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Na real: estamos evoluindo ou involuindo?

Em Comportamento por Felipe NovaesComentário

Olhando para jor­nais e noti­ciá­rios fica­mos com a impres­são de que vive­mos em um mundo mais vio­lento do que nunca. Não é raro ouvir que vive­mos tem­pos difí­ceis, que hoje em dia ocor­rem coi­sas que antes não acon­te­ciam. O famoso papo “onde o mundo vai parar?”

Segundo o psi­có­logo de Har­vard, Ste­ven Pin­ker, a ver­dade é bem outra. A vio­lên­cia viria dimi­nuindo pro­gres­si­va­mente ao longo dos sécu­los, ao con­trá­rio do que diz a intui­ção. E isso pode­ria estar ocor­rendo gra­ças a cri­a­ções essen­ci­al­mente oci­den­tais, como a demo­cra­cia e o apa­rato jurí­dico esta­tal.

Pin­ker e os outros decli­nis­tas (os que defen­dem a redu­ção his­tó­rica da vio­lên­cia) se apoiam em dados esta­tís­ti­cos e arque­o­ló­gi­cos rela­ci­o­na­dos à vio­lên­cia. A par­tir des­ses dados, cos­tu­ram uma nar­ra­tiva essen­ci­al­mente for­ne­cida pelas ciên­cias evo­lu­ci­o­nis­tas.

Mesmo após a publi­ca­ção do livro Os Anjos Bons da Natu­reza Humana, um com­pi­lado de toda a argu­men­ta­ção decli­nista, exis­tem cien­tis­tas de todos os tipos con­tes­tando essa ver­são dos fatos. Segundo eles, Pin­ker e sua liga de decli­nis­tas esta­riam fazendo uma mano­bra inter­pre­ta­tiva dos dados para fins nada nobres como:

(i) pro­mo­ver o impe­ri­a­lismo ame­ri­cano (ou oci­den­tal, como um todo),
(ii) cor­ro­bo­rar as teses evo­lu­ci­o­nis­tas sobre a natu­reza hob­be­si­ana do Homo sapi­ens, negando o cha­mado Mito do Bom Sel­va­gem per­pe­trado por Rous­seau e
(iii) jus­ti­fi­car inter­ven­ções béli­cas, darwi­nismo social (!) e até euge­nia (!).

Os Anjos Bons da Natureza Humana

Seria cer­ta­mente para­do­xal dizer que Pin­ker resume nesse livro a pro­posta decli­nista, já que o livro tem quase umas boas mil pági­nas. Mas é um com­pên­dio agra­dá­vel de ser lido. Para os lei­to­res mais apres­sa­dos, o psi­có­logo explica algu­mas evi­dên­cias e dá algu­mas expli­ca­ções no TED.

Para os Declicionistas, o ocidente civilizado desenvolveu instrumentos sociais para reduzir a violência.

Para os “decli­nis­tas”, a civi­li­za­ção oci­den­tal criou for­mas de redu­zir a vio­lên­cia.

O argu­mento cen­tral é que a natu­reza humana é muito mais hob­be­si­ana (pro­pensa à vio­lên­cia) do que rous­se­au­ni­ana (espon­ta­ne­a­mente pací­fica). Sob cer­tas con­di­ções con­tex­tu­ais, que foram quase oni­pre­sen­tes na his­tó­ria humana somos tão hos­tis e agres­si­vos quanto nos­sos pri­mos, os chim­pan­zés. A vio­lên­cia parece ter sido uma estra­té­gia que sur­giu e foi pre­fe­rida pela evo­lu­ção por­que era efi­ci­ente em lidar com cer­tos tipos de ame­a­ças e pos­suía poder pre­ven­tivo (algo que ten­tei expli­car em outro texto).

Ser efi­ci­ente quer dizer que os bene­fí­cios de uma carac­te­rís­tica X (por exem­plo: agres­si­vi­dade ou coo­pe­ra­ção) supe­ram seus cus­tos em ter­mos de repro­du­ção. Por exem­plo, ani­mais que tem o com­por­ta­mento x se repro­du­zem mais do que os que não tem. Que fique claro: isso não é uma defesa moral de x, mas é um fato veri­fi­cado em uma miríade de espé­cies.

