Uma pacífica gerente de lanchonete. Um pacato estudante universitário. Um inofensivo cidadão americano. Todos sem precedentes de violência. Normais, comuns, iguais a nós. Todos capazes de torturar, matar e estuprar.

Saberemos de suas histórias em breve, ao tentarmos responder a seguinte pergunta:

O ser humano é mau?

Antes, porém, precisamos voltar à 1970 e contar a curiosa historia da Dra. Jane Goodall. Antropóloga e etologista especializada em primatas, ela amava um de nossos parentes mais próximos, o chimpanzé. Passou anos estudando uma turma deles em seu ambiente natural, numa reserva na Tanzânia.

 

1. Os angélicos chipanzés da senhora Jane Goodall

 

A Dra. Goodall admirava o comportamento benevolente dos chipanzés. Como são nossos parentes próximos, por pertencerem à família dos hominoidea, Dra. Goodall via neles a prova de que éramos, no fundo, seres bondosos e gentis.

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Em 1971, a pesquisadora publicou o livro. Nele, defendia que os chimpanzés eram a prova de que nós, seres humanos, vivíamos antigamente em paz e harmonia, conectados com a natureza, e de que a guerra não era algo natural, mas uma detestável invenção do homem “racional”.

Trata-se de uma tese similar a do bom selvagem de Rousseau, segundo a qual o ser humano era originalmente bom, mas foi corrompido pela civilização e pela noção de propriedade. Algo muito diferente  da opinião de Hobbes, de que o homem era naturalmente propenso ao mal e que a civilização serviria para conter seus instintos “criminosos” (o curioso é que, na vida pessoal, Hobbes era muito mais decente e honesto do que Rousseau).

Três anos após a publicação do livro, houve uma reviravolta que chocou a Dra. Goodall. A população do grupo de chimpanzés que pesquisava aumentou com o nascimento de novos filhotes. Com isso, tornou-se mais difícil conseguir comida para todos. Ela começou a notar uma sutil mudança no comportamento deles.

Pareciam mais hostis, inquietos.

Em certo momento e sem razão aparente, o grupo de chipanzés dividiu-se em duas tribos. A maior permaneceu no antigo território, enquanto a menor se embrenhou na floresta. De início, a relação entre ambas as tribos era pacífica. Cada um no seu território, sem problemas. Mas em algumas semanas os membros do grupo maior, sem qualquer motivo, passaram a fazer incursões para atacar e matar os seus antigos amigos.

As investidas eram impiedosas e brutais. Os agressores cercavam os outros chimpanzés quando estavam mais indefesos e quebravam seus ossos, rasgavam sua carne com os dentes e, se não os matavam de imediato, deixavam-nos aleijados para morrerem vagarosamente. As principais vítimas eram outros machos. Só que, em um dos ataques, uma fêmea idosa foi trucidada.

No final, a tribo menor foi praticamente dizimada.

Dra. Goodall ficou horrorizada. Seus amados chimpanzés, nossos parentes próximos, mostraram-se brutais. Posteriormente, ficou comprovado que chimpanzés machos até mesmo costumam atacar filhotes separados das mães e praticar canibalismo com suas jovens vítimas.

A tese defendida no livro da Dra. Goddal mostrou-se totalmente furada.

2. A banalidade do mal e o Experimento de Milgram

A atitude dos amiguinhos da Dra. Goodall não teria surpreendido em nada outra mulher e escritora. Hannah Arendt, prisioneira de um campo de concentração na Segunda Guerra, tinha opinião contrária sobre a natureza humana. Judia, Hannah chegou a ofender seus amigos judeus ao propôr que a maldade típica dos nazistas não era privilégio dos alemães, até porque eles receberam apoio de membros da comunidade judaica.

Pior ainda, durante o julgamento de um criminosos nazista (Adolf Eichmann, ex-tenente da SS — a organização paramilitar do partido nazista) ela propôs que o réu não era um monstro, mas um ser humano comum, que praticara o que muitos seres humanos “normais” teriam feito se colocados nas mesmas circunstâncias.

Essa era a sua teoria: o mal não é algo extraordinário; o mal é algo comum, banal.

