George Orwell de perfil.

Orwell — Do Comunismo ao Relativismo Pós-Moderno

Em Consciência, História, Literatura, Política, Sociedade por Felipe NovaesComentários

Adqui­ri­mos uma espé­cie de com­pul­são que nos­sos avós não tive­ram, uma cons­ci­ên­cia da enorme injus­tiça e misé­ria do mundo e um sen­ti­mento cul­poso de que deve­ría­mos estar fazendo alguma coisa a res­peito (…)” ~ Orwell

(…)Ao mesmo tempo, a ver­dade sobre o regime de Stá­lin, quem me dera pudés­se­mos apre­endê-la, é de pri­mor­dial impor­tân­cia. Será soci­a­lismo ou será uma forma par­ti­cu­lar­mente per­versa de capi­ta­lismo de Estado?” ~ Orwell

Nos campi de uni­ver­si­da­des bri­tâ­ni­cas e ame­ri­ca­nas, as obras de Fou­cault e Der­rida foram mais do que uma moda. Na esquerda, a ten­ta­tiva de Louis Althussr de recriar o comu­nismo pelo pen­sa­mento abs­trato foi pro­va­vel­mente o último sus­piro da ideia” ~ Hit­chens


Geral­mente, escri­to­res não come­çam seus tex­tos comen­tando sobre as cita­ções ou afo­ris­mos que os ini­ciam.

Mas me vejo obri­gado a fazer isso, pois sele­ci­o­nei aqui tre­chos de George Orwell, ou Eric Blair, seu nome ver­da­deiro, e Chris­topher Hit­chens, autor de A vitó­ria de Orwell, que aju­dam a com­por momen­tos e temas sem­pre pre­sen­tes não só na lite­ra­tura, mas na vida pes­soal do pró­prio Orwell. 

A mai­o­ria de nós pensa nele como o autor de obras céle­bres como 1984 A Revo­lu­ção dos Bichos, mas ele é muito mais que um autor.

Orwell foi um mili­tante de temas que na época nin­guém ousava deba­ter — a não ser que fosse para falar bem. Muito embora sua habi­li­dade como jor­na­lista fosse mais elo­gi­ada do que seus dotes lite­rá­rios, sua escrita se con­cen­trava em temas como:

(i) Comu­nismo x fas­cismo

(ii) Direita x esquerda

(iii) Mani­queísmo

(iv) Opo­si­ção con­tra a obje­ti­vi­dade e cla­reza na expo­si­ção de ideias

(v) Rela­ti­vismo

Orwell e a necessidade de expor o elefante na sala

Essa pode­ria facil­mente ser con­fun­dida com uma pauta con­tem­po­râ­nea. Assim como déca­das atrás, hoje falar de temas como rela­ti­vismo e ide­o­lo­gia polí­tica ainda geram deba­tes fer­vo­ro­sos — e de má qua­li­dade.

Fazenda revolução dos bichosUm tempo atrás escrevi uma pequena rese­nha sobre A Revo­lu­ção dos Bichos, assu­mi­da­mente uma crí­tica ao sta­li­nismo.

Mui­tas pes­soas me pro­cu­ra­ram indig­na­dís­si­mas, dizendo que eu estava inven­tando tudo. Isso dei­xou muito claro como temos uma enorme sim­pa­tia pelo comu­nismo e pela URSS, o que acho sur­pre­en­dente.

Isso é expli­cá­vel: embora URSS e outros paí­ses soci­a­lis­tas tenham per­pe­trado gran­des atro­ci­da­des, eles repre­sen­ta­ram uma opo­si­ção direta ao capi­ta­lismo, o que garante ainda uma posi­ção de pres­tí­gio para os opo­si­to­res do sis­tema capi­ta­lista.

De qual­quer forma, o que me dei­xou impres­si­o­nado nesse caso espe­cí­fico foi que o pró­prio George Orwell reve­lou suas inten­ções crí­ti­cas.

