[Nota do editor: aqui começa a série de textos de Tim Urban sobre a forma como Elon Musk pensa. Gostaríamos de publicar e traduzir tudo de uma só vez, mas como Tim é verborrágico e textos como esse têm quase 90 páginas, preferimos ir publicando aos poucos ao invés de dar um grande e enorme texto aos leitores de uma só vez. Dessa vez vamos tentar publicar uma parte do texto por semana, toda segunda-feira. Se quiser juntar-se nós na tarefa de traduzir e revisar os textos do Tim Urban, entre em contato conosco, toda ajuda será bem-vinda!]

Qualquer um que tenha lido meus textos sobre Musk está ciente de que não apenas mergulhei nas coisas que ele tem feito: bebi uma grande taça da síntese de seu pensamento nesse processo. Estou realmente envolvido com essa história toda.

Acho que isso é legal, certo? O cara é um gigante industrial revolucionário nos EUA em uma época e que já não deveria haver gigantes industriais revolucionários, impulsionando profundas transformações em grandes e tradicionas indústrias que não deveriam mais ser objeto de qualquer transformação profunda. Após emergir da grande festa das empresas pontocom da década de 1990 com 180 milhões de dólares, ao invés de sentar em sua cadeira de grande investido escutando propostas de jovens investidores ele decidiu começar iniciar uma briga com um grupo de lutadores de sumô de 200 quilos: a indústria automobilística, a indústria petrolífera, a indústria aeroespacial, o complexo industrial-militar e as empresa de energia elétrica – e ele pode realmente estar vencendo. E tudo isso, pelo que parece, com o propósito de dar à nossa espécie um futuro melhor.

Mas alguém ser tão excepcionalmente ousado não é ainda razão para merecer texto que somam mais de noventa mil palavras de um autor que se propôs a escrever texto sobre uma ampla gama de assuntos.

Durante o primeiro texto sobre Musk e seus projetos, eu estabeleci dois objetivos:

1) Entender porque Musk faz o que ele faz.

2) Entender porque Musk é capaz de fazer o que ele faz.

Até agora eu gastei a maior parte do tempo no objetivo 1, mas o que realmente o que tem me intrigado a medida em que penso sobre isso é o objetivo 2. Sou fascinado por aquelas raras personalidades na história humana que conseguem mudar dramaticamente o mundo durante sua breve estadia aqui a Terra, e sempre gostei de estudá-las e ler suas biografias. Essas pessoas sabem algo que não sabemos, e podemos aprender coisas valiosas com elas. Ter acesso a Elon Musk deu-me uma chance única de colocar as mãos em uma dessas pessoas e examiná-la de perto.

Se fosse apenas a riqueza, a inteligência, a ambição ou as boas intenções de Musk que o fizessem alguém tão capaz, então haveria muitos mais Elon Musks por aí. Então é alguma coisa a mais. E, para mim, essa série de textos tornou-se uma missão para descobrir o que é.

A boa notícia é que, após um bom tempo pensando e lendo a seu respeito, falando com ele e conversando com membros de sua equipe, eu descobri o que é. O que por algum tempo era um conjunto desorganizado de fatos, observações e informações começou a tomar a forma de um tema: um tratado sobre aquilo que Musk compartilha com a maioria dos personagens mais dinâmicos da história humana e que os distinguem de quase todo o resto da humanidade.

A medida em que trabalhei nos textos sobre a Tesla, esse conceito emergiu, e tornou-se claro para mim que essa série precisava e uma pausa para mergulharmos profundamente naquilo que Musk e poucas outras pessoas tem e que as fazem tão excepcionais.O que me deixou empolgado é que se trata de uma coisa acessível a todos nós e que está bem diante de nossos olhos – nós só não conseguimos percebê-la e nos conscientizar dela. Escrever e pensar sobre isso durante todo esse tempo realmente afetou a forma como eu penso a respeito da minha vida, meu futuro e as escolhas que faço. E vou dar o meu melhor neste texto para explicar o que é.


Dois tipos de Geologia

Em 1681, o teólogo inglês Thomas Burnet publicou sua obra Sagrada Teoria da Terra, na qual ele explica como a geologia funcionava. O que aconteceu é que, há uns seis mil anos atrás, a Terra formou-se como uma esfera perfeita com uma superfície habitável e um interior cheio de água. Mas aí, quando a superfície da Terra começou a ficar mais seca, rachaduras foram se fomando, o que liberou a água subterrânea. O resultado foi o Dilúvio descrito na Bíblia, e Noé teve que lidar com um monte de problemas por causa disso. Quando as coisas se acalmaram, a Terra já não era uma esfera perfeita – o grande dilúvio havia distorcido sua superfície, criando montanhas, vales e cavernas, e o subterrâneo ficou cheio de fósseis das vítimas da inundação.

