[Nota do editor: esta é a terceira parte da tradução autorizada do texto original de Tim Urban; antes, recomendamos que você leia a parte 3.]

O COZINHEIRO E O CHEF

A diferença entre a forma como Elon pensa e a forma como a maioria das pessoas pensa é parecida com a diferença entre um cozinheiro e um chef.

As palavras “cozinhar” e “chef” podem ser consideradas sinônimos. E, no mundo real, de regra são usadas indistintamente. Mas nesta publicação, quando digo chef, não me refiro um chef comum. Eu me refiro ao chef que é semelhante a um artista, o tipo de chef que inventa receitas. E para nossos propósitos, todos os outros que entram em uma cozinha – todos aqueles que seguem receitas criados por outros – são cozinheiros.

Tudo o que você come – cada parte de cada receita que conhecemos tão bem – foi em algum momento do passado criado pela primeira vez. Trigo, tomate, sal e leite são utilizados pelos seres humanos há muito tempo, mas em algum momento alguém disse “E se eu pegar esses ingredientes e fizer isso, e isso, e isso…”. E essa pessoa criou a primeira pizza do mundo. Esse é o trabalho de um chef.

Desde então, Deus sabe quantas pessoas fizeram uma pizza. Esse é o trabalho de um cozinheiro.

O chef pensa a partir dos primeiros princípios. E para o chef, os primeiros princípios são ingredientes comestíveis crus. Essas são suas peças de quebra-cabeça, seus blocos de construção, e ele cria seu caminho a partir daí, usando sua experiência, seus instintos e suas papilas gustativas.

O cozinheiro trabalha em cima de alguma versão do que já existe por aí: algum tipo de receita, uma refeição que experimentou e gostou, um prato que viu alguém fazer.

Há vários tipos de cozinheiros. Se todos os tipos fossem enfileirados, em uma extremidade teríamos cozinheiros que apenas cozinham seguindo uma receita com rigor, medindo cuidadosamente cada ingrediente exatamente como a receita dita. O resultado é uma refeição deliciosa, cujo sabor é exatamente aquele projetado para se obter com a receita. No meio da fila, teríamos um cozinheiro mais confiante – alguém com experiência, que obtém a essência geral da receita e, em seguida, usa suas habilidades e instintos para fazê-la de sua própria forma. O resultado é algo um pouco mais exclusivo, que tem o sabor do estilo da receita original, mas não exatamente. Mais próximo ao outro extremo dessa fileira, teríamos um cozinheiro que é inovador e faz suas próprias misturas.

E no ponto mais extremo dessa fila, está o chef. Um chef pode fazer comida boa ou terrível, mas seja o que for, é resultado de seu próprio processo de raciocínio, desde a seleção de ingredientes crus no início até o prato acabado no final.

No mundo culinário, não há nada de errado em ser um cozinheiro. A maioria das pessoas é cozinheira porque para a maioria das pessoas inventar receitas não é o seu objetivo.

Mas na vida, quando se trata de “receitas” de raciocínio, o resultado final é uma decisão, não um sabor. Portanto, quando se trata de tomar decisões em nossas vidas, talvez seja recomendável nos preocuparmos um pouco mais sobre qual posição ocupamos na fila que vai do cozinheiro casual até o chef.

Em um dia típico, um “cozinheiro de raciocínio” e um “chef de raciocínio” não operam de maneira diferente. Mesmo o chef se torna rapidamente exausto pela energia mental necessária para usar o raciocínio dos primeiros princípios, e geralmente, fazer isso diante de todas as situações não vale a pena seu tempo. Ambos os tipos de pessoas, portanto, passam um dia médio com o software do seu cérebro executando no piloto automático e seus centros de decisão conscientes inactivos.

Mas então vem um dia em que algo novo precisa ser descoberto. Talvez o cozinheiro e o chef recebam uma nova tarefa no trabalho, como criar uma estratégia de marketing melhor para a empresa. Ou talvez eles estejam infelizes com esse emprego e pensando em qual negócio poderia começar sozinho. Talvez eles tenham uma queda por alguém por quem jamais imaginaram que poderiam sentir algo, e agora precisam descobrir o que fazer com isso.

