O que é realmente importante viver e saber?

Em Consciência por Rodolfo Dall'AgnoComentário

De toda a ampla gama de coi­sas que se pode estu­dar, conhe­cer, enten­der, espe­cu­lar, refle­tir; quais que real­mente são úteis para viver e mor­rer com dig­ni­dade e sabe­do­ria — ou, tal­vez, para sim­ples­mente viver?

A velha his­tó­ria (mas nunca cli­chê) do quem sou, de onde vim, o que devo fazer aqui e para onde vou, tem um valor inques­ti­o­ná­vel para for­mar uma base psi­co­ló­gica que nos per­mite dar um sen­tido à vida. Mesmo que mui­tos pen­sem que isso não tem impor­tân­cia, deve ter em seus sis­te­mas de cren­ças um esboço de res­posta para essas ques­tões, que foi pro­va­vel­mente empres­tada das res­pos­tas pron­tas mais pre­va­len­tes na soci­e­dade atual.

Des­tas res­pos­tas pron­tas, há duas prin­ci­pais: ou foi Deus que criou tudo (e, quando mor­re­mos, depen­dendo do nosso com­por­ta­mento vamos ao céu ou ao inferno para a eter­ni­dade) ou então somos o pro­duto do cha­co­a­lhar de alguns ami­noá­ci­dos que ao acaso for­ma­ram todos os seres que exis­tem (e con­ti­nu­a­re­mos esse pro­cesso como sim­ples meios de trans­porte para nos­sos genes, que for­mam nossa per­so­na­li­dade e corpo atra­vés da rela­ção com o ambi­ente que nos cerca em nossa cri­a­ção).

Alguns que já pro­ble­ma­ti­za­ram estas duas visões e refle­ti­ram um pouco sobre o assunto tal­vez tenham res­pos­tas dife­ren­ci­a­das da mai­o­ria, mas essas pes­soas têm muita chance de esta­rem cheios de angús­tias e dúvi­das, já que as duas res­pos­tas ante­ri­o­res não o con­ten­tam, sen­tindo-as fal­sas ou incom­ple­tas, e a con­fu­são aumenta pelo fato de que ambas são trans­mi­ti­das com um grau de cer­teza admi­rá­vel pelos seus pro­pa­gan­dis­tas.

Arrisco a dizer que a grande mai­o­ria das pes­soas têm, em algum grau, essa inqui­e­ta­ção. Podem ter rios de dinheiro, um ele­vado sta­tus social, ser famo­sos e conhe­ci­dos por todos — mas nada disso é capaz de suplan­tar a angús­tia de não saber pro­fun­da­mente quem se é, de onde se veio, o que se está fazendo aqui e para onde se vai. Sen­ti­mos, nem que sub­cons­ci­en­te­mente, que ape­nas as res­pos­tas a essas ques­tões serão capa­zes de des­per­tar a paz.

À essa angús­tia, à essa grande ener­gia que te observa e te sufoca quando des­via do teu cami­nho, que te empurra, atra­vés do sofri­mento, sem­pre para o eixo, para o cen­tro, para onde se deve estar, os gre­gos anti­gos cha­ma­vam de dae­mon, ideia que se apro­xima e se rela­ci­ona ao con­ceito de karma dos hin­dus, ou à Sekh­met dos egíp­cios.

Estátua da deusa egípcia Sekhmet (1390-1352 a.C.), no Metropolitan Museum, Nova Iorque, EUA.

Está­tua da deusa egíp­cia Sekh­met (1390–1352 a.C.), no Metro­po­li­tan Museum, Nova Ior­que, EUA.

Quem sou, de onde vim, o que estou fazendo aqui e para onde vou” diz res­peito tam­bém ao famoso Enigma da Esfinge: deci­fra-me ou te devoro. Segundo Vik­tor D. Salis, psi­có­logo espe­ci­a­lista no pen­sa­mento arcaico, a pala­vra esfinge vem de alguma coisa como sphínks, que vêm do sâns­crito arcaico e se refere a algo como sufo­car. O termo evo­luiu eti­mo­lo­gi­ca­mente até che­gar em angst, que ori­gi­nou a pala­vra angús­tia.

