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O ser humano é mau?

Em Comportamento, Consciência, O MELHOR DO AZ por Victor LisboaComentário

Uma pací­fica gerente de lan­cho­nete. Um pacato estu­dante uni­ver­si­tá­rio. Um ino­fen­sivo cida­dão ame­ri­cano. Todos sem pre­ce­den­tes de vio­lên­cia. Nor­mais, comuns, iguais a nós. Todos capa­zes de tor­tu­rar, matar e estu­prar.

Sabe­re­mos de suas his­tó­rias em breve, ao ten­tar­mos res­pon­der a seguinte per­gunta:

O ser humano é mau?

Antes, porém, pre­ci­sa­mos vol­tar à 1970 e con­tar a curi­osa his­to­ria da Dra. Jane Goo­dall. Antro­pó­loga e eto­lo­gista espe­ci­a­li­zada em pri­ma­tas, ela amava um de nos­sos paren­tes mais pró­xi­mos, o chim­panzé. Pas­sou anos estu­dando uma turma deles em seu ambi­ente natu­ral, numa reserva na Tan­zâ­nia.

 

1. Os angélicos chipanzés da senhora Jane Goodall

 

A Dra. Goo­dall admi­rava o com­por­ta­mento bene­vo­lente dos chi­pan­zés. Como são nos­sos paren­tes pró­xi­mos, por per­ten­ce­rem à famí­lia dos homi­noi­dea, Dra. Goo­dall via neles a prova de que éra­mos, no fundo, seres bon­do­sos e gen­tis.

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Em 1971, a pes­qui­sa­dora publi­cou o livro. Nele, defen­dia que os chim­pan­zés eram a prova de que nós, seres huma­nos, vivía­mos anti­ga­mente em paz e har­mo­nia, conec­ta­dos com a natu­reza, e de que a guerra não era algo natu­ral, mas uma detes­tá­vel inven­ção do homem “raci­o­nal”.

Trata-se de uma tese simi­lar a do bom sel­va­gem de Rous­seau, segundo a qual o ser humano era ori­gi­nal­mente bom, mas foi cor­rom­pido pela civi­li­za­ção e pela noção de pro­pri­e­dade. Algo muito dife­rente  da opi­nião de Hob­bes, de que o homem era natu­ral­mente pro­penso ao mal e que a civi­li­za­ção ser­vi­ria para con­ter seus ins­tin­tos “cri­mi­no­sos” (o curi­oso é que, na vida pes­soal, Hob­bes era muito mais decente e honesto do que Rous­seau).

Três anos após a publi­ca­ção do livro, houve uma revi­ra­volta que cho­cou a Dra. Goo­dall. A popu­la­ção do grupo de chim­pan­zés que pes­qui­sava aumen­tou com o nas­ci­mento de novos filho­tes. Com isso, tor­nou-se mais difí­cil con­se­guir comida para todos. Ela come­çou a notar uma sutil mudança no com­por­ta­mento deles.

Pare­ciam mais hos­tis, inqui­e­tos.

Em certo momento e sem razão apa­rente, o grupo de chi­pan­zés divi­diu-se em duas tri­bos. A maior per­ma­ne­ceu no antigo ter­ri­tó­rio, enquanto a menor se embre­nhou na flo­resta. De iní­cio, a rela­ção entre ambas as tri­bos era pací­fica. Cada um no seu ter­ri­tó­rio, sem pro­ble­mas. Mas em algu­mas sema­nas os mem­bros do grupo maior, sem qual­quer motivo, pas­sa­ram a fazer incur­sões para ata­car e matar os seus anti­gos ami­gos.

As inves­ti­das eram impi­e­do­sas e bru­tais. Os agres­so­res cer­ca­vam os outros chim­pan­zés quando esta­vam mais inde­fe­sos e que­bra­vam seus ossos, ras­ga­vam sua carne com os den­tes e, se não os mata­vam de ime­di­ato, dei­xa­vam-nos alei­ja­dos para mor­re­rem vaga­ro­sa­mente. As prin­ci­pais víti­mas eram outros machos. Só que, em um dos ata­ques, uma fêmea idosa foi tru­ci­dada.

No final, a tribo menor foi pra­ti­ca­mente dizi­mada.

