Talvez você já tenha chamado alguém de orgulhoso em algum momento de sua vida. O orgulho, aquela parte do comportamento humano que nos exalta, destrói relacionamentos. Sim, estou falando do sentimento que coloca a nós mesmos como símbolo da virtude humana intangível.

O que é o orgulho? (Segundo o Michaelis)

orgulho or.gu.lho sm (cat urgoll, do germ) 1 Conceito muito elevado que alguém faz de si mesmo; altivez, brio. 2 Amor-próprio exagerado. 3 Empáfia, bazófia, soberba. Ufania. 5 Aquilo de que alguém pode orgulhar-se: O bom filho é o orgulho de seus pais.

Mas deixa eu te falar uma coisa: o orgulho é um sentimento traiçoeiro.

Não importa se você teve orgulho por ter sido uma pessoa ética na sua vida, pela cor da sua pele ou por ser o diferentão das redes sociais. Por quê? Isso não interessa a ninguém, realmente.

Não somos especiais por sermos pobres ou termos dinheiro, termos conquistado um diploma universitário ou sentirmos algo com a cor de pele, gênero sexual ou sendo filho ou namorado preferido. Somos apenas mais do mesmo, seres pensantes tentando encontrar sentido em algo que fazemos com nossas vidas.

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A revolta daqueles que não cumprem expectativas

Trabalho infantil. Orgulho e quebra de expectativas.

Se você tem mais de quinze anos de idade, talvez tenha escutado a seguinte expressão da boca de alguém: “Você é um orgulho pra família” ou “Você fez um ótimo trabalho”.

Diversos grupos de nosso convívio esperam ter as expectativas que colocaram em você cumpridas. Seus pais, familiares, namorada, amigos e empregador esperam que você satisfaça a agenda pessoal deles; arranjar emprego, ter sucesso em alguma coisa, cumprir com o trabalho, uma vida feliz e sem errar.

Afinal, que tipo de família não quer o próprio sucesso para os filhos? Ou então que tipo de namorado(a) não iria querer o melhor para seu cônjuge?

Feche os olhos e pense nas vezes em que brigou com a pessoa amada ou algum familiar e examine os fatos: você pode ter sido um escroto ou simplesmente não ter cumprido com a expectativa da pessoa, acabando com a imagem projetada que ela tinha de você.  

Seu pai ou mãe te projeta a vida toda para ser advogado e de repente você resolve viver de vender pães artesanais na rua. Eles se revoltam, não esperavam isso. O orgulho que eles sentiam de você, pelos seus feitos, bajulava apenas eles mesmos.

Você pode se tornar rico como vendedor de pão, mas será visto com escárnio e aspereza por eles e por grupos que compartilham valores semelhantes, pois você nadou contra a maré.

Podemos ter sucesso em qualquer coisa, mas quando não obedecemos as vontades dos outros que correspondem ao orgulho, existirá uma boa chance de recebermos desprezo, falsidade e egoísmo.

O orgulho é muito particular. Cobramos muito nossas próprias expectativas ou as projetadas sobre nós, de outras pessoas.

“Meu filho é o ser mais inteligente do mundo!” – a mãe após ele concluir alguma coisa pedida.

“Tenho a melhor namorada do mundo” – o cara após ter experimentado um amor sincero.

Pense por um momento caso não obtivéssemos alguma dessas expectativas externas, poderíamos escutar coisas como:

“Não acredito que meu filho fez essa burrice”

“Meu namorado não me ama mais ou não se importa comigo”

Você foi uma decepção. A expectativa que tinham com sua existência? Jogada no vácuo existencial. Agora, por que exatamente pensariam dessa forma? Simples: o simbolismo da virtude – o que consideravam como certo, foi contrariado.  

A virtude é um conjunto de valores exponentes de coisas positivas. Ao descarrilhar para o lado não sendo a projeção que esperavam, revolta é gerada.

 

O simbolismo do orgulho e sua expressão

Tribo punk. | Simbolismo e expressão do orgulho tribal.

Você acorda de manhã, está tomando seu café espresso extra-forte, abre o Facebook e vê 4 postagens de pessoas diferentes.

  1. Johannes é um fã assíduo de uma banda de rock que compartilhou a letra da música de que gosta;
  2. Sebastian é um vegan compartilhando uma receita de mandioqueijo;
  3. Opala é uma feminista mostrando uma tirinha pró-mulheres;
  4. Artemis é uma pessoa tatuada compartilhando uma arte que achou legal.

Usando o exemplo de rock, alguns fãs adotam todo o simbolismo ou cultura da banda e estilo.

As postagens de Johannes são todas exaltando, com orgulho, shows dos quais participou. Comprou camiseta na galeria do rock, tirou uma música na guitarra e assim se tornou um “tr00” (expressão que indica autenticidade cultural e da tribo inserida). Enxergava em si o representante da classe, bom e velho entendedor do assunto.

Johannes possuía tanto orgulho de si mesmo por gostar de rock, que começou a desenvolver uma idolatria ao estilo na cabeça, querendo estreitar mais os laços com símbolos da tribo roqueira, através de fotos, camisetas, shows e tocando algum instrumento musical.

Logo virou um grande influenciador entre pessoas que gostavam de rock. Elevando tanto o estilo e a si mesmo, começou a enxergar outros de forma diferenciada. Quem tinha menos que ele ou era diferente, recebia apenas o desdém. Quem discordava do orgulho de Johannes, era considerado poser

Um verdadeiro fã de AC/DC deve saber as letras das músicas e ter pelo menos duas camisetas.

Possuindo amizades com pessoas tão troo quanto ele, era um orgulho demonstrar para todos seus gostos e vaidades pessoais, na esperança da autoafirmação gerar mais seguidores, realçando a imagem orgulhosa de si. 

