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Onde está a felicidade?

Em Consciência, Sociedade por Victor LisboaComentário

É triste como a mai­o­ria das pes­soas des­per­diça suas vidas. E elas des­per­di­çam com­ple­ta­mente suas vidas. Não con­se­gui­riam ser feli­zes mesmo que a feli­ci­dade fosse esfre­gada em suas caras.

Pois desa­pren­de­mos o que é feli­ci­dade. Assim como desa­pren­de­mos o que é amor. A mai­o­ria de nós não é capaz de reco­nhe­cer quando alguém o ama, ou mesmo reco­nhe­cer quando está amando, por­que no fundo nunca apren­deu lá no iní­cio de sua vidas o que é ver­da­dei­ra­mente o amor. E assim apego, pai­xão e diver­sas for­mas de pro­je­ções são con­fun­di­das com amor.

E é muito maior o número daque­les inca­pa­zes de saber o que é feli­ci­dade, pois o mundo atual está repleto de estí­mu­los que nos fazem desa­pren­der o que sig­ni­fica ser feliz. Desde a nossa infân­cia e por déca­das, somos bom­bar­de­a­dos por anún­cios que asso­ciam a feli­ci­dade com a posse de bens, ou com expe­ri­ên­cias que só tere­mos se pagar­mos por elas, ou com a aqui­si­ção de algum sta­tus social que nos trará pres­tí­gio.

Não estra­nha­mos quando Bukoswki afir­mou que “toda minha vida tem sido uma ques­tão de lutar por uma sim­ples hora para fazer o que quero fazer, tem sem­pre alguma coisa atra­pa­lhando a minha che­gada a mim mesmo”. Na inter­net, na TV e em quase todos os ambi­en­tes somos con­ti­nu­a­mente soter­ra­dos por maré de estí­mu­los, uma tor­rente de dis­tra­ções que no final resul­tam em um enorme estrago: nosso apren­di­zado ini­cial sobre o que é feli­ci­dade, aquilo que qual­quer cri­ança e até mesmo ani­mal aprende já na infân­cia, é dis­tor­cido, detur­pado, defor­mado e car­re­gado pela maré de pro­pa­gan­das até já não mais ser­mos capa­zes de sequer saber­mos quando esta­mos feli­zes ou não.

Vive­mos em uma soci­e­dade doente. E esta­mos enfer­mos.

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Se você rece­besse de seu médico a notí­cia de que tem só um mês de vida, des­co­bri­ria repen­ti­na­mente o que é feli­ci­dade. Como é pos­sí­vel que essa des­co­berta seja tão abrupta? É sim­ples. Não se trata de uma des­co­berta, mas de uma relem­brança. Por­que feli­ci­dade é algo que desa­pren­de­mos, e esque­ce­mos no meio do cami­nho na dire­ção a uma pro­messa vazia. É uma coisa que dei­xa­mos lá atrás.

Então notí­cia do médico teria um efeito depu­ra­dor nos seus sen­ti­dos, como uma água fria demais num rosto sono­lento. Subi­ta­mente, sua mente rejei­ta­ria toda a merda que tem sido acu­mu­lada pela opi­nião dos outros, pelas cam­pa­nhas publi­ci­tá­rias e pela mídia. Nin­guém mais teria aquele poder de incu­tir em você dúvi­das sobre o que você deve que­rer, sobre o que é real­mente impor­tante na sua vida, sobre o que é feli­ci­dade.

Mas, feliz­mente, é muito pro­vá­vel que nunca um médico lhe diga que pos­sui só um mês de vida.

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E nesse ponto do papo con­vém que pare­mos de desen­vol­ver o tema (forma ele­gante de dizer “enro­lar”) e come­ce­mos a bus­car alguma defi­ni­ção. Para isso basta inves­ti­gar­mos as pos­sí­veis repos­tas a duas per­gun­tas, que temos cora­gem de fazer gra­ças a um misto de tola inge­nui­dade e cora­gem gros­seira:

- O que é felicidade?

e

- Como fazemos para conquistá-la?