Dra. Goo­dall ficou hor­ro­ri­zada. Seus ama­dos chim­pan­zés, nos­sos paren­tes pró­xi­mos, mos­tra­ram-se bru­tais. Pos­te­ri­or­mente, ficou com­pro­vado que chim­pan­zés machos até mesmo cos­tu­mam ata­car filho­tes sepa­ra­dos das mães e pra­ti­car cani­ba­lismo com suas jovens víti­mas.

A tese defen­dida no livro da Dra. God­dal mos­trou-se total­mente furada.

2. A banalidade do mal e o Experimento de Milgram

A ati­tude dos ami­gui­nhos da Dra. Goo­dall não teria sur­pre­en­dido em nada outra mulher e escri­tora. Han­nah Arendt, pri­si­o­neira de um campo de con­cen­tra­ção na Segunda Guerra, tinha opi­nião con­trá­ria sobre a natu­reza humana. Judia, Han­nah che­gou a ofen­der seus ami­gos judeus ao propôr que a mal­dade típica dos nazis­tas não era pri­vi­lé­gio dos ale­mães, até por­que eles rece­be­ram apoio de mem­bros da comu­ni­dade judaica.

Pior ainda, durante o jul­ga­mento de um cri­mi­no­sos nazista (Adolf Eich­mann, ex-tenente da SS — a orga­ni­za­ção para­mi­li­tar do par­tido nazista) ela propôs que o réu não era um mons­tro, mas um ser humano comum, que pra­ti­cara o que mui­tos seres huma­nos “nor­mais” teriam feito se colo­ca­dos nas mes­mas cir­cuns­tân­cias.

Essa era a sua teo­ria: o mal não é algo extra­or­di­ná­rio; o mal é algo comum, banal.

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A bana­li­dade do mal, segundo Hanna Arendt, está no fato de que a mal­dade não é pra­ti­cada exclu­si­va­mente por lou­cos ou psi­co­pa­tas, mas por pes­soas nor­mais que acei­tam as pre­mis­sas de seu Estado e que se con­du­zem de acordo com as con­ven­ções soci­ais por acre­di­ta­rem que são ade­qua­das e jus­tas.

Pois um dia um pes­qui­sa­dor deci­diu veri­fi­car cien­ti­fi­ca­mente se Han­nah Arendt tinha razão. Em 1961, o psi­có­logo ame­ri­cano Stan­ley Mil­gram fez um expe­ri­mento patro­ci­nado pela uni­ver­si­dade de Yale. A pes­quisa e seus resul­ta­dos fica­ram famo­sos no mundo todo como O Expe­ri­mento Mil­gram (The Mil­gram Expe­ri­ment).

Em resumo, Mil­gram publi­cou nos jor­nais um anún­cio para volun­tá­rios par­ti­ci­pa­rem de um teste. Os volun­tá­rios eram ins­truí­dos a fazer per­gun­tas para um outro suposto volun­tá­rio (na ver­dade, um ator) que estava em outra sala e com o qual se comu­ni­ca­vam por meio de um sis­tema de som.

Ao lado do volun­tá­rio estava um pes­qui­sa­dor. Diante do volun­tá­rio havia um apa­re­lho cheio de botões. Era expli­cado a ele que o apa­re­lho estava conec­tado a fios elé­tri­cos que, por sua vez, fica­vam pre­sos ao pulso do homem na sala ao lado.

O pes­qui­sa­dor apre­sen­tava ao volun­tá­rio um ques­ti­o­ná­rio e o ins­truía a fazer per­gun­tas ao outro sujeito. Quando esse errasse uma res­posta, o volun­tá­rio deve­ria lhe apli­car um cho­que. A inten­si­dade do cho­que deve­ria aumen­tar 15 volts a cada res­posta errada.

Do outro lado da sala, como já dito, não havia outro volun­tá­rio, mas um ator sem fio nenhum conec­tado a seu pulso. Ele deve­ria errar per­gun­tas do ques­ti­o­ná­rio de pro­pó­sito e, quando apli­cado o falso cho­que, fin­gi­ria gemer de dor. A medida em que os supos­tos cho­ques aumen­tas­sem, ele deve­ria gri­tar, simu­lar um enfarto e, depois, per­ma­ne­cer em silên­cio, como se algo muito ruim hou­vesse ocor­rido.

