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O tédio e você

Em Consciência por Victor LisboaComentário

Tenho quase cer­teza que o lei­tor, quando se encon­tra numa situ­a­ção em que nada há para ocu­par sua mente ou corpo, nenhuma pro­blema para resol­ver, nenhuma tarefa coti­di­ana deman­dando sua aten­ção, neu­rose alguma para con­su­mir sua tran­qui­li­dade, nin­guém com quem falar uma boba­gem ou dar uma tre­pada, nem tele­vi­são ou inter­net ou vide­o­game ou rádio ou livro ou revista para entre­ter ou acul­tu­rar, tam­pouco tesão para tocar uma punheta ou bater uma siri­rica, e muito menos sono ou subs­tân­cia psi­co­a­tiva para entor­pe­cer a cons­ci­ên­cia, enfim quando não há nada nada nada, deses­pera-se. Mas esse deses­pero, em geral, não dura sequer um milé­simo de segundo, por­que vive­mos em uma soci­e­dade que sem­pre dis­po­ni­bi­liza, à dis­tân­cia de um braço, de um cli­que, de um aperto de botão ou nem mesmo isso, uma pra­te­leira repleta de neu­ro­res, pro­ble­mas, afa­ze­res, diver­sões vazias ou remé­dios emu­la­do­res de qual­quer espé­cie de sen­sa­ção dese­já­vel.

Tro­cando em miú­dos, o tédio apa­vora a todos, mas con­se­gui­mos fugir dele com faci­li­dade. Isso é uma merda, e você tal­vez nunca per­ceba o quanto. Azar o seu.

Quando o tédio não é rejei­tado, revela-se abso­luto. Quando, ao invés de cer­rar­mos as pápe­bras perante o tédio, arre­ga­la­mos nos­sos olhos con­tem­plando o seu vazio, abra­çando sua vacui­dade sem res­tri­ções, final­mente come­ça­mos a ter uma expe­ri­ên­cia que comunga com o sublime. É, ele mesmo.

A mente reage a um vis­lu­bre da natu­reza vazia de todas as coi­sas com des­con­forto e fas­cí­nio. Trei­nada para inter­pre­tar os seres e fenô­me­nos como se fos­sem dota­dos de uma rea­li­dade ine­rente e uma fina­li­dade certa, o con­tato obje­tivo com a vacui­dade é des­con­cer­tante, e con­vida à refle­xão.

Isso ocorre por­que tor­na­mos o ego o cen­tro de nossa vida coti­di­ana, e ele tem sua estru­tura dila­ce­rada pela expe­ri­ên­cia da “falta de sen­tido” de todas as coi­sas. Porém, ao ter essa expe­ri­ên­cia-limite, o homem moderno não con­se­gue esquecê-la por toda sua vida.

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O tédio abso­luto é resul­tado da decep­ção de uma mente con­ti­nu­a­mente em movi­mento, que pre­cisa “pular” de um pen­sa­mento ou expe­ri­ên­cia para outra de forma ini­ter­rupta. É como se nossa mente fosse um pequeno chi­panzé que salta sem­pre de galho em galho, sem parar. Um dia o símio per­cebe que, embora se mova con­ti­nu­a­mente, não há lugar algum para che­gar. Então, decide sen­tar-se em um galho e olhar ao redor. O que ocorre em seguida é des­lum­brante: tem-se a impres­são de que não há árvore, e que os galhos pos­suem uma natu­reza insubs­tan­cial, imper­ma­nente e ilu­só­ria. O nada revela-se, brota de den­tro e reflete-se do lado de fora. Em seguida a essa per­cep­ção, o vazio e a falta de sen­tido de todas as coi­sas apre­senta-se como o abso­luto, algo como o ins­tante defi­ni­tivo.

Após o tédio, vem uma espé­cie de “des­con­certo”, que induz a algo seme­lhante a uma expe­ri­ên­cia de morte, pois remete nossa mente à uma nuli­fi­ca­ção total da exis­tên­cia tal como con­ce­bida. E é essa inca­pa­ci­dade de con­ce­ber algo além do que se está trei­nado para viven­ciar em nosso coti­di­ano que pro­voca o cho­que.