Seja qual for esta nova situação, o piloto automático não será suficiente – isso é algo novo e nem o software do cozinheiro nem o software do chef fizeram isso antes. O que deixa apenas duas opções:

Criar ou copiar.

O chef diz: “Uh, está bem, vamos lá”, levanta as mangas e faz o que sempre faz nessas situações – ele aciona a parte consciente de tomada de decisão do seu software e começa a trabalhar. Ele vê os dados que tem e procura saber o que ainda precisa saber. Ele pensa sobre o estado atual do mundo e reflete sobre onde estão seus valores e prioridades. Ele reúne esses princípios relevantes dos primeiros princípios e começa a intrigar um caminho de raciocínio.

É preciso um trabalho árduo, mas, eventualmente, o caminho leva o chef a uma hipótese. Ele sabe que provavelmente está errado, e à medida que novos dados emergem, o chef “testará” a hipótese e, a seguir, colherá novos dados. Ele mantém o centro de tomada de decisão em espera para as próximas semanas, pois o chef faz um monte de ajustes precoce para a hipótese que falhou – um pouco mais de sal, um pouco menos de açúcar, um ingrediente principal que precisa ser trocado por outro.

Eventualmente, o chef ficará satisfeito com a forma como as coisas se resolveram, e voltará ao modo de piloto automático. Esta nova decisão agora é parte da rotina automatizada – uma nova receita está no livro de receitas – e ele irá verificar isso para fazer ajustes de vez em quando, a medida em que novos dados pertinentes entrarem, como ele faz com todas as partes de seu software.

O cozinheiro não tem ideia do que está acontecendo na cabeça de um chef. O software de raciocínio do cozinheiro é chamado de “O que a receita diz para fazer”, e é mais um catálogo informatizado de receitas do que um programa de computador. Quando o cozinheiro precisa tomar uma decisão de vida, ele passa por sua coleção de receitas escritas por autoridades, encontra aquela com a qual se sente confiante naquela etapa particular de sua vida e lê os passos para ver o que fazer em seguida.

Para a maioria das pessoas, a última autoridade é a tribo, uma vez que o dogma tribal do cozinheiro cobre a maioria das decisões-padrão. Mas vamos supor que, nesse caso particular, o cozinheiro folheou o livro de receitas da tribo e não encontrou nenhuma seção sobre como cozinhar esse tipo de decisão. Então ele precisa pegar uma receita de outra autoridade em quem confia para esse tipo de coisa. E quando encontrar a receita certa, ele pode colocá-la em seu catálogo e usá-la para todas as decisões futuras sobre este assunto.

Primeiro, o cozinheiro tenta alguns amigos ou familiares. Seu catálogo não tem a receita necessária, mas talvez um deles a tenha. Ele pede conselho a eles – não para que possa usar o conselho como um elemento adicional para auxiliar o seu próprio raciocínio, mas sim como um candidato a se tornar seu próprio pensamento.

Se isso não produzir os resultados desejados, o cozinheiro acabará buscando auxílio na verdadeiro e eterno fim de linha dos cozinheiros: a sabedoria convencional.

A sociedade como um todo é ela própria uma tribo aberta, muitas vezes abrangendo toda uma nação ou mesmo toda uma região do mundo, e o que chamamos de “sabedoria convencional” é o livro de receitas segundo os dogmas dessa tribo – um livro sempre on-line e disponível ao público.

Normalmente, quanto maior a tribo, mais generalizado e mais desatualizado será o seu livro de receitas. E o banco de dados da sabedoria convencional nesses casos é como um site que foi atualizado pela última vez em 1992. Mas quando o cozinheiro não tem para onde ir, ele é como um velho amigo de confiança.

Vamos supor que o cozinheiro esteja pensando em começar um negócio e deseja saber quais são as possibilidades – a sabedoria convencional tem a resposta. Ele digita o que quer pesquisar, aguarda alguns minutos e, em seguida, o sistema bombeia sua resposta:

O cozinheiro, completamente desencorajado, agradece a máquina e atualiza sua Caixa de Realidade conforme essa resposta:

Com a decisão tomada (não iniciar uma empresa), ele coloca seu software de volta no modo de piloto automático. Missão cumprida.

