[dropcap]O[/dropcap]lhando para jornais e noticiários ficamos com a impressão de que vivemos em um mundo mais violento do que nunca. Não é raro ouvir que vivemos tempos difíceis, que hoje em dia ocorrem coisas que antes não aconteciam. O famoso papo “onde o mundo vai parar?”

Segundo o psicólogo de Harvard, Steven Pinker, a verdade é bem outra. A violência viria diminuindo progressivamente ao longo dos séculos, ao contrário do que diz a intuição. E isso poderia estar ocorrendo graças a criações essencialmente ocidentais, como a democracia e o aparato jurídico estatal.

Pinker e os outros declinistas (os que defendem a redução histórica da violência) se apoiam em dados estatísticos e arqueológicos relacionados à violência. A partir desses dados, costuram uma narrativa essencialmente fornecida pelas ciências evolucionistas.

Mesmo após a publicação do livro Os Anjos Bons da Natureza Humana, um compilado de toda a argumentação declinista, existem cientistas de todos os tipos contestando essa versão dos fatos. Segundo eles, Pinker e sua liga de declinistas estariam fazendo uma manobra interpretativa dos dados para fins nada nobres como:

(i) promover o imperialismo americano (ou ocidental, como um todo),
(ii) corroborar as teses evolucionistas sobre a natureza hobbesiana do Homo sapiens, negando o chamado Mito do Bom Selvagem perpetrado por Rousseau e
(iii) justificar intervenções bélicas, darwinismo social (!) e até eugenia (!).

Os Anjos Bons da Natureza Humana

Seria certamente paradoxal dizer que Pinker resume nesse livro a proposta declinista, já que o livro tem quase umas boas mil páginas. Mas é um compêndio agradável de ser lido. Para os leitores mais apressados, o psicólogo explica algumas evidências e dá algumas explicações no TED.

Para os Declicionistas, o ocidente civilizado desenvolveu instrumentos sociais para reduzir a violência.
Para os “declinistas”, a civilização ocidental criou formas de reduzir a violência.

O argumento central é que a natureza humana é muito mais hobbesiana (propensa à violência) do que rousseauniana (espontaneamente pacífica). Sob certas condições contextuais, que foram quase onipresentes na história humana somos tão hostis e agressivos quanto nossos primos, os chimpanzés. A violência parece ter sido uma estratégia que surgiu e foi preferida pela evolução porque era eficiente em lidar com certos tipos de ameaças e possuía poder preventivo (algo que tentei explicar em outro texto).

Ser eficiente quer dizer que os benefícios de uma característica X (por exemplo: agressividade ou cooperação) superam seus custos em termos de reprodução. Por exemplo, animais que tem o comportamento x se reproduzem mais do que os que não tem. Que fique claro: isso não é uma defesa moral de x, mas é um fato verificado em uma miríade de espécies.

Entretanto, a cooperação é característica marcante entre as espécies sociais, e os primatas estão entre elas. Assim, ao mesmo tempo que um chimpanzé ou um ser humano pode ser extremamente hostil com indivíduos de grupos rivais, pode ser extremamente compassivo e cooperativo com pares da mesma coalizão, ou com grupos aliados.

[pullquote cite=”Felipe Novaes” type=”right”]Nossa natureza não é essencialmente boa nem má, e a inclinação de cada um depende de fatores individuais e contextuais.[/pullquote]

Portanto, temos uma natureza que não é essencialmente boa nem má, e que ao mesmo tempo é ambas. Ser mais uma coisa ou outra depende de fatores individuais e contextuais.

Para observar isso, basta olhar para a história humana. Temos exemplos prototípicos de brutalidade e chacina, mas de compaixão indiscriminada também. O mesmo homem que doa parte de suas posses para instituições de caridade é aquele que apoia a intervenção americana no oriente Médio, ou que defende a expulsão dos imigrantes de sua nação, ou que agride pessoas com orientação sexual diferente da sua.

Pinker cita um portentoso arsenal de evidências para justificar seu argumento central — o declínio da violência. Dentre eles, estão evidências de canibalismo entre tribos humanas, registros arqueológicos que revelam esqueletos com ferimentos já cicatrizados ou fatais provocados por armas humanas, histórias registradas por antropólogos e etc (falei disso mais longamente em outro texto).

Um calhamaço de quase mil páginas de argumentos, análises estatísticas e evidências interdisciplinares não é mais do que suficiente para fecharmos a questão e aceitar que vivemos tempos comparativamente mais pacíficos do que nunca?
Parece que nem todos concordariam.

Declínio ou ascensão?