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O obje­tivo do expe­ri­mento era saber até onde pes­soas comuns, paca­tos cida­dãos ame­ri­ca­nos, seriam capa­zes de ir ape­nas por­que esta­vam auto­ri­za­dos por um pes­qui­sa­dor de uma uni­ver­si­dade.

Os resul­ta­dos falam por si:

65% dos volun­tá­rios che­ga­ram a apli­car cho­ques de até 450 volts em suas víti­mas. Alguns con­ti­nu­a­ram a apli­car cho­ques mesmo quando a “vítima” já não res­pon­dia coisa alguma e pre­su­mi­vel­mente estava morta ou havia des­mai­ado. Nenhum dos volun­tá­rios que se recu­sou a admi­nis­trar os cho­ques finais exi­giu que o expe­ri­mento em si mesmo tivesse um fim, e nenhum deles foi à sala ao lado para veri­fi­car o estado de saúde da vítima.


E antes que alguém insi­nue que a culpa é dos ame­ri­ca­nos, do sis­tema capi­ta­lista e da McDo­nalds, é bom escla­re­cer que, nos anos seguin­tes, a equipe de Mil­gram repe­tiu o expe­ri­mento em vários outros paí­ses do mundo.

Em todos, o resul­tado sem­pre foi o mesmo.

Na con­clu­são de sua pes­quisa, Stan­ley Mil­gram foi claro:

Pes­soas comuns, sim­ples­mente fazendo seu tra­ba­lho e sem qual­quer hos­ti­li­dade par­ti­cu­lar, podem se tor­nar agen­tes de um ter­rí­vel pro­cesso des­tru­tivo.
Mais ainda, mesmo quando os efei­tos des­tru­ti­vos de seu tra­ba­lho se tor­nam paten­te­mente cla­ros, e lhes é pedido que pros­si­gam agindo con­tra os padrões fun­da­men­tais da mora­li­dade, rela­ti­va­mente pou­cas pes­soas são capa­zes de resis­tir a auto­ri­dade.”

3. A verdadeira face dos falsos prisioneiros de Stanford

Embora o Expe­ri­mento Mil­gram tenha por obje­tivo pro­var a inca­pa­ci­dade da mai­o­ria de resis­tir a ordens de uma auto­ri­dade, a per­gunta que se faz é outra. Nós obe­de­ce­mos a ordens injus­tas por­que teme­mos a puni­ção por nossa resis­tên­cia ou obe­de­ce­mos por­que, no fundo, gos­ta­mos de fazer o mal?

No livro em que ana­lisa o jul­ga­mento daquele cri­mi­noso nazista (Eich­menn em Jeru­sa­lém), Han­nah Arendt demons­tra que, na Ale­ma­nha da Segunda Guerra, os fun­ci­o­ná­rios do Estado que se recu­sa­vam a matar e tor­tu­rar outros seres huma­nos não rece­biam nenhuma puni­ção atroz, com exce­ção ape­nas dos momen­tos finais da guerra (disso fala­re­mos adi­ante).

No máximo, eram colo­ca­dos em fun­ções subal­ter­nas, podendo ficar tran­qui­los com sua cons­ci­ên­cia de não esta­rem par­ti­ci­pando de uma atro­ci­dade. Se con­ti­nu­a­ram, por­tanto, é por­que não se impor­ta­vam com as cru­el­da­des que pra­ti­ca­vam, ou tal­vez as apre­ci­as­sem.

Por­tanto, tal­vez a ver­dade seja o inverso, como Hob­bes propôs: as pes­soas comuns são gen­tis e bon­do­sas ape­nas quando as regras soci­ais e do Estado exi­gem que se por­tem dessa maneira, pois temem ser puni­das se reve­la­rem sua ver­da­deira natu­reza. Por outro lado, essas mes­mas pes­soas “nor­mais” seriam capa­zes de pra­ti­car cru­el­da­des quando as auto­ri­da­des lhes per­mi­tis­sem ou orde­nas­sem por­que, no fundo, gos­tam do que fazem.

Tal­vez um dos expe­ri­men­tos mais assus­ta­do­res tenha sido aquele que durou menos de uma semana e ter­mi­nou muito antes do pre­visto, por ter des­per­tado algo no cora­ção de seus par­ti­ci­pan­tes que, pos­si­vel­mente, seja melhor dei­xar ador­me­cido.

