De toda a ampla gama de coisas que se pode estudar, conhecer, entender, especular, refletir; quais que realmente são úteis para viver e morrer com dignidade e sabedoria – ou, talvez, para simplesmente viver?

A velha história (mas nunca clichê) do quem sou, de onde vim, o que devo fazer aqui e para onde vou, tem um valor inquestionável para formar uma base psicológica que nos permite dar um sentido à vida. Mesmo que muitos pensem que isso não tem importância, deve ter em seus sistemas de crenças um esboço de resposta para essas questões, que foi provavelmente emprestada das respostas prontas mais prevalentes na sociedade atual.

Destas respostas prontas, há duas principais: ou foi Deus que criou tudo (e, quando morremos, dependendo do nosso comportamento vamos ao céu ou ao inferno para a eternidade) ou então somos o produto do chacoalhar de alguns aminoácidos que ao acaso formaram todos os seres que existem (e continuaremos esse processo como simples meios de transporte para nossos genes, que formam nossa personalidade e corpo através da relação com o ambiente que nos cerca em nossa criação).

Alguns que já problematizaram estas duas visões e refletiram um pouco sobre o assunto talvez tenham respostas diferenciadas da maioria, mas essas pessoas têm muita chance de estarem cheios de angústias e dúvidas, já que as duas respostas anteriores não o contentam, sentindo-as falsas ou incompletas, e a confusão aumenta pelo fato de que ambas são transmitidas com um grau de certeza admirável pelos seus propagandistas.

Arrisco a dizer que a grande maioria das pessoas têm, em algum grau, essa inquietação. Podem ter rios de dinheiro, um elevado status social, ser famosos e conhecidos por todos – mas nada disso é capaz de suplantar a angústia de não saber profundamente quem se é, de onde se veio, o que se está fazendo aqui e para onde se vai. Sentimos, nem que subconscientemente, que apenas as respostas a essas questões serão capazes de despertar a paz.

À essa angústia, à essa grande energia que te observa e te sufoca quando desvia do teu caminho, que te empurra, através do sofrimento, sempre para o eixo, para o centro, para onde se deve estar, os gregos antigos chamavam de daemon, ideia que se aproxima e se relaciona ao conceito de karma dos hindus, ou à Sekhmet dos egípcios.

Estátua da deusa egípcia Sekhmet (1390-1352 a.C.), no Metropolitan Museum, Nova Iorque, EUA.
Estátua da deusa egípcia Sekhmet (1390-1352 a.C.), no Metropolitan Museum, Nova Iorque, EUA.

“Quem sou, de onde vim, o que estou fazendo aqui e para onde vou” diz respeito também ao famoso Enigma da Esfinge: decifra-me ou te devoro. Segundo Viktor D. Salis, psicólogo especialista no pensamento arcaico, a palavra esfinge vem de alguma coisa como sphínks, que vêm do sânscrito arcaico e se refere a algo como sufocar. O termo evoluiu etimologicamente até chegar em angst, que originou a palavra angústia.

É fácil ver, estudando os povos antigos, que a descoberta dessa verdade interior, o contato com essa essência, tem uma importância tão grande que a raiz de todos os males é atribuída à ignorância de tal verdade. E já que ao ser humano cabe a maldição (ou o privilégio) de poder ser quem não é, o ato de desvendar o Enigma da Esfinge se torna um pilar fundamental não só para a felicidade e realização do indivíduo, mas também para a felicidade da sociedade, pois uma sociedade justa e verdadeira é composta por seres humanos justos e verdadeiros.

A diferença fundamental entre a relação antiga e moderna com estas questões se dá na seguinte instância: na Antiguidade, o enigma era buscado no interior da pessoa; nas Idades Média e Moderna, o enigma é imposto como uma síntese exterior já elaborada que se aplica a todos, seja pelo dogma religioso ou pela “validação científica”, ambos propagados com tamanho teor de certeza que somos taxados e até nos sentimos esquisitos de os colocar em cheque.

Para melhor compreensão, façamos agora uma trajetória da história dessa questão na educação, de como o lidar com o Enigma da Esfinge foi do eduzir para o decorar, do refletir para o aceitar, da formação para a informação.

Na Antiguidade

Por mais que várias civilizações tenham vivenciado processos semelhantes, é nos gregos que achei mais embasamento, através de Viktor D. Salis (que trabalha com os textos clássicos diretamente do grego arcaico, dispensando traduções), para exemplificar como as pessoas eram inquiridas por mestres a buscarem as verdades mais essenciais dentro delas mesmas. Sim, escrevi “inquiridas” pois, como diz o próprio Sócrates, o verdadeiro mestre é aquele que pergunta, e não o que responde.