Musk chama o jeito de pensar do cozinheiro de “raciocínio por analogia” (em oposição ao raciocínio dos primeiros princípios), o que é um bom eufemismo. Na próxima vez que uma criança for pega copiando as respostas do exame de outro aluno durante o teste, eae deve apenas explicar que estava raciocinando por analogia.

Se começar a procurar, você verá essa coisa de cozinheiro/chef acontecer em todos os lugares. Existem chefs e cozinheiros no mundo da música, da arte, da tecnologia, da arquitetura, da literatura, dos negócios, da comédia, do marketing, no desenvolvimento de aplicativos, no treinamento de futebol, na educação e na estratégia militar. E, em cada caso, embora tanto o cozinheiro como o chef geralmente estejam funcionando só no piloto automático, fazendo sem pensar as mesmas receitas repetidamente no cotidiano. Mas naqueles momentos decisivos, em que é preciso enfrentar algo novo, o chef cria e o cozinheiro, como sempre faz, copia.

E a diferença no resultado é enorme. Para os cozinheiros, mesmo o tipo mais inovador, quase sempre há um limite no tamanho do espetáculo que podem fazer no mundo, a menos que haja alguma sorte envolvida. Chefs não têm garantia de fazer nada de bom, mas quando há um pouco de talento e muita persistência, eles estão quase certos de fazer um espetáculo. Às vezes, o chef é voluntarioso o suficiente para fazer algo grande, mas outras vezes, o chef não deseja causar tanto alarde e com força de caráter abandona o desafio para manter uma vida mais tranquila. Ser um chef não é ser como Elon Musk: é ser você mesmo.

Todos falam sobre a “indústria da música”, mas ninguém fala sobre a “indústria de raciocínios”. Porém, todos somos parte dela, e quando se trata de cozinheiros e chefs, ou músicos amadores e artistas, não é diferente de qualquer outra indústria. Estamos trabalhando na indústria de raciocínio toda vez que tomamos uma decisão.

Sua vida atual, com todas as suas facetas e complexidade, é como uma música dessa indústria do raciocínio. As perguntas importantes são: Como essa música que você toda foi criada? Onde a melodia foi elaborada, e por quem? E no momento de criar sua própria música, como você faz? Você se aprofunda em si mesmo e cria algo novo? Ou você começa com o ritmo de uma música já existente e com os acordes de outra e constrói sua própria melodia em cima disso? Ou você apenas toca covers?

Eu sei o que você quer que as respostas a essas perguntas sejam. Isso é evidente: é claramente melhor ser um chef. Mas, ao contrário do caso com a maioria das distinções importantes na vida, como trabalhador versus preguiçoso, ético versus desonesto, quando a distinção chef entre cozinheiro pode passar bem na nossa frente, e muitas vezes nem percebemos que ela está lá .

Ignorando a diferença

Como a fila culinária que vai de cozinheiro amador a chef, a fila de tipos de tomadores de decisão não é binária, mas composta de um amplo espectro:

Mas tenho certeza de que quando a maioria de nós olha esse espectro, pensamos que estamos mais à direita do que realmente estamos. Geralmente, somos mais amadores do que percebemos – simplesmente não podemos ver nossa posição exata, da perspectiva de onde estamos.

Por exemplo, os cozinheiros são seguidores por definição. O que quer que estejam fazendo, estão fazendo conforme algum tipo de receita. Mas a maioria de nós não se considera seguidores.

Um seguidor, pensamos, é um fraco sem mente própria. Pensamos nos cargos de liderança que exercemos, nas iniciativas que tomamos no trabalho e na forma como nunca deixamos que os amigos nos guiem e tomamos isso como prova de que não somos seguidores. O que, por sua vez, significa que não somos apenas cozinheiros.