Entre­tanto, a coo­pe­ra­ção é carac­te­rís­tica mar­cante entre as espé­cies soci­ais, e os pri­ma­tas estão entre elas. Assim, ao mesmo tempo que um chim­panzé ou um ser humano pode ser extre­ma­mente hos­til com indi­ví­duos de gru­pos rivais, pode ser extre­ma­mente com­pas­sivo e coo­pe­ra­tivo com pares da mesma coa­li­zão, ou com gru­pos ali­a­dos.

Nossa natu­reza não é essen­ci­al­mente boa nem má, e a incli­na­ção de cada um depende de fato­res indi­vi­du­ais e con­tex­tu­ais.Felipe Novaes

Por­tanto, temos uma natu­reza que não é essen­ci­al­mente boa nem má, e que ao mesmo tempo é ambas. Ser mais uma coisa ou outra depende de fato­res indi­vi­du­ais e con­tex­tu­ais.

Para obser­var isso, basta olhar para a his­tó­ria humana. Temos exem­plos pro­to­tí­pi­cos de bru­ta­li­dade e cha­cina, mas de com­pai­xão indis­cri­mi­nada tam­bém. O mesmo homem que doa parte de suas pos­ses para ins­ti­tui­ções de cari­dade é aquele que apoia a inter­ven­ção ame­ri­cana no ori­ente Médio, ou que defende a expul­são dos imi­gran­tes de sua nação, ou que agride pes­soas com ori­en­ta­ção sexual dife­rente da sua.

Pin­ker cita um por­ten­toso arse­nal de evi­dên­cias para jus­ti­fi­car seu argu­mento cen­tral — o declí­nio da vio­lên­cia. Den­tre eles, estão evi­dên­cias de cani­ba­lismo entre tri­bos huma­nas, regis­tros arque­o­ló­gi­cos que reve­lam esque­le­tos com feri­men­tos já cica­tri­za­dos ou fatais pro­vo­ca­dos por armas huma­nas, his­tó­rias regis­tra­das por antro­pó­lo­gos e etc (falei disso mais lon­ga­mente em outro texto).

Um calha­maço de quase mil pági­nas de argu­men­tos, aná­li­ses esta­tís­ti­cas e evi­dên­cias inter­dis­ci­pli­na­res não é mais do que sufi­ci­ente para fechar­mos a ques­tão e acei­tar que vive­mos tem­pos com­pa­ra­ti­va­mente mais pací­fi­cos do que nunca?
Parece que nem todos con­cor­da­riam.

Declínio ou ascensão?

Na con­tra­mão dessa onda, no iní­cio de 2017 foi publi­cado um estudo crí­tico no Inter­na­ti­o­nal Jour­nal of Cul­tu­ral Stu­dies, inti­tu­lado The myth of decli­ning vio­lence: Libe­ral evo­lu­ti­o­nism and vio­lent com­ple­xity, pelo Pro­fes­sor aus­tra­li­ano Jeff Lewis. O estudo acusa os decli­nis­tas (citando Pin­ker diver­sas vezes) de:

(i) defesa indis­cri­mi­nada de um libe­ra­lismo utó­pico;
(ii) detur­pa­ção de evi­dên­cias arque­o­ló­gi­cas e his­tó­ri­cas;
(iii) igno­rar os pro­ble­mas bási­cos como defi­ni­ção ope­ra­ci­o­nal de vio­lên­cia;
(iv) pro­mo­ver inte­res­ses neo­li­be­rais.

A maior parte da crí­tica, que acaba abar­cando os pon­tos de (i) a (iv) é a mani­pu­la­ção dos dados e das aná­li­ses esta­tís­ti­cas.

Por exem­plo, o grupo de pes­qui­sa­do­res que con­corda com Pin­ker parece levar em conta o número de mor­tes resul­tan­tes de con­fli­tos dire­tos (guer­ras) para dizer se a vio­lên­cia vem aumen­tando ou dimi­nuindo. Para isso, na mai­o­ria dos casos são usa­dos rela­tó­rios esta­tís­ti­cos dos paí­ses que par­ti­ci­pa­ram des­ses con­fli­tos, prin­ci­pal­mente dos paí­ses ven­ce­do­res. Disso é tirado o total de mor­tos no con­flito.

