma figura de lin­gua­gem, pois o defen­sor da jus­tiça social moderna acha muito diver­tido que um dici­o­ná­rio, cri­ado por quem está poder para ser­vir aos que falam a lin­gua­gem do poder, possa even­tu­al­mente dar uma defi­ni­ção pre­cisa de uma pala­vra.

Entende aonde quero che­gar com isso? Hoje em dia você pode livrar-se da culpa de ree­la­bo­rar aca­de­mi­ca­mente todos os nuan­ces de uma pala­vra ao ponto de alterá-la fun­da­men­tal­mente a seu favor.

O mesmo é dito sobre sexismo e homens — que não se pode ser sexista con­tra os homens por­que vive­mos em uma soci­e­dade patri­ar­cal. E, no entanto, quando é exposto que os homens enfren­tam pro­ble­mas soci­ais, polí­ti­cos e econô­mi­cos legí­ti­mos, eles são infor­ma­dos de que o femi­nismo tem a solu­ção para eles tam­bém.

Orwell chama isso de “pen­sa­mento duplo”.

Ao invés de a dis­cus­são focar-se no fato de que advo­gar “a morte de todos os bran­cos” como estra­té­gia polí­tica e uti­li­zar #Cas­tre­To­do­sOsHo­mens como hash­tag expres­sam sen­ti­men­tos odi­o­sos e pre­con­cei­tu­o­sos, os defen­so­res da atual jus­tiça social jus­ti­fi­cam e legi­ti­mam essas fra­ses suge­rindo que não se tra­tam de atos racis­tas ou sexis­tas mas de legí­ti­mas mani­fes­ta­ções con­tra os opres­so­res. A dis­cus­são do quanto essas asser­ti­vas são genui­na­mente odi­o­sas e anti-pro­gres­sis­tas sequer vem à tona pois, à medida em que o roteiro é seguido, isso seria des­viar-se da dis­cus­são de legí­ti­mos pro­ble­mas dos opri­mi­dos para focar-se nos não-pro­ble­mas dos opres­so­res.

O que estou falando até agora não tem a inten­ção de desa­cre­di­tar o femi­nismo ou qual­quer posi­ção jus­tiça social que visa capa­ci­tar as pes­soas opri­mi­das ou reme­diar os males soci­ais. Como já dei­xei claro o sufi­ci­ente no iní­cio, essas são metas fun­da­men­tal­mente boas e neces­sá­rias. O pro­blema aqui são as táti­cas usa­das por alguns deten­to­res de suposta supe­ri­o­ri­dade moral para imu­ni­zar-se de crí­ti­cas enquanto pro­mo­vem um auto­ri­ta­rismo obtuso que cap­tura a soci­e­dade atra­vés de táti­cas sinis­tras e arre­pi­an­tes.

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Isso nos leva aos fun­da­men­tos supos­ta­mente esta­tís­ti­cos do movi­mento de jus­tiça social con­tem­po­râ­neo. Como Mark Twain cele­bre­mente disse: há men­ti­ras, men­ti­ras des­la­va­das e esta­tís­ti­cas.

Vamos vol­tar ao exem­plo da Rol­ling Stone e do suposto estu­pro na Uni­ver­si­dade de Vir­gí­nia. Há uma esta­tís­tica fre­quen­te­mente citada de que “uma em cada cinco mulhe­res sofre­rão um ata­que sexual nas uni­ver­si­da­des ame­ri­ca­nas”. Isso choca a cons­ci­ên­cia, como deve­ria, e é usado para ali­men­tar a his­te­ria da cul­tura do estu­pro em uni­ver­si­da­des de todo o país. Infe­liz­mente para os defen­so­res da jus­tiça social (e feliz­mente para mulhe­res em idade uni­ver­si­tá­ria em todos os luga­res), essa esta­tís­tica é cri­mi­no­sa­mente enga­nosa. Como Glenn Kes­s­ler, do Washing­ton Post, escreve, essa esta­tís­tica resulta de “uma só pes­quisa, base­ada nas expe­ri­ên­cias de estu­dan­tes em duas uni­ver­si­da­des. Como os pes­qui­sa­do­res regis­tra­ram, esses resul­ta­dos podem ser váli­dos para essas duas gran­des uni­ver­si­da­des, mas não neces­sa­ri­a­mente para as demais”. Mas por que defen­so­res de víti­mas de agres­são sexual excluem esse deta­lhe? O 1-em-5 é uma ótima maneira de dis­se­mi­nar o medo. Em um rela­tó­rio divul­gado pelo Bureau of Jus­tice Sta­tis­tics inti­tu­lado “estu­pro e agres­são sexual de mulhe­res em idade uni­ver­si­tá­ria, 1995–2013”, Lynn Lang­ton e Sofi Sino­zich rela­tam que “a taxa de estu­pro e agres­são sexual foi 1,2 vezes maior

Para mulhe­res não-estu­dan­tes (7,6 por mil) do que para estu­dan­tes (6,1 por 1.000): “Usar esta­tís­ti­cas deli­be­ra­da­mente enga­no­sas em uma cam­pa­nha maqui­a­vé­lica, na qual a erra­di­ca­ção dos ata­ques sexu­ais em campi uni­ver­si­tá­rios depende da má inter­pre­ta­ção de dados e da eli­mi­na­ção do devido pro­cesso legal, cola­bora mais para nos des­vi­ar­mos de con­ver­sas sobre ata­ques sexu­ais nas uni­ver­si­da­des do que um debate pro­du­tivo e legal­mente res­pon­sá­vel nos des­vi­a­ria.”