Mas o problema é que essas coisas apenas provam que que você não é um seguidor dentro da sua tribo. Como Einstein disse:

“Para ser um membro exemplar de um rebanho de ovelhas, é preciso ser, antes de tudo, uma ovelha.”

Em outras palavras, você pode ser uma celebridade e um líder perante os olhos da sociedade, mas se o principal motivo pelo qual você escolheu ser assim, em primeiro lugar, foi porque o livro de receitas da sua tribo diz que é uma coisa impressionante e que fará de você um membro vip, então você na verdade não está sendo um líder: você está sendo um seguidor bem-sucedido. E, como diz Einstein, não é menos cozinheiro do que todos aqueles cozinheiros que você impressionou.

Para ver a verdade, você precisa ampliar sua perspectiva até perceber o líder real dos cozinheiros – o livro de receitas.

Mas não tendemos a ampliar nossa perspectiva, e quando olhamos a nossa vida focados no que parece ser um eu altamente livre e independente, podemos estar apenas tendo uma ilusão de óptica.

O que muitas vezes parece um raciocínio independente, quando ampliado é realmente um jogo de juntar os pontos em um conjunto de etapas pré-impresso, estabelecido por outra pessoa. O que parece ser valores pessoais pode ser apenas os valores gerais da sua tribo. O que parece ser opiniões originais pode realmente ser algo elaborado pela mídia, nossos pais, amigos, religião ou por alguma celebridade. O que parece que nosso exclusivo caminho de vida pode ser só uma das várias estradas já pavimentadas, pré-estabelecidas e sancionadas pela tribo. O que parece ser criatividade pode ser apenas o ato de preencher um livro para colorir, certificando-se de permanecer dentro das linhas.

Por causa dessa ilusão de ótica, não podemos ver as falhas em nosso próprio pensamento ou reconhecer um pensador excepcionalmente ótimo quando vemos um. Em vez disso, quando um chef com pensamento independente altamente científico e desenvolvido como Elon Musk ou Steve Jobs ou Albert Einstein aparece, a que atribuímos seu sucesso?

Atribuímos ao incrível hardware que herdaram.

Quando olhamos para Musk, vemos alguém com gênio, visão e ousadia sobre-humanas. Todas essas coisas, nós presumimos, já nasceram com ele. Então, para nós, a fileira de cozinheiros do raciocínio se parece mais com isso:

Do jeito que o vemos, todos somos um grupo de chefs de pensamento independente – e é só que Musk é um chef realmente impressionante.

Isso significa que estamos (A) superestimando Musk e (B) superestimando a nós mesmos. E falta completamente a história real.

Musk é um chef impressionante com certeza, mas o que o torna posicionado tão ao extremo da fila não é o fato de que ele seja impressionante: é o fato de que a maioria de nós não somos chefs na verdade.

É como um monte de máquinas de escrever que olham para um computador e dizem: “cara, essa é uma talentosa máquina de escrever”.

A razão pela qual temos tanto dificuldade em ver o que realmente está acontecendo é que não vemos o software cerebral como algo real. Nós não pensamos em cérebros como computadores, então não pensamos na distinção entre hardware e software. Quando pensamos no cérebro, pensamos apenas no hardware – a coisa com a qual nascemos e somos impotentes para mudar ou melhorar. Muito menos tangível para nós é o conceito de como raciocinamos. Vemos o raciocínio como algo que apenas acontece, como o fluxo sanguíneo de nossos corpos – é um processo que acontece automaticamente, e não há muito mais a dizer ou a fazer sobre isso.

E se não podemos nem mesmo ver a distinção entre hardware e software, certamente não podemos ver a mais sutil diferença entre o software de um chef e de um cozinheiro amador.

Ao não vermos nosso software de nosso pensamento como ele é (uma habilidade de vida crítica, algo que pode ser aprendido, praticado e melhorado, e que é o principal fator que separa as pessoas que fazem grandes coisas daqueles que não fazem nada) não conseguimos perceber onde o jogo da vida realmente está sendo jogado. Nós não reconhecemos o raciocínio como algo que pode ser criado ou copiado. E da mesma forma como isso nos faz confundir nossa maneira de pensar com raciocínio independente, confundimos o verdadeiro raciocínio independente e excepcional com uma habilidade mágica.