Um dos pro­ble­mas apon­ta­dos por Lewis é que essas infor­ma­ções podem ser mani­pu­la­das por inte­res­ses polí­ti­cos, já que o país ven­ce­dor é a fonte prin­ci­pal des­ses dados. Pode haver subes­ti­ma­ção das con­sequên­cias da guerra, para evi­tar que a opi­nião pública caia em peso sobre o ven­ce­dor.

A his­tó­ria da raça humana é a guerra. Exceto por bre­ves e pre­cá­rios inter­va­los, nunca houve paz no mundo; e muito antes da his­tó­ria come­çar, o con­flito assas­sino era uni­ver­sal e inter­mi­ná­vel.Wins­ton Chur­chil

A com­pa­ra­ção que abrange milê­nios e entre soci­e­da­des muito dife­ren­tes tam­bém é um pro­blema. Para fazer as com­pa­ra­ções entre os índi­ces de vio­lên­cia, os pes­qui­sa­do­res pre­ci­sam de fon­tes de infor­ma­ções sobre popu­la­ções con­tem­po­râ­neas e ances­trais. Para isso, são uti­li­za­dos rela­tó­rios esta­tís­ti­cos e regis­tros fós­seis. Lewis aponta a difi­cul­dade de com­pa­rar esses dois tipos de dados, que podem ser qua­li­ta­ti­va­mente dife­ren­tes. A dis­cus­são pode­ria ser muito mais com­plexa do que sim­ples­mente con­tar a quan­ti­dade de mor­tos numa época e outra e ver quando mor­reu mais gente.

O tipo de evi­dên­cia uti­li­zado tam­bém pode gerar pro­ble­mas. Os decli­nis­tas, segundo Lewis, con­si­de­ram ape­nas con­fli­tos dire­tos e uti­li­zam mor­tes mili­ta­res na con­ta­gem de mor­tos. Mas Lewis argu­menta que con­ta­bi­li­zar mor­tes indi­re­tas de civis pode fazer a balança de mor­tes ficar bem mais pesada pro lado do século XX em diante. Isso pre­ju­di­ca­ria o argu­mento decli­nista, segundo o qual o século XX, espe­ci­al­mente, ape­sar de ter sido palco de duas gran­des guer­ras, foi um dos perío­dos com­pa­ra­ti­va­mente mais pací­fi­cos da His­tó­ria.

De acordo com o artigo de Lewis, tudo isso pode ser um movi­mento de xadrez maqui­a­vé­lico, não uma mera esco­lha de como tra­tar os dados.

Para Lewis, o mundo não vai tão bem assim.

Para Lewis, o mundo não vai tão bem assim.

Na Guerra do Ira­que, por exem­plo, as esta­tís­ti­cas dos mor­tos e feri­dos foram pro­du­zi­das pelos Esta­dos Uni­dos. Moti­va­dos ide­o­lo­gi­ca­mente, infor­ma­ções sobre mor­tes de civis ira­qui­a­nos podem ter sido omi­ti­das. Paí­ses arra­sa­dos pela guerra tem seus apa­ra­tos gover­na­men­tais des­truí­dos, o que difi­culta bas­tante a pro­du­ção de suas pró­prias infor­ma­ções sobre os con­fli­tos, inclu­sive sobre quan­tos habi­tan­tes havia antes e depois. Segundo dados mos­tra­dos por Lewis, civis podem repre­sen­tar de 60 a 90% dos mor­tos em uma guerra.

É digno de nota que esse argu­mento tam­bém pode jogar a favor dos decli­nis­tas, afi­nal, como vão usar fon­tes esta­tís­ti­cas de paí­ses arra­sa­dos pela guerra se eles tive­ram suas ins­ti­tui­ções sig­ni­fi­ca­ti­va­mente pre­ju­di­ca­das? Isso pode indi­car que a ques­tão toda pode ter a ver com limi­ta­ções bem prag­má­ti­cas, não ide­o­ló­gi­cas.

