Quem nunca pensou em largar seu emprego, sua carreira, uma vida cheia de compromissos e abraçar, sem se importar com as expectativas alheias, a aventura de viajar pelo mundo, explorando lugares pitorescos e fazendo novas amizades a cada dia?

Foi o que o Henrique fez.

Henrique Barretti Geaquinto é um médico paulista de 33 anos apaixonado por fotografia e que se aventurou por destinos incomuns. No ano passado, mais uma vez deixou para trás o trabalho e despediu-se de familiares e amigos para desbravar o mundo e conhecer o cotidiano e a cultura de outros povos. Na mochila, levou apenas sua câmera.

Índia, Marrocos, Nepal, Mianmar e Etiópia são apenas alguns dos países que visitou. As fotos que ilustram essa matéria, cedidas por ele, dão uma ideia do que vivenciou na sua jornada.

Nessa entrevista, Henrique conta como foi deixar de lado a vida regrada pelo trabalho excessivo e como os lugares que conheceu influenciaram sua vida e seu modo de ser. É exemplo de que podemos fazer mais do que sonhar com um mundo e uma vida melhor, e de que podemos, com coragem, escolher uma vida mais simples e desapegada da bagagem que cotidianamente vamos acumulando sobre nossos ombros.

– O que o levou à decisão de abandonar família, trabalho e amigos para viajar por tantos lugares?

Abandonar é uma palavra forte (risos). Acho que apenas me despedi deles por um momento.

Algumas razões me levaram a tomar essa decisão. A principal é que o mundo é muito grande, cheio de pessoas, culturas e lugares interessantes para eu ficar trancado dentro da minha zona de conforto. Eu gosto de conhecer o desconhecido, principalmente lugares incomuns das pessoas viajarem. Gosto de sentir o choque de realidades diferentes e também gosto de uma certa dose de aventura.

– Do que mais sente falta daquilo que deixou no Brasil? De que forma lida com isso?

Para ser sincero, até o momento eu não sinto grande falta de nada que deixei no Brasil. É claro que tenho saudade dos meus amigos, da minha família e da nossa comida, mas isso é uma coisa que consigo lidar muito bem. Em nenhum momento da minha viagem eu senti que queria estar no Brasil e não conhecendo esses novos lugares.

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Cume do monte Pisco (5750m), na cordilheira Branca, Peru.
– Qual conselho você daria para aqueles que estão pensando em fazer o mesmo?

Acho que só tenho um conselho para dar: não tenha medo de sair da sua zona de conforto. Certa vez, uma viajante me disse (não sei se a frase é dela) que a vida começa onde acaba sua zona de conforto. Bem, não sou radical a ponto de pensar que não há vida em nossa zona de conforto (risos), mas acho que quando você sai dessa zona, você vive mais intensamente.

– Quando iniciou a viagem? Quanto tempo ela vai durar?

Eu iniciei a viagem no dia 27 de maio de 2013. Inicialmente, ela duraria até dezembro de 2013. Depois mudei para fevereiro, depois março e por fim, para final de maio (dia 31) deste ano. Acho que agora eu não mudo mais a data, apesar de já ter mudado o local (país) de retorno por três vezes… (risos).

– Por quais lugares já esteve?

Até o momento eu estive em 46 países, situados em praticamente todos os continentes: América, Europa, África e Ásia.

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Dança na cerimônia de “bull jumping” – Tribo Hammar, Etiópia.

-Qual foi o lugar mais pitoresco, mais diferente de tudo o que conhecia antes, em que esteve?

São dois os lugares que estive que merecem destaque. Etiópia e Índia.
O país africano pela enorme pobreza e por quebrar (ou dar um nó na minha cabeça) muitos conceitos que eu tinha. Vi crianças pequenas pastorando gados, carregando galhos e folhas, buscando água…
Vi algumas tribos africanas e as comunidades em que vivem e descobri que no sul da Etiópia há uma enorme quantidade de pessoas tribais (milhares de pessoas). Tive o privilégio de conseguir assistir uma cerimônia tribal de casamento!
O país asiático pela enorme pobreza também, confusão de pessoas e animais por todos os lados, e a relação entre eles. Na Índia, eu vi corpos queimando à beira do Ganges, corpos boiando, cachorro comendo corpo, pessoas seminuas cobertas pelas cinzas dos corpos cremados, animais e pessoas vivendo no mesmo local. Por exemplo, vi vaca dentro de estação de trem, búfalo dentro de casa, macacos para todos os lados, etc.

– De que forma esses lugares te influenciam? Dentre os lugares que já esteve até agora, quais deles te influenciaram mais? Por quê?

Todos eles influenciaram minha vida de uma forma ou de outra, mesmo que eu não tenha percebido. No entanto, acho que os mais distintos do Brasil e/ou os que estive por mais tempo foram os que me influenciaram mais.

Exemplo disso é que eu já sou um cara bem calmo e paciente, mas a Índia me ensinou a aprimorar essa característica – muitas vezes tendo que praticar muito bem isso… (risos).

A Etiópia e os outros países africanos que estive me escancararam que não sabemos quase nada de outros lugares do mundo (fora do eixo América – Europa). A Indonésia me fez perceber o quanto eu gosto e me identifico com o estilo de vida do surf. A Europa, de uma maneira geral, me mostrou que é possível conviver em grandes centros respeitando a vida do próximo.

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Crematório a céu aberto à beira do rio Ganges, em Varanasi na Índia.
– Conte-nos um fato que ocorreu durante a viagem que te marcou ou mudou algo em sua vida?