Temos na Grécia Arcaica um modelo de educação infantil denominado Paideia, em que o objetivo é o desenvolvimento das virtudes e potencialidades de cada criança. Como se pode notar, os gregos antigos não acreditavam que alguém nascia simplesmente porque nasceu, mas porque havia um sentido e um propósito na sua existência. O objetivo final da Paideia era, portanto, fazer com que o indivíduo descubra esse propósito e o como poderá manifestá-lo em uma útil função para a sociedade. Quando tivesse essa resposta, que era geralmente entre 14 a 20 anos, ele discursava na Ágora, na frente de todos os cidadãos.

agora
Ruínas da Ágora ateniense.

Não importava muito a alfabetização ou a matemática (aprendizado que ocorria por volta dos 14 ou 15 anos), pois para essas formas de conhecimento temos a vida inteira. Mas para o desenvolvimento da virtude, temos pouco tempo – o desenvolvimento da virtude é de grande urgência. Era por isso que os mais sábios mestres, os de maior moral e envergadura,  educavam as crianças; Sócrates, por exemplo, era um educador de crianças menores.

É importante dizer que, para os gregos, não era totalmente correto dizer que a verdade é única e diferente para cada um. Cada ser é único, mas havia também a ideia de que existe uma síntese, algo em comum que une à todos. E para começar a investigar essa síntese, era necessário um desenvolvimento de si mesmo, o que se realizava no processo da Paideia. A seguir, deveria haver uma nova etapa: a Psicagogia ou Psiqueia, em que as pessoas se reuniam em simpósios, do qual o livro de Platão O Simpósio (erroneamente traduzido por O Banquete) é um bom exemplo, para expressarem suas doxas, ou seja, aquilo que julgavam entender sobre determinado assunto, levando em conta toda a sua experiência de vida e o processo da Paideia. E então, a partir disso, todos presentes passavam refletir e buscar uma definição mais próxima do sintético sobre o que é o amor, a beleza, a justiça, os deuses, a ética, a vida, a morte – unindo todos em torno de um ideal comum.

Os que não passaram pelo discurso na Ágora poderiam frequentar os simpósios, mas sem abrir a boca. Havia a primazia dos discursos para os mais antigos. O leitor poderá achar demasiado rude, mas pense: se tivéssemos um mestre como Sócrates, ou Sófocles, ou Ésquilo, ou Platão, o que haveríamos de falar? É natural que teríamos muito mais a ouvir, assim como é natural que opinião não seja conhecimento. Era por isso que se chamava de “diálogo”, e não de “discussão”: o objetivo era realmente o descobrimento das sínteses que unem a todos, e não simplesmente a contraposição de diversas opiniões fundamentadas de qualquer maneira.

A título de curiosidade, havia ainda outra etapa, a Mistagogia ou Misteia, que era o conhecimento dos deuses. Disso pouco se pode especular.

A Queda

Destrói-se a biblioteca de Alexandria; o imperador Justiniano fecha as escolas de filosofia; o Cristianismo, em sua essência uma bela filosofia, começa a tomar conta do Ocidente como instrumento de perpetuação do poder pelo clero; Roma decai moralmente, surge o Pão e Circo, surge o Coliseu. Começa a barbárie, começa a Idade Média, a qual ainda hoje acredito que permanecemos mais atrelados do que ao que vai na direção de sua superação.

A maior ameaça aos cérebros patrocinadores desse novo espetáculo de horrores eram justamente os homens despertos, capazes de buscar a verdade em seu interior. Era preciso criar gado, era preciso criar uma população que não refletisse, que aceitasse os dogmas sem questionar. Foi assim que daemon virou demônio. Foi assim que aquele que adorasse e cultivasse o deus que havia dentro de si era acusado de adorar e cultivar o que contrariava o Deus cristão das massas alienadas, pois a verdade individual interior é o passaporte da liberdade do pensar e do existir. Pela primeira vez, militar pelo divino passou a significar defender uma verdade absoluta, inquestionável e aplicável à todos, cega para a razão e para o bom senso.

Nietzsche, no século XIX, aparentemente muito depois da Idade Média, já incomodava o status quo falando disso. Ele dizia que a maior ameaça ao Estado e à Igreja eram os seres pensantes, que buscam a sua Verdade para além do que está instituído, para além do querem que a verdade seja.

Com o desenvolvimento das artes e da ciência na Idade Moderna, finalmente conseguimos evoluir e romper algumas correntes a que os dogmas nos prendiam. Mas a ideia de uma verdade sintética imposta a todos, típica do período Medieval, continua presente sobre a roupagem do que é cientificamente comprovado.