Ele foi um dos pou­cos que se mani­fes­tou con­tra os peri­gos prá­ti­cos do sta­li­nismo. Viu tudo isso de perto e não está mais aqui para con­ti­nuar nos pre­ve­nindo do perigo.

a revolução dos bichos link afiliado

Naquela época, o pro­blema era o comu­nismo e o fas­cismo, hoje, temos rebar­bas ide­o­ló­gi­cas des­ses movi­men­tos e ainda pou­cos sau­do­sis­tas que cla­mam por uma revo­lu­ção comu­nista ou pela inter­ven­ção fas­cista dos mili­ta­res.

Esses gru­pos faziam uso gene­roso do rela­ti­vismo, da mani­pu­la­ção e de outras táti­cas dig­nas de uma dis­to­pia polí­tica.

Tal­vez por isso Orwell tenha se tor­nado um dos pri­mei­ros a defen­der a obje­ti­vi­dade como valor fun­da­men­tal para a sin­ce­ri­dade inte­lec­tual e luta efe­tiva con­tra a opres­são — que nada tem a ver com escre­ver “Fora Temer” nos copos da Star­bucks.

seu tra­ba­lho sobre a ‘ques­tão inglesa’ e os assun­tos afins do naci­o­na­lismo regi­o­nal e inte­gra­ção euro­peia; suas ideias sobre a impor­tân­cia da lin­gua­gem, que ante­ci­pa­ram boa parte do que hoje deba­te­mos sob as rubri­cas do psy­cho­bab­ble (‘psi­co­lo­guês’), dis­curso buro­crá­tico e “poli­ti­ca­mente cor­reto”; seu inte­resse pela cul­tura das mas­sas ou popu­lar, e pelo que atu­al­mente se designa como “estu­dos cul­tu­rais”; seu fas­cí­nio pelo pro­blema da ver­dade obje­tiva ou com­pro­vá­vel — um pro­blema cen­tral no dis­curso que hoje ouvi­mos dos teó­ri­cos pós-moder­nos; sua influên­cia sobre a fic­ção pos­te­rior, inclu­sive a cha­mada ‘Angry Young Man’ novel; sua pre­o­cu­pa­ção com o meio ambi­ente e com o que hoje cha­ma­mos de ‘con­ser­va­ci­o­nismo’ ou ‘eco­lo­gia’; sua extra­or­di­ná­ria cons­ci­ên­cia dos peri­gos do ‘nucle­a­rismo’ e do Estado nuclear.”

Era como se não hou­vesse como escre­ver sobre outra coisa:

Adqui­ri­mos uma espé­cie de com­pul­são que nos­sos avós não tive­ram, uma cons­ci­ên­cia da enorme injus­tiça e misé­ria do mundo e um sen­ti­mento cul­poso de que deve­ría­mos estar fazendo alguma coisa a res­peito, o que impos­si­bi­lita uma ati­tude pura­mente esté­tica diante da vida. Nin­guém, agora, pode­ria dedi­car-se à lite­ra­tura com tanta sin­gu­la­ri­dade de pro­pó­sito como Joyce ou Henry James.”

 

Orwell cabeça de girafa”

george orwell

Não sei de onde tirei que ele parece uma “gira­fi­nha”.

Sua luta e suas defe­sas aca­ba­ram fazendo com que fosse rene­gado nos paí­ses capi­ta­lis­tas, inclu­sive a pró­pria Ingla­terra, logo após o tér­mino de A Revo­lu­ção dos Bichos - uma pro­pa­ganda explí­cita con­tra Stá­lin, então ali­ado inglês.

Claro, os par­ti­dá­rios da revo­lu­ção comu­nista tam­bém não gos­ta­ram nada da pro­pa­ganda.

Chris­topher Hit­chens, tam­bém inglês, adqui­riu essa ambi­va­lên­cia polí­tica, sendo um assu­mido esquer­dista, mas con­tra os extre­mos idi­o­tas de ambos os espec­tros (fas­cismo e comu­nismo).

George Orwell tinha visto de perto os ter­ro­res do expan­si­o­nismo sovié­tico e do colo­ni­a­lismo inglês. Era impos­sí­vel ficar em qual­quer um des­ses lados.

Esse é mais ou menos o plano de fundo no qual se cons­troem a iden­ti­dade e as obras do autor. Mas, claro, no iní­cio de tudo eu conhe­cia um pouco dos livros mas mal sabia quem era Orwell para além de alguns ele­men­tos super­fi­ci­ais.