É fácil ver, estu­dando os povos anti­gos, que a des­co­berta dessa ver­dade inte­rior, o con­tato com essa essên­cia, tem uma impor­tân­cia tão grande que a raiz de todos os males é atri­buída à igno­rân­cia de tal ver­dade. E já que ao ser humano cabe a mal­di­ção (ou o pri­vi­lé­gio) de poder ser quem não é, o ato de des­ven­dar o Enigma da Esfinge se torna um pilar fun­da­men­tal não só para a feli­ci­dade e rea­li­za­ção do indi­ví­duo, mas tam­bém para a feli­ci­dade da soci­e­dade, pois uma soci­e­dade justa e ver­da­deira é com­posta por seres huma­nos jus­tos e ver­da­dei­ros.

A dife­rença fun­da­men­tal entre a rela­ção antiga e moderna com estas ques­tões se dá na seguinte ins­tân­cia: na Anti­gui­dade, o enigma era bus­cado no inte­rior da pes­soa; nas Ida­des Média e Moderna, o enigma é imposto como uma sín­tese exte­rior já ela­bo­rada que se aplica a todos, seja pelo dogma reli­gi­oso ou pela “vali­da­ção cien­tí­fica”, ambos pro­pa­ga­dos com tama­nho teor de cer­teza que somos taxa­dos e até nos sen­ti­mos esqui­si­tos de os colo­car em che­que.

Para melhor com­pre­en­são, faça­mos agora uma tra­je­tó­ria da his­tó­ria dessa ques­tão na edu­ca­ção, de como o lidar com o Enigma da Esfinge foi do edu­zir para o deco­rar, do refle­tir para o acei­tar, da for­ma­ção para a infor­ma­ção.

Na Antiguidade

Por mais que várias civi­li­za­ções tenham viven­ci­ado pro­ces­sos seme­lhan­tes, é nos gre­gos que achei mais emba­sa­mento, atra­vés de Vik­tor D. Salis (que tra­ba­lha com os tex­tos clás­si­cos dire­ta­mente do grego arcaico, dis­pen­sando tra­du­ções), para exem­pli­fi­car como as pes­soas eram inqui­ri­das por mes­tres a bus­ca­rem as ver­da­des mais essen­ci­ais den­tro delas mes­mas. Sim, escrevi “inqui­ri­das” pois, como diz o pró­prio Sócra­tes, o ver­da­deiro mes­tre é aquele que per­gunta, e não o que res­ponde.

Temos na Gré­cia Arcaica um modelo de edu­ca­ção infan­til deno­mi­nado Pai­deia, em que o obje­tivo é o desen­vol­vi­mento das vir­tu­des e poten­ci­a­li­da­des de cada cri­ança. Como se pode notar, os gre­gos anti­gos não acre­di­ta­vam que alguém nas­cia sim­ples­mente por­que nas­ceu, mas por­que havia um sen­tido e um pro­pó­sito na sua exis­tên­cia. O obje­tivo final da Pai­deia era, por­tanto, fazer com que o indi­ví­duo des­cu­bra esse pro­pó­sito e o como poderá mani­festá-lo em uma útil fun­ção para a soci­e­dade. Quando tivesse essa res­posta, que era geral­mente entre 14 a 20 anos, ele dis­cur­sava na Ágora, na frente de todos os cida­dãos.

agora

Ruí­nas da Ágora ate­ni­ense.

Não impor­tava muito a alfa­be­ti­za­ção ou a mate­má­tica (apren­di­zado que ocor­ria por volta dos 14 ou 15 anos), pois para essas for­mas de conhe­ci­mento temos a vida inteira. Mas para o desen­vol­vi­mento da vir­tude, temos pouco tempo — o desen­vol­vi­mento da vir­tude é de grande urgên­cia. Era por isso que os mais sábios mes­tres, os de maior moral e enver­ga­dura,  edu­ca­vam as cri­an­ças; Sócra­tes, por exem­plo, era um edu­ca­dor de cri­an­ças meno­res.