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A banalidade do mal, segundo Hanna Arendt, está no fato de que a maldade não é praticada exclusivamente por loucos ou psicopatas, mas por pessoas normais que aceitam as premissas de seu Estado e que se conduzem de acordo com as convenções sociais por acreditarem que são adequadas e justas.

Pois um dia um pesquisador decidiu verificar cientificamente se Hannah Arendt tinha razão. Em 1961, o psicólogo americano Stanley Milgram fez um experimento patrocinado pela universidade de Yale. A pesquisa e seus resultados ficaram famosos no mundo todo como O Experimento Milgram (The Milgram Experiment).

Em resumo, Milgram publicou nos jornais um anúncio para voluntários participarem de um teste. Os voluntários eram instruídos a fazer perguntas para um outro suposto voluntário (na verdade, um ator) que estava em outra sala e com o qual se comunicavam por meio de um sistema de som.

Ao lado do voluntário estava um pesquisador. Diante do voluntário havia um aparelho cheio de botões. Era explicado a ele que o aparelho estava conectado a fios elétricos que, por sua vez, ficavam presos ao pulso do homem na sala ao lado.

O pesquisador apresentava ao voluntário um questionário e o instruía a fazer perguntas ao outro sujeito. Quando esse errasse uma resposta, o voluntário deveria lhe aplicar um choque. A intensidade do choque deveria aumentar 15 volts a cada resposta errada.

Do outro lado da sala, como já dito, não havia outro voluntário, mas um ator sem fio nenhum conectado a seu pulso. Ele deveria errar perguntas do questionário de propósito e, quando aplicado o falso choque, fingiria gemer de dor. A medida em que os supostos choques aumentassem, ele deveria gritar, simular um enfarto e, depois, permanecer em silêncio, como se algo muito ruim houvesse ocorrido.

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O objetivo do experimento era saber até onde pessoas comuns, pacatos cidadãos americanos, seriam capazes de ir apenas porque estavam autorizados por um pesquisador de uma universidade.

Os resultados falam por si:

65% dos voluntários chegaram a aplicar choques de até 450 volts em suas vítimas. Alguns continuaram a aplicar choques mesmo quando a “vítima” já não respondia coisa alguma e presumivelmente estava morta ou havia desmaiado. Nenhum dos voluntários que se recusou a administrar os choques finais exigiu que o experimento em si mesmo tivesse um fim, e nenhum deles foi à sala ao lado para verificar o estado de saúde da vítima.


E antes que alguém insinue que a culpa é dos americanos, do sistema capitalista e da McDonalds, é bom esclarecer que, nos anos seguintes, a equipe de Milgram repetiu o experimento em vários outros países do mundo.

Em todos, o resultado sempre foi o mesmo.

Na conclusão de sua pesquisa, Stanley Milgram foi claro:

“Pessoas comuns, simplesmente fazendo seu trabalho e sem qualquer hostilidade particular, podem se tornar agentes de um terrível processo destrutivo.
Mais ainda, mesmo quando os efeitos destrutivos de seu trabalho se tornam patentemente claros, e lhes é pedido que prossigam agindo contra os padrões fundamentais da moralidade, relativamente poucas pessoas são capazes de resistir a autoridade.”

3. A verdadeira face dos falsos prisioneiros de Stanford

Embora o Experimento Milgram tenha por objetivo provar a incapacidade da maioria de resistir a ordens de uma autoridade, a pergunta que se faz é outra. Nós obedecemos a ordens injustas porque tememos a punição por nossa resistência ou obedecemos porque, no fundo, gostamos de fazer o mal?

No livro em que analisa o julgamento daquele criminoso nazista (Eichmenn em Jerusalém), Hannah Arendt demonstra que, na Alemanha da Segunda Guerra, os funcionários do Estado que se recusavam a matar e torturar outros seres humanos não recebiam nenhuma punição atroz, com exceção apenas dos momentos finais da guerra (disso falaremos adiante).

No máximo, eram colocados em funções subalternas, podendo ficar tranquilos com sua consciência de não estarem participando de uma atrocidade. Se continuaram, portanto, é porque não se importavam com as crueldades que praticavam, ou talvez as apreciassem.