A ciência moderna nada mais é do que a investigação controlada de fenômenos para formar teorias que os abarquem, para(e essa é a parte mais importante) poder aplicá-las a algo que nos seja útil. Como saber, entretanto, se os fenômenos observados serão do jeito que foram observados sempre em todos os tempos e lugares, e se as teorias podem abarcar toda a quase infinita gama de variáveis e pormenores?

É claro que esta investigação é extremamente válida como dispositivo para criação de saberes e tecnologias úteis para o dia-a-dia. Mas quando se trata das verdades mais profundas da existência, é muito perigosa a imposição do que foi validado cientificamente como lei, pois é falsa a presunção de que a ciência, com seus métodos atuais ,seria capaz de chegar ao absoluto, ao sintético, ao generalizado, apenas se ancorando em alguns fenômenos investigados no tempo e espaço presente. Muitos criticam os antigos porque dizem que eram mais adeptos da especulação que da comprovação. Mas não é absurdo dizer que uma coisa é invariavelmente de alguma maneira? E não o é mais ainda afirmar que essa coisa é uma lei que se aplica à tudo e/ou à todos?

É claro que, por si mesmo, um fenômeno investigado jamais seria capaz de impôr-se de tal maneira; o que acontece é que defensores de teorias e filosofias se utilizam do status de infalibilidade dos resultados de pesquisas científicas para fazer com que suas teorias sejam associadas à esse status. Um belo exemplo é o caso do Homem de Piltdown: um crânio meio símio meio humano encontrado na Inglaterra no início do século XX e que fora a grande sensação e a prova do elo que unia homens e macacos a um ancestral comum. Até que, em 1953, um grupo de cientistas liderado por Kenneth page Oakley descobriu que se tratava de uma farsa.

O grande problema que trespassa tanto o dogma religioso quanto a investigação científica em suas obsessões de impor seus postulados é o mesmo: o de achar que o ser humano é algo especial. Achar que o ser humano é capaz de entender o Absoluto facilmente, entender as leis que regem as coisas e para poder impô-las aos demais, nos privando da grande aventura (naturalmente, cheia de dor) que é o despertar de nossa essência.

Heliocentrismo de Copérnico: golpe no narcisismo humano.
Heliocentrismo de Copérnico: golpe no narcisismo humano.

Os antigos eram mais humildes: reconheciam a existência do Absoluto (essa história de politeísmo é conversa pra boi dormir), mas consideravam-no tão inacessível, tão misterioso às limitadas faculdades humanas, que não se permitiam a audácia de impor o que achavam dele a ninguém, pois sabiam que não seriam capazes de compreendê-Lo. Pois, afinal, se você diz que o Absoluto é branco, então ele deixa de ser vermelho, preto, azul, amarelo. É impossível a nós compreender como uma coisa é várias ao mesmo tempo, ou como algo é e não é ao mesmo tempo. Por isso, não devemos nos julgar capazes de compreendê-Lo e quiçá de ter o direito de impor o que achamos que Ele é; devemos louvá-Lo procurando um vislumbre Dele dentro de nós mesmos, e jamais nos acomodarmos com qualquer explicação externa sem refletir sobre ela, seja comprovada por todos os cientistas ou adorada por todas as religiões.

Fala-se, no entanto, através de fontes como Helena Blavatsky, que houve mestres que atingiram o entendimento do Absoluto (dentro do limite que cabe a um ser humano): os chamados Iniciados, como diz-se que foram Buda e Jesus. Porém, esses Iniciados jamais puderam manifestar a totalidade do que compreenderam, simplesmente porque seus discípulos não-Iniciados não suportariam ou não entenderiam a verdade. É como se tentássemos ligar o 110 nos 220.

Ninguém pode caminhar por nós, apresentando-nos respostas imutáveis, essa é a verdade. Nem mesmo os mestres foram capazes de burlar tal limite. O máximo que se pode fazer é conduzir, sugerir, iluminar o caminho, mas nunca trilhar esse caminho no lugar de alguém.

De tudo o que foi colocado, falta a nós discorrer sobre o seguinte: o leitor pode estar procurando por exemplos atuais que ilustrem esse “adestramento”, de maneira mais clara e prática, tal como se manifesta concretamente. É natural, pois tudo isso já está tão introjetado em todos nós, que fica difícil nos colocarmos em uma posição separada  de nossas instituições para podermos analisá-las. Assim como provavelmente muitas pessoas na Idade Média não imaginassem que estivessem sendo adestrados em dogmas irracionais e privados do contato com seu daimon, também é natural que muitos de nós sequer percebam os nossos condicionamentos.