É impor­tante dizer que, para os gre­gos, não era total­mente cor­reto dizer que a ver­dade é única e dife­rente para cada um. Cada ser é único, mas havia tam­bém a ideia de que existe uma sín­tese, algo em comum que une à todos. E para come­çar a inves­ti­gar essa sín­tese, era neces­sá­rio um desen­vol­vi­mento de si mesmo, o que se rea­li­zava no pro­cesso da Pai­deia. A seguir, deve­ria haver uma nova etapa: a Psi­ca­go­gia ou Psi­queia, em que as pes­soas se reu­niam em sim­pó­sios, do qual o livro de Pla­tão O Sim­pó­sio (erro­ne­a­mente tra­du­zido por O Ban­quete) é um bom exem­plo, para expres­sa­rem suas doxas, ou seja, aquilo que jul­ga­vam enten­der sobre deter­mi­nado assunto, levando em conta toda a sua expe­ri­ên­cia de vida e o pro­cesso da Pai­deia. E então, a par­tir disso, todos pre­sen­tes pas­sa­vam refle­tir e bus­car uma defi­ni­ção mais pró­xima do sin­té­tico sobre o que é o amor, a beleza, a jus­tiça, os deu­ses, a ética, a vida, a morte — unindo todos em torno de um ideal comum.

Os que não pas­sa­ram pelo dis­curso na Ágora pode­riam fre­quen­tar os sim­pó­sios, mas sem abrir a boca. Havia a pri­ma­zia dos dis­cur­sos para os mais anti­gos. O lei­tor poderá achar dema­si­ado rude, mas pense: se tivés­se­mos um mes­tre como Sócra­tes, ou Sófo­cles, ou Ésquilo, ou Pla­tão, o que have­ría­mos de falar? É natu­ral que tería­mos muito mais a ouvir, assim como é natu­ral que opi­nião não seja conhe­ci­mento. Era por isso que se cha­mava de “diá­logo”, e não de “dis­cus­são”: o obje­tivo era real­mente o des­co­bri­mento das sín­te­ses que unem a todos, e não sim­ples­mente a con­tra­po­si­ção de diver­sas opi­niões fun­da­men­ta­das de qual­quer maneira.

A título de curi­o­si­dade, havia ainda outra etapa, a Mis­ta­go­gia ou Mis­teia, que era o conhe­ci­mento dos deu­ses. Disso pouco se pode espe­cu­lar.

A Queda

Des­trói-se a bibli­o­teca de Ale­xan­dria; o impe­ra­dor Jus­ti­ni­ano fecha as esco­las de filo­so­fia; o Cris­ti­a­nismo, em sua essên­cia uma bela filo­so­fia, começa a tomar conta do Oci­dente como ins­tru­mento de per­pe­tu­a­ção do poder pelo clero; Roma decai moral­mente, surge o Pão e Circo, surge o Coli­seu. Começa a bar­bá­rie, começa a Idade Média, a qual ainda hoje acre­dito que per­ma­ne­ce­mos mais atre­la­dos do que ao que vai na dire­ção de sua supe­ra­ção.

A maior ame­aça aos cére­bros patro­ci­na­do­res desse novo espe­tá­culo de hor­ro­res eram jus­ta­mente os homens des­per­tos, capa­zes de bus­car a ver­dade em seu inte­rior. Era pre­ciso criar gado, era pre­ciso criar uma popu­la­ção que não refle­tisse, que acei­tasse os dog­mas sem ques­ti­o­nar. Foi assim que dae­mon virou demô­nio. Foi assim que aquele que ado­rasse e cul­ti­vasse o deus que havia den­tro de si era acu­sado de ado­rar e cul­ti­var o que con­tra­ri­ava o Deus cris­tão das mas­sas ali­e­na­das, pois a ver­dade indi­vi­dual inte­rior é o pas­sa­porte da liber­dade do pen­sar e do exis­tir. Pela pri­meira vez, mili­tar pelo divino pas­sou a sig­ni­fi­car defen­der uma ver­dade abso­luta, inques­ti­o­ná­vel e apli­cá­vel à todos, cega para a razão e para o bom senso.

Nietzs­che, no século XIX, apa­ren­te­mente muito depois da Idade Média, já inco­mo­dava o sta­tus quo falando disso. Ele dizia que a maior ame­aça ao Estado e à Igreja eram os seres pen­san­tes, que bus­cam a sua Ver­dade para além do que está ins­ti­tuído, para além do que­rem que a ver­dade seja.

Com o desen­vol­vi­mento das artes e da ciên­cia na Idade Moderna, final­mente con­se­gui­mos evo­luir e rom­per algu­mas cor­ren­tes a que os dog­mas nos pren­diam. Mas a ideia de uma ver­dade sin­té­tica imposta a todos, típica do período Medi­e­val, con­ti­nua pre­sente sobre a rou­pa­gem do que é cien­ti­fi­ca­mente com­pro­vado.

