Panteras negras estendendo as mãos e grupo branco contra casamento inter-racial. | O orgulho é inútil, e só interessa a você mesmo.

O orgulho é inútil, e só interessa a você mesmo

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Jean F.Comentários

Tal­vez você já tenha cha­mado alguém de orgu­lhoso em algum momento de sua vida. O orgu­lho, aquela parte do com­por­ta­mento humano que nos exalta, des­trói rela­ci­o­na­men­tos. Sim, estou falando do sen­ti­mento que coloca a nós mes­mos como sím­bolo da vir­tude humana intan­gí­vel.

O que é o orgu­lho? (Segundo o Micha­e­lis)

orgu­lho or.gu.lho sm (cat urgoll, do germ) 1 Con­ceito muito ele­vado que alguém faz de si mesmo; alti­vez, brio. 2 Amor-pró­prio exa­ge­rado. 3 Empá­fia, bazó­fia, soberba. Ufa­nia. 5 Aquilo de que alguém pode orgu­lhar-se: O bom filho é o orgu­lho de seus pais.

Mas deixa eu te falar uma coisa: o orgu­lho é um sen­ti­mento trai­ço­eiro.

Não importa se você teve orgu­lho por ter sido uma pes­soa ética na sua vida, pela cor da sua pele ou por ser o dife­ren­tão das redes soci­ais. Por quê? Isso não inte­ressa a nin­guém, real­mente.

Não somos espe­ci­ais por ser­mos pobres ou ter­mos dinheiro, ter­mos con­quis­tado um diploma uni­ver­si­tá­rio ou sen­tir­mos algo com a cor de pele, gênero sexual ou sendo filho ou namo­rado pre­fe­rido. Somos ape­nas mais do mesmo, seres pen­san­tes ten­tando encon­trar sen­tido em algo que faze­mos com nos­sas vidas.

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A revolta daqueles que não cumprem expectativas

Trabalho infantil. Orgulho e quebra de expectativas.

Se você tem mais de quinze anos de idade, tal­vez tenha escu­tado a seguinte expres­são da boca de alguém: “Você é um orgu­lho pra famí­lia” ou “Você fez um ótimo tra­ba­lho”.

Diver­sos gru­pos de nosso con­ví­vio espe­ram ter as expec­ta­ti­vas que colo­ca­ram em você cum­pri­das. Seus pais, fami­li­a­res, namo­rada, ami­gos e empre­ga­dor espe­ram que você satis­faça a agenda pes­soal deles; arran­jar emprego, ter sucesso em alguma coisa, cum­prir com o tra­ba­lho, uma vida feliz e sem errar.

Afi­nal, que tipo de famí­lia não quer o pró­prio sucesso para os filhos? Ou então que tipo de namorado(a) não iria que­rer o melhor para seu côn­juge?

Feche os olhos e pense nas vezes em que bri­gou com a pes­soa amada ou algum fami­liar e examine os fatos: você pode ter sido um escroto ou sim­ples­mente não ter cum­prido com a expec­ta­tiva da pes­soa, aca­bando com a ima­gem pro­je­tada que ela tinha de você. 

Seu pai ou mãe te pro­jeta a vida toda para ser advo­gado e de repente você resolve viver de ven­der pães arte­sa­nais na rua. Eles se revol­tam, não espe­ra­vam isso. O orgu­lho que eles sen­tiam de você, pelos seus fei­tos, baju­lava ape­nas eles mes­mos.

Você pode se tor­nar rico como ven­de­dor de pão, mas será visto com escár­nio e aspe­reza por eles e por gru­pos que com­par­ti­lham valo­res seme­lhan­tes, pois você nadou con­tra a maré.

Pode­mos ter sucesso em qual­quer coisa, mas quando não obe­de­ce­mos as von­ta­des dos outros que cor­res­pon­dem ao orgu­lho, exis­tirá uma boa chance de rece­ber­mos des­prezo, fal­si­dade e egoísmo.

