“Adquirimos uma espécie de compulsão que nossos avós não tiveram, uma consciência da enorme injustiça e miséria do mundo e um sentimento culposo de que deveríamos estar fazendo alguma coisa a respeito (…)” ~ Orwell

“(…)Ao mesmo tempo, a verdade sobre o regime de Stálin, quem me dera pudéssemos apreendê-la, é de primordial importância. Será socialismo ou será uma forma particularmente perversa de capitalismo de Estado?” ~ Orwell

“Nos campi de universidades britânicas e americanas, as obras de Foucault e Derrida foram mais do que uma moda. Na esquerda, a tentativa de Louis Althussr de recriar o comunismo pelo pensamento abstrato foi provavelmente o último suspiro da ideia” ~ Hitchens


Geralmente, escritores não começam seus textos comentando sobre as citações ou aforismos que os iniciam.

Mas me vejo obrigado a fazer isso, pois selecionei aqui trechos de George Orwell, ou Eric Blair, seu nome verdadeiro, e Christopher Hitchens, autor de A vitória de Orwell, que ajudam a compor momentos e temas sempre presentes não só na literatura, mas na vida pessoal do próprio Orwell.

A maioria de nós pensa nele como o autor de obras célebres como 1984 A Revolução dos Bichos, mas ele é muito mais que um autor.

Orwell foi um militante de temas que na época ninguém ousava debater – a não ser que fosse para falar bem. Muito embora sua habilidade como jornalista fosse mais elogiada do que seus dotes literários, sua escrita se concentrava em temas como:

(i) Comunismo x fascismo

(ii) Direita x esquerda

(iii) Maniqueísmo

(iv) Oposição contra a objetividade e clareza na exposição de ideias

(v) Relativismo

Orwell e a necessidade de expor o elefante na sala

Essa poderia facilmente ser confundida com uma pauta contemporânea. Assim como décadas atrás, hoje falar de temas como relativismo e ideologia política ainda geram debates fervorosos – e de má qualidade.

Fazenda revolução dos bichosUm tempo atrás escrevi uma pequena resenha sobre A Revolução dos Bichos, assumidamente uma crítica ao stalinismo.

Muitas pessoas me procuraram indignadíssimas, dizendo que eu estava inventando tudo. Isso deixou muito claro como temos uma enorme simpatia pelo comunismo e pela URSS, o que acho surpreendente.

Isso é explicável: embora URSS e outros países socialistas tenham perpetrado grandes atrocidades, eles representaram uma oposição direta ao capitalismo, o que garante ainda uma posição de prestígio para os opositores do sistema capitalista.

De qualquer forma, o que me deixou impressionado nesse caso específico foi que o próprio George Orwell revelou suas intenções críticas.

Ele foi um dos poucos que se manifestou contra os perigos práticos do stalinismo. Viu tudo isso de perto e não está mais aqui para continuar nos prevenindo do perigo.

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Naquela época, o problema era o comunismo e o fascismo, hoje, temos rebarbas ideológicas desses movimentos e ainda poucos saudosistas que clamam por uma revolução comunista ou pela intervenção fascista dos militares.

Esses grupos faziam uso generoso do relativismo, da manipulação e de outras táticas dignas de uma distopia política.

Talvez por isso Orwell tenha se tornado um dos primeiros a defender a objetividade como valor fundamental para a sinceridade intelectual e luta efetiva contra a opressão – que nada tem a ver com escrever “Fora Temer” nos copos da Starbucks.

“seu trabalho sobre a ‘questão inglesa’ e os assuntos afins do nacionalismo regional e integração europeia; suas ideias sobre a importância da linguagem, que anteciparam boa parte do que hoje debatemos sob as rubricas do psychobabble (‘psicologuês’), discurso burocrático e “politicamente correto”; seu interesse pela cultura das massas ou popular, e pelo que atualmente se designa como “estudos culturais”; seu fascínio pelo problema da verdade objetiva ou comprovável — um problema central no discurso que hoje ouvimos dos teóricos pós-modernos; sua influência sobre a ficção posterior, inclusive a chamada ‘Angry Young Man’ novel; sua preocupação com o meio ambiente e com o que hoje chamamos de ‘conservacionismo’ ou ‘ecologia’; sua extraordinária consciência dos perigos do ‘nuclearismo’ e do Estado nuclear.”

Era como se não houvesse como escrever sobre outra coisa:

“Adquirimos uma espécie de compulsão que nossos avós não tiveram, uma consciência da enorme injustiça e miséria do mundo e um sentimento culposo de que deveríamos estar fazendo alguma coisa a respeito, o que impossibilita uma atitude puramente estética diante da vida. Ninguém, agora, poderia dedicar-se à literatura com tanta singularidade de propósito como Joyce ou Henry James.”

 

“Orwell cabeça de girafa”

george orwell
Não sei de onde tirei que ele parece uma “girafinha”.

Sua luta e suas defesas acabaram fazendo com que fosse renegado nos países capitalistas, inclusive a própria Inglaterra, logo após o término de A Revolução dos Bichos uma propaganda explícita contra Stálin, então aliado inglês.

Claro, os partidários da revolução comunista também não gostaram nada da propaganda.

Christopher Hitchens, também inglês, adquiriu essa ambivalência política, sendo um assumido esquerdista, mas contra os extremos idiotas de ambos os espectros (fascismo e comunismo).

George Orwell tinha visto de perto os terrores do expansionismo soviético e do colonialismo inglês. Era impossível ficar em qualquer um desses lados.

Esse é mais ou menos o plano de fundo no qual se constroem a identidade e as obras do autor. Mas, claro, no início de tudo eu conhecia um pouco dos livros mas mal sabia quem era Orwell para além de alguns elementos superficiais.

