Ok, vamos ocupar escolas, mas e depois?

Ok, vamos ocupar as escolas, mas e depois?

Em Comportamento, Consciência, Economia, Política, Série Educação, Sociedade por Marco Aurélio NogueiraComentários

OCUPAR ESCOLAS | Então tá. Vamos desa­fiar o coro dos con­ten­tes, ocu­par todas as esco­las e uni­ver­si­da­des, pra­ças e ruas, dei­xar nelas nos­sas mar­cas e pega­das que não serão esque­ci­das jamais. Mas e depois?

Ocu­pa­ções se tor­na­ram prá­ti­cas uni­ver­sais. Polí­ti­cas todas, par­ti­dá­rias algu­mas, sem­pre a mesma dinâ­mica: mas­sas enrai­ve­ci­das, desi­lu­di­das, sem por­tas de entrada nos sis­te­mas de tomada de deci­sões, dis­po­ní­veis e seden­tas de pro­ta­go­nismo, usuá­rias inten­si­vas de tec­no­lo­gia e redes.

A rea­ção que geram tam­bém é sem­pre a mesma: gente pre­con­cei­tu­osa e pouco tole­rante, pes­soas que se inco­mo­dam com os ruí­dos que vêm das mani­fes­ta­ções, ou que têm o coti­di­ano bagun­çado por elas, além daque­les que veem “sub­ver­são da ordem” em tudo e, na moda­li­dade bra­si­leira, aque­les que se espe­ci­a­li­za­ram em ver a esquerda comu­nista por trás de tudo.

Quando pro­tes­tos e ocu­pa­ções são pro­ta­go­ni­za­dos por jovens, a crí­tica ainda agrega algo mais: eles esta­riam sendo mani­pu­la­dos pelos mais velhos, enten­dendo-se por mais velhos, regra geral, alguns polí­ti­cos com seus par­ti­dos, dedi­ca­dos sem des­canso à tarefa de arras­tar a juven­tude para seus ninhos.

Alguns che­gam até a dizer que os jovens são mani­pu­la­dos pelos pró­prios pais, dese­jo­sos de ver os pim­po­lhos ganha­rem des­ta­que e segui­rem car­reira de con­tes­ta­do­res.

Há exces­sos e exa­ge­ros para todos os gos­tos.

No Bra­sil recente, pro­tes­tos e ocu­pa­ções são even­tos de mídia. Não há órgão de imprensa que não se dedi­que a eles. Há quem os veja como expres­são de uma ver­da­deira “pri­ma­vera secun­da­rista e uni­ver­si­tá­ria”.

Têm cres­cido inva­ri­a­vel­mente asso­ci­a­dos a uma dinâ­mica que é inter­pre­tada como vol­tada para com­ba­ter o “governo gol­pista” de Michel Temer, cujas ações são vis­tas como pre­ju­di­ci­ais à soci­e­dade, aos mais pobres, à saúde e à edu­ca­ção públi­cas.

Mesmo sem que se ana­li­sem bem os fatos, essa tem sido a nar­ra­tiva que infla os even­tos de con­tes­ta­ção. Não se é somente a favor da edu­ca­ção e da escola de qua­li­dade, mas tam­bém con­tra Temer e con­tra a PEC do teto de gas­tos.

Você pode dizer que essas três cau­sas não estão tão rela­ci­o­na­das assim, lem­brando, por exem­plo, que a escola pública per­deu qua­li­dade há mui­tos anos e que seu maior pro­blema atual não está ligado a falta de ver­bas. Não irá adi­an­tar.

A moçada seguirá na mesma tri­lha, con­ven­cida de que a equa­ção é essa: Temer + PEC = escola ruim. Uma espé­cie de pro­fe­cia. Ela inter­preta a polí­tica de Temer como impli­cando a com­pleta pri­va­ti­za­ção do ensino e da edu­ca­ção. Como se isso fosse pos­sí­vel.

Até aí, tudo bem. Mas algu­mas ocu­pa­ções — sobre­tudo nas uni­ver­si­da­des, quero crer — deri­vam para ações auto­ri­tá­rias que tra­vam o debate. Um bom exem­plo é quando impe­dem os que não que­rem ocu­par de dar ou assis­tir aulas.

Fazem assim com que algo que é público seja pri­va­ti­zado, como se as esco­las fos­sem pro­pri­e­dade dos alu­nos que ocu­pam, e não de todos. Agem como se a nar­ra­tiva que ori­enta as ocu­pa­ções devesse ser tomada como ver­dade abso­luta, impos­sí­vel de ser con­tes­tada. Ocu­par seria, então, ado­tar uma ati­tude em si mesma vir­tu­osa, imune a crí­ti­cas.