Se ao ler essas per­gun­tas você foi tomado por um sen­ti­mento bizarro que mis­tura des­con­forto e von­tade de rir, ape­sar de no fundo algo em você dizer que está diante de duas das mais impor­tan­tes per­gun­tas que secre­ta­mente sem­pre for­mu­lou em seu íntimo, não se pre­o­cupe: isso é sinal de que você é nor­mal. E um pouco infe­liz.

E além de nós, os nor­mais, um pouco infe­li­zes, há ainda outra espé­cie de pes­soa. São os muito infe­li­zes. Todos nós conhe­ce­mos algum, senão alguns, exem­plos de ami­gos, fami­li­a­res ou cole­gas dessa cate­go­ria. São as pes­soas amar­gas, aque­las que usam o poder como apoio de sua per­so­na­li­dade, as ansi­o­sas, as depri­mi­das, as que encon­tram na fofoca e na intriga uma fonte de diver­ti­mento, as vio­len­tas, as exces­si­va­mente irô­ni­cas, as desen­can­ta­das, as que acu­mu­lam patrimô­nio ao ponto de pri­var-se de uma vida ven­tu­rosa. E por aí vai. A tipo­lo­gia é rica. É triste reco­nhe­cer, mas a fauna dos muito infe­li­zes é diver­si­fi­cada e nume­rosa em nossa soci­e­dade.

Há, além des­ses, os total­mente infe­li­zes, aque­les que ao lerem essas duas per­gun­tas sen­ti­rão ape­nas incre­du­li­dade diante do que acre­di­tam ser de um típico exem­plo da grande ino­cên­cia — ou da grande esper­teza. Para eles, a feli­ci­dade é uma fic­ção, e qual­quer um que fale de um método para obtê-la ou é tolo está ten­tando ven­der algo.

E são eles que nos inte­res­sam aqui. Os total­mente infe­li­zes são a chave para as res­pos­tas às duas per­gun­tas. Pois uma forma de des­co­brir algo que pro­cu­ra­mos é atra­vés de seus ras­tros. É jus­ta­mente ana­li­sando a ausên­cia de algo que pode­mos des­co­brir a sua apa­rên­cia, como um pão mor­dido guarda a forma dos den­tes que o mor­de­ram, como o gesso revela pelo molde o braço que res­guar­dava.

Logo, nin­guém melhor que um sujeito com­ple­ta­mente infe­liz para nos ensi­nar o que mais lhe falta.

E entre todos os infe­li­zes mais céle­bres e inte­li­gen­tes, esco­lho o mais moderno, o mais con­tem­po­râ­neo de todos. Falo de David-Fos­ter Wal­lace, alguém imen­sa­mente infe­liz, a jul­gar pelo seu sui­cí­dio aos 46 anos, pre­ce­dido de pesada medi­ca­ção anti­de­pres­siva e até mesmo ses­sões de ele­tro­cho­que — e a jul­gar pela fina e dolo­rosa sen­si­bi­li­dade que ele revela ter em todos os seus tex­tos diante da con­di­ção bovina a que os seres huma­nos se sub­me­tem hoje em dia.

Melhor ainda, vamos esco­lher um momento em que esse grande infe­liz dis­serta sobre um dos artis­tas mais infe­li­zes do século XX, aquele que tal­vez tenha repre­sen­tado em sua obra a pura infe­li­ci­dade da con­di­ção humana.

Wal­lace tem um dis­curso famoso, feito em home­na­gem a uma nova tra­du­ção para a lín­gua inglesa de um livro de Kafka, O Cas­telo. Nesse dis­curso, Wal­lace nos trouxe uma pérola reve­la­dora. Um genuíno dia­mante. Ele falava sobre sua difi­cul­dade de expli­car o humor de Kafka para seus alu­nos — um humor capaz de fazer pia­das que nos tiram da zona de con­forto.

Segundo Wal­lace, a ver­da­deira piada fun­da­men­tal de Kafka é a de que viven­ciar um esforço hor­rí­vel em busca de si mesmo é a essên­cia da natu­reza humana, sem que haja qual­quer alí­vio para essa busca. Nossa jor­nada em busca de uma vida que pos­sa­mos cha­mar de “nosso lar” é impos­sí­vel e inter­mi­ná­vel — mais do que isso, essa jor­nada ilu­só­ria e que jamais acaba é tudo o que pode­mos ter de pare­cido com um lar.