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Em 1971, durante seis dias, vinte e qua­tro estu­dan­tes da Uni­ver­si­dade de Stan­ford foram sele­ci­o­na­dos pelo psi­có­logo Phi­lip Zim­bardo para assu­mi­rem ale­a­to­ri­a­mente papéis de guar­das e pri­si­o­nei­ros em uma pri­são de men­tira. Havia algu­mas regras a serem obe­de­ci­das, e os fal­sos guar­das deve­riam livre­mente ado­tar as medi­das que con­si­de­ras­sem ade­qua­das para que os fal­sos pri­si­o­nei­ros se com­por­tas­sem.

Tudo pode­ria ter sido um engra­çado faz-de-conta, uma brin­ca­deira ino­fen­siva, pois havia ape­nas cole­gas, e sabiam que a pri­são era uma grande farsa.

Porém, em pou­cos dias o Expe­ri­mento de Stan­ford se reve­lou um espe­tá­culo sinis­tro.

No pri­meiro dia, veri­fi­cou-se que os par­ti­ci­pan­tes ajus­ta­ram-se a seus papéis para além das expec­ta­ti­vas do pes­qui­sa­dor. Os guar­das ado­ta­ram medi­das auto­ri­tá­rias e che­ga­ram a sub­me­ter alguns  pri­si­o­nei­ros à tor­tura psi­co­ló­gica e a diver­sas for­mas de humi­lha­ções.

Mui­tos dos pri­si­o­nei­ros sub­me­tiam-se aos abu­sos sem pro­tes­tar.

Nos dias seguin­tes, os guar­das deci­di­ram que os pri­si­o­nei­ros deve­riam abdi­car de seus nomes e deco­rar seus núme­ros iden­ti­fi­ca­do­res, para que per­ce­bes­sem não pos­suir per­so­na­li­dade ali den­tro. Os guar­das obri­ga­ram os pri­si­o­nei­ros a repe­tir seus núme­ros iden­ti­fi­ca­do­res e pas­sa­ram a ado­tar puni­ções físi­cas para os que erra­vam ou se recu­sa­vam a fazê-lo.

As con­di­ções sani­tá­rias decaí­ram rapi­da­mente, pois os guar­das, exi­gindo que os pri­si­o­nei­ros defe­cas­sem e uri­nas­sem em bal­des que colo­ca­ram em suas celas, dei­xa­vam de tro­car os bal­des no caso de deso­be­di­ên­cia. Outra puni­ção cri­ada foi tirar o col­chão das celas dos pri­si­o­nei­ros que recla­ma­vam, para que dor­mis­sem no chão.


A seguir, os guar­das come­ça­ram a for­çar os pri­si­o­nei­ros a fica­rem nus, como método de humi­lha­ção e dis­ci­plina.

Um pri­si­o­neiro que se recu­sou a comer foi colo­cado em uma “soli­tá­ria” inven­tada pelos pró­prios guar­das, con­sis­tente em um armá­rio escuro. Os guar­das ori­en­ta­ram aos outros pri­si­o­nei­ros a fica­rem esmur­rando as por­tas do armá­rio, e depois dis­se­ram-lhes que sol­ta­riam o rebelde se todos abdi­cas­sem de seus len­çóis e dor­mis­sem direto no col­chão — ape­nas um pri­si­o­neiro acei­tou sacri­fi­car seu bem-estar para livrar o com­pa­nheiro da soli­tá­ria.

Segundo os regis­tros do expe­ri­mento, vários guar­das demons­tra­ram evi­den­tes sinais de sadismo e se por­ta­ram de forma des­ne­ces­sa­ri­a­mente cruel.

Alguns deles recla­ma­ram quando o expe­ri­mento teve de ser abrup­ta­mente inter­rom­pido após o sexto dia. Outra sur­presa para Phi­lip Zim­bardo e sua equipe foi a faci­li­dade com que mui­tos pri­si­o­nei­ros assu­miam uma pos­tura sub­mis­siva, tole­rando os abu­sos e até mesmo coo­pe­rando com os abu­sa­do­res.

Embora as con­clu­sões a res­peito do expe­ri­mento sejam objeto de debate até hoje, não pre­ci­sa­mos nos limi­tar a tes­tes fei­tos em situ­a­ções con­tro­la­das. Temos exem­plos reais de que algo estra­nho ronda o cora­ção humano.