Aconteceu no Nepal, durante as trilhas que fiz por lá durante uma outra viagem… Bom, vou resumir. Eu acreditava em Deus e era católico até os meus 22 anos, aproximadamente. Depois, comecei a pensar e cheguei a conclusão de que ele não existia e, assim, me tornei ateu até o ano de 2011, quando fiz a trilha no Nepal.

Lá, eu fiquei muito tempo comigo mesmo, sem energia elétrica, ou seja, sem comunicação alguma com o mundo exterior. E foi assim por 26 dias. Nesse tempo, pude observar e refletir, durante as trilhas, a nossa relação com a natureza e com o próximo. Por volta do vigésimo dia, em um dos momentos mais difíceis da trilha, ou seja, eu já estava completamente desgastado fisicamente e psicologicamente, eu senti uma energia diferente vinda de todo aquele lugar, daquelas montanhas de gelo do Himalaia, e que me fez sentir que eu fazia parte de toda aquela natureza. Senti que eu e tudo aquilo fosse éramos parte de um mesmo “corpo”.

Eu comecei a me abrir para aquela experiência surreal e tive a certeza que algo maior, talvez uma energia (não uma coisa com formato humano) unia tudo que havia no mundo. Desde então, eu comecei a acreditar nessa tal energia, que é uma força superior. Ainda não acredito num Deus, mas acredito nessa tal “energia”.

– Na sua opinião, quais os pontos negativos e positivos de se fazer uma viagem como essa?

São tantos pontos positivos e tão pouco os negativos (risos). Vou citar alguns… Os negativos se resumem a estar longe da sua família e amigos em momentos bons e ruins, os quais você gostaria de compartilhar com eles (tanto deles com você, quanto o seu com o deles). Os positivos são conhecer a si mesmo, pois quando viaja você está 100% do seu tempo dedicado a você, escolhendo o que fazer e o que não fazer, nada te impede ou interfere; conhecer pessoas e culturas de todos os lugares do mundo e sentir que a sua cultura e seu país não são os únicos e nem o mais comum do mundo; ter muitas e diferentes experiências praticamente todos os dias, ou seja, nunca estar numa rotina ou monotonia; entre outras.

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Muçulmano no mercado de Muscat, capital de Oman.
– Em algum momento da viagem você ficou numa situação para a qual não havia se preparado? Como lidou com essa situação?

Sim, nas mais diversas situações, das simples as mais complicadas, mas em todas elas eu lidei com a calma. Não adianta se desesperar, sempre há uma saída para algo que saiu errado. (risos)

Um momento desses foi quando peguei um vôo de Amã (capital da Jordânia) para Katmandu (capital do Nepal) e ele fazia uma escala de 20h em Sharjah (cidade dos Emirados Árabes Unidos). Como a cidade é distante uma hora de Dubai, pensei “vou dar uma volta por lá”. Mas ao desembarcar, descobri que eu necessitava de visto para entrar no país. Eu não tinha o visto e ele não poderia ser feito na hora, então eu não tive opção, tive que ficar por 20 horas na sala de embarque.

– Há algum lugar em que gostaria de voltar?

Todos os lugares que eu estive eu gostaria de voltar, até os que eu não havia gostado tanto. Por exemplo, eu não havia gostado tanto da Índia, mas depois de um tempo que saí de lá, descobri que eu havia visitado os lugares mais difíceis e eu havia entendido como funcionam as coisas por lá… acho que eu cheguei lá muito despreparado, sem ter idéia de como as coisas funcionam, pois eu não havia lido nada sobre o país e lugares… Tanto que a Índia está no roteiro de minha próxima viagem e quero gastar um bom tempo por lá! (risos)

– Há um lugar que ainda não visitou e nem está em seu plano de viagem mas que gostaria de ir?

Na verdade, todos os lugares que ainda não visitei mas tenho vontade de ir, já estão em meus planos de viagem.

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Jovem monge num dos templos de Yangon, Mianmar.
– O que descobriu durante esse período sobre você mesmo?

É uma coisa incrível esse lance de descobrir sobre você mesmo numa viagem. Acho que por você não sofrer muitas influências do meio que está habituado a viver, você se torna mais “você mesmo”. Assim, você encontra a essência que estava escondida dentro de você.
No meu caso, eu tive a clareza de que eu amo a vida simples, desapegada de bens materiais e que não quero ser um escravo do ciclo emprego-dinheiro-bens-falta de tempo para si mesmo.

– Qual seu próximo destino nessa viagem?

Infelizmente esse é meu último destino. Já faz um ano que estou na estrada e o Sri Lanka calhou de ser meu último país.

– Quais seus planos para depois da viagem?

Exercitar isso que falamos do que eu “descobri” sobre eu mesmo e planejar a minha próxima viagem. (risos)

– Considerando as vivências que já teve durante a viagem, o que acha que poderíamos fazer para o mundo ficar um pouco melhor?

Na minha opinião, é algo bem simples e fácil, o problema é fazer todo mundo enxergar isso.
Se respeitarmos o próximo (diferenças culturais, religiosas, sociais, etc) e sermos gentis (sorrir e ser educado), acho que o mundo seria muito melhor. É tão bom quando a pessoa respeita as diferenças existentes entre ambas as partes e tenta entendê-las e respeitá-las.
Quando alguém sorri e te dá bom dia mesmo sem te conhecer ou quando a pessoa tenta te ajudar quando você precisa da mais simples ajuda… Acho que se todos fizessem isso, o mundo seria melhor.

escrito por:

Natalia Marques

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