É triste como a maioria das pessoas desperdiça suas vidas. E elas desperdiçam completamente suas vidas. Não conseguiriam ser felizes mesmo que a felicidade fosse esfregada em suas caras.

Pois desaprendemos o que é felicidade. Assim como desaprendemos o que é amor. A maioria de nós não é capaz de reconhecer quando alguém o ama, ou mesmo reconhecer quando está amando, porque no fundo nunca aprendeu lá no início de sua vidas o que é verdadeiramente o amor. E assim apego, paixão e diversas formas de projeções são confundidas com amor.

E é muito maior o número daqueles incapazes de saber o que é felicidade, pois o mundo atual está repleto de estímulos que nos fazem desaprender o que significa ser feliz. Desde a nossa infância e por décadas, somos bombardeados por anúncios que associam a felicidade com a posse de bens, ou com experiências que só teremos se pagarmos por elas, ou com a aquisição de algum status social que nos trará prestígio.

Não estranhamos quando Bukoswki afirmou que “toda minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que quero fazer, tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo”. Na internet, na TV e em quase todos os ambientes somos continuamente soterrados por maré de estímulos, uma torrente de distrações que no final resultam em um enorme estrago: nosso aprendizado inicial sobre o que é felicidade, aquilo que qualquer criança e até mesmo animal aprende já na infância, é distorcido, deturpado, deformado e carregado pela maré de propagandas até já não mais sermos capazes de sequer sabermos quando estamos felizes ou não.

Vivemos em uma sociedade doente. E estamos enfermos.

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Se você recebesse de seu médico a notícia de que tem só um mês de vida, descobriria repentinamente o que é felicidade. Como é possível que essa descoberta seja tão abrupta? É simples. Não se trata de uma descoberta, mas de uma relembrança. Porque felicidade é algo que desaprendemos, e esquecemos no meio do caminho na direção a uma promessa vazia. É uma coisa que deixamos lá atrás.

Então notícia do médico teria um efeito depurador nos seus sentidos, como uma água fria demais num rosto sonolento. Subitamente, sua mente rejeitaria toda a merda que tem sido acumulada pela opinião dos outros, pelas campanhas publicitárias e pela mídia. Ninguém mais teria aquele poder de incutir em você dúvidas sobre o que você deve querer, sobre o que é realmente importante na sua vida, sobre o que é felicidade.

Mas, felizmente, é muito provável que nunca um médico lhe diga que possui só um mês de vida.

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E nesse ponto do papo convém que paremos de desenvolver o tema (forma elegante de dizer “enrolar”) e comecemos a buscar alguma definição. Para isso basta investigarmos as possíveis repostas a duas perguntas, que temos coragem de fazer graças a um misto de tola ingenuidade e coragem grosseira:

– O que é felicidade?

e

– Como fazemos para conquistá-la?

Se ao ler essas perguntas você foi tomado por um sentimento bizarro que mistura desconforto e vontade de rir, apesar de no fundo algo em você dizer que está diante de duas das mais importantes perguntas que secretamente sempre formulou em seu íntimo, não se preocupe: isso é sinal de que você é normal. E um pouco infeliz.

E além de nós, os normais, um pouco infelizes, há ainda outra espécie de pessoa. São os muito infelizes. Todos nós conhecemos algum, senão alguns, exemplos de amigos, familiares ou colegas dessa categoria. São as pessoas amargas, aquelas que usam o poder como apoio de sua personalidade, as ansiosas, as deprimidas, as que encontram na fofoca e na intriga uma fonte de divertimento, as violentas, as excessivamente irônicas, as desencantadas, as que acumulam patrimônio ao ponto de privar-se de uma vida venturosa. E por aí vai. A tipologia é rica. É triste reconhecer, mas a fauna dos muito infelizes é diversificada e numerosa em nossa sociedade.

Há, além desses, os totalmente infelizes, aqueles que ao lerem essas duas perguntas sentirão apenas incredulidade diante do que acreditam ser de um típico exemplo da grande inocência – ou da grande esperteza. Para eles, a felicidade é uma ficção, e qualquer um que fale de um método para obtê-la ou é tolo está tentando vender algo.

E são eles que nos interessam aqui. Os totalmente infelizes são a chave para as respostas às duas perguntas. Pois uma forma de descobrir algo que procuramos é através de seus rastros. É justamente analisando a ausência de algo que podemos descobrir a sua aparência, como um pão mordido guarda a forma dos dentes que o morderam, como o gesso revela pelo molde o braço que resguardava.

Logo, ninguém melhor que um sujeito completamente infeliz para nos ensinar o que mais lhe falta.

E entre todos os infelizes mais célebres e inteligentes, escolho o mais moderno, o mais contemporâneo de todos. Falo de David-Foster Wallace, alguém imensamente infeliz, a julgar pelo seu suicídio aos 46 anos, precedido de pesada medicação antidepressiva e até mesmo sessões de eletrochoque – e a julgar pela fina e dolorosa sensibilidade que ele revela ter em todos os seus textos diante da condição bovina a que os seres humanos se submetem hoje em dia.