Três exemplos são úteis:

1) Nós confundimos a visão clara do cozinheiro sobre o presente com uma visão sobre o futuro.

A irmã de Musk disse: “Elon já foi para o futuro e voltou para nos contar o que ele encontrou”. É assim que muitas pessoas se sentem sobre Musk – que é um visionário, que ele pode de alguma forma ver coisas que não podemos. Nós o vemos assim:

Mas, na verdade, é assim:

A sabedoria convencional é lenta para evoluir, e há atraso significativo entre o momento em que algo se torna realidade e o momento em que a sabedoria convencional é revisada para refletir essa realidade. E, quando o faz, a realidade passou a ser outra coisa. Mas os chefs não prestam atenção nisso, e raciocinam usando seus olhos e ouvidos e experimentando. Ao ignorar a sabedoria convencional em favor de simplesmente olhar o presente tal como ele realmente é, e ao ficarem atualizados sobre os fatos do mundo a medida em que eles se transformam (a despeito de tudo o que a sabedoria convencional diz), o chef pode jogar de uma forma que o nosso software ainda não nos deu permissão ainda para jogar.

2) Nós confundimos a compreensão precisa das coisas com coragem.

Lembre-se desta citação:

Quando eu era pequeno, eu tinha muito medo do escuro. Mas então entendi que a escuridão significa apenas a ausência de fótons no comprimento de onda visível – 400 a 700 nanômetros. Então pensei, ‘bem, é realmente bobo ter medo de uma falta de fótons’. Então, eu não tive mais medo do escuro depois disso.

Esse é apenas um chef enquanto criança, avaliando os fatos reais de uma situação de forma a decidir que seu medo era inadequado.

Musk está dizendo essencialmente: “As pessoas consideram X ser assustador, mas seu medo não é baseado na lógica, então não tenho medo de X“. Isso não é coragem – isso é lógica.

Coragem significa fazer algo arriscado. Risco significa se expor ao perigo. Nós intuitivamente entendemos isso – é por isso que a maioria de nós não chamaria a criança Elon de corajosa por dormir com as luzes apagadas.Coragem seria uma palavra estranha para usar, porque nenhum perigo real estava envolvido.

Então, quando Musk colocou toda a fortuna para baixo e em SpaceX e Tesla, ele estava sendo ousado, mas corajoso? Não é a palavra certa. Era um caso de um chef juntando um monte de informações que ele tinha e criando com elas um plano que parecia lógico. Não que ele tivesse certeza de que teria sucesso (de fato, o SpaceX, em particular, tinha uma probabilidade razoável de falha) é só que em nenhum lugar em suas avaliações ele previu perigo real.

3) Nós confundimos a originalidade do chef com engenhosidade brilhante.

As pessoas acreditam que pensar fora da caixa exige inteligência e criatividade, mas se trata principalmente de pensar com independência. Quando você simplesmente ignora a caixa e constrói seu raciocínio a partir do zero, seja você brilhante ou não, você acaba com uma conclusão única, que pode ou não se ajustar dentro da caixa.

Quando você está em um país estrangeiro e decide abandonar o guia e começar a vagar sem rumo e conversar com as pessoas, coisas únicas sempre acabam acontecendo. Quando as pessoas escutam sobre essas coisas, pensam em você como um viajante profissional e um aventureiro ousado – quando tudo o que você realmente fez foi abandonar o guia.

Da mesma forma, quando um artista, cientista ou empresário pensa a partir dos primeiros princípios ao invés de pensar por analogia, e a partir disso suas ideias (a) começam a dar certo e (b) não são convencionais, todos as chamam de inovações e ficam maravilhadas com a engenhosidade do chef. Quando essas ideias dão muito certo, todos os cozinheiros fazem o seu melhor: copiam. E a partir disso temos uma revolução.