Johannes não é muito diferente de uma mãe querendo ter um filho advogado para estufar o peito e comentar para os outros que é o orgulho da família, por ter seguido os desejos ansiados dela.

Seja no estilo musical, profissões e ideologias, o orgulho carrega a autoafirmação das particularidades de nossa identidade no simbolismo de tribos, fortalecendo dicotomias ou dualidades, impedindo novas ideias ou diálogos com pensamentos diferentes.

 

A identidade simbólica e o individuo

Por que você tem orgulho de gostar de música? Fazer musculação? Participar de ativismos? Ser pai/mãe? Uma boa pessoa? De matar? De ter uma Ferrari? Ter um lar? Ser hetero? Ser homo? Ser negro? Nazista? Nacionalista? Vegan? Feminista? Liberal? Anarquista? Comunista? Roqueiro? Otaku?

O que motiva você a exercer uma autoafirmação e se ver como entidade responsável por uma coisa ou porta-voz dela?

São os valores transmitidos pelo simbolismo.

Qual o simbolismo do militarismo? Seus valores? Podemos dizer que seja hierarquia, respeito à instituição militar e o patriotismo.

Militarismo > Hierarquia > Respeito à instituição militar > Patriotismo

*O patriotismo em organizações militares ou mesmo pessoas fanáticas pelo bem do país, podem se tornar nacionalismo. O nacionalismo coloca os interesses do Estado em nome de algo acima de tudo.

Caso você tenha sido um militar que tenha crescido com valores da infantaria, certamente será motivado a criar um filho com os mesmos princípios, tornando no futuro o orgulho do pai por manter as tradições.

Valores compartilhados mutuamente criam empatia e fortalecem as relações interpessoais com seus semelhantes, promovendo a integração social e cultural.

Mas o que acontece caso não absorva o “valor” que o pai “orgulhoso” quis passar?

Hipoteticamente, em algumas situações, o filho poderá viver em estado revolto; e o pai pode se tornar um controlador, onde, pelo uso de força e intimidação, molda seu filho com base no próprio gosto pessoal – o militarismo, no caso, realçando as crenças desse meio e as motivações no filho.

Esse é apenas um entre outros exemplos que podem ser mutáveis para a vida.

O simbolismo orgulhoso nada mais é que um conjunto de ideias agrupadas, representadas por uma entidade unitária coletiva.

No ensaio sobre o fanatismo nacionalista, George Orwell escreveu:

“… O nacionalista simplesmente não se une ao lado de maior força. Pelo contrário, ao escolher seu lado, ele persuade a si mesmo de que é o mais forte, permitindo prolongar a sua crença, mesmo quando os fatos estão contra ele.

O nacionalismo é como uma fome de poder temperada pelo auto-engano. Todo nacionalista é capaz da mais flagrante desonestidade, mas também – por ser consciente de estar servindo a algo maior que ele mesmo – acredita que está absolutamente certo…

Saiba mais sobre Orwell clicando aqui.

Pegue o nazismo, comunismo e qualquer ismo. Desmantele e encontrará os mesmos elementos de um fã de rock pirado ou um nacionalista. Em tudo há um simbolismo, um ritual de hábitos ou a servidão a algo maior, realçada pelo coletivo e que gera um valor moral, tornando-se representação de orgulho e autoafirmação.

O individuo e como ele entra em coletivos. | Orgulho
O individuo é um ser social e com gostos. Eles são ligados em marcas, filosofias e ideias que expressam elementos de empatia. O símbolo com que se identifica carrega uma ideia, causa e motivação, dos quais ele se orgulha em diversos níveis. Vários porquês. Um coletivo que carrega o mesmo simbolismo irá realçar todos esses valores e reiterar a ideia que ele já tinha. Sim, o Facebook funciona dessa forma.

Um pouco sem noção a disparidade de comparações feitas aqui? Com roqueiros e militares? Talvez você pense isso. Achou ofensivo colocar nazismo no meio? Todos eles são catalisadores coletivos de ideias em pessoas. Possuem um código, um rito, tradição, valores, padrões e cultura. No âmago, a estrutura é igual, o conteúdo não.

As unidades coletivas dão identidades para quem não tem identidade. Um avatar pré-fabricado ideológico.

Neste vídeo, Clarion mostra o que acontece no dia-a-dia com pessoas que são abordadas constantemente por ideias de diversas vertentes ideológicas e parte da rejeição que ocorre quando você só escolhe pegar um elemento de uma delas.

Quanto mais uma pessoa se identifica com uma ideia, mais suscetível será de se fechar em um círculo de indivíduos com pensamentos não plurais. Exemplo palpável disso? Facebook.

Não importa a ideologia e o gosto. Se ela é boa ou ruim. Excluímos quem pensa diferente, quem nos critica, mantemos apenas as pessoas que possuem os mesmos valores que nós.

Cultivamos a zona de conforto do pensamento, abraçamos com orgulho nossos gostos e nos tornamos narcisistas do ego com o simbolismo delas.

Sim. É totalmente normal ter orgulho de nossas filosofias e conquistas. Se são imorais? Não importa, tudo gira em torno da autoafirmação. O problema é quando ela acaba cessando a liberdade dos outros, impondo e obstruindo o outro com a própria visão projetada da realidade ou pela agressão.

Cabe refletir até que ponto o orgulho, o narcisismo e nossos gostos nos modificam como pessoas, nos olhando com autocrítica para evitar armadilhas binárias de pensamento e integrarmos melhor nossas relações humanas.


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escrito por:

Jean F.

Entusiasta de empreendedorismo, marketing digital/SEO/fitness sem bullshit/cultura pop, viagens, arte e filosofia. Se deixar, a lista de coisas ficará mais longa que o sobrenome do Dom Pedro I.