Durante anos George Orwell pai­rou sobre a minha vida como uma espé­cie de fan­tasma, man­dando sinais de sua exis­tên­cia, sinais indi­re­tos.

Nas aulas de inglês do colé­gio lem­bro de um capí­tulo que citava o autor, embora não lem­bre o assunto espe­cí­fico. O pro­fes­sor disse que sua obra ele­men­tar, 1984, tinha sido uma jogada espi­ri­tu­osa com o ano de auto­ria, 1948 — embora tenha sido publi­cado pos­te­ri­or­mente, acho que uns dois anos depois. Ado­les­cente, achei isso genial. 

Era época da pri­meira edi­ção do rea­lity show Big Brother Bra­sil. O pro­fes­sor de inglês comen­tou tam­bém que o termo big brother tinha apa­re­cido pela pri­meira vez nesse livro, e já desig­nava uma espé­cie de onis­ci­ente vigi­lante per­so­ni­fi­cado por equi­pa­men­tos tec­no­ló­gi­cos seme­lhan­tes a câme­ras, as tele­te­las.

É irô­nico que hoje viva­mos num mundo pare­cido com esse, em ter­mos de falta de pri­va­ci­dade, mas no caso de 1984 tudo acon­te­cia por conta de uma dita­dura de um rosto com mil olhos, enquanto no nosso caso é mais para uma res­tri­ção auto-deter­mi­nada, uma dita­dura mais pare­cida com a de Admi­rá­vel mundo novo, ver­da­dei­ra­mente sem rosto, ali­men­tada pelos pró­prios escra­vos do sis­tema, como um app atu­a­li­zado em tempo real e cole­ti­va­mente pelos pró­prios usuá­rios.

A famosa teletela do Big Brother, de 1984, de George Orwell

A famosa tele­tela do Big Brother

Aliás, seria ainda mais sur­pre­en­dente saber que uma das ins­pi­ra­ções para a dis­to­pia tinham vindo da Coreia do Norte, que man­ti­nha alto-falan­tes espa­lha­dos anun­ci­ando vitó­rias fic­tí­cias em guer­ras igual­mente fic­tí­cias.

Bom, eu ainda não tinha lido o livro nessa época de colé­gio, na ver­dade sabia pouco até sobre seu autor. Sabia ape­nas que era uma figura engra­çada, com um bigo­di­nho fino que lem­brava um gar­çom, e um corte de cabelo que o dei­xava pare­cido com uma girafa. 

Anos depois, já na uni­ver­si­dade, me empres­ta­ram o 1984. Elegi-o rapi­da­mente como minha obra pre­fe­rida de fic­ção cien­tí­fica.

1984 link afiliado

Em seguida, des­fru­tei do já citado A Revo­lu­ção dos Bichos. Uma fábula sen­sa­ci­o­nal, espe­ci­al­mente para quem entende o con­texto polí­tico no qual foi cri­ado. Ao mesmo tempo isso deixa evi­dente que sua cri­a­ti­vi­dade se estende para gêne­ros além da fic­ção cien­tí­fica, pois esse livro lem­bra mais uma fábula. 

Ainda mais tarde, já no mes­trado, me aven­tu­rei por grande parte do con­texto no qual tudo isso se inse­ria, autor e obras, e que podia expli­car minha estra­nheza com a estru­tura de A Revo­lu­ção dos Bichos enquanto um autor de fic­ção cien­tí­fica. Parte disso se deve a A vitó­ria de Orwell, uma bio­gra­fia inte­lec­tual escrita por Hit­chens.

Na ver­dade, Orwell era um inte­lec­tual cri­a­tivo num mundo opres­sor, dúbio e vio­lento. A desi­lu­são tam­bém domi­nava seus pen­sa­men­tos.

Na época, mui­tos inte­lec­tu­ais abra­ça­ram o comu­nismo como um ini­migo capaz de freiar o pode­rio ame­ri­cano, a soci­e­dade de con­sumo. Era uma pro­messa utó­pica de paraíso na terra, mas era a única coisa que exis­tia para os insa­tis­fei­tos e não resig­na­dos agar­ra­rem.