Portanto, talvez a verdade seja o inverso, como Hobbes propôs: as pessoas comuns são gentis e bondosas apenas quando as regras sociais e do Estado exigem que se portem dessa maneira, pois temem ser punidas se revelarem sua verdadeira natureza. Por outro lado, essas mesmas pessoas “normais” seriam capazes de praticar crueldades quando as autoridades lhes permitissem ou ordenassem porque, no fundo, gostam do que fazem.

Talvez um dos experimentos mais assustadores tenha sido aquele que durou menos de uma semana e terminou muito antes do previsto, por ter despertado algo no coração de seus participantes que, possivelmente, seja melhor deixar adormecido.

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Em 1971, durante seis dias, vinte e quatro estudantes da Universidade de Stanford foram selecionados pelo psicólogo Philip Zimbardo para assumirem aleatoriamente papéis de guardas e prisioneiros em uma prisão de mentira. Havia algumas regras a serem obedecidas, e os falsos guardas deveriam livremente adotar as medidas que considerassem adequadas para que os falsos prisioneiros se comportassem.

Tudo poderia ter sido um engraçado faz-de-conta, uma brincadeira inofensiva, pois havia apenas colegas, e sabiam que a prisão era uma grande farsa.

Porém, em poucos dias o Experimento de Stanford se revelou um espetáculo sinistro.

No primeiro dia, verificou-se que os participantes ajustaram-se a seus papéis para além das expectativas do pesquisador. Os guardas adotaram medidas autoritárias e chegaram a submeter alguns  prisioneiros à tortura psicológica e a diversas formas de humilhações.

Muitos dos prisioneiros submetiam-se aos abusos sem protestar.

Nos dias seguintes, os guardas decidiram que os prisioneiros deveriam abdicar de seus nomes e decorar seus números identificadores, para que percebessem não possuir personalidade ali dentro. Os guardas obrigaram os prisioneiros a repetir seus números identificadores e passaram a adotar punições físicas para os que erravam ou se recusavam a fazê-lo.

As condições sanitárias decaíram rapidamente, pois os guardas, exigindo que os prisioneiros defecassem e urinassem em baldes que colocaram em suas celas, deixavam de trocar os baldes no caso de desobediência. Outra punição criada foi tirar o colchão das celas dos prisioneiros que reclamavam, para que dormissem no chão.


A seguir, os guardas começaram a forçar os prisioneiros a ficarem nus, como método de humilhação e disciplina.

Um prisioneiro que se recusou a comer foi colocado em uma “solitária” inventada pelos próprios guardas, consistente em um armário escuro. Os guardas orientaram aos outros prisioneiros a ficarem esmurrando as portas do armário, e depois disseram-lhes que soltariam o rebelde se todos abdicassem de seus lençóis e dormissem direto no colchão — apenas um prisioneiro aceitou sacrificar seu bem-estar para livrar o companheiro da solitária.

Segundo os registros do experimento, vários guardas demonstraram evidentes sinais de sadismo e se portaram de forma desnecessariamente cruel.

Alguns deles reclamaram quando o experimento teve de ser abruptamente interrompido após o sexto dia. Outra surpresa para Philip Zimbardo e sua equipe foi a facilidade com que muitos prisioneiros assumiam uma postura submissiva, tolerando os abusos e até mesmo cooperando com os abusadores.

Embora as conclusões a respeito do experimento sejam objeto de debate até hoje, não precisamos nos limitar a testes feitos em situações controladas. Temos exemplos reais de que algo estranho ronda o coração humano.

4. Compliance e como um trote pode ser a desculpa que faltava

Compliance é um filme americano de produção independente que narra uma história real. Embora não tenha a intenção de estragar o filme para aqueles que desejam assisti-lo, basta dizer que seu roteiro relata como pessoas “normais”, pacatos funcionários de lanchonetes, são facilmente convencidos a praticar crueldades contra pessoas submetidas a seu poder.

Como disse, o filme se baseia em uma série de incidentes verídicos que ocorreram em 2004 nos Estados Unidos, todos resultantes de trotes criminosos realizados por David R. Stewart, um pai de família com cinco filhos.