4. Compliance e como um trote pode ser a desculpa que faltava

Com­pli­ance é um filme ame­ri­cano de pro­du­ção inde­pen­dente que narra uma his­tó­ria real. Embora não tenha a inten­ção de estra­gar o filme para aque­les que dese­jam assisti-lo, basta dizer que seu roteiro relata como pes­soas “nor­mais”, paca­tos fun­ci­o­ná­rios de lan­cho­ne­tes, são facil­mente con­ven­ci­dos a pra­ti­car cru­el­da­des con­tra pes­soas sub­me­ti­das a seu poder.

Como disse, o filme se baseia em uma série de inci­den­tes verí­di­cos que ocor­re­ram em 2004 nos Esta­dos Uni­dos, todos resul­tan­tes de tro­tes cri­mi­no­sos rea­li­za­dos por David R. Stewart, um pai de famí­lia com cinco filhos.

Stewart, dotado de uma lábia feno­me­nal, ligava ale­a­to­ri­a­mente para lan­cho­ne­tes das fran­quias McDo­nalds e pedia para falar com o gerente. A seguir, con­ven­cia o gerente (mui­tas vezes, uma mulher) de que era agente da polí­cia local. Indu­zindo esse gerente a reve­lar o nome de uma de suas fun­ci­o­ná­rias mais jovens, logo a seguir infor­mava que tal menina estava sendo inves­ti­gada como sus­peita de cri­mes como furto e trá­fico.

Na sequên­cia de seu trote, Stewart ori­en­tava o/a gerente a pren­der em um banheiro ou dis­pensa essa fun­ci­o­ná­ria e expli­cava que, enquanto a polí­cia se diri­gia para o local, os fun­ci­o­ná­rios da lan­cho­nete deve­riam pro­ce­der a uma busca pes­soal na menina, na pro­cura de pro­vas do seu crime. A busca era coman­dada por Stewart do outro lado do tele­fone, e ele ori­en­tava o gerente ou outros fun­ci­o­ná­rios a des­pi­rem a vítima e, até mesmo, a pro­cu­ra­rem por dro­gas em suas cavi­da­des cor­po­rais.

Há pelo menos oito tro­tes regis­tra­dos. Em mui­tos dos casos, a fun­ci­o­ná­ria era uma menor de idade. Em quase todos os casos, os geren­tes e/ou outros fun­ci­o­ná­rios apro­vei­ta­ram a situ­a­ção para humi­lhar e até mesmo cons­tran­ger sexu­al­mente a vítima.

Pelo menos um des­ses tro­tes resul­tou na prá­tica de um crime vio­lento.

Para des­mas­ca­rar o trote, bas­tava a qual­quer dos envol­vi­dos con­fir­mar com a polí­cia local a vera­ci­dade das acu­sa­ções. Exi­gia ape­nas o esforço de fazer-se uma liga­ção. Isso sem falar no pró­prio fato de a qual­quer um era pos­sí­vel ques­ti­o­nar a mora­li­dade e lega­li­dade das ins­tru­ções de uma suposta auto­ri­dade.

Porém, todos pare­ciam estar dese­jo­sos demais de acre­di­ta­rem numa situ­a­ção que lhes per­mi­ti­ria expres­sar o que há de pior na sua natu­reza.

5. Os bonobos trepam como o Reich gosta…

Não é um qua­dro lison­jeiro sobre a natu­reza humana, esse que tra­ça­mos até agora. Mas tal­vez haja uma espe­rança.

Como vimos, lá no iní­cio do texto, os chim­pan­zés são um de nos­sos ances­trais mais pró­xi­mos, da mesma famí­lia de pri­ma­tas. Mas tam­bém existe um tipo de pri­mata que, dife­rente de nos­sos outros paren­tes pró­xi­mos, parece não ter pro­pen­são à vio­lên­cia. São os bono­bos.

Se hoje em dia os chim­pan­zés (pan tro­glody­tes) são reco­nhe­ci­dos como ani­mais muito vio­len­tos, os bono­bos (pan panis­cus) fica­ram famo­sos entre os cien­tis­tas por terem uma índole total­mente pací­fica. Diver­sa­mente de seus pri­mos, os bono­bos nunca pra­ti­cam ata­ques letais uns con­tra os outros, e são rarís­si­mos os casos de agres­são.

