OCUPAR ESCOLAS | Então tá. Vamos desafiar o coro dos contentes, ocupar todas as escolas e universidades, praças e ruas, deixar nelas nossas marcas e pegadas que não serão esquecidas jamais. Mas e depois?

Ocupações se tornaram práticas universais. Políticas todas, partidárias algumas, sempre a mesma dinâmica: massas enraivecidas, desiludidas, sem portas de entrada nos sistemas de tomada de decisões, disponíveis e sedentas de protagonismo, usuárias intensivas de tecnologia e redes.

A reação que geram também é sempre a mesma: gente preconceituosa e pouco tolerante, pessoas que se incomodam com os ruídos que vêm das manifestações, ou que têm o cotidiano bagunçado por elas, além daqueles que veem “subversão da ordem” em tudo e, na modalidade brasileira, aqueles que se especializaram em ver a esquerda comunista por trás de tudo.

Quando protestos e ocupações são protagonizados por jovens, a crítica ainda agrega algo mais: eles estariam sendo manipulados pelos mais velhos, entendendo-se por mais velhos, regra geral, alguns políticos com seus partidos, dedicados sem descanso à tarefa de arrastar a juventude para seus ninhos.

Alguns chegam até a dizer que os jovens são manipulados pelos próprios pais, desejosos de ver os pimpolhos ganharem destaque e seguirem carreira de contestadores.

Há excessos e exageros para todos os gostos.

No Brasil recente, protestos e ocupações são eventos de mídia. Não há órgão de imprensa que não se dedique a eles. Há quem os veja como expressão de uma verdadeira “primavera secundarista e universitária”.

Têm crescido invariavelmente associados a uma dinâmica que é interpretada como voltada para combater o “governo golpista” de Michel Temer, cujas ações são vistas como prejudiciais à sociedade, aos mais pobres, à saúde e à educação públicas.

Mesmo sem que se analisem bem os fatos, essa tem sido a narrativa que infla os eventos de contestação. Não se é somente a favor da educação e da escola de qualidade, mas também contra Temer e contra a PEC do teto de gastos.

Você pode dizer que essas três causas não estão tão relacionadas assim, lembrando, por exemplo, que a escola pública perdeu qualidade há muitos anos e que seu maior problema atual não está ligado a falta de verbas. Não irá adiantar.

A moçada seguirá na mesma trilha, convencida de que a equação é essa: Temer + PEC = escola ruim. Uma espécie de profecia. Ela interpreta a política de Temer como implicando a completa privatização do ensino e da educação. Como se isso fosse possível.

Até aí, tudo bem. Mas algumas ocupações — sobretudo nas universidades, quero crer — derivam para ações autoritárias que travam o debate. Um bom exemplo é quando impedem os que não querem ocupar de dar ou assistir aulas.

Fazem assim com que algo que é público seja privatizado, como se as escolas fossem propriedade dos alunos que ocupam, e não de todos. Agem como se a narrativa que orienta as ocupações devesse ser tomada como verdade absoluta, impossível de ser contestada. Ocupar seria, então, adotar uma atitude em si mesma virtuosa, imune a críticas.

Daí para tachar os críticos de reacionários e golpistas é um passo. Com o que a ação política meritória se converte em seu oposto. Privatiza-se o espaço público para denunciar a privatização. A democracia para. Fica esquisito.

Essa não é felizmente a regra. Mas acontece.

O ocupacionismo atual é reativo. Existe para denunciar, não para propor. Não tem um projeto substantivo, algo que diga, por exemplo, como deve ser feita a reforma do ensino e de onde virão os recursos necessários para financiar o sistema.

Tais coisas são básicas, mas são complexas. Não basta dizer que os recursos virão da espoliação dos ricos ou dos impostos sobre grandes fortunas, até porque essa conta não foi feita e porque mudanças na estrutura tributária passam por correlações de força, negociações, ajustes administrativos e fiscais.

O segredo está sim na reforma tributária, mas o próprio fato de que essa reforma não avança é suficiente para que se ateste a dificuldade dela.

Os jovens estão insatisfeitos. Normalmente, estão sempre insatisfeitos. Jovens são rebeldes, ou não são jovens. São movidos a hormônios, desejo de contestação e indignação, que aumentam quando o cenário geral é embaçado, quando não se sabe se haverá empregos depois da escola, quando a escola é ruim, quando não se acredita nos políticos e na representação democrática, quando o próprio viver não se mostra muito interessante.

O modo de vida atual é “participativo”, pois é dinâmico, fragmentado, diz que cada um deve cuidar da própria trajetória existencial e, portanto, precisa fazer coisas, se projetar, ser visto e se mostrar. A própria cultura da época põe em circulação conceitos que reforçam isso: empreendedorismo, empoderamento, deliberação, capital simbólico, narrativas.

Não se deveria demonizar as ocupações, nem vê-las como sendo o único caminho possível da contestação. O diálogo com elas não pode ser paternalista, como se os jovens devessem ser preservados de críticas ou, ao inverso, como se precisassem sempre de um “pai” para guiá-los.

Ocupar escolas é um ato cívico legítimo e importante. Mostra uma juventude que está aí, querendo fazer coisas. Há tentativas de instrumentalização política? Claro que há, porque isso também é parte da vida. Não há porque se ter muita ingenuidade quanto a isso.

Os que se interessam por política e democracia deveriam ver as ocupações não como um ato épico de rebeldia, mas como a manifestação de um desejo de participação que, como todo desejo, anda em busca de uma estrada que o potencialize e o leve a algum lugar.

O pior é os garotos serem reprimidos ou entrarem em choque com a polícia. O pior é se eles não chegarem a lugar nenhum e se frustrarem. O pior é se forem mesmo usados como massa de manobra por uns e outros.

A política institucionalizada não é toda a política. Tão importante quanto olhar para ela e pensar em sua reforma, é olhar para o que ocorre fora dela, na sociedade e na atuação de diferentes atores sociais que não se acomodam nos mecanismos e nos espaços da institucionalidade política.

Movimentos, “ocupações”, protestos e novas formas de organização são mais sedutores do que partidos políticos e processos de deliberação parlamentar. Não há porque depreciá-los, assim como não há porque olhá-los como se fossem ações angelicais.

A democracia precisa saber interpelar o que pulsa fora do universo institucionalizado da política, abrindo espaços para os novos personagens que desejam “entrar na política”.


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docontra-branco


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escrito por:

Marco Aurélio Nogueira

Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).


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