De qual­quer forma, essas diver­gên­cias entre decli­nis­tas e “ascen­ci­o­nis­tas” geram dis­pa­ri­da­des incrí­veis nas con­clu­sões. Por exem­plo, Pin­ker chega a 0,7% de mor­tes de civis, entre toda a popu­la­ção de mor­tos na Segunda Guerra Mun­dial. Seus opo­si­to­res esti­mam incrí­veis 5% de civis, den­tre todos os mor­tos. É muita coisa.

Os “ascen­ci­o­nis­tas” tam­bém cogi­tam outras cau­sas para essa dimi­nui­ção do número de mor­tes em guer­ras. É pos­sí­vel que a evo­lu­ção tec­no­ló­gica dos tra­ta­men­tos médi­cos possa ter dimi­nuído essas bai­xas, sem que neces­sa­ri­a­mente tenha decli­nado a vio­lên­cia em si.

Ideologia pode ser desculpa para tudo?

Além de apon­tar esses pos­sí­veis erros e mano­bras inter­pre­ta­ti­vas de maneira mais fac­tual, Lewis parece estar espe­ci­al­mente certo sobre a exis­tên­cia de um com­plô.

Segundo o Pro­fes­sor aus­tra­li­ano, a inten­ção cen­tral dos decli­nis­tas seria jus­ti­fi­car o impe­ri­a­lismo e as guer­ras do Oci­dente (Esta­dos Uni­dos) con­tra o Ori­ente. Uma vez que são as ins­ti­tui­ções oci­den­tais, como a demo­cra­cia e o libe­ra­lismo, que pare­cem ser o dife­ren­cial na dimi­nui­ção da vio­lên­cia, então as guer­ras agora esta­riam moral­mente jus­ti­fi­ca­das.

É o velho retorno do Ilu­mi­nismo e da valo­ri­za­ção da Razão, algo essen­cial para nosso mundo a oeste do globo: as outras nações deve­riam apren­der conosco — como com cer­teza pen­sa­ria uma mente ilu­mi­nista. E isso, para qual­quer cul­tu­ra­lista como Lewis, é o fim da picada.
Como refu­ta­ção, Lewis tenta der­ru­bar outra base do argu­mento decli­nista, que é a ciên­cia evo­lu­ci­o­nista.

Como explica Pin­ker, a vio­lên­cia deve­ria ser evi­tada, mas ela emerge como uma estra­té­gia em cer­tas inte­ra­ções huma­nas por­que her­da­mos isso de nos­sos ances­trais, traço com­par­ti­lhado inclu­sive com chim­pan­zés e outros pri­ma­tas. E os regis­tros arque­o­ló­gi­cos mos­tram esse pas­sado humano domi­nado pela guerra.
Para Lewis, Pin­ker comete dois erros:

(i) Inad­ver­ti­da­mente ignora que bono­bos tam­bém são nos­sos paren­tes pró­xi­mos, e que são extre­ma­mente pací­fi­cos.
(ii) Evi­dên­cias suge­rem que esse aumento de vio­lên­cia ocor­reu há pouco mais de 10 mil anos, com a inven­ção da agri­cul­tura.

A agri­cul­tura trouxe con­sigo a mono­po­li­za­ção de recur­sos, a neces­si­dade de cer­car áreas cul­ti­vá­veis e cres­ci­mento popu­la­ci­o­nal. Essa é a receita para o aumento dos con­fli­tos. Uma vez que se tem uma área fixa de onde vem seus recur­sos, há a neces­si­dade de pro­te­ção. Aumento popu­la­ci­o­nal gera escas­sez de recur­sos, que aumenta o número de free riders.

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O sur­gi­mento da agri­cul­tura trouxe a receita para os con­fli­tos.

Isso gera uma cor­rida arma­men­tista hob­be­si­ana muito pare­cida com o que a série The Wal­king Dead mos­tra. Free riders se armam mais para rou­bar recur­sos, enquanto os deten­to­res de recur­sos aumen­tam seus arma­men­tos para se pro­te­ger des­ses free riders.
Ainda existe uma influên­cia muito inte­res­sante sobre as rela­ções amo­ro­sas e os dife­ren­tes modos como homens e mulhe­res com­pre­en­dem isso.