O orgu­lho é muito par­ti­cu­lar. Cobra­mos muito nos­sas pró­prias expec­ta­ti­vas ou as pro­je­ta­das sobre nós, de outras pes­soas.

Meu filho é o ser mais inte­li­gente do mundo!” - a mãe após ele con­cluir alguma coisa pedida.

Tenho a melhor namo­rada do mundo” - o cara após ter expe­ri­men­tado um amor sin­cero.

Pense por um momento caso não obti­vés­se­mos alguma des­sas expec­ta­ti­vas exter­nas, pode­ría­mos escu­tar coi­sas como:

Não acre­dito que meu filho fez essa bur­rice”

Meu namo­rado não me ama mais ou não se importa comigo”

Você foi uma decep­ção. A expec­ta­tiva que tinham com sua exis­tên­cia? Jogada no vácuo exis­ten­cial. Agora, por que exa­ta­mente pen­sa­riam dessa forma? Sim­ples: o sim­bo­lismo da vir­tude — o que con­si­de­ra­vam como certo, foi con­tra­ri­ado.  

A vir­tude é um con­junto de valo­res expo­nen­tes de coi­sas posi­ti­vas. Ao des­car­ri­lhar para o lado não sendo a pro­je­ção que espe­ra­vam, revolta é gerada.

 

O simbolismo do orgulho e sua expressão

Tribo punk. | Simbolismo e expressão do orgulho tribal.

Você acorda de manhã, está tomando seu café espresso extra-forte, abre o Face­book e vê 4 pos­ta­gens de pes­soas dife­ren­tes.

  1. Johan­nes é um fã assí­duo de uma banda de rock que com­par­ti­lhou a letra da música de que gosta;
  2. Sebas­tian é um vegan com­par­ti­lhando uma receita de man­di­o­queijo;
  3. Opala é uma femi­nista mos­trando uma tiri­nha pró-mulhe­res;
  4. Arte­mis é uma pes­soa tatu­ada com­par­ti­lhando uma arte que achou legal.

Usando o exem­plo de rock, alguns fãs ado­tam todo o sim­bo­lismo ou cul­tura da banda e estilo.

As pos­ta­gens de Johan­nes são todas exal­tando, com orgu­lho, shows dos quais par­ti­ci­pou. Com­prou cami­seta na gale­ria do rock, tirou uma música na gui­tarra e assim se tor­nou um “tr00” (expres­são que indica auten­ti­ci­dade cul­tu­ral e da tribo inse­rida). Enxer­gava em si o repre­sen­tante da classe, bom e velho enten­de­dor do assunto.

Johan­nes pos­suía tanto orgu­lho de si mesmo por gos­tar de rock, que come­çou a desen­vol­ver uma ido­la­tria ao estilo na cabeça, que­rendo estrei­tar mais os laços com sím­bo­los da tribo roqueira, atra­vés de fotos, cami­se­tas, shows e tocando algum ins­tru­mento musi­cal.

Logo virou um grande influ­en­ci­a­dor entre pes­soas que gos­ta­vam de rock. Ele­vando tanto o estilo e a si mesmo, come­çou a enxer­gar outros de forma dife­ren­ci­ada. Quem tinha menos que ele ou era dife­rente, rece­bia ape­nas o des­dém. Quem dis­cor­dava do orgu­lho de Johan­nes, era con­si­de­rado poser

Um ver­da­deiro fã de AC/DC deve saber as letras das músi­cas e ter pelo menos duas cami­se­tas.

Pos­suindo ami­za­des com pes­soas tão troo quanto ele, era um orgu­lho demons­trar para todos seus gos­tos e vai­da­des pes­so­ais, na espe­rança da auto­a­fir­ma­ção gerar mais segui­do­res, real­çando a ima­gem orgu­lhosa de si. 