Tome­mos tam­bém como exem­plo a esta­tís­tica sobre dife­rença sala­rial citada em todos os luga­res, desde aulas de soci­o­lo­gia até dis­cur­sos pre­si­den­ci­ais: de que as mulhe­res rece­bem 70% menos do que os homens. A ver­dade é que essa é, de novo, uma esta­tís­tica enga­nosa, que tenta apli­car a nível naci­o­nal os dados agre­ga­dos a nível indi­vi­dual. A revista Time informa que “essa dis­pa­ri­dade sala­rial é sim­ples­mente a dife­rença entre as médias dos ganhos de todos os homens e mulhe­res que tra­ba­lham em tempo inte­gral. Ele não leva em conta dife­ren­ças de ocu­pa­ções, posi­ções, edu­ca­ção, esta­bi­li­dade no emprego ou horas tra­ba­lha­das por semana. Quando esses fato­res são con­si­de­ra­dos rele­van­tes, a dife­rença sala­rial estreita a ponto de desa­pa­re­cer”. Isso é cor­ro­bo­rado por uma quan­ti­dade apa­ren­te­mente infi­nita de fon­tes como o Wall Street Jour­nal e Abi­gail Hall, que iro­niza que “você não gos­ta­ria de com­pa­rar os ren­di­men­tos de pro­fes­so­res do ensino fun­da­men­tal com os de aca­dê­mi­cos com dou­to­rado e recla­mar de que há uma dife­rença sala­rial entre físi­cos e pro­fes­so­res secun­da­ris­tas”. Note-se que há cinco fon­tes só neste pará­grafo.

Usar esta­tís­ti­cas enga­no­sas para empur­rar uma agenda não faz nenhum bem a nin­guém. Isso impede o pro­gresso, na ten­ta­tiva de apoiar uma causa legí­tima com fun­da­men­tos de má qua­li­dade. Fun­da­men­tos que, com o tempo, entra­rão em colapso — e o pro­gres­sismo com eles.

Aqui está o pro­blema — mui­tos lei­to­res fica­rão indig­na­dos só pelo fato de que estou apre­sen­tando essas esta­tís­ti­cas sob um ponto de vista nega­tivo. Afi­nal, por que eu faria tal coisa senão para retra­tar o femi­nismo de um modo feio ou para mini­mi­zar o pro­blema do estu­pro nas uni­ver­si­da­des? Como um homem hete­ros­se­xual, pre­sume-se que estou fazendo isso não em nome da hones­ti­dade aca­dê­mica de con­fir­mar os fatos, mas por razões sexis­tas, ou por­que sou um apo­lo­gista do estu­pro, ou por­que acho que as mulhe­res estão “pedindo por isso”.

Mas aqui está o deta­lhe — quem eu sou não tem (ou não deve­ria ter) qual­quer influên­cia sobre os fatos. O pro­blema com esse tipo de defesa da jus­tiça social moderna é que a iden­ti­dade de uma pes­soa (raça, classe, gênero, etc.) torna-se o prin­cí­pio e o fim de toda a sua capa­ci­dade de ter um certo ponto de vista. Um defen­sor da jus­tiça social moderna pode des­qua­li­fi­car uma opi­nião sim­ples­mente por­que ela é dita ou escrita por alguém de um grupo que é con­si­de­rado opres­sor. É uma falá­cia lógica conhe­cida como ad homi­nem, na qual alguém ataca uma pes­soa que apre­senta um argu­mento ao invés de ata­car o pró­prio argu­mento. Mas essa falá­cia lógica tor­nou-se a prin­ci­pal arma da jus­tiça social da Gera­ção Y. É a morte da vida aca­dê­mica, do pen­sa­mento crí­tico e da hones­ti­dade inte­lec­tual. No entanto, essa é a prin­ci­pal forma de se com­por­tar nas uni­ver­si­da­des em todo o país.

 

Conclusão

Esse longo artigo pode­ria ir muito mais longe. Eu pode­ria falar sobre como a seg­men­ta­ção das pes­soas em gru­pos base­a­dos na iden­ti­dade polí­tica é uma ide­o­lo­gia regres­siva e pas­si­o­nal que agride a ver­da­deira diver­si­dade. Eu pode­ria falar sobre como a pro­posta de “dife­ren­tes mas iguais” acaba não se tor­nando uma coisa boa, pois a esquerda a refor­mula e a chama de “espa­ços de segu­rança”.