E bingo, Burnet havia matado a charada. O grande enigma da teologia fundamental havia sido até então reconciliar a grande quantidade de características da Terra que pareciam muito antigas com a pouca idade que o planeta tinha segundo o relato bíblico. Para teólogos da época, era a sua versão da teoria geral da relatividade versus a mecânica quântica, e Burnet surgiu com uma respeitosa teoria das cordas que unificava tudo sob um só teto.

E não foi apenas Burnet. Houve tantas teorias que tentavam reconciliar a geologia terrestre com os versos da Bíblia que hoje elas garantem uma página da Wikipedia com mais de quinze mil palavras para tratar da “Geologia do Dilúvio”.

Mais ou menos na mesma época, outro grupo de pensadores começou a enfrentar seus próprios enigmas geológicos: os cietistas.

Para os teólogos, as regras do jogo eram “Fato: a Terra começou há seis mil anos atrás e em algum momento houve um grande dilúvio”, e a investigação de seu enigma ocorria dentro desse contexto limitado. Mas os cientistas começaram seu jogo sem nenhuma regra, o tabuleiro era um grande espaço em branco no qual qualquer observação ou medição que encontrassem seria bem-vinda.

Nos trezentos anos seguintes, os cientistas elaboraram várias teorias, equando novas tecnologias permitiam novos tipos de medições, as teorias antigas eram descartadas e substituídas por versões atualizadas. A comunidade científica continuou a surpreender-se a medida em que a idade da Terra foi se revelando cada vez maior. Em 1907 houve um grande avanço quando o cientista norte-americano Bertram Boltwood apresentou a técnica pioneira de calcular a idade das rochas através da datação radiométrica, que localizava nas rochas elementos com um nível conhecido de decaimento radioativo.

A datação radiométrica situou a história da Terra em bilhões de anos atrás, o que possibilitou novos avanços na ciência com a teoria da Deriva Continental, a qual por sua vez conduziu à teoria das Placas Tectônicas. O cientistas estavam empolgados.

Enquanto isso os geólogos do Grande Dilúvio não tinham nada disso. Para eles, qualquer conclusão da comunidade científica era furada porque eles estavam desobedecendo as regras do jogo. A Terra oficialmente tinha menos de seis mil anos de idade, então se a medição radiométrica revelava algo diferente, tratava-se de uma técnica falha e ponto final.

Mas a evidência científica tornou-se cada vez mais convincente, e a medida em que o tempo passava mais e mais geólogos do Grande Dilúvio jogavam a toalha e aceitavam o ponto-de-vista dos cientistas, pois era possível que suas regras do jogo é que estivessem erradas.

Alguns, porém, continuaram firmes. Regras são regras, e não importa quantas pessoas concordam que a Terra tenha bilhões de anos: no fundo é só uma grande conspiração.

Ainda hoje há muitos geólogos da inundação defendendo sua posição. Recentemente, um autor chamado Tom Vail escreveu um livro chamado Grand Canyon: A Different View, na qual ele expõe que:

“Ao contrário daquilo que é amplamente considerado verdade, a datação radioativa não prova que as rochas do Grand Canyon têm milhões deanos. A grande maioria das camadas sedimentares do Grand Canyon foram depositadas como o resultado do dilúvio global que ocorreu como resultado do Pecado Original que ocorreu no Jardim do Éden.”


 

Se fizéssemos uma pesquisa entre meus leitores, acredito que a esmagadora maioria afirmaria que está do lado dos cientistas, e não dos geólogos do dilúvio. Isso faz sentido. Religiosas ou não, a maioria das pessoas que leem meus textos estão bem informadas e familiarizadas com evidências e precisão científica. Sou lembrado disso sempre que cometo um erro em um dos meus texto.

Seja qual for a importância da fé no reino espiritual, a maioria de nós concorda que quando se trata de procurar respostas sobre a idade da Terra, a história da nossa espécie, as causas de um relâmpago ou qualquer fenômeno físico do universo, lógica e informação são ferramentas mais eficientes do que fé e livros religiosos.

Mas, apesar disso, após pensar um bocado sobre isso, cheguei a uma conclusão desagradável:

Quando se trata da forma como pensamos, da forma como tomamos decisões e da forma como levamo nossas vidas, somos muito mais parecidos com os geólogos do dilúvio do que com cientistas.

E qual o segredo do Elon Musk? Ele pensa como um cientista em todas as situações.

HARDWARE E SOFTWARE

A primeira pista para o modo como Musk pensa é a forma super esquisita como ele fala. Por exemplo:

– Criança humana: “Tenho medo do escuro porque é quando todas as coisas que dão medo vem para me pegar e eu não vou ser capaz de perceber elas chegando.”

Criança Elon Musk: “Quando eu era criança, eu tinha muito medo do escuro. Mas então passei a entender que escuridão significa apenas a ausência de fótons com comprimento de onda visível – 400 a 700 nanômetros. E então pensei “bom, é realmente idiota ter medo da ausência de fótons”. E depois disso deixei de ter medo do escuro”.

Ou:

– Pai humano: “Eu gostaria de trabalhar menos porque meus filhos estão começando a crescer.”