Na contramão dessa onda, no início de 2017 foi publicado um estudo crítico no International Journal of Cultural Studies, intitulado The myth of declining violence: Liberal evolutionism and violent complexity, pelo Professor australiano Jeff Lewis. O estudo acusa os declinistas (citando Pinker diversas vezes) de:

(i) defesa indiscriminada de um liberalismo utópico;
(ii) deturpação de evidências arqueológicas e históricas;
(iii) ignorar os problemas básicos como definição operacional de violência;
(iv) promover interesses neoliberais.

A maior parte da crítica, que acaba abarcando os pontos de (i) a (iv) é a manipulação dos dados e das análises estatísticas.

Por exemplo, o grupo de pesquisadores que concorda com Pinker parece levar em conta o número de mortes resultantes de conflitos diretos (guerras) para dizer se a violência vem aumentando ou diminuindo. Para isso, na maioria dos casos são usados relatórios estatísticos dos países que participaram desses conflitos, principalmente dos países vencedores. Disso é tirado o total de mortos no conflito.

Um dos problemas apontados por Lewis é que essas informações podem ser manipuladas por interesses políticos, já que o país vencedor é a fonte principal desses dados. Pode haver subestimação das consequências da guerra, para evitar que a opinião pública caia em peso sobre o vencedor.

[pullquote cite=”Winston Churchil” type=”left”]A história da raça humana é a guerra. Exceto por breves e precários intervalos, nunca houve paz no mundo; e muito antes da história começar, o conflito assassino era universal e interminável.[/pullquote]

A comparação que abrange milênios e entre sociedades muito diferentes também é um problema. Para fazer as comparações entre os índices de violência, os pesquisadores precisam de fontes de informações sobre populações contemporâneas e ancestrais. Para isso, são utilizados relatórios estatísticos e registros fósseis. Lewis aponta a dificuldade de comparar esses dois tipos de dados, que podem ser qualitativamente diferentes. A discussão poderia ser muito mais complexa do que simplesmente contar a quantidade de mortos numa época e outra e ver quando morreu mais gente.

O tipo de evidência utilizado também pode gerar problemas. Os declinistas, segundo Lewis, consideram apenas conflitos diretos e utilizam mortes militares na contagem de mortos. Mas Lewis argumenta que contabilizar mortes indiretas de civis pode fazer a balança de mortes ficar bem mais pesada pro lado do século XX em diante. Isso prejudicaria o argumento declinista, segundo o qual o século XX, especialmente, apesar de ter sido palco de duas grandes guerras, foi um dos períodos comparativamente mais pacíficos da História.

De acordo com o artigo de Lewis, tudo isso pode ser um movimento de xadrez maquiavélico, não uma mera escolha de como tratar os dados.

Para Lewis, o mundo não vai tão bem assim.
Para Lewis, o mundo não vai tão bem assim.

Na Guerra do Iraque, por exemplo, as estatísticas dos mortos e feridos foram produzidas pelos Estados Unidos. Motivados ideologicamente, informações sobre mortes de civis iraquianos podem ter sido omitidas. Países arrasados pela guerra tem seus aparatos governamentais destruídos, o que dificulta bastante a produção de suas próprias informações sobre os conflitos, inclusive sobre quantos habitantes havia antes e depois. Segundo dados mostrados por Lewis, civis podem representar de 60 a 90% dos mortos em uma guerra.

É digno de nota que esse argumento também pode jogar a favor dos declinistas, afinal, como vão usar fontes estatísticas de países arrasados pela guerra se eles tiveram suas instituições significativamente prejudicadas? Isso pode indicar que a questão toda pode ter a ver com limitações bem pragmáticas, não ideológicas.

De qualquer forma, essas divergências entre declinistas e “ascencionistas” geram disparidades incríveis nas conclusões. Por exemplo, Pinker chega a 0,7% de mortes de civis, entre toda a população de mortos na Segunda Guerra Mundial. Seus opositores estimam incríveis 5% de civis, dentre todos os mortos. É muita coisa.

Os “ascencionistas” também cogitam outras causas para essa diminuição do número de mortes em guerras. É possível que a evolução tecnológica dos tratamentos médicos possa ter diminuído essas baixas, sem que necessariamente tenha declinado a violência em si.

Ideologia pode ser desculpa para tudo?

Além de apontar esses possíveis erros e manobras interpretativas de maneira mais factual, Lewis parece estar especialmente certo sobre a existência de um complô.

Segundo o Professor australiano, a intenção central dos declinistas seria justificar o imperialismo e as guerras do Ocidente (Estados Unidos) contra o Oriente. Uma vez que são as instituições ocidentais, como a democracia e o liberalismo, que parecem ser o diferencial na diminuição da violência, então as guerras agora estariam moralmente justificadas.