Natu­ral­mente cal­mos, os bono­bos são conhe­ci­dos entre os pes­qui­sa­do­res como os maca­cos hip­pies. Her­bí­vo­ros, a orga­ni­za­ção de seu grupo é sem­pre matri­ar­cal, enquanto os chim­pan­zés são patri­ar­cais. Se um bonobo even­tu­al­mente tenta agre­dir uma fêmea, é repre­en­dido por todo o grupo e passa um tempo “de cas­tigo”.

Outra dife­rença em rela­ção aos chi­pan­zés é o tempo e a ener­gia que os bono­bos gas­tam em deter­mi­nada ati­vi­dade: o sexo.

Sem exa­gero, eles pas­sam o dia inteiro tran­sando. Bono­bos des­pen­dem grande parte de seu tempo livre com sexo, em todo tipo de com­bi­na­ções de idade e de gênero entre os par­cei­ros, sendo que prá­ti­cas lés­bi­cas são comuns entre as fêmeas.

Na ver­dade, os bono­bos são os úni­cos pri­ma­tas que, como os huma­nos, fazem sexo um de frente para o outro, podendo olhar-se dire­ta­mente nos olhos durante a cópula. E os pes­qui­sa­do­res cons­ta­ta­ram que os inter­cur­sos sexu­ais são não ape­nas uma fonte de pra­zer para os bono­bos, mas tam­bém uma forma de for­ta­le­cer a coe­são e a soli­da­ri­e­dade entre os mem­bros do grupo.

É, tam­bém, uma forma de con­ci­liar con­fli­tos entre mem­bros do grupo.

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Tal­vez seja ape­nas espe­cu­la­ção, mas isso lem­bra muito a teo­ria da eco­no­mia sexual e o con­ceito de potên­cia orgás­tica cri­a­dos por Wil­liam Reich. Ale­mão meio ama­lu­cado, Reich con­si­de­rava que a impos­si­bi­li­dade de o indi­ví­duo rea­li­zar ple­na­mente sua sexu­a­li­dade, libe­rando com­ple­ta­mente a ten­são atra­vés do orgasmo, era a causa fun­da­men­tal de todas as neu­ro­ses do ser humano.

Para Reich, as neu­ro­ses seriam con­sequên­cia de todas as ini­bi­ções crô­ni­cas que a civi­li­za­ção impôs à livre expres­são da exci­ta­ção sexual. Disso resul­ta­riam indi­ví­duos que inter­na­li­zam sua ansi­e­dade e exter­na­li­zam até mesmo fisi­ca­mente sua rigi­dez psi­co­ló­gica, pes­soas pro­pen­sas à vio­lên­cia e a diver­sas for­mas de sadismo coti­di­ano.

Segundo essa teo­ria, em neu­ró­ti­cos a busca pelo gozo seria subs­ti­tuída pela busca pelo poder, e tais indi­ví­duos ten­de­riam a acei­tar roti­nas enfa­do­nhas. Esses indi­ví­duos seriam viti­ma­dos por fobias, com­pul­sões, depres­são e sen­ti­mento de soli­dão. Repri­mi­dos, eles bus­ca­riam em alguma auto­ri­dade, reli­gi­osa ou polí­tica, a ener­gia sexual que não encon­tram em si mes­mas.

Para Reich, tudo isso come­çou a mudar, à medida em que des­man­te­la­mos mui­tas das cren­ças e sis­te­mas de nos­sos ante­pas­sa­dos. Esta­ría­mos no limiar de uma revo­lu­ção sexual cujos efei­tos em nossa civi­li­za­ção ainda não foram com­ple­ta­mente per­ce­bi­dos.

Seria um cisne negro, um evento cujas con­sequên­cias ainda não somos capa­zes de com­pre­en­der em sua inte­gra­li­dade, pois a trans­for­ma­ção de nos­sos cos­tu­mes ainda encon­tra forte resis­tên­cia naque­las estru­tu­ras de poder que se ali­men­tam de indi­ví­duos neu­ró­ti­cos.

6. O chimpanzé e o bonobo que moram em nós

Somos chim­pan­zés natu­ral­mente vio­len­tos ou bono­bos pací­fi­cos que fica­ram mal­va­dos após milê­nios de res­tri­ção de sua ener­gia sexual abun­dante?

Recen­te­mente, cien­tis­tas des­co­bri­ram que o ser humano está gene­ti­ca­mente tão pró­ximo do bonobo como do chim­panzé. É como se fôs­se­mos a encru­zi­lhada gené­tica de duas for­mas de viver, a agres­siva e a pací­fica.