Homens cos­tu­mam osten­tar sta­tus social como forma de pare­ce­rem mais atra­en­tes. Ao mesmo tempo, as mulhe­res pare­cem enten­der bem o recado, por­que elas têm como prin­ci­pal cri­té­rio de atra­ti­vi­dade jus­ta­mente o sta­tus social mas­cu­lino — por­que sta­tus em tese está ligado a recur­sos, que é um inves­ti­mento na rela­ção que geral­mente o sexo com o maior inves­ti­mento paren­tal (no caso, as mulhe­res) exige [pode pare­cer estra­nho, mas essas ten­dên­cias se mani­fes­tam até na arte].

Com mais recur­sos dis­po­ní­veis, por causa da agri­cul­tura, os homens ficam mais afoi­tos pela osten­ta­ção, e os cri­té­rios femi­ni­nos sobem. Isso gera mais con­fli­tos entre os homens.

Sendo assim, Lewis parece se opor essen­ci­al­mente, de maneira mais prag­má­tica, às aná­li­ses decli­nis­tas, mas tam­bém à suposta ide­o­lo­gia por trás de sua abor­da­gem.

Ponto para Lewis, pois a pró­pria abor­da­gem evo­lu­ci­o­nista tão cara a Pin­ker parece for­ne­cer um cená­rio coe­rente para expli­car o pico de vio­lên­cia que os regis­tros pare­cem regis­trar pós-agri­cul­tura — ape­sar disso ter sido apa­ren­te­mente omi­tido em Anjos Bons da Nossa Natu­reza.

De qual­quer forma, é a ide­o­lo­gia que parece (na cabeça de Lewis) dar o golpe final nos decli­nis­tas. Mis­tu­rar evo­lu­ção nessa his­tó­ria toda seria uma ten­ta­tiva de retor­nar ao impe­ri­a­lismo ame­ri­cano como o cate­qui­za­dor uni­ver­sal dos valo­res que fariam o mundo melho­rar de vez, jus­ti­fi­cando guer­ras e até euge­nia para eli­mi­nar os mais fra­cos.

Nesse sen­tido, o artigo de Lewis parece ser vítima do pró­prio ide­o­lo­gismo que pre­tende com­ba­ter. Além de estar um tanto mal infor­mado sobre as teo­rias evo­lu­ci­o­nis­tas atu­ais, o cul­tu­ra­lista aus­tra­li­ano parece ter um his­tó­rico que o habi­lita jus­ta­mente a mis­tu­rar bas­tante ide­o­lo­gia aos seus jul­ga­men­tos.

Sua car­reira é dedi­cada a enten­der as cau­sas cul­tu­rais da vio­lên­cia, estu­dando prin­ci­pal­mente polí­tica e ter­ro­rismo. Olhando sua pro­du­ção aca­dê­mica é per­cep­tí­vel tra­tar-se de um cul­tu­ra­lista. Geral­mente, cul­tu­ra­lis­tas (strictu e latto sensu) são aves­sos a expli­ca­ções evo­lu­ci­o­nis­tas e bio­ló­gi­cas em geral, e fre­quen­te­mente cons­troem espan­ta­lhos de áreas como a psi­co­lo­gia evo­lu­ci­o­nista, para depois se van­glo­ri­a­rem de sua vitó­ria argu­men­ta­tiva.

Como todo cul­tu­ra­lista, e posso estar come­tendo uma gene­ra­li­za­ção aqui, Lewis parece lutar, de maneira sub­ja­cente, con­tra fan­tas­mas que estão pra­ti­ca­mente enter­ra­dos, mas que eles mes­mos desen­ter­ram e recla­mam a gló­ria por tê-los enter­rado nova­mente, a saber: euge­nia, darwi­nismo social e colo­ni­a­lismo (encerro aqui para não dar uma de Umberto Eco, com suas lis­tas infi­ni­tas).

Com esse pano­rama, os decli­nis­tas pare­cem agora ter algum tra­ba­lho a fazer em prol da con­tra-argu­men­ta­ção des­sas crí­ti­cas, por mais que algu­mas delas tenham sido base­a­das em espan­ta­lhos fala­ci­o­sos.
Enquanto isso, o público con­ti­nua base­ando-se em opi­niões e chu­tes pes­so­ais, ade­rindo a uma ou outra nar­ra­tiva para falar sobre os tem­pos atu­ais, espe­ci­al­mente pací­fico ou espe­ci­al­mente vio­len­tos.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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