Tenho quase certeza que o leitor, quando se encontra numa situação em que nada há para ocupar sua mente ou corpo, nenhuma problema para resolver, nenhuma tarefa cotidiana demandando sua atenção, neurose alguma para consumir sua tranquilidade, ninguém com quem falar uma bobagem ou dar uma trepada, nem televisão ou internet ou videogame ou rádio ou livro ou revista para entreter ou aculturar, tampouco tesão para tocar uma punheta ou bater uma siririca, e muito menos sono ou substância psicoativa para entorpecer a consciência, enfim quando não há nada nada nada, desespera-se. Mas esse desespero, em geral, não dura sequer um milésimo de segundo, porque vivemos em uma sociedade que sempre disponibiliza, à distância de um braço, de um clique, de um aperto de botão ou nem mesmo isso, uma prateleira repleta de neurores, problemas, afazeres, diversões vazias ou remédios emuladores de qualquer espécie de sensação desejável.

Trocando em miúdos, o tédio apavora a todos, mas conseguimos fugir dele com facilidade. Isso é uma merda, e você talvez nunca perceba o quanto. Azar o seu.

Quando o tédio não é rejeitado, revela-se absoluto. Quando, ao invés de cerrarmos as pápebras perante o tédio, arregalamos nossos olhos contemplando o seu vazio, abraçando sua vacuidade sem restrições, finalmente começamos a ter uma experiência que comunga com o sublime. É, ele mesmo.

A mente reage a um vislubre da natureza vazia de todas as coisas com desconforto e fascínio. Treinada para interpretar os seres e fenômenos como se fossem dotados de uma realidade inerente e uma finalidade certa, o contato objetivo com a vacuidade é desconcertante, e convida à reflexão.

Isso ocorre porque tornamos o ego o centro de nossa vida cotidiana, e ele tem sua estrutura dilacerada pela experiência da “falta de sentido” de todas as coisas. Porém, ao ter essa experiência-limite, o homem moderno não consegue esquecê-la por toda sua vida.

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O tédio absoluto é resultado da decepção de uma mente continuamente em movimento, que precisa “pular” de um pensamento ou experiência para outra de forma initerrupta. É como se nossa mente fosse um pequeno chipanzé que salta sempre de galho em galho, sem parar. Um dia o símio percebe que, embora se mova continuamente, não há lugar algum para chegar. Então, decide sentar-se em um galho e olhar ao redor. O que ocorre em seguida é deslumbrante: tem-se a impressão de que não há árvore, e que os galhos possuem uma natureza insubstancial, impermanente e ilusória. O nada revela-se, brota de dentro e reflete-se do lado de fora. Em seguida a essa percepção, o vazio e a falta de sentido de todas as coisas apresenta-se como o absoluto, algo como o instante definitivo.

Após o tédio, vem uma espécie de “desconcerto”, que induz a algo semelhante a uma experiência de morte, pois remete nossa mente à uma nulificação total da existência tal como concebida. E é essa incapacidade de conceber algo além do que se está treinado para vivenciar em nosso cotidiano que provoca o choque.

Falar em falta de sentido de todas as coisas, propor uma visão que trata a realidade ao redor e nossos interesses como carentes de substância é considerado um terror para a mente ordinária. Quando essa mente chega ao estado em que percebe que nada mais na vida lhe interessará, quando percebe que nenhuma aquisição, nenhuma realização ordinária, nenhuma conquista ou experiência lhe propiciará mais do que alguns minutos de satisfação, e ao mesmo tempo compreende que ainda assim continuará respirando e vivendo por inúmeras décadas, o primeiro instinto de confrontação com esse tédio é o de desespero.

Mas o desespero passa. Lembro de um teste feito com ratos que vi na televisão anos atrás. Uns cientistas sacanas colocaram dois pequenos ratos brancos dentro de jarros cheios de água. Um rato estava acordado enquanto o outro tinha sido anestesiado e dormia. O rato desperto apavorou-se com a água, debateu-se e, em virtude dos movimentos de suas patas, acabou afundando e morrendo afogado. O rato que estava dormindo, por permanecer totalmente parado, continuou na superfície, flutuando são e salvo. Controlando o impulso primitivo de desesesperar-se diante do tédio, abrindo serenamente os olhos para o nada que se apresenta, o ser humano é invadido pela percepção do absoluto. E vitória sobre o próprio medo jamais será esquecida.

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A meditação nos ensina a fazer exatamente isso. Somos como os ratos colocados dentro jarros cheios de água, mas com uma diferença: somos na verdade ratos situados bem no meio de um incomensurável oceano, mas de olhos fechados, sem perceber esse fato. Abrir os olhos para isso sem estar preparado faz com que nos desesperemos e, nos debatendo, acabemos afogados – e até hoje especulo se a causa primordial dos ataques de pânico que acometem parte da população não decorrem de uma falha da mente que não consegue esconder e afastar da consciência do indivíduo a percepção de uma verdade para a qual ele ainda não está preparado.

Porém, a meditação nos treina para que abramos os olhos gradualmente, de forma serena. E ela faz isso trazendo o oceano para dentro de nós, mostrando que nós próprios também somos água. Dessa forma, ficamos serenos como aquele rato que dormia, e flutuamos. Quem sabe os iluminados não são aqueles que, além de flutuar, aprenderam também a nadar?

O tédio e o sentimento de vazio que ele provoca são a mais objetiva e imediata porta para adentrarmos em contato com o sublime, pois o sublime não vive no passado ou no futuro, e sim reside inteiramente no momento presente, imperfeiro e caótico como ele é, incompleto como aparenta ser. Abraçar o tédio requer silêncio interno, e esse silêncio é necessário para que o momento presente seja percebido. Essa experiência liberta porque deixamos de ser dependentes de todas as atividades, preocupações, neuroses e possibilidades de fuga que antes eram tão necessárias, tão vitais. Vemos, finalmente, todas essas coisas em suas adequadas proporções, e já não nos aprisionam.

O vazio serenamente vivenciado liberta, em última análise, até daquele medo tão inconveniente, bobo e desnecessário que temos da morte. Todos os outros medos derivam desse: a morte da saúde, a morte da riqueza, a morte da alma, a morte da potência, a morte do prestígio, a morte do controle. E desconfio que apenas após esse tipo de libertação é que começamos a viver plenamente.

escrito por:

Victor Lisboa