É o velho retorno do Iluminismo e da valorização da Razão, algo essencial para nosso mundo a oeste do globo: as outras nações deveriam aprender conosco – como com certeza pensaria uma mente iluminista. E isso, para qualquer culturalista como Lewis, é o fim da picada.
Como refutação, Lewis tenta derrubar outra base do argumento declinista, que é a ciência evolucionista.

Como explica Pinker, a violência deveria ser evitada, mas ela emerge como uma estratégia em certas interações humanas porque herdamos isso de nossos ancestrais, traço compartilhado inclusive com chimpanzés e outros primatas. E os registros arqueológicos mostram esse passado humano dominado pela guerra.
Para Lewis, Pinker comete dois erros:

(i) Inadvertidamente ignora que bonobos também são nossos parentes próximos, e que são extremamente pacíficos.
(ii) Evidências sugerem que esse aumento de violência ocorreu há pouco mais de 10 mil anos, com a invenção da agricultura.

A agricultura trouxe consigo a monopolização de recursos, a necessidade de cercar áreas cultiváveis e crescimento populacional. Essa é a receita para o aumento dos conflitos. Uma vez que se tem uma área fixa de onde vem seus recursos, há a necessidade de proteção. Aumento populacional gera escassez de recursos, que aumenta o número de free riders.

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O surgimento da agricultura trouxe a receita para os conflitos.

Isso gera uma corrida armamentista hobbesiana muito parecida com o que a série The Walking Dead mostra. Free riders se armam mais para roubar recursos, enquanto os detentores de recursos aumentam seus armamentos para se proteger desses free riders.
Ainda existe uma influência muito interessante sobre as relações amorosas e os diferentes modos como homens e mulheres compreendem isso.

Homens costumam ostentar status social como forma de parecerem mais atraentes. Ao mesmo tempo, as mulheres parecem entender bem o recado, porque elas têm como principal critério de atratividade justamente o status social masculino – porque status em tese está ligado a recursos, que é um investimento na relação que geralmente o sexo com o maior investimento parental (no caso, as mulheres) exige [pode parecer estranho, mas essas tendências se manifestam até na arte].

Com mais recursos disponíveis, por causa da agricultura, os homens ficam mais afoitos pela ostentação, e os critérios femininos sobem. Isso gera mais conflitos entre os homens.

Sendo assim, Lewis parece se opor essencialmente, de maneira mais pragmática, às análises declinistas, mas também à suposta ideologia por trás de sua abordagem.

Ponto para Lewis, pois a própria abordagem evolucionista tão cara a Pinker parece fornecer um cenário coerente para explicar o pico de violência que os registros parecem registrar pós-agricultura — apesar disso ter sido aparentemente omitido em Anjos Bons da Nossa Natureza.

De qualquer forma, é a ideologia que parece (na cabeça de Lewis) dar o golpe final nos declinistas. Misturar evolução nessa história toda seria uma tentativa de retornar ao imperialismo americano como o catequizador universal dos valores que fariam o mundo melhorar de vez, justificando guerras e até eugenia para eliminar os mais fracos.

Nesse sentido, o artigo de Lewis parece ser vítima do próprio ideologismo que pretende combater. Além de estar um tanto mal informado sobre as teorias evolucionistas atuais, o culturalista australiano parece ter um histórico que o habilita justamente a misturar bastante ideologia aos seus julgamentos.

Sua carreira é dedicada a entender as causas culturais da violência, estudando principalmente política e terrorismo. Olhando sua produção acadêmica é perceptível tratar-se de um culturalista. Geralmente, culturalistas (strictu e latto sensu) são avessos a explicações evolucionistas e biológicas em geral, e frequentemente constroem espantalhos de áreas como a psicologia evolucionista, para depois se vangloriarem de sua vitória argumentativa.

Como todo culturalista, e posso estar cometendo uma generalização aqui, Lewis parece lutar, de maneira subjacente, contra fantasmas que estão praticamente enterrados, mas que eles mesmos desenterram e reclamam a glória por tê-los enterrado novamente, a saber: eugenia, darwinismo social e colonialismo (encerro aqui para não dar uma de Umberto Eco, com suas listas infinitas).

Com esse panorama, os declinistas parecem agora ter algum trabalho a fazer em prol da contra-argumentação dessas críticas, por mais que algumas delas tenham sido baseadas em espantalhos falaciosos.
Enquanto isso, o público continua baseando-se em opiniões e chutes pessoais, aderindo a uma ou outra narrativa para falar sobre os tempos atuais, especialmente pacífico ou especialmente violentos.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.