Orwell bateu de cara numa ver­dade incon­ve­ni­ente: o gigante ver­me­lho sovié­tico não era uma pro­messa de paraíso, mas uma dis­to­pia san­grenta e mani­pu­la­dora, a ponto de regar a semente de 1984 em sua mente. Toda sua lite­ra­tura tra­ba­lhou a ser­viço de sua crí­tica polí­tica.

Para além das maqui­na­ções e mau­ca­ra­tismo de Stá­lin, Eric Blair foi um crí­tico da soci­e­dade da época, sobrando até para o angli­ca­nismo daque­les tem­pos — muito embora tenha sido um admi­ra­dor da arqui­te­tura cle­ri­cal:

Hoje em dia, um clé­rigo que deseja man­ter sua con­gre­ga­ção só tem dois cami­nhos: ou o anglo-cato­li­cismo puro e sim­ples — melhor dizendo, puro e não sim­ples -, ou ele tem de ser ousa­da­mente moderno e de vis­tas lar­gas e pre­gar ser­mões recon­for­tan­tes pro­vando que não existe Inferno e que todas as boas reli­giões são a mesma coisa.”

Suas crí­ti­cas tam­bém se dire­ci­o­na­ram à rela­ção pecu­liar que a Igreja tinha com o Ter­ceiro Reich. Nas pala­vras do bió­grafo Chris­topher Hit­chens:

Curi­o­sa­mente, suas dia­tri­bes con­tra o fas­cismo não estão entre seus tex­tos melho­res ou mais lem­bra­dos. Ele parece ter par­tido do pres­su­posto de que as “teo­rias” de Hitler, Mus­so­lini e Franco eram a des­ti­la­ção de tudo o que havia de mais odi­oso e falso na soci­e­dade que ele já conhe­cia, uma espé­cie de sín­tese satâ­nica da arro­gân­cia mili­tar, solip­sismo racista, opres­são esco­lar e cobiça capi­ta­lista. Seu des­cor­tino espe­cial foi o fre­quente con­luio da Igreja Cató­lica Romana e dos inte­lec­tu­ais cató­li­cos com essa orgia de mal­dade e estu­pi­dez; a isso ele faz repe­ti­das alu­sões. neste momento em que escrevo, a Igreja e seus apo­lo­gis­tas estão ape­nas come­çando sua tar­dia repa­ra­ção por esses perío­dos.

Churchill, Roosevelt e Stalin, a representação da união que impediu a publicação de A Revolução dos Bichos

Chur­chill, Roo­se­velt e Sta­lin, a repre­sen­ta­ção da união que impe­diu a publi­ca­ção de A Revo­lu­ção dos Bichos

Para além de seus rela­tos jor­na­lís­ti­cos, suas obras são óti­mos exem­plos, enquanto lite­ra­tura, de his­tó­rias que podem ser muito melhor sabo­re­a­das se enten­de­mos de que lugar estão sendo escri­tas, qual con­texto motiva sua exis­tên­cia.

Tam­bém vale pela sua atu­a­li­dade. A polí­tica é espe­ci­al­mente difí­cil enquanto objeto de debate por conta de sua natu­reza ide­o­ló­gica. Mas não deve­mos tirar toda a obje­ti­vi­dade de seu con­teúdo, isso seria a receita per­feita para uma dis­to­pia. Orwell ocupa um lugar impor­tante ao pre­gar isso durante toda sua vida. 

Num momento em que os deba­tes polí­ti­cos pare­cem ana­crô­ni­cos, sem o mínimo de obje­ti­vi­dade e dig­nos de uma briga entre tor­ci­das orga­ni­za­das, refres­car nosso inte­lecto com um pouco da expe­ri­ên­cia regis­trada de Eric Blair pode ser revi­go­rante.

* Todos os tre­chos entre aspas foram reti­ra­dos de A Vitó­ria de Orwell.

a vitória de orwell link afiliado


Gos­tou das dicas de lei­tura? Então conheça o Patreon do AZ e finan­cie nosso pro­jeto!
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

Os bichos de Orwell e nosso sta­tus na fazenda humana
Os valen­tões da jus­tiça social

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

Compartilhe