A ciên­cia moderna nada mais é do que a inves­ti­ga­ção con­tro­lada de fenô­me­nos para for­mar teo­rias que os abar­quem, para(e essa é a parte mais impor­tante) poder aplicá-las a algo que nos seja útil. Como saber, entre­tanto, se os fenô­me­nos obser­va­dos serão do jeito que foram obser­va­dos sem­pre em todos os tem­pos e luga­res, e se as teo­rias podem abar­car toda a quase infi­nita gama de variá­veis e por­me­no­res?

É claro que esta inves­ti­ga­ção é extre­ma­mente válida como dis­po­si­tivo para cri­a­ção de sabe­res e tec­no­lo­gias úteis para o dia-a-dia. Mas quando se trata das ver­da­des mais pro­fun­das da exis­tên­cia, é muito peri­gosa a impo­si­ção do que foi vali­dado cien­ti­fi­ca­mente como lei, pois é falsa a pre­sun­ção de que a ciên­cia, com seus méto­dos atu­ais ‚seria capaz de che­gar ao abso­luto, ao sin­té­tico, ao gene­ra­li­zado, ape­nas se anco­rando em alguns fenô­me­nos inves­ti­ga­dos no tempo e espaço pre­sente. Mui­tos cri­ti­cam os anti­gos por­que dizem que eram mais adep­tos da espe­cu­la­ção que da com­pro­va­ção. Mas não é absurdo dizer que uma coisa é inva­ri­a­vel­mente de alguma maneira? E não o é mais ainda afir­mar que essa coisa é uma lei que se aplica à tudo e/ou à todos?

É claro que, por si mesmo, um fenô­meno inves­ti­gado jamais seria capaz de impôr-se de tal maneira; o que acon­tece é que defen­so­res de teo­rias e filo­so­fias se uti­li­zam do sta­tus de infa­li­bi­li­dade dos resul­ta­dos de pes­qui­sas cien­tí­fi­cas para fazer com que suas teo­rias sejam asso­ci­a­das à esse sta­tus. Um belo exem­plo é o caso do Homem de Pilt­down: um crâ­nio meio símio meio humano encon­trado na Ingla­terra no iní­cio do século XX e que fora a grande sen­sa­ção e a prova do elo que unia homens e maca­cos a um ances­tral comum. Até que, em 1953, um grupo de cien­tis­tas lide­rado por Ken­neth page Oakley des­co­briu que se tra­tava de uma farsa.

O grande pro­blema que tres­passa tanto o dogma reli­gi­oso quanto a inves­ti­ga­ção cien­tí­fica em suas obses­sões de impor seus pos­tu­la­dos é o mesmo: o de achar que o ser humano é algo espe­cial. Achar que o ser humano é capaz de enten­der o Abso­luto facil­mente, enten­der as leis que regem as coi­sas e para poder impô-las aos demais, nos pri­vando da grande aven­tura (natu­ral­mente, cheia de dor) que é o des­per­tar de nossa essên­cia.

Heliocentrismo de Copérnico: golpe no narcisismo humano.

Heli­o­cen­trismo de Copér­nico: golpe no nar­ci­sismo humano.

Os anti­gos eram mais humil­des: reco­nhe­ciam a exis­tên­cia do Abso­luto (essa his­tó­ria de poli­teísmo é con­versa pra boi dor­mir), mas con­si­de­ra­vam-no tão ina­ces­sí­vel, tão mis­te­ri­oso às limi­ta­das facul­da­des huma­nas, que não se per­mi­tiam a audá­cia de impor o que acha­vam dele a nin­guém, pois sabiam que não seriam capa­zes de com­pre­endê-Lo. Pois, afi­nal, se você diz que o Abso­luto é branco, então ele deixa de ser ver­me­lho, preto, azul, ama­relo. É impos­sí­vel a nós com­pre­en­der como uma coisa é várias ao mesmo tempo, ou como algo é e não é ao mesmo tempo. Por isso, não deve­mos nos jul­gar capa­zes de com­pre­endê-Lo e quiçá de ter o direito de impor o que acha­mos que Ele é; deve­mos louvá-Lo pro­cu­rando um vis­lum­bre Dele den­tro de nós mes­mos, e jamais nos aco­mo­dar­mos com qual­quer expli­ca­ção externa sem refle­tir sobre ela, seja com­pro­vada por todos os cien­tis­tas ou ado­rada por todas as reli­giões.

