“- Você disse que tem medo de morrer. Do que você tem medo?
– Do esquecimento. De não estar vivo, simplesmente,
de não sentir a vida, não sentir
isso.”
De uma entrevista com Philip Roth ao The Guardian, 14/12/2005.

Em algum momento da evolução, os seres humanos devem ter percebido que a morte do corpo traz consigo a morte da mente. A idéia de que a morte significa a morte da mente é algo sofisticado, que só pode ser alcançado por dedução, não pela observação. Nós presumimos que nenhum animal não humano poderia chegar a essa conclusão.

Suponhamos que essa idéia sobre a morte tenha se originado ao lado da linguagem e do simbolismo há cerca de 100 mil anos, e que tenha se espalhado rapidamente pela cultura humana. As conseqüências para a vida das pessoas devem ter sido importantes. Para aqueles que, como Philip Roth, tinham medo do esquecimento, essa ideia fornecia uma nova razão para continuarem vivos. Mas, para aqueles que eram tão infelizes ao ponto de ser bem-vindo o esquecimento, essa ideia fornecia ser uma razão para morrerem.

Assim, um grande avanço no conhecimento humano pode ter como resultado uma consequência perigosa para a sobrevivência humana: pode ter tornado o suicídio uma opção potencialmente atraente para parte da humanidade.

O suicídio entre os humanos é, de fato, terrivelmente comum. Nos Estados Unidos, alguém se mata a cada 12 minutos. Em todo o mundo, mais pessoas morrem de suicídio do que em todas as guerras e homicídios combinados.

É verdade que alguns o fazem por razões altruístas, de modo a trazer benefícios aos membros do grupo ou familiares. Mas a grande maioria está preocupada principalmente com a eliminação de suas próprias mentes. Longe de esperar beneficiar os outros, esses auto-assassinos são motivados por interesse próprio. Eles não se importam com o efeito sobre os outros, ou às vezes até pretendem uma espécie de vingança. E, quer pretendam ou não, os efeitos sobre a família e os amigos são muitas vezes devastadores.

O antropólogo Charles MacDonald, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, revisando os motivos do suicídio, conclui:

“As pessoas querem acabar com um estado de ansiedade psicológica ou física. As vítimas simplesmente querem morrer. Elas não querem mudar as coisas. O denominador comum de todos os casos examinados aqui é dor ou estresse – físico, mental ou emocional. O suicida quer parar a dor.”

Do ponto de vista da biologia evolutiva, o suicídio altruísta, em favor de outros, pode ser geneticamente vantajoso. Mas o suicídio egoísta, simplesmente para o “eu” parar de sofrer, só pode ser severamente desvantajoso. Muitos dos que fazem são jovens. É, agora, a segunda causa mais comum de morte em adolescentes. Se esses jovens não tivessem morrido por suas próprias mãos, eles provavelmente teriam superado a dor e teriam feito algo de construtivo em suas vidas. Com um só golpe, eles comprometeram sua própria aptidão biológica para a sobrevivência e também a de outros indivíduos relacionados com eles.

Do ponto de vista da biologia, o suicídio egoísta é claramente um erro, um caminho certo para a extinção genética. Mas é precisamente porque os seres humanos, isolados entre os animais, se elevam acima da biologia que podem cometer esse erro. Os seres humanos têm motivos para acreditar que, morrendo, podem escapar da dor. Assim, o suicídio pode parecer uma solução racional para um problema imediato. A auto-morte pode ser realizada como auto-eutanásia.

Na verdade, enquanto outros remédios possíveis levariam tempo e esforço, o suicídio pode parecer fácil e rápido. Saltar de um penhasco, beber veneno ou cortar os pulsos não requer inteligência emocional nem experiência prática. Em The Volcano Lover (1992), Susan Sontag escreveu:

“Quão fina é a linha entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Que tal abrirmos um buraco realmente profundo, e colocarmos em um lugar público, para uso geral? Em Manhattan, digamos, na esquina da Sétima com a Quinta avenidas. Uma placa ao lado do buraco diria: SUICÍDIO PERMITIDO SEG, QUA & SEX, 16H-20H. Só isso. Uma placa. Porque certamente pessoas que jamais tinham pensado muito nisso antes iriam saltar.”

Os suicídios reais geralmente não são planejados e são impulsivos. Uma pesquisa com 306 pacientes chineses que haviam sido hospitalizados após tentativa de suicídio descobriu que 35% haviam pensado sobre o suicídio por menos de 10 minutos e 54% por menos de duas horas.

O problema é que todos os seres humanos têm momentos de desespero. É uma grande e trágica verdade que os seres humanos, por terem ambições muito mais elevadas que as dos outros animais, acabam tornando a experiência de machucar-se uma parte inafastável de suas vidas.

O poeta italiano Cesare Pavese disse explicitamente: “Ninguém nunca carece de uma boa razão para o suicídio”. O filósofo Ludwig Wittgenstein disse uma vez a um amigo que “por toda sua vida quase não teve um dia no qual não tenha pensado, em um ou outro momento, sobre a possibilidade do suicídio”. Entre os estudantes de ensino médio dos EUA de hoje em dia, 60% afirmam ter considerado a possibilidade de matar-se, e 14% pensaram seriamente nisso nos últimos doze meses.

À luz da evidência contemporânea, penso que somos obrigados a perguntar até onde o suicídio teria impactado a vida humana pré-histórica. Hoje existem dissuasões culturais (religiosas, legais, cívicas) que, embora obviamente não sejam totalmente efetivas, ajudam a manter o suicídio sob controle. Mas elas nem sempre estiveram aqui.