Stewart, dotado de uma lábia fenomenal, ligava aleatoriamente para lanchonetes das franquias McDonalds e pedia para falar com o gerente. A seguir, convencia o gerente (muitas vezes, uma mulher) de que era agente da polícia local. Induzindo esse gerente a revelar o nome de uma de suas funcionárias mais jovens, logo a seguir informava que tal menina estava sendo investigada como suspeita de crimes como furto e tráfico.

Na sequência de seu trote, Stewart orientava o/a gerente a prender em um banheiro ou dispensa essa funcionária e explicava que, enquanto a polícia se dirigia para o local, os funcionários da lanchonete deveriam proceder a uma busca pessoal na menina, na procura de provas do seu crime. A busca era comandada por Stewart do outro lado do telefone, e ele orientava o gerente ou outros funcionários a despirem a vítima e, até mesmo, a procurarem por drogas em suas cavidades corporais.

Há pelo menos oito trotes registrados. Em muitos dos casos, a funcionária era uma menor de idade. Em quase todos os casos, os gerentes e/ou outros funcionários aproveitaram a situação para humilhar e até mesmo constranger sexualmente a vítima.

Pelo menos um desses trotes resultou na prática de um crime violento.

Para desmascarar o trote, bastava a qualquer dos envolvidos confirmar com a polícia local a veracidade das acusações. Exigia apenas o esforço de fazer-se uma ligação. Isso sem falar no próprio fato de a qualquer um era possível questionar a moralidade e legalidade das instruções de uma suposta autoridade.

Porém, todos pareciam estar desejosos demais de acreditarem numa situação que lhes permitiria expressar o que há de pior na sua natureza.

5. Os bonobos trepam como o Reich gosta…

Não é um quadro lisonjeiro sobre a natureza humana, esse que traçamos até agora. Mas talvez haja uma esperança.

Como vimos, lá no início do texto, os chimpanzés são um de nossos ancestrais mais próximos, da mesma família de primatas. Mas também existe um tipo de primata que, diferente de nossos outros parentes próximos, parece não ter propensão à violência. São os bonobos.

Se hoje em dia os chimpanzés (pan troglodytes) são reconhecidos como animais muito violentos, os bonobos (pan paniscus) ficaram famosos entre os cientistas por terem uma índole totalmente pacífica. Diversamente de seus primos, os bonobos nunca praticam ataques letais uns contra os outros, e são raríssimos os casos de agressão.

Naturalmente calmos, os bonobos são conhecidos entre os pesquisadores como os macacos hippies. Herbívoros, a organização de seu grupo é sempre matriarcal, enquanto os chimpanzés são patriarcais. Se um bonobo eventualmente tenta agredir uma fêmea, é repreendido por todo o grupo e passa um tempo “de castigo”.

Outra diferença em relação aos chipanzés é o tempo e a energia que os bonobos gastam em determinada atividade: o sexo.

Sem exagero, eles passam o dia inteiro transando. Bonobos despendem grande parte de seu tempo livre com sexo, em todo tipo de combinações de idade e de gênero entre os parceiros, sendo que práticas lésbicas são comuns entre as fêmeas.

Na verdade, os bonobos são os únicos primatas que, como os humanos, fazem sexo um de frente para o outro, podendo olhar-se diretamente nos olhos durante a cópula. E os pesquisadores constataram que os intercursos sexuais são não apenas uma fonte de prazer para os bonobos, mas também uma forma de fortalecer a coesão e a solidariedade entre os membros do grupo.

É, também, uma forma de conciliar conflitos entre membros do grupo.

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Talvez seja apenas especulação, mas isso lembra muito a teoria da economia sexual e o conceito de potência orgástica criados por William Reich. Alemão meio amalucado, Reich considerava que a impossibilidade de o indivíduo realizar plenamente sua sexualidade, liberando completamente a tensão através do orgasmo, era a causa fundamental de todas as neuroses do ser humano.

Para Reich, as neuroses seriam consequência de todas as inibições crônicas que a civilização impôs à livre expressão da excitação sexual. Disso resultariam indivíduos que internalizam sua ansiedade e externalizam até mesmo fisicamente sua rigidez psicológica, pessoas propensas à violência e a diversas formas de sadismo cotidiano.