Fala-se, no entanto, atra­vés de fon­tes como Helena Bla­vatsky, que houve mes­tres que atin­gi­ram o enten­di­mento do Abso­luto (den­tro do limite que cabe a um ser humano): os cha­ma­dos Ini­ci­a­dos, como diz-se que foram Buda e Jesus. Porém, esses Ini­ci­a­dos jamais pude­ram mani­fes­tar a tota­li­dade do que com­pre­en­de­ram, sim­ples­mente por­que seus dis­cí­pu­los não-Ini­ci­a­dos não supor­ta­riam ou não enten­de­riam a ver­dade. É como se ten­tás­se­mos ligar o 110 nos 220.

Nin­guém pode cami­nhar por nós, apre­sen­tando-nos res­pos­tas imu­tá­veis, essa é a ver­dade. Nem mesmo os mes­tres foram capa­zes de bur­lar tal limite. O máximo que se pode fazer é con­du­zir, suge­rir, ilu­mi­nar o cami­nho, mas nunca tri­lhar esse cami­nho no lugar de alguém.

De tudo o que foi colo­cado, falta a nós dis­cor­rer sobre o seguinte: o lei­tor pode estar pro­cu­rando por exem­plos atu­ais que ilus­trem esse “ades­tra­mento”, de maneira mais clara e prá­tica, tal como se mani­festa con­cre­ta­mente. É natu­ral, pois tudo isso já está tão intro­je­tado em todos nós, que fica difí­cil nos colo­car­mos em uma posi­ção sepa­rada  de nos­sas ins­ti­tui­ções para poder­mos ana­lisá-las. Assim como pro­va­vel­mente mui­tas pes­soas na Idade Média não ima­gi­nas­sem que esti­ves­sem sendo ades­tra­dos em dog­mas irra­ci­o­nais e pri­va­dos do con­tato com seu dai­mon, tam­bém é natu­ral que mui­tos de nós sequer per­ce­bam os nos­sos con­di­ci­o­na­men­tos.

Um exem­plo claro é o da edu­ca­ção moderna. Nós nos pre­o­cu­pa­mos em desen­vol­ver nas cri­an­ças as suas poten­ci­a­li­da­des? Para que ser­vem 90% dos con­teú­dos tra­ba­lha­dos nas esco­las? Na época em que ado­les­cen­tes estão à flor da pele para des­co­brir os mis­té­rios da vida, entrar em con­tato con­sigo mesmo, com o outro, com o sexo oposto, cheios de emo­ções e de ide­ais, sonhando por aven­tu­ras heroi­cas, não encon­tram nenhum mes­tre que os possa auxi­liar. O que encon­tram é His­tó­ria, Geo­gra­fia, Bio­lo­gia, Mate­má­tica, regras idi­o­tas de Gra­má­tica, tudo pronto e já carim­bado pela vali­da­ção cien­tí­fica, ser­vindo ao hon­roso pro­pó­sito de pas­sar no ves­ti­bu­lar. Será o tumulto da ado­les­cên­cia tão hor­mo­nal assim? Ou será ape­nas o reflexo de uma soci­e­dade que faz de tudo para sufo­car com suas res­pos­tas pron­tas o deus inte­rior que deseja se mani­fes­tar?

Deci­fra-me ou te devoro, diz a Esfinge. Vive­mos em uma soci­e­dade medi­e­val de gente devo­rada por si mesma. Haja anti­de­pres­sivo e qui­mi­o­te­ra­pia.

O delírio infantil da pós-modernidade

É somente nos últi­mos 30 ou 40 anos que final­mente fomos ven­ci­dos pelo can­saço e admi­ti­mos que não con­se­gui­mos enten­der as leis sin­té­ti­cas e abso­lu­tas para impô-las ao resto do mundo. Mas a con­clu­são quanto a isso é um tanto cômica. Pen­sa­mos algo do tipo: “se não con­se­gui­mos, é por­que não existe; afi­nal de con­tas, se nós seres huma­nos, tão espe­ci­ais com nossa pode­rosa facul­dade da razão, não somos capa­zes de des­co­brir e impor as ver­da­des, logo, não existe nada fixo, nada imu­tá­vel; não exis­tem ver­da­des abso­lu­tas.”