Quando nossos antepassados ​​descobriram que a morte mental poderia ser obtida de forma tão barata, quão vulneráveis ​​eles se tornaram? Só posso supor que, sem qualquer exposição anterior, eles foram pegos desprevenidos, sem nenhum tipo de imunidade, seja inata ou adquirida. Nesse caso, acho realista imaginar um cenário onde o suicídio se espalhou como o sarampo em uma população desprotegida. De fato, o sarampo pode ser uma analogia alarmante, porque, mesmo hoje, a ‘meme’ do suicídio é altamente viralizante. Salta muito facilmente de uma mente para a outra.

O contágio do suicídio foi apelidado de efeito Werther após surgir no século XVIII o protagonista do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Na história, Werther se mata depois de apaixonar-se desesperadamente por uma mulher casada. Após a sua publicação em 1774, houve centenas de casos de suicídio inspirados na obra de Goethe na Alemanha.

Pesquisas recentes confirmaram o quão forte é o efeito viralizante. Toda vez que um suicídio de celebridades é exibido nos jornais ou na televisão, novas ondas de suicídios ocorrem. Estima-se que a morte de Marilyn Monroe em agosto de 1962 foi responsável por 200 suicídios extras no período de um mês. Depois de uma popular atriz sul-coreana enforcar-se em 2008, os suicídios subiram 66% naquele mês no país, com a maior parte dos suicidas responsáveis pelo aumento morrerem também por enforcamento.

Ainda há partes do mundo hoje em que as taxas de suicídio são dez vezes a média encontrada em outros lugares, aparentemente como resultado de uma reação em cadeia local. Estudando as pessoas geralmente satisfeitas e pacíficas na ilha de Palawan, nas Filipinas, MacDonald encontrou evidências de ondas de suicídio se espalhando por pequenas aldeias. “A criança cresce acostumada com a ideia”, comenta. “[Ele ou ela] vê ou ouve sobre anciãos, tios, tias, primos mais velhos e pais de amigos se matando. Assim, o suicídio torna-se um modelo de comportamento aceito, uma opção aberta ao indivíduo”.

No entanto, o que poderia ter desencadeado a reação em cadeia para começar? MacDonald apresentou o que ele chama de “teoria das ondas”. Ele acredita que o suicídio provavelmente estava em um nível “normal” em Palawan, até o início do século passado, quando ocorreu algum tipo de catástrofe (uma epidemia de cólera, uma invasão de colonizadores escravagistas?) que destruíram a vida dos moradores. Isso causou um aumento nos suicídios, e a onda tem se propagado desde então.

Então, o quanto o suicídio foi prevalecente no passado neolítico? É uma questão que os arqueólogos nunca pensaram em se perguntar, e para a qual não podemos esperar evidências fósseis. Mas vamos supor que os humanos se tornaram sujeitos ao risco do suicídio a cerca de 100 mil anos atrás. Podemos assumir que, nos primeiros dias, a taxa de infecção teria permanecido relativamente baixa. Mas, no momento em que os humanos deixaram a África, as condições de vida ficaram cada vez mais difíceis. No clima gelado da Europa Central de 50 mil anos atrás, com pessoas lutando para sobreviver num meio ambiente hostil e em competição homicida com seres humanos vizinhos, haveria muitas ocasiões para desespero a curto prazo. Se a taxa de suicídio atingisse um nível crítico, poderia ter se tornado uma epidemia.

O suicídio ameaçou a sobrevivência de populações inteiras nos primeiros seres humanos? Houve vários estrangulamentos genéticos na história humana, sugerindo que as populações atingiram quase nada. Estes foram atribuídos a fatores externos, como conflitos intestinais, ou inverno vulcânico, ou doença. Mas a verdadeira causa de um verme interno para a mente humana?


Fonte: Humans are the only animals who crave oblivion through suicide, Aeon Magazine.

  • Como diz aí, o suicídio egoísta é um mistério para ser explicado em termos biológicos. Isso porque a evolução só seleciona predisposições e mecanismos comportamentais ou morfológicos que aumentem as chances dos indivíduos gerarem mais descendentes.

    É difícil imaginar um motivo que faça o suicídio egoísta gerar mais descendentes para alguém.

    Mas também não acho que esse tipo de suicídio não é um indício de “superação da biologia”.

    E isso é uma questão de pressuposto mesmo. Tipo, acho que não faz sentido ter comportamentos simplesmente desconectados da biologia. Precisamos de um cérebro até para estudar silogismos socráticos. Talvez essa visão da cultura como superação da biologia venha do vício de achar que TUDO tem de ser útil do ponto de vista da evolução. Alguns mecanismos podem ser somente co-produtos de outros mecanismos, esses sim úteis evolutivamente. Pode ser também que certas condições ecológicas gerem mecanismos que atuem na contramão de um possível interesse biológico (de gerar mais descendentes).

    É o caso da correlação invertida entre índice sócio-educacional e taxa de natalidade numa população. As pessoas simplesmente têm menos filhos em culturas mais bem educadas. E ter filho (ou fazer mais sexo — já que usamos contraceptivo) é o motor dessa lógica evolucionista, né.

    Mas isso não está exatamente mostrando um domínio ontológico (sei lá) alheio à biologia. Está apenas mostrando que no ambiente atual podem ter certas condições que não existiam nos contextos originais onde o Homo sapiens foi talhado pela seleção natural e sexual. Isso pode trazer comportamentos que acabem meio que bugando essa lógica evolutiva de ter comportamentos funcionais em termos de gerar mais descendentes.

    Afinal, não esqueça: a evolução molda os organismos com alguma flexibilidade, na nossa espécie, existe bastante. Isso é muito bom, mas pode ser muito ruim também, vide o suicídio egoísta.