Não pode­mos esque­cer que, em todos os expe­ri­men­tos des­cri­tos acima, sem­pre houve indi­ví­duos, ainda que uma mino­ria, que se recu­sa­ram a seguir o cami­nho mais fácil da obe­di­ên­cia e da agres­são auto­ri­zada. No expe­ri­mento de Mil­gram, pelo menos um terço dos volun­tá­rios não pros­se­gui­ram apli­cando cho­ques.

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Com­pa­ra­tivo entre chim­pan­zés e bono­bos.

Na falsa pri­são de Stand­ford, alguns pri­si­o­nei­ros sacri­fi­ca­ram seu bem-estar para bene­fi­ciar os com­pa­nhei­ros, e o expe­ri­mento foi inter­rom­pido por­que uma das alu­nas que entre­vis­tava os par­ti­ci­pan­tes pro­tes­tou vee­men­te­mente, sem apoio dos cole­gas. Na série de tro­tes cri­mi­no­sos con­tra fun­ci­o­ná­rias de lan­cho­ne­tes, Tho­mas Sim­mers, um modesto subal­terno, arris­cou per­der seu emprego e foi o único dos envol­vi­dos que se recu­sou a obe­de­cer as ordens do suposto poli­cial.

Com sua recusa, o trote come­çou a ser des­mas­ca­rado.

Han­nah Arendt tam­bém narra, no livro em que trata da bana­li­dade do mal, a his­tó­ria de dois irmãos cam­po­ne­ses que, con­vo­ca­dos pelos nazis­tas a ser­vir às tro­pas da SS no final da guerra, recu­sa­ram-se a assi­nar a con­vo­ca­ção. Dife­rente do que ocor­ria antes, naquele momento de imi­nente der­rota, a recusa era punida com sen­tença de morte, e os cam­po­ne­ses foram con­de­na­dos.

No dia da exe­cu­ção dos dois irmãos, eles escre­ve­ram uma carta às suas famí­lias: “pre­fe­ri­mos mor­rer do que car­re­gar em nos­sas cons­ci­ên­cias coi­sas tão ter­rí­veis”.

Não deve­mos menos­pre­zar nossa capa­ci­dade de resis­tir. Tal­vez o que mais dig­ni­fi­que a espé­cie humana seja a cora­gem de uma mino­ria que ousa dizer “não” às auto­ri­da­des e tam­bém aos seus pró­prios ins­tin­tos de chim­panzé, de pou­cos que não cedem à pres­são da mai­o­ria e arris­cam o pró­prio bem-estar para não cau­sar sofri­mento a outros.

Sob essa ótica, todo aquele cora­joso o sufi­ci­ente para se des­viar do cami­nho dos “homens comuns” e criar uma rota alter­na­tiva é can­di­dato a impor um fim à bar­bá­rie, quando ela ame­aça pre­va­le­cer entre nós.

E então? O ser humano é mau?

Claro, a situ­a­ção não é tão sim­ples assim. Somos muito mais com­ple­xos do que a per­gunta sugere. Porém, existe um inte­res­sante pro­vér­bio sobre dois lobos que reflete nossa natu­reza, e tal­vez seja con­ve­ni­ente tro­car os per­so­na­gens desse pro­vér­bio.

Cada um de nós tem um chim­panzé e um bonobo den­tro de si. E todos os dias, com nos­sas ações e com os cami­nhos que deci­di­mos tomar, esco­lhe­mos se ali­men­ta­mos o chim­panzé ou o bonobo.

Pode­mos dar de comida sem­pre ao chim­panzé, e assim fare­mos parte de um cír­culo vici­oso de vio­lên­cia e hos­ti­li­dade, dei­xando o bonobo mor­rer a mín­gua. Ou pode­mos ali­men­tar o bonobo, enfra­que­cendo o chim­panzé e aju­dando a cons­truir uma civi­li­za­ção em que o sen­tido de toda vida humana seja tor­nar a vida dos demais seres mais tole­rá­vel e menos sofrida aqui neste mundo.

Em que lado você pre­fere ficar? Cos­tumo dizer que pre­firo o lado do pão que tem a man­teiga. Mas, nesse caso, diria que pre­firo o lado em que o pes­soal está tran­sando sem parar.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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