Durante anos George Orwell pairou sobre a minha vida como uma espécie de fantasma, mandando sinais de sua existência, sinais indiretos.

Nas aulas de inglês do colégio lembro de um capítulo que citava o autor, embora não lembre o assunto específico. O professor disse que sua obra elementar, 1984, tinha sido uma jogada espirituosa com o ano de autoria, 1948 – embora tenha sido publicado posteriormente, acho que uns dois anos depois. Adolescente, achei isso genial.

Era época da primeira edição do reality show Big Brother Brasil. O professor de inglês comentou também que o termo big brother tinha aparecido pela primeira vez nesse livro, e já designava uma espécie de onisciente vigilante personificado por equipamentos tecnológicos semelhantes a câmeras, as teletelas.

É irônico que hoje vivamos num mundo parecido com esse, em termos de falta de privacidade, mas no caso de 1984 tudo acontecia por conta de uma ditadura de um rosto com mil olhos, enquanto no nosso caso é mais para uma restrição auto-determinada, uma ditadura mais parecida com a de Admirável mundo novo, verdadeiramente sem rosto, alimentada pelos próprios escravos do sistema, como um app atualizado em tempo real e coletivamente pelos próprios usuários.

A famosa teletela do Big Brother, de 1984, de George Orwell
A famosa teletela do Big Brother

Aliás, seria ainda mais surpreendente saber que uma das inspirações para a distopia tinham vindo da Coreia do Norte, que mantinha alto-falantes espalhados anunciando vitórias fictícias em guerras igualmente fictícias.

Bom, eu ainda não tinha lido o livro nessa época de colégio, na verdade sabia pouco até sobre seu autor. Sabia apenas que era uma figura engraçada, com um bigodinho fino que lembrava um garçom, e um corte de cabelo que o deixava parecido com uma girafa.

Anos depois, já na universidade, me emprestaram o 1984. Elegi-o rapidamente como minha obra preferida de ficção científica.

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Em seguida, desfrutei do já citado A Revolução dos Bichos. Uma fábula sensacional, especialmente para quem entende o contexto político no qual foi criado. Ao mesmo tempo isso deixa evidente que sua criatividade se estende para gêneros além da ficção científica, pois esse livro lembra mais uma fábula.

Ainda mais tarde, já no mestrado, me aventurei por grande parte do contexto no qual tudo isso se inseria, autor e obras, e que podia explicar minha estranheza com a estrutura de A Revolução dos Bichos enquanto um autor de ficção científica. Parte disso se deve a A vitória de Orwell, uma biografia intelectual escrita por Hitchens.

Na verdade, Orwell era um intelectual criativo num mundo opressor, dúbio e violento. A desilusão também dominava seus pensamentos.

Na época, muitos intelectuais abraçaram o comunismo como um inimigo capaz de freiar o poderio americano, a sociedade de consumo. Era uma promessa utópica de paraíso na terra, mas era a única coisa que existia para os insatisfeitos e não resignados agarrarem.

Orwell bateu de cara numa verdade inconveniente: o gigante vermelho soviético não era uma promessa de paraíso, mas uma distopia sangrenta e manipuladora, a ponto de regar a semente de 1984 em sua mente. Toda sua literatura trabalhou a serviço de sua crítica política.

Para além das maquinações e maucaratismo de Stálin, Eric Blair foi um crítico da sociedade da época, sobrando até para o anglicanismo daqueles tempos – muito embora tenha sido um admirador da arquitetura clerical:

“Hoje em dia, um clérigo que deseja manter sua congregação só tem dois caminhos: ou o anglo-catolicismo puro e simples – melhor dizendo, puro e não simples -, ou ele tem de ser ousadamente moderno e de vistas largas e pregar sermões reconfortantes provando que não existe Inferno e que todas as boas religiões são a mesma coisa.”

Suas críticas também se direcionaram à relação peculiar que a Igreja tinha com o Terceiro Reich. Nas palavras do biógrafo Christopher Hitchens:

Curiosamente, suas diatribes contra o fascismo não estão entre seus textos melhores ou mais lembrados. Ele parece ter partido do pressuposto de que as “teorias” de Hitler, Mussolini e Franco eram a destilação de tudo o que havia de mais odioso e falso na sociedade que ele já conhecia, uma espécie de síntese satânica da arrogância militar, solipsismo racista, opressão escolar e cobiça capitalista. Seu descortino especial foi o frequente conluio da Igreja Católica Romana e dos intelectuais católicos com essa orgia de maldade e estupidez; a isso ele faz repetidas alusões. neste momento em que escrevo, a Igreja e seus apologistas estão apenas começando sua tardia reparação por esses períodos.

Churchill, Roosevelt e Stalin, a representação da união que impediu a publicação de A Revolução dos Bichos
Churchill, Roosevelt e Stalin, a representação da união que impediu a publicação de A Revolução dos Bichos

Para além de seus relatos jornalísticos, suas obras são ótimos exemplos, enquanto literatura, de histórias que podem ser muito melhor saboreadas se entendemos de que lugar estão sendo escritas, qual contexto motiva sua existência.

Também vale pela sua atualidade. A política é especialmente difícil enquanto objeto de debate por conta de sua natureza ideológica. Mas não devemos tirar toda a objetividade de seu conteúdo, isso seria a receita perfeita para uma distopia. Orwell ocupa um lugar importante ao pregar isso durante toda sua vida.

Num momento em que os debates políticos parecem anacrônicos, sem o mínimo de objetividade e dignos de uma briga entre torcidas organizadas, refrescar nosso intelecto com um pouco da experiência registrada de Eric Blair pode ser revigorante.

* Todos os trechos entre aspas foram retirados de A Vitória de Orwell.

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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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