Daí para tachar os crí­ti­cos de rea­ci­o­ná­rios e gol­pis­tas é um passo. Com o que a ação polí­tica meri­tó­ria se con­verte em seu oposto. Pri­va­tiza-se o espaço público para denun­ciar a pri­va­ti­za­ção. A demo­cra­cia para. Fica esqui­sito.

Essa não é feliz­mente a regra. Mas acon­tece.

O ocu­pa­ci­o­nismo atual é rea­tivo. Existe para denun­ciar, não para pro­por. Não tem um pro­jeto subs­tan­tivo, algo que diga, por exem­plo, como deve ser feita a reforma do ensino e de onde virão os recur­sos neces­sá­rios para finan­ciar o sis­tema.

Tais coi­sas são bási­cas, mas são com­ple­xas. Não basta dizer que os recur­sos virão da espo­li­a­ção dos ricos ou dos impos­tos sobre gran­des for­tu­nas, até por­que essa conta não foi feita e por­que mudan­ças na estru­tura tri­bu­tá­ria pas­sam por cor­re­la­ções de força, nego­ci­a­ções, ajus­tes admi­nis­tra­ti­vos e fis­cais.

O segredo está sim na reforma tri­bu­tá­ria, mas o pró­prio fato de que essa reforma não avança é sufi­ci­ente para que se ateste a difi­cul­dade dela.

Os jovens estão insa­tis­fei­tos. Nor­mal­mente, estão sem­pre insa­tis­fei­tos. Jovens são rebel­des, ou não são jovens. São movi­dos a hormô­nios, desejo de con­tes­ta­ção e indig­na­ção, que aumen­tam quando o cená­rio geral é emba­çado, quando não se sabe se haverá empre­gos depois da escola, quando a escola é ruim, quando não se acre­dita nos polí­ti­cos e na repre­sen­ta­ção demo­crá­tica, quando o pró­prio viver não se mos­tra muito inte­res­sante.

O modo de vida atual é “par­ti­ci­pa­tivo”, pois é dinâ­mico, frag­men­tado, diz que cada um deve cui­dar da pró­pria tra­je­tó­ria exis­ten­cial e, por­tanto, pre­cisa fazer coi­sas, se pro­je­tar, ser visto e se mos­trar. A pró­pria cul­tura da época põe em cir­cu­la­ção con­cei­tos que refor­çam isso: empre­en­de­do­rismo, empo­de­ra­mento, deli­be­ra­ção, capi­tal sim­bó­lico, nar­ra­ti­vas.

Não se deve­ria demo­ni­zar as ocu­pa­ções, nem vê-las como sendo o único cami­nho pos­sí­vel da con­tes­ta­ção. O diá­logo com elas não pode ser pater­na­lista, como se os jovens deves­sem ser pre­ser­va­dos de crí­ti­cas ou, ao inverso, como se pre­ci­sas­sem sem­pre de um “pai” para guiá-los.

Ocu­par esco­las é um ato cívico legí­timo e impor­tante. Mos­tra uma juven­tude que está aí, que­rendo fazer coi­sas. Há ten­ta­ti­vas de ins­tru­men­ta­li­za­ção polí­tica? Claro que há, por­que isso tam­bém é parte da vida. Não há por­que se ter muita inge­nui­dade quanto a isso.

Os que se inte­res­sam por polí­tica e demo­cra­cia deve­riam ver as ocu­pa­ções não como um ato épico de rebel­dia, mas como a mani­fes­ta­ção de um desejo de par­ti­ci­pa­ção que, como todo desejo, anda em busca de uma estrada que o poten­ci­a­lize e o leve a algum lugar.

O pior é os garo­tos serem repri­mi­dos ou entra­rem em cho­que com a polí­cia. O pior é se eles não che­ga­rem a lugar nenhum e se frus­tra­rem. O pior é se forem mesmo usa­dos como massa de mano­bra por uns e outros.

A polí­tica ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada não é toda a polí­tica. Tão impor­tante quanto olhar para ela e pen­sar em sua reforma, é olhar para o que ocorre fora dela, na soci­e­dade e na atu­a­ção de dife­ren­tes ato­res soci­ais que não se aco­mo­dam nos meca­nis­mos e nos espa­ços da ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade polí­tica.

Movi­men­tos, “ocu­pa­ções”, pro­tes­tos e novas for­mas de orga­ni­za­ção são mais sedu­to­res do que par­ti­dos polí­ti­cos e pro­ces­sos de deli­be­ra­ção par­la­men­tar. Não há por­que depre­ciá-los, assim como não há por­que olhá-los como se fos­sem ações ange­li­cais.

A demo­cra­cia pre­cisa saber inter­pe­lar o que pulsa fora do uni­verso ins­ti­tu­ci­o­na­li­zado da polí­tica, abrindo espa­ços para os novos per­so­na­gens que dese­jam “entrar na polí­tica”.


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Marco Aurélio Nogueira
Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).

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