O fato é que esse tipo par­ti­cu­lar de estra­té­gia da jus­tiça social é des­tru­tivo para a aca­de­mia, a hones­ti­dade inte­lec­tual, o ver­da­deiro pen­sa­mento crí­tico e a mente aberta. Já o vemos ter um impacto pro­fundo na forma como as uni­ver­si­da­des agem e como eles abor­dam o cur­rí­culo.

Os argu­men­tos apre­sen­ta­dos sob a ban­deira desse tipo de jus­tiça social são mui­tas vezes insig­ni­fi­can­tes, geral­mente mes­qui­nhos e sem­pre absol­vi­dos de qual­quer culpa pelo auto-posi­ci­o­na­mento moral do ora­dor. E sim, às vezes eles são sexis­tas e racis­tas tam­bém.

Enxer­gar tudo atra­vés de um ponto de vista teó­rico par­ti­cu­lar (isto é, femi­nista, mar­xista, pós-colo­ni­a­lista, etc.) é um exer­cí­cio inte­lec­tual limi­ta­tivo que só fun­ci­ona no vácuo. O mundo é mais do que um ponto de vista. O exí­lio público daque­les que sus­ten­tam pon­tos de vista alter­na­ti­vos não é de forma alguma favo­rá­vel ao pro­gresso social. O oposto do ódio não é ódio na dire­ção oposta. Não há des­culpa — nenhuma — para ser uma má pes­soa em rela­ção a outra com base na sua iden­ti­dade.

Per­mi­tam-me, final­mente, ser sufi­ci­en­te­mente, sufi­ci­en­te­mente claro (aprendi que isso era neces­sá­rio alguns meses atrás). A jus­tiça social e a defesa da jus­tiça social é uma coisa boa. Uti­li­zar a edu­ca­ção de alguém para resol­ver pro­ble­mas soci­ais é uma meta admi­rá­vel.

previsivel

A ver­são da jus­tiça social de que tenho falado — a que usa a polí­tica da iden­ti­dade para seg­men­tar gru­pos de pes­soas, que gera ódio entre gru­pos, que mente deli­be­ra­da­mente para impul­si­o­nar metas polí­ti­cas, que mani­pula a lin­gua­gem para criar imu­ni­dade à crí­tica e que publi­ca­mente cons­trange qual­quer um que remo­ta­mente mani­feste alguma espé­cie de dis­cor­dân­cia da abran­gente nar­ra­tiva radi­cal — não é admi­rá­vel. É deplo­rá­vel. Ele apela para os mais vis dos ins­tin­tos huma­nos: o medo e o ódio. Não é uma posi­ção escla­re­cida ou edu­cada de se assu­mir. A his­tó­ria não verá com bons olhos esta per­ver­são orwel­li­ana e auto­ri­tá­ria da jus­tiça social que pas­sou a domi­nar as mídias soci­ais e uma gera­ção inteira ao longo dos últi­mos anos.

Aque­les que pre­ci­sam ouvir esta men­sa­gem pro­va­vel­mente argu­men­ta­rão que (1) tenho pri­vi­lé­gios demais para com­pre­en­der, (2) estou poli­ci­ando os opri­mi­dos (e eu não deve­ria dizer ao opri­mido como devem tra­tar seus opres­so­res) e (3) sou na ver­dade um racista e sexista dis­far­çado de pro­gres­sista. Espero esses argu­men­tos, em parte por­que estou acos­tu­mado a ver esse roteiro se repe­tir nos últi­mos qua­tro anos de uni­ver­si­dade.

Mas o fato que importa é o seguinte: aque­les que não estão dis­pos­tos a, sob a pro­te­ção moral do pro­gres­sismo e da jus­tiça social, enga­jar-se em diá­lo­gos pro­du­ti­vos, aber­tos e mutu­a­mente crí­ti­cos com pes­soas que dis­cor­dam não são pro­gres­sis­tas, não são defen­so­res da jus­tiça social; eles são os valen­tões da jus­tiça social.


Tra­du­ção do texto publi­cado ori­gi­nal­mente no Medium auto­ri­zada pelo autor.


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Nota do tra­du­tor 1: todas as ima­gens que ilus­tram este texto são ver­da­dei­ras e foram reti­ra­das da página pro­gres­sista Aven­tu­ras na Jus­tiça Social.

Nota do tra­du­tor 2: como o autor deste artigo, o site Ano Zero é voca­ci­o­nado à defesa do pro­gres­sismo social, o que não implica na acei­ta­ção acrí­tica de todas as estra­té­gias dos movi­men­tos pro­gres­sis­tas con­tem­po­râ­neos.


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