Melhor ainda, vamos escolher um momento em que esse grande infeliz disserta sobre um dos artistas mais infelizes do século XX, aquele que talvez tenha representado em sua obra a pura infelicidade da condição humana.

Wallace tem um discurso famoso, feito em homenagem a uma nova tradução para a língua inglesa de um livro de Kafka, O Castelo. Nesse discurso, Wallace nos trouxe uma pérola reveladora. Um genuíno diamante. Ele falava sobre sua dificuldade de explicar o humor de Kafka para seus alunos – um humor capaz de fazer piadas que nos tiram da zona de conforto.

Segundo Wallace, a verdadeira piada fundamental de Kafka é a de que vivenciar um esforço horrível em busca de si mesmo é a essência da natureza humana, sem que haja qualquer alívio para essa busca. Nossa jornada em busca de uma vida que possamos chamar de “nosso lar” é impossível e interminável – mais do que isso, essa jornada ilusória e que jamais acaba é tudo o que podemos ter de parecido com um lar.

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Isso é a perfeita descrição que um infeliz faria ao ver a felicidade. Lembre do que eu disse lá no início, sobre quando gente não é capaz de reconhecer a felicidade nem mesmo se ela for esfregada em nossa cara, pois desaprendemos a reconhecer a felicidade, assim como muitos desaprenderam a reconhecer o amor.

Mas Wallace prossegue, e tenta usar uma metáfora para explicar o humor de um grande artista infeliz, o humor de Kafka. Ele sugere que se imagine uma porta trancada, e que você está batendo e batendo nessa porta com todas as suas forças, precisando entrar ali. Você não sabe o que há do outro lado, mas você sente desespero total por entrar, batendo, esmurrando e chutando. E quando enfim a obra se abre, ela se abre para fora: o único lugar em que você pode ir através dela é exatamente onde você já está.

Essa, segundo Kafka e segundo Wallace, é a essência da condição humana.

Wallace descreve assim como ele próprio percebe aquilo que não consegue identificar, pois é desprovido dos dispositivos emocionais necessários para identificar a natureza do que vê. Para ele é como um inseto pré-histórico fossilizado em âmbar, algo esquisito e com aparência alienígena: mas é só felicidade vita por alguém profundamente infeliz. 

Para ele, e para Kafka, o lugar em que estão é algo do qual precisam fugir, acessando um outro lugar, uma outra vivência, que não sabem exatamente o que é mas que sentem inacessível. Porém, como são extremamente inteligentes, percebem que esse lugar é exatamente onde estão, só não entendem como isso acontece – e interpretam como se a busca terrível e interminável fosse algo a ser estoicamente aceito. Eles não compreende que é justamente interrompendo a busca terrível e interminável, que é justo parando de se debater para sair de onde estão que compreenderão a felicidade. 

Pois uma das “nobres verdades budistas” diz que toda a dor vem do desejo de fugir da dor.

A infelicidade não é a ausência de uma coisa (de um bem material, uma posição social uma relação afetiva, um status social, etc) que, se estivesse presente, nos traria a felicidade. A infelicidade é a incapacidade de reconhecer a felicidade ainda que estejamos mergulhado nela. Pois estamos mergulhados na felicidade, ela está aqui e agora, ela está ao seu redor neste exato momento, leitor. Basta abrir os olhos da consciência.

E eis tudo o que podemos aprender, através desse comentário de Wallace, sobre a felicidade.

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Voltando àquela história de um médico informando que você tem um mês de vida. Embora certamente chocado e deprimido no início, logo algo se operaria dentro de você.

Sabendo que tem um mês de vida, você finalmente manteria o foco sobre o que é realmente importante ou não naqueles poucos dias restantes. Além disso, suas prioridades seriam rearranjadas na ordem correta. Em terceiro, a felicidade não precisaria mais ser esfregada na sua cara: seus olhos, claros e lúcidos, seriam capazes de reconhecê-la assim que ela surgisse nos momentos mais simples, nos eventos pequenos do cotidiano. Por fim, você entraria em contato com o aspecto sublime que há neste exato instante em que milagrosamente está vivo. 

Trata-se de uma sabedoria antiga, que nossa sociedade desaprendeu. Eu escolhi chamar essa sabedoria, dividida em quatro elementos (focar no que importa, arranjar as prioridades corretamente, saber reconhecer a felicidade e se conectar ao sublime que há neste instante), por um nome: “Graça”. E sentir a Graça diante das coisas do cotidiano nada mais é do que sentir-se feliz.

E agora já podemos intuir que a felicidade é possuir as condições emocionais e uma capacidade de percepção do mundo que nos permitem ser felizes (sentir esse Estado de Graça) independentemente das coisas que possuímos, independentemente do que podemos ou não comprar e da nossa posição na sociedade. É ser dotado do instrumental emocional necessário para apreciar o momento presente tal como ele se apresenta a nós.