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Isso é a per­feita des­cri­ção que um infe­liz faria ao ver a feli­ci­dade. Lem­bre do que eu disse lá no iní­cio, sobre quando gente não é capaz de reco­nhe­cer a feli­ci­dade nem mesmo se ela for esfre­gada em nossa cara, pois desa­pren­de­mos a reco­nhe­cer a feli­ci­dade, assim como mui­tos desa­pren­de­ram a reco­nhe­cer o amor.

Mas Wal­lace pros­se­gue, e tenta usar uma metá­fora para expli­car o humor de um grande artista infe­liz, o humor de Kafka. Ele sugere que se ima­gine uma porta tran­cada, e que você está batendo e batendo nessa porta com todas as suas for­ças, pre­ci­sando entrar ali. Você não sabe o que há do outro lado, mas você sente deses­pero total por entrar, batendo, esmur­rando e chu­tando. E quando enfim a obra se abre, ela se abre para fora: o único lugar em que você pode ir atra­vés dela é exa­ta­mente onde você já está.

Essa, segundo Kafka e segundo Wal­lace, é a essên­cia da con­di­ção humana.

Wal­lace des­creve assim como ele pró­prio per­cebe aquilo que não con­se­gue iden­ti­fi­car, pois é des­pro­vido dos dis­po­si­ti­vos emo­ci­o­nais neces­sá­rios para iden­ti­fi­car a natu­reza do que vê. Para ele é como um inseto pré-his­tó­rico fos­si­li­zado em âmbar, algo esqui­sito e com apa­rên­cia ali­e­ní­gena: mas é só feli­ci­dade vita por alguém pro­fun­da­mente infe­liz. 

Para ele, e para Kafka, o lugar em que estão é algo do qual pre­ci­sam fugir, aces­sando um outro lugar, uma outra vivên­cia, que não sabem exa­ta­mente o que é mas que sen­tem ina­ces­sí­vel. Porém, como são extre­ma­mente inte­li­gen­tes, per­ce­bem que esse lugar é exa­ta­mente onde estão, só não enten­dem como isso acon­tece — e inter­pre­tam como se a busca ter­rí­vel e inter­mi­ná­vel fosse algo a ser estoi­ca­mente aceito. Eles não com­pre­ende que é jus­ta­mente inter­rom­pendo a busca ter­rí­vel e inter­mi­ná­vel, que é justo parando de se deba­ter para sair de onde estão que com­pre­en­de­rão a feli­ci­dade. 

Pois uma das “nobres ver­da­des budis­tas” diz que toda a dor vem do desejo de fugir da dor.

A infe­li­ci­dade não é a ausên­cia de uma coisa (de um bem mate­rial, uma posi­ção social uma rela­ção afe­tiva, um sta­tus social, etc) que, se esti­vesse pre­sente, nos tra­ria a feli­ci­dade. A infe­li­ci­dade é a inca­pa­ci­dade de reco­nhe­cer a feli­ci­dade ainda que este­ja­mos mer­gu­lhado nela. Pois esta­mos mer­gu­lha­dos na feli­ci­dade, ela está aqui e agora, ela está ao seu redor neste exato momento, lei­tor. Basta abrir os olhos da cons­ci­ên­cia.

E eis tudo o que pode­mos apren­der, atra­vés desse comen­tá­rio de Wal­lace, sobre a feli­ci­dade.

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Vol­tando àquela his­tó­ria de um médico infor­mando que você tem um mês de vida. Embora cer­ta­mente cho­cado e depri­mido no iní­cio, logo algo se ope­ra­ria den­tro de você.

Sabendo que tem um mês de vida, você final­mente man­te­ria o foco sobre o que é real­mente impor­tante ou não naque­les pou­cos dias res­tan­tes. Além disso, suas pri­o­ri­da­des seriam rear­ran­ja­das na ordem cor­reta. Em ter­ceiro, a feli­ci­dade não pre­ci­sa­ria mais ser esfre­gada na sua cara: seus olhos, cla­ros e lúci­dos, seriam capa­zes de reco­nhecê-la assim que ela sur­gisse nos momen­tos mais sim­ples, nos even­tos peque­nos do coti­di­ano. Por fim, você entra­ria em con­tato com o aspecto sublime que há neste exato ins­tante em que mila­gro­sa­mente está vivo. 