Quanto a isso, reme­moro o que foi dito sobre o que pen­sa­vam os anti­gos: as ver­da­des abso­lu­tas exis­tem, mas são tão ina­ces­sí­veis às limi­ta­das facul­da­des huma­nas que o máximo que pode­mos fazer é buscá-las e con­tem­plá-las den­tro de nós mes­mos, para então com­par­ti­lhar­mos nossa aven­tura e depois, final­mente, quem sabe, nos ini­ci­ar­mos na tota­li­dade que cabe a um ser humano com­pre­en­der.

Mas o clima no cha­mado pós-moder­nismo, que alguns dizem ser a con­jun­tura ide­o­ló­gica que esta­mos vivendo, com repre­sen­tan­tes des­cri­ti­vos e teó­ri­cos como Zyg­munt Bau­man, Michel Fou­cault e Jean-Fran­çois Lyo­tard,  parece ser o da des­cons­tru­ção total das ins­ti­tui­ções e orga­ni­za­ções, que são tidas como mero pro­duto polí­tico-social-his­tó­rico; e, em nível mais pro­fundo, da mili­tân­cia pela ine­xis­tên­cia de qual­quer Sín­tese, qual­quer Essên­cia ou Sus­ten­ta­ção para a exis­tên­cia, coisa que desde Herá­clito, pas­sando pelos exis­ten­ci­a­lis­tas, já se defen­dia. Com­paro a uma cri­ança que, ao per­ce­ber que estava mon­tando um Lego de maneira impre­cisa e/ou con­trá­ria ao manual que veio junto ao brin­quedo, e que por sua com­ple­xi­dade ela não entenda em sua tota­li­dade, resol­vesse chu­tar tudo pra longe e dizer que não existe manual algum. Ou então com­pa­rá­vel a essa mesma cri­ança, ao não enten­der como se fazem con­tas de divi­são, dizer que é sua pro­fes­sora de mate­má­tica que nada sabe e/ou que não exis­tem con­tas de divi­são.

arte-moderna

Arte no pós-moder­nismo.

É evi­dente que neces­si­ta­mos de ins­ti­tui­ções, orga­ni­za­ções, cos­tu­mes e ritu­ais para dar­mos os pri­mei­ros pas­sos, como ben­ga­las que serão úteis em algum momento, mas que um dia não serão mais. São ape­nas for­mas ilu­só­rias, é ver­dade, for­mas que hão de se dis­sol­ver na sabe­do­ria do espí­rito des­perto, porém neces­sá­rias até certo ponto.

O desejo de des­trui­ção e caos pre­sente no cha­mado pós-moder­nismo é ape­nas a mani­fes­ta­ção de um polo oposto à ques­tão refe­rente à impo­si­ção geral de ver­da­des que dis­corro nesse texto, como quem navega para o leste e acaba no oeste devido à esfe­ri­ci­dade da Terra.

É, de fato, o desejo de liber­dade às nor­mas. Mas devem essas nor­mas e ins­ti­tui­ções serem sim­ples­mente des­truí­das? Não será mais inte­res­sante as subs­ti­tuir por outras que incen­ti­vem aspec­tos mais inte­li­gen­tes para a rea­li­za­ção pes­soal e cole­tiva, tomando por exem­plo a pró­pria Pai­deia? Que haja paz nessa tran­si­ção, por mais que meu desejo possa ser um tanto ingê­nuo.

Adendo

Tal­vez quando sair­mos des­sas tre­vas, esses 2000 anos e coisa a mais poderá ser enten­dido em algo como a “Era do Nar­ci­sismo”, a Era de quando o ser humano se jul­gou capaz de não neces­si­tar de vida inte­rior, se jul­gou capaz de ades­trar-se aos cos­tu­mes e abo­lir de seu inte­rior a cha­mada para a vida ver­da­deira.

Tal­vez por­que não vemos nenhum ser mais evo­luído que tenha mais acesso à Ver­dade, jul­ga­mos que nós temos o maior de todos os aces­sos. É como se um leão jul­gasse que pode enten­der melhor de mate­má­tica do que um ser humano. E se ele não entende, pen­sará que nin­guém será capaz ou dirá que sim­ples­mente não existe mate­má­tica.

É cla­ra­mente humil­dade que nos falta. Pode­mos ter mais cons­ci­ên­cia do que plan­tas ou ani­mais. Mas tere­mos mais do que as estre­las?

Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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