A segunda questão é como conquistar a felicidade. E para isso vamos atrás das lições de outro grande pensador americano. Mas dessa vez, de alguém que conseguiu ser realmente feliz, alguém que não acabou com sua vida por julgá-la intolerável.

Décadas antes do surgimento da internet e da televisão, o filósofo americano Henry Thoreau pressentiu que estávamos adentrando uma era de excesso de estímulos, uma época em que nosso aprendizado básico sobre o que é importante, o que é felicidade e como apreciar o momento presente seria contaminado de tal forma que essa poluição nos tornaria como pessoas a um só tempo cegas e surdas ao essencial.

Henry Thoreau fez algo simples e elementar, mas que é absurdamente impossível para a maior parte de nós hoje em dia (prova de que estamos adoecidos): ele decidiu morar um tempo em meio à natureza, longe de todos os estímulos da vida moderna. Quando lhe perguntaram a razão disso, ele disse o óbvio. Falou que queria manter sua atenção ao que era importante na vida. Afinal, nem todo mundo recebe de um médico aquela notícia de que tem só um mês de existência.

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Parte da resposta a essa segunda pergunta (como conquistar a felicidade) já podemos obter a partir da resposta à primeira questão: se a felicidade é possuir determinadas condições emocionais e a capacidade de perceber o mundo, o cotidiano e o momento presente de determinada maneira, então conquistar a felicidade não é algo voltado para fora (obter alguma coisa material, alguma posição social ou mesmo tipo de relacionamento afetivo – essas coisas podem ser consequências da felicidade, mas não sua causa).

Conquistar a felicidade depende de adquirir aquelas condições emocionais e certa capacidade de perceber o mundo em contato com seu aspecto sublime.

Tornar-se feliz, portanto, é o processo de genuíno aprendizado – ou reaprendizado, se considerarmos que esquecemos das coisas mais importantes em uma sociedade que teima em nos distrair delas. E como todo aprendizado, depende do reconhecimento de que sabemos pouco ou quase nada do assunto, da predisposição em aprender, do treinamento através da tentativas e falhas necessárias para obter-se a prática, por fim, da abertura para absorver as lições que no passo-a-passo nos permitirão a chegar até a maestria na matéria a ser aprendida.

E isso depende não só de identificarmos quais lições são importantes para o aprendizado – depende também de construirmos um ambiente propício ao aprendizado, espaços nos quais consigamos manter o foco nessas lições. Essa é a lição de Thoreau. 

Claro que não precisamos, como Thoreau, morar sozinhos em uma floresta feito eremitas. Não é exatamente no caminho que escolheu, mas o pressuposto que inspirou seu caminho: o ambiente é fundamental, e o ambiente social em que vivemos é poluído, ele atrapalha o aprendizado.

Mas não podemos abandonar esse ambiente, pois a maioria de nós tem sua vida já enraizada na sociedade. Além disso, aqueles que amamos estão imersos também nesse mesmo ambiente poluído. Por outro lado, abandonar esse ambiente pode nos ajudar, mas ajuda em quase nada à melhorar o ambiente social em si. É preciso agir internamente, motivar a construção de micro-ambientes dentro do ambiente da sociedade que fomentem o aprendizado da felicidade.

É de causar muito espanto que até agora não se tenha tratado o amor e a felicidade como coisas que precisam ser efetivamente aprendidas – e mais: coletivamente aprendidas. É de surpreender que não se trate essas duas vivências não como coisas que caem do céu, mas como o resultado de processos de aprendizados que dependem da prática consciente e do conhecimento articulado.

Assim como no caso do amor, a felicidade é tratada como algo mais ou menos “mágico”, que acontece ou não, ao qual estamos destinados ou não, a depender de certos fatores que não temos muita certeza de como ocorrem e como funcionam. Ninguém sabe definir o que é e muito menos como se consegue.

É muito curioso que nossa sociedade trate duas das coisas mais importantes, mais fundamentais na vida humana, com essa mistura de superstição e indefinição. É curioso, mas não é por acaso. Há interesses envolvidos em deixar as pessoas sempre nesse estado de suspensão na busca de algo importante que não sabem direito como obter e que não sabem ao certo como é, mas que nunca verdadeiramente atingem, batendo e batendo numa porta que jamais se abre. Isso mantém nosso desejo capturado, fisgado de modo que possa ser manipulado para que consumamos compulsivamente e nos comportemos de uma forma previsível, manipulável.

Gosto de imaginar o Projeto Ano Zero como um espaço em que nos reunimos para coletivamente perguntar: “que lições precisamos aprender para sabermos amar, para sabermos ser felizes? como aprendemos essas lições? como podemos aplicá-las na prática? como trocar experiências para impulsionar nosso aprendizado?”. Uma modesta escola para todos aqueles que tem humildade o suficiente para reconhecer que nesta sociedade sabemos muito pouco sobre esses assuntos.

escrito por:

Victor Lisboa

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