Trata-se de uma sabe­do­ria antiga, que nossa soci­e­dade desa­pren­deu. Eu esco­lhi cha­mar essa sabe­do­ria, divi­dida em qua­tro ele­men­tos (focar no que importa, arran­jar as pri­o­ri­da­des cor­re­ta­mente, saber reco­nhe­cer a feli­ci­dade e se conec­tar ao sublime que há neste ins­tante), por um nome: “Graça”. E sen­tir a Graça diante das coi­sas do coti­di­ano nada mais é do que sen­tir-se feliz.

E agora já pode­mos intuir que a feli­ci­dade é pos­suir as con­di­ções emo­ci­o­nais e uma capa­ci­dade de per­cep­ção do mundo que nos per­mi­tem ser feli­zes (sen­tir esse Estado de Graça) inde­pen­den­te­mente das coi­sas que pos­suí­mos, inde­pen­den­te­mente do que pode­mos ou não com­prar e da nossa posi­ção na soci­e­dade. É ser dotado do ins­tru­men­tal emo­ci­o­nal neces­sá­rio para apre­ciar o momento pre­sente tal como ele se apre­senta a nós.

A segunda ques­tão é como con­quis­tar a feli­ci­dade. E para isso vamos atrás das lições de outro grande pen­sa­dor ame­ri­cano. Mas dessa vez, de alguém que con­se­guiu ser real­mente feliz, alguém que não aca­bou com sua vida por julgá-la into­le­rá­vel.

Déca­das antes do sur­gi­mento da inter­net e da tele­vi­são, o filó­sofo ame­ri­cano Henry Tho­reau pres­sen­tiu que está­va­mos aden­trando uma era de excesso de estí­mu­los, uma época em que nosso apren­di­zado básico sobre o que é impor­tante, o que é feli­ci­dade e como apre­ciar o momento pre­sente seria con­ta­mi­nado de tal forma que essa polui­ção nos tor­na­ria como pes­soas a um só tempo cegas e sur­das ao essen­cial.

Henry Tho­reau fez algo sim­ples e ele­men­tar, mas que é absur­da­mente impos­sí­vel para a maior parte de nós hoje em dia (prova de que esta­mos ado­e­ci­dos): ele deci­diu morar um tempo em meio à natu­reza, longe de todos os estí­mu­los da vida moderna. Quando lhe per­gun­ta­ram a razão disso, ele disse o óbvio. Falou que que­ria man­ter sua aten­ção ao que era impor­tante na vida. Afi­nal, nem todo mundo recebe de um médico aquela notí­cia de que tem só um mês de exis­tên­cia.

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Parte da res­posta a essa segunda per­gunta (como con­quis­tar a feli­ci­dade) já pode­mos obter a par­tir da res­posta à pri­meira ques­tão: se a feli­ci­dade é pos­suir deter­mi­na­das con­di­ções emo­ci­o­nais e a capa­ci­dade de per­ce­ber o mundo, o coti­di­ano e o momento pre­sente de deter­mi­nada maneira, então con­quis­tar a feli­ci­dade não é algo vol­tado para fora (obter alguma coisa mate­rial, alguma posi­ção social ou mesmo tipo de rela­ci­o­na­mento afe­tivo — essas coi­sas podem ser con­sequên­cias da feli­ci­dade, mas não sua causa).

Con­quis­tar a feli­ci­dade depende de adqui­rir aque­las con­di­ções emo­ci­o­nais e certa capa­ci­dade de per­ce­ber o mundo em con­tato com seu aspecto sublime.