Johan­nes não é muito dife­rente de uma mãe que­rendo ter um filho advo­gado para estu­far o peito e comen­tar para os outros que é o orgu­lho da famí­lia, por ter seguido os dese­jos ansi­a­dos dela.

Seja no estilo musi­cal, pro­fis­sões e ide­o­lo­gias, o orgu­lho car­rega a auto­a­fir­ma­ção das par­ti­cu­la­ri­da­des de nossa iden­ti­dade no sim­bo­lismo de tri­bos, for­ta­le­cendo dico­to­mias ou dua­li­da­des, impe­dindo novas ideias ou diá­lo­gos com pen­sa­men­tos dife­ren­tes.

 

A identidade simbólica e o individuo

Por que você tem orgu­lho de gos­tar de música? Fazer mus­cu­la­ção? Par­ti­ci­par de ati­vis­mos? Ser pai/mãe? Uma boa pes­soa? De matar? De ter uma Fer­rari? Ter um lar? Ser hetero? Ser homo? Ser negro? Nazista? Naci­o­na­lista? Vegan? Femi­nista? Libe­ral? Anar­quista? Comu­nista? Roqueiro? Otaku?

O que motiva você a exer­cer uma auto­a­fir­ma­ção e se ver como enti­dade res­pon­sá­vel por uma coisa ou porta-voz dela?

São os valo­res trans­mi­ti­dos pelo sim­bo­lismo.

Qual o sim­bo­lismo do mili­tarismo? Seus valo­res? Pode­mos dizer que seja hie­rar­quia, res­peito à ins­ti­tui­ção mili­tar e o patri­o­tismo.

Mili­ta­rismo > Hie­rar­quia > Res­peito à ins­ti­tui­ção mili­tar > Patri­o­tismo

*O patri­o­tismo em orga­ni­za­ções mili­ta­res ou mesmo pes­soas faná­ti­cas pelo bem do país, podem se tor­nar naci­o­na­lismo. O naci­o­na­lismo coloca os inte­res­ses do Estado em nome de algo acima de tudo.

Caso você tenha sido um mili­tar que tenha cres­cido com valo­res da infan­ta­ria, cer­ta­mente será moti­vado a criar um filho com os mes­mos prin­cí­pios, tor­nando no futuro o orgu­lho do pai por man­ter as tra­di­ções.

Valo­res com­par­ti­lha­dos mutu­a­mente criam empa­tia e for­ta­le­cem as rela­ções inter­pes­so­ais com seus seme­lhan­tes, pro­mo­vendo a inte­gra­ção social e cul­tu­ral.

Mas o que acon­tece caso não absorva o “valor” que o pai “orgu­lhoso” quis pas­sar?

Hipo­te­ti­ca­mente, em algu­mas situ­a­ções, o filho poderá viver em estado revolto; e o pai pode se tor­nar um con­tro­la­dor, onde, pelo uso de força e inti­mi­da­ção, molda seu filho com base no pró­prio gosto pes­soal — o mili­ta­rismo, no caso, real­çando as cren­ças desse meio e as moti­va­ções no filho.

Esse é ape­nas um entre outros exem­plos que podem ser mutá­veis para a vida.

O sim­bo­lismo orgu­lhoso nada mais é que um con­junto de ideias agru­pa­das, repre­sen­ta­das por uma enti­dade uni­tá­ria cole­tiva.

No ensaio sobre o fana­tismo naci­o­na­lista, George Orwell escre­veu:

… O naci­o­na­lista sim­ples­mente não se une ao lado de maior força. Pelo con­trá­rio, ao esco­lher seu lado, ele per­su­ade a si mesmo de que é o mais forte, per­mi­tindo pro­lon­gar a sua crença, mesmo quando os fatos estão con­tra ele.

O naci­o­na­lismo é como uma fome de poder tem­pe­rada pelo auto-engano. Todo naci­o­na­lista é capaz da mais fla­grante deso­nes­ti­dade, mas tam­bém — por ser cons­ci­ente de estar ser­vindo a algo maior que ele mesmo — acre­dita que está abso­lu­ta­mente certo…

Saiba mais sobre Orwell clicando aqui.