– Pai Elon Musk: “Estou tentando diminuir o ritmo, principalmente porque os trigêmeos estão começando a ganhar consciência. Eles quase tem dois anos.”

Ou:

Humano solteiro: “Eu gostaria de ter uma namorada e não quero estar tão ocupado com meu trabalho que não tenha tempo para ter encontros.”

Elon Musk solteiro: “Eu gostaria de alocar mais tempo para encontros, porém. Eu preciso encontrar uma namorada. É por isso que preciso arranjar só um pouco mais de tempo. Eu acho que talvez trabalhando dez horas por cinco dias na semana. Quanto uma mulher precisa em uma semana? Talvez dez horas? Isso é o mínimo? Eu não sei.”

Chamo isso de PapoMusk. PapoMusk é uma linguagem que descreve os aspectos cotidianos da vida comum exatamente como eles realmente, literalmente, são.

Há muitas situações técnicas em que todos concordamos que o PapoMusk faz muito mais sentido do que nossa linguagem humana normal:

Mas o que faz Musk um sujeito esquisito é que ele pensa sobre a maioria das coisas usando PapoMusk, incluindo muitas áreas nas quais você usualmente não espera encontrar esse tipo de linguagem. Como quando eu lhe perguntei se tinha medo da morte, e ele respondeu que ter filhos o fazia sentir-se mais confortável diante da morte porque “crianças são meio que uma parte de você. Ao menos são metade de você. Eles são metade de você no nível do hardware, e dependendo de quanto tempo você passa com elas, elas são também metade de você no nível do software”.

Quando você olha para crianças, você vê pessoas pequenas, bobinhas e fofas. Quando Musk olha para seus cinco filhos, ele vê cinco de seus computadores favoritos. Quando ele olha para você, ele vê um computador. E quando ele olha no espelho, ele vê um computador: o computador dele. Não é que Musk afirme que seres humanos são apenas computadores – é que ele vê as pessoas como computadores acima de tudo mais que elas possam ser.

E no nível mais literal, Musk está certo sobre seres humanos serem computadores. Em sua definição mais simples, computador é um objeto que armazena e processa informação – algo que o cérebro com certeza faz.

E se por um lado isso não é a forma mais poética de pensar sobre nossas mentes, comecei a acreditar que essa é uma das áreas da vida em que o PapoMusk pode nos servir muito bem – pois pensar no cérebro como um computador força você a considerar a distinção entre nosso hardware e nosso software, uma distinção que frequentemente falhamos em reconhecer.

Para um computador, hardware é definido como “os mecanismos, circuitos e outros componentes físicos”. Então, para um ser humano, isso é o cérebro físico com que ele nasce e todas as suas habilidades que determinam sua inteligência, seus talentos inatos e outras qualidades e deficiências.

O software de um computador é definido como “os programas e outras informações operacionais usadas pelo computador”. Para um ser humano, é as coisas que ele sabe e a forma como pensa – seu sistema de crenças, seus padrões de pensamento e métodos de argumentação. A vida é um fluxo de entrada de informações de todo o tipo que entram no nosso cérebro através dos sentidos, e é o software que filtra, avalia, processa e organiza esse input, finalmente usando-o para gerar um output: a tomada de uma decisão.

O hardware é a bola de argila que nos é entregue quando nascemos. E, claro, nem toda argila é igual – cada cérebro começa como uma combinação única de forças e fraquezas em uma ampla gama de processos e capacidades.

Mas é o software que determina que tipo de ferramenta moldaremos a partir daquela bola de argila.

Quando as pessoas pensam no que faz alguém como Elon Musk tão eficiente no que se propõe a fazer, elas frequentemente se focam no hardware – e o hardware de Musk tem alguns aspectos impressionantes. Mas quanto mais eu aprendo sobre Musk e outras pessoas que parecem ter algum poder sobre-humano (seja Steve Jobs, Albert Einstein, Henry Ford, Genghis Khan, Marie Curie, John Lennon, Ayn Rand ou Louis C.K.) mais me convenço de que é seu software, e não sua inteligência ou talentos adquiridos de nascença, que os faz tão únicos e tão eficientes no que se propõe a fazer.

Então vamos falar sobre software, começando com o do Musk. A medida em que escrevi os outros textos sobre os projetos de Musk, eu analisava tudo o que aprendia sobre ele (as coisas que dizia, as decisões que tomava, as missões que ele assumia e como as enfrentava), pegando pistas de como seu software subjacente funciona.

Eventualmente, as pistas se acumularam e a forma do software começou a se revelar. E a seguir vou explicar como esse software é.

[Na próxima segunda, a segunda parte deste texto, em que Tim Urban tentará explicar como a mente de Elon Musk funciona e o que ela tem de tão peculiar]

  • Neder Diogo Junior

    Que texto!!!! Ansioso pelos próximos

  • Se for explodir explode pouco.

    Meu sonho é produzir o meamo que musk só que no brasil.