Tor­nar-se feliz, por­tanto, é o pro­cesso de genuíno apren­di­zado — ou rea­pren­di­zado, se con­si­de­rar­mos que esque­ce­mos das coi­sas mais impor­tan­tes em uma soci­e­dade que teima em nos dis­trair delas. E como todo apren­di­zado, depende do reco­nhe­ci­mento de que sabe­mos pouco ou quase nada do assunto, da pre­dis­po­si­ção em apren­der, do trei­na­mento atra­vés da ten­ta­ti­vas e falhas neces­sá­rias para obter-se a prá­tica, por fim, da aber­tura para absor­ver as lições que no passo-a-passo nos per­mi­ti­rão a che­gar até a maes­tria na maté­ria a ser apren­dida.

E isso depende não só de iden­ti­fi­car­mos quais lições são impor­tan­tes para o apren­di­zado — depende tam­bém de cons­truir­mos um ambi­ente pro­pí­cio ao apren­di­zado, espa­ços nos quais con­si­ga­mos man­ter o foco nes­sas lições. Essa é a lição de Tho­reau. 

Claro que não pre­ci­sa­mos, como Tho­reau, morar sozi­nhos em uma flo­resta feito ere­mi­tas. Não é exa­ta­mente no cami­nho que esco­lheu, mas o pres­su­posto que ins­pi­rou seu cami­nho: o ambi­ente é fun­da­men­tal, e o ambi­ente social em que vive­mos é poluído, ele atra­pa­lha o apren­di­zado.

Mas não pode­mos aban­do­nar esse ambi­ente, pois a mai­o­ria de nós tem sua vida já enrai­zada na soci­e­dade. Além disso, aque­les que ama­mos estão imer­sos tam­bém nesse mesmo ambi­ente poluído. Por outro lado, aban­do­nar esse ambi­ente pode nos aju­dar, mas ajuda em quase nada à melho­rar o ambi­ente social em si. É pre­ciso agir inter­na­mente, moti­var a cons­tru­ção de micro-ambi­en­tes den­tro do ambi­ente da soci­e­dade que fomen­tem o apren­di­zado da feli­ci­dade.

É de cau­sar muito espanto que até agora não se tenha tra­tado o amor e a feli­ci­dade como coi­sas que pre­ci­sam ser efe­ti­va­mente apren­di­das — e mais: cole­ti­va­mente apren­di­das. É de sur­pre­en­der que não se trate essas duas vivên­cias não como coi­sas que caem do céu, mas como o resul­tado de pro­ces­sos de apren­di­za­dos que depen­dem da prá­tica cons­ci­ente e do conhe­ci­mento arti­cu­lado.

Assim como no caso do amor, a feli­ci­dade é tra­tada como algo mais ou menos “mágico”, que acon­tece ou não, ao qual esta­mos des­ti­na­dos ou não, a depen­der de cer­tos fato­res que não temos muita cer­teza de como ocor­rem e como fun­ci­o­nam. Nin­guém sabe defi­nir o que é e muito menos como se con­se­gue.

É muito curi­oso que nossa soci­e­dade trate duas das coi­sas mais impor­tan­tes, mais fun­da­men­tais na vida humana, com essa mis­tura de supers­ti­ção e inde­fi­ni­ção. É curi­oso, mas não é por acaso. Há inte­res­ses envol­vi­dos em dei­xar as pes­soas sem­pre nesse estado de sus­pen­são na busca de algo impor­tante que não sabem direito como obter e que não sabem ao certo como é, mas que nunca ver­da­dei­ra­mente atin­gem, batendo e batendo numa porta que jamais se abre. Isso man­tém nosso desejo cap­tu­rado, fis­gado de modo que possa ser mani­pu­lado para que con­su­ma­mos com­pul­si­va­mente e nos com­por­te­mos de uma forma pre­vi­sí­vel, mani­pu­lá­vel.

Gosto de ima­gi­nar o Pro­jeto Ano Zero como um espaço em que nos reu­ni­mos para cole­ti­va­mente per­gun­tar: “que lições pre­ci­sa­mos apren­der para saber­mos amar, para saber­mos ser feli­zes? como apren­de­mos essas lições? como pode­mos aplicá-las na prá­tica? como tro­car expe­ri­ên­cias para impul­si­o­nar nosso apren­di­zado?”. Uma modesta escola para todos aque­les que tem humil­dade o sufi­ci­ente para reco­nhe­cer que nesta soci­e­dade sabe­mos muito pouco sobre esses assun­tos.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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