Segundo essa teoria, em neuróticos a busca pelo gozo seria substituída pela busca pelo poder, e tais indivíduos tenderiam a aceitar rotinas enfadonhas. Esses indivíduos seriam vitimados por fobias, compulsões, depressão e sentimento de solidão. Reprimidos, eles buscariam em alguma autoridade, religiosa ou política, a energia sexual que não encontram em si mesmas.

Para Reich, tudo isso começou a mudar, à medida em que desmantelamos muitas das crenças e sistemas de nossos antepassados. Estaríamos no limiar de uma revolução sexual cujos efeitos em nossa civilização ainda não foram completamente percebidos.

Seria um cisne negro, um evento cujas consequências ainda não somos capazes de compreender em sua integralidade, pois a transformação de nossos costumes ainda encontra forte resistência naquelas estruturas de poder que se alimentam de indivíduos neuróticos.

6. O chimpanzé e o bonobo que moram em nós

Somos chimpanzés naturalmente violentos ou bonobos pacíficos que ficaram malvados após milênios de restrição de sua energia sexual abundante?

Recentemente, cientistas descobriram que o ser humano está geneticamente tão próximo do bonobo como do chimpanzé. É como se fôssemos a encruzilhada genética de duas formas de viver, a agressiva e a pacífica.

Não podemos esquecer que, em todos os experimentos descritos acima, sempre houve indivíduos, ainda que uma minoria, que se recusaram a seguir o caminho mais fácil da obediência e da agressão autorizada. No experimento de Milgram, pelo menos um terço dos voluntários não prosseguiram aplicando choques.

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Comparativo entre chimpanzés e bonobos.

Na falsa prisão de Standford, alguns prisioneiros sacrificaram seu bem-estar para beneficiar os companheiros, e o experimento foi interrompido porque uma das alunas que entrevistava os participantes protestou veementemente, sem apoio dos colegas. Na série de trotes criminosos contra funcionárias de lanchonetes, Thomas Simmers, um modesto subalterno, arriscou perder seu emprego e foi o único dos envolvidos que se recusou a obedecer as ordens do suposto policial.

Com sua recusa, o trote começou a ser desmascarado.

Hannah Arendt também narra, no livro em que trata da banalidade do mal, a história de dois irmãos camponeses que, convocados pelos nazistas a servir às tropas da SS no final da guerra, recusaram-se a assinar a convocação. Diferente do que ocorria antes, naquele momento de iminente derrota, a recusa era punida com sentença de morte, e os camponeses foram condenados.

No dia da execução dos dois irmãos, eles escreveram uma carta às suas famílias: “preferimos morrer do que carregar em nossas consciências coisas tão terríveis”.

Não devemos menosprezar nossa capacidade de resistir. Talvez o que mais dignifique a espécie humana seja a coragem de uma minoria que ousa dizer “não” às autoridades e também aos seus próprios instintos de chimpanzé, de poucos que não cedem à pressão da maioria e arriscam o próprio bem-estar para não causar sofrimento a outros.

Sob essa ótica, todo aquele corajoso o suficiente para se desviar do caminho dos “homens comuns” e criar uma rota alternativa é candidato a impor um fim à barbárie, quando ela ameaça prevalecer entre nós.

E então? O ser humano é mau?

Claro, a situação não é tão simples assim. Somos muito mais complexos do que a pergunta sugere. Porém, existe um interessante provérbio sobre dois lobos que reflete nossa natureza, e talvez seja conveniente trocar os personagens desse provérbio.

Cada um de nós tem um chimpanzé e um bonobo dentro de si. E todos os dias, com nossas ações e com os caminhos que decidimos tomar, escolhemos se alimentamos o chimpanzé ou o bonobo.

Podemos dar de comida sempre ao chimpanzé, e assim faremos parte de um círculo vicioso de violência e hostilidade, deixando o bonobo morrer a míngua. Ou podemos alimentar o bonobo, enfraquecendo o chimpanzé e ajudando a construir uma civilização em que o sentido de toda vida humana seja tornar a vida dos demais seres mais tolerável e menos sofrida aqui neste mundo.

Em que lado você prefere ficar? Costumo dizer que prefiro o lado do pão que tem a manteiga. Mas, nesse caso, diria que prefiro o lado em que o pessoal está transando sem parar.

escrito por:

Victor Lisboa