Falar em falta de sen­tido de todas as coi­sas, pro­por uma visão que trata a rea­li­dade ao redor e nos­sos inte­res­ses como caren­tes de subs­tân­cia é con­si­de­rado um ter­ror para a mente ordi­ná­ria. Quando essa mente chega ao estado em que per­cebe que nada mais na vida lhe inte­res­sará, quando per­cebe que nenhuma aqui­si­ção, nenhuma rea­li­za­ção ordi­ná­ria, nenhuma con­quista ou expe­ri­ên­cia lhe pro­pi­ci­ará mais do que alguns minu­tos de satis­fa­ção, e ao mesmo tempo com­pre­ende que ainda assim con­ti­nu­ará res­pi­rando e vivendo por inú­me­ras déca­das, o pri­meiro ins­tinto de con­fron­ta­ção com esse tédio é o de deses­pero.

Mas o deses­pero passa. Lem­bro de um teste feito com ratos que vi na tele­vi­são anos atrás. Uns cien­tis­tas saca­nas colo­ca­ram dois peque­nos ratos bran­cos den­tro de jar­ros cheios de água. Um rato estava acor­dado enquanto o outro tinha sido anes­te­si­ado e dor­mia. O rato des­perto apa­vo­rou-se com a água, deba­teu-se e, em vir­tude dos movi­men­tos de suas patas, aca­bou afun­dando e mor­rendo afo­gado. O rato que estava dor­mindo, por per­ma­ne­cer total­mente parado, con­ti­nuou na super­fí­cie, flu­tu­ando são e salvo. Con­tro­lando o impulso pri­mi­tivo de dese­ses­pe­rar-se diante do tédio, abrindo sere­na­mente os olhos para o nada que se apre­senta, o ser humano é inva­dido pela per­cep­ção do abso­luto. E vitó­ria sobre o pró­prio medo jamais será esque­cida.

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A medi­ta­ção nos ensina a fazer exa­ta­mente isso. Somos como os ratos colo­ca­dos den­tro jar­ros cheios de água, mas com uma dife­rença: somos na ver­dade ratos situ­a­dos bem no meio de um inco­men­su­rá­vel oce­ano, mas de olhos fecha­dos, sem per­ce­ber esse fato. Abrir os olhos para isso sem estar pre­pa­rado faz com que nos deses­pe­re­mos e, nos deba­tendo, aca­be­mos afo­ga­dos — e até hoje espe­culo se a causa pri­mor­dial dos ata­ques de pânico que aco­me­tem parte da popu­la­ção não decor­rem de uma falha da mente que não con­se­gue escon­der e afas­tar da cons­ci­ên­cia do indi­ví­duo a per­cep­ção de uma ver­dade para a qual ele ainda não está pre­pa­rado.

Porém, a medi­ta­ção nos treina para que abra­mos os olhos gra­du­al­mente, de forma serena. E ela faz isso tra­zendo o oce­ano para den­tro de nós, mos­trando que nós pró­prios tam­bém somos água. Dessa forma, fica­mos sere­nos como aquele rato que dor­mia, e flu­tu­a­mos. Quem sabe os ilu­mi­na­dos não são aque­les que, além de flu­tuar, apren­de­ram tam­bém a nadar?

O tédio e o sen­ti­mento de vazio que ele pro­voca são a mais obje­tiva e ime­di­ata porta para aden­trar­mos em con­tato com o sublime, pois o sublime não vive no pas­sado ou no futuro, e sim reside intei­ra­mente no momento pre­sente, imper­feiro e caó­tico como ele é, incom­pleto como apa­renta ser. Abra­çar o tédio requer silên­cio interno, e esse silên­cio é neces­sá­rio para que o momento pre­sente seja per­ce­bido. Essa expe­ri­ên­cia liberta por­que dei­xa­mos de ser depen­den­tes de todas as ati­vi­da­des, pre­o­cu­pa­ções, neu­ro­ses e pos­si­bi­li­da­des de fuga que antes eram tão neces­sá­rias, tão vitais. Vemos, final­mente, todas essas coi­sas em suas ade­qua­das pro­por­ções, e já não nos apri­si­o­nam.

O vazio sere­na­mente viven­ci­ado liberta, em última aná­lise, até daquele medo tão incon­ve­ni­ente, bobo e des­ne­ces­sá­rio que temos da morte. Todos os outros medos deri­vam desse: a morte da saúde, a morte da riqueza, a morte da alma, a morte da potên­cia, a morte do pres­tí­gio, a morte do con­trole. E des­con­fio que ape­nas após esse tipo de liber­ta­ção é que come­ça­mos a viver ple­na­mente.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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