Pegue o nazismo, comu­nismo e qual­quer ismo. Des­man­tele e encon­trará os mes­mos ele­men­tos de um fã de rock pirado ou um naci­o­na­lista. Em tudo há um sim­bo­lismo, um ritual de hábi­tos ou a ser­vi­dão a algo maior, real­çada pelo cole­tivo e que gera um valor moral, tor­nando-se repre­sen­ta­ção de orgu­lho e auto­a­fir­ma­ção.

O individuo e como ele entra em coletivos. | Orgulho

O indi­vi­duo é um ser social e com gos­tos. Eles são liga­dos em mar­cas, filo­so­fias e ideias que expres­sam ele­men­tos de empa­tia. O sím­bolo com que se iden­ti­fica car­rega uma ideia, causa e moti­va­ção, dos quais ele se orgu­lha em diver­sos níveis. Vários porquês. Um cole­tivo que car­rega o mesmo sim­bo­lismo irá real­çar todos esses valo­res e rei­te­rar a ideia que ele já tinha. Sim, o Face­book fun­ci­ona dessa forma.

Um pouco sem noção a dis­pa­ri­dade de com­pa­ra­ções fei­tas aqui? Com roquei­ros e mili­ta­res? Tal­vez você pense isso. Achou ofen­sivo colo­car nazismo no meio? Todos eles são cata­li­sa­do­res cole­ti­vos de ideias em pes­soas. Pos­suem um código, um rito, tra­di­ção, valo­res, padrões e cul­tura. No âmago, a estru­tura é igual, o con­teúdo não.

As uni­da­des cole­ti­vas dão iden­ti­da­des para quem não tem iden­ti­dade. Um ava­tar pré-fabri­cado ide­o­ló­gico.

Neste vídeo, Cla­rion mos­tra o que acon­tece no dia-a-dia com pes­soas que são abor­da­das cons­tan­te­mente por ideias de diver­sas ver­ten­tes ide­o­ló­gi­cas e parte da rejei­ção que ocorre quando você só esco­lhe pegar um ele­mento de uma delas.

Quanto mais uma pes­soa se iden­ti­fica com uma ideia, mais sus­ce­tí­vel será de se fechar em um cír­culo de indi­ví­duos com pen­sa­men­tos não plu­rais. Exem­plo pal­pá­vel disso? Face­book.

Não importa a ide­o­lo­gia e o gosto. Se ela é boa ou ruim. Excluí­mos quem pensa dife­rente, quem nos cri­tica, man­te­mos ape­nas as pes­soas que pos­suem os mes­mos valo­res que nós. 

Cul­ti­va­mos a zona de con­forto do pen­sa­mento, abra­ça­mos com orgu­lho nos­sos gos­tos e nos tor­na­mos nar­ci­sis­tas do ego com o sim­bo­lismo delas. 

Sim. É total­mente nor­mal ter orgu­lho de nos­sas filo­so­fias e con­quis­tas. Se são imo­rais? Não importa, tudo gira em torno da auto­a­fir­ma­ção. O pro­blema é quando ela acaba ces­sando a liber­dade dos outros, impondo e obs­truindo o outro com a pró­pria visão pro­je­tada da rea­li­dade ou pela agres­são.

Cabe refle­tir até que ponto o orgu­lho, o nar­ci­sismo e nos­sos gos­tos nos modi­fi­cam como pes­soas, nos olhando com auto­crí­tica para evi­tar arma­di­lhas biná­rias de pen­sa­mento e inte­grar­mos melhor nos­sas rela­ções huma­nas.


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Entusiasta de empreendedorismo, marketing digital/SEO/fitness sem bullshit/cultura pop, viagens, arte e filosofia. Se deixar, a lista de coisas ficará mais longa que o sobrenome do Dom Pedro I.

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