Um exemplo claro é o da educação moderna. Nós nos preocupamos em desenvolver nas crianças as suas potencialidades? Para que servem 90% dos conteúdos trabalhados nas escolas? Na época em que adolescentes estão à flor da pele para descobrir os mistérios da vida, entrar em contato consigo mesmo, com o outro, com o sexo oposto, cheios de emoções e de ideais, sonhando por aventuras heroicas, não encontram nenhum mestre que os possa auxiliar. O que encontram é História, Geografia, Biologia, Matemática, regras idiotas de Gramática, tudo pronto e já carimbado pela validação científica, servindo ao honroso propósito de passar no vestibular. Será o tumulto da adolescência tão hormonal assim? Ou será apenas o reflexo de uma sociedade que faz de tudo para sufocar com suas respostas prontas o deus interior que deseja se manifestar?

Decifra-me ou te devoro, diz a Esfinge. Vivemos em uma sociedade medieval de gente devorada por si mesma. Haja antidepressivo e quimioterapia.

O delírio infantil da pós-modernidade

É somente nos últimos 30 ou 40 anos que finalmente fomos vencidos pelo cansaço e admitimos que não conseguimos entender as leis sintéticas e absolutas para impô-las ao resto do mundo. Mas a conclusão quanto a isso é um tanto cômica. Pensamos algo do tipo: “se não conseguimos, é porque não existe; afinal de contas, se nós seres humanos, tão especiais com nossa poderosa faculdade da razão, não somos capazes de descobrir e impor as verdades, logo, não existe nada fixo, nada imutável; não existem verdades absolutas.”

Quanto a isso, rememoro o que foi dito sobre o que pensavam os antigos: as verdades absolutas existem, mas são tão inacessíveis às limitadas faculdades humanas que o máximo que podemos fazer é buscá-las e contemplá-las dentro de nós mesmos, para então compartilharmos nossa aventura e depois, finalmente, quem sabe, nos iniciarmos na totalidade que cabe a um ser humano compreender.

Mas o clima no chamado pós-modernismo, que alguns dizem ser a conjuntura ideológica que estamos vivendo, com representantes descritivos e teóricos como Zygmunt Bauman, Michel Foucault e Jean-François Lyotard,  parece ser o da desconstrução total das instituições e organizações, que são tidas como mero produto político-social-histórico; e, em nível mais profundo, da militância pela inexistência de qualquer Síntese, qualquer Essência ou Sustentação para a existência, coisa que desde Heráclito, passando pelos existencialistas, já se defendia. Comparo a uma criança que, ao perceber que estava montando um Lego de maneira imprecisa e/ou contrária ao manual que veio junto ao brinquedo, e que por sua complexidade ela não entenda em sua totalidade, resolvesse chutar tudo pra longe e dizer que não existe manual algum. Ou então comparável a essa mesma criança, ao não entender como se fazem contas de divisão, dizer que é sua professora de matemática que nada sabe e/ou que não existem contas de divisão.

arte-moderna
Arte no pós-modernismo.

É evidente que necessitamos de instituições, organizações, costumes e rituais para darmos os primeiros passos, como bengalas que serão úteis em algum momento, mas que um dia não serão mais. São apenas formas ilusórias, é verdade, formas que hão de se dissolver na sabedoria do espírito desperto, porém necessárias até certo ponto.

O desejo de destruição e caos presente no chamado pós-modernismo é apenas a manifestação de um polo oposto à questão referente à imposição geral de verdades que discorro nesse texto, como quem navega para o leste e acaba no oeste devido à esfericidade da Terra.

É, de fato, o desejo de liberdade às normas. Mas devem essas normas e instituições serem simplesmente destruídas? Não será mais interessante as substituir por outras que incentivem aspectos mais inteligentes para a realização pessoal e coletiva, tomando por exemplo a própria Paideia? Que haja paz nessa transição, por mais que meu desejo possa ser um tanto ingênuo.

Adendo

Talvez quando sairmos dessas trevas, esses 2000 anos e coisa a mais poderá ser entendido em algo como a “Era do Narcisismo”, a Era de quando o ser humano se julgou capaz de não necessitar de vida interior, se julgou capaz de adestrar-se aos costumes e abolir de seu interior a chamada para a vida verdadeira.

Talvez porque não vemos nenhum ser mais evoluído que tenha mais acesso à Verdade, julgamos que nós temos o maior de todos os acessos. É como se um leão julgasse que pode entender melhor de matemática do que um ser humano. E se ele não entende, pensará que ninguém será capaz ou dirá que simplesmente não existe matemática.

É claramente humildade que nos falta. Podemos ter mais consciência do que plantas ou animais. Mas teremos mais do que as estrelas?

escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.


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