Basta abster-se do raciocínio por analogia, e o chef abre a possibilidade de fazer um grande espetáculo em cada projeto. Quando Steve Jobs e a Apple voltaram sua atenção para os telefones, eles não começaram dizendo: “Ok, bem, as pessoas parecem gostar desse tipo de teclado mais do que desse tipo, e todos parecem infelizes com a dificuldade de bater nos números em seus teclados, então vamos nos tornar criativos e ainda fazer o melhor teclado para o telefone celular!” Eles simplesmente perguntaram: “O que deveria ser um dispositivo móvel?” E em seu raciocínio de primeiros princípios, um teclado físico não se tornou parte do projeto. Não foi preciso um gênio para inventar o design do iPhone. Na verdade, é bastante lógico: isso só exigiu a capacidade de não copiar.

Versão diferente da mesma história ocorreu com a criação dos Estados Unidos. Quando os antepassados americanos se encontraram com um novo país em suas mãos, eles não se perguntaram: “Quais devem ser as regras para escolhermos nosso rei e quais devem ser as limitações de seu poder?” Um rei, para eles, era o que o teclado físico era para a Apple. Em vez disso, eles perguntaram: “Como deve ser o país e qual a melhor maneira de governar um grupo de pessoas?”. E quando eles concluíram seu raciocínio de primeiros princípios, um rei não fazia parte do projeto – os primeiros princípios os levaram a acreditar que John Locke tinha um plano melhor e eles trabalharam a partir dele.

A história está cheia de chefs que criaram revoluções aparentemente geniais partindo de um simples raciocínio de primeiros princípios. Genghis Khan organizou uma série de tribos fragmentadas há séculos usando uma estrutura de poder a fim de formar uma grande tribo que poderia conquistar o mundo. Henry Ford criou carros com a técnica de fabricação em linha de montagem para levar carros às massas pela primeira vez. Marie Curie usou métodos não convencionais para promover a teoria da radioatividade e derrubar a suposição de que “átomos são indivisíveis” (ela ganhou um Prêmio Nobel em física e química – dois prêmios reservados exclusivamente para chefs). Martin Luther King utilizou a abordagem não-violenta de Thoreau para uma situação que normalmente era enfrentada com tumultos. Larry Page e Sergey Brin ignoraram os métodos comumente usados ​​de pesquisar na internet em favor do que eles viram como um sistema mais lógico, que se baseou na importância da página e na quantidade de sites importantes que se vinculam a essa página. Os Beatles de 1966 decidiram deixar de ser os melhores cozinheiros do mundo, abandonando o típico estilo de composição das bandas dos anos 60, incluindo seu próprio estilo, e se tornam chefs de música, criando do zero um monte de novos tipos de músicas, composições que ninguém já havia ouvido antes.

Seja qual for o tempo, o lugar ou a indústria, quando algo realmente grande acontece, quase sempre há um chef experiente no centro dos acontecimentos – alguém que não foi nada mágico, mas apenas confiou em seu cérebro e trabalhou a partir do zero. Nosso mundo foi criado por essas pessoas – o resto de nós está apenas seguindo o caminho.

Sim, Musk é inteligente e insanamente ambicioso – mas não é por isso que ele está superando a todos. O que faz Musk tão radical é que ele é um software atípico. Um chef notável em um mundo de cozinheiros. Um geólogo científico em um mundo de geólogos diluviano. Um software cerebral versão profissional em um mundo onde as pessoas não percebem que o software em seus cérebros é uma coisa a ser considerada.

Esse é segredo de Elon Musk.

É por isso que a verdadeira história aqui não é Musk. Somos nós.

O verdadeiro quebra-cabeça nesta série de textos não porque Elon Musk está tentando acabar com a era dos carros a gasolina ou porque está tentando colonizar Marte: é porque pessoas como ele são tão raras entre nós.

A coisa curiosa sobre a indústria automobilística não é a Tesla estar produzindo carros elétricos, e a coisa curiosa sobre a indústria aeroespacial não é a SpaceX tentar produzir os foguetes reutilizáveis ​​- a coisa curiosa sobre essas indústrias é porque a Tesla e a Space X são as únicas empresas a fazê-lo.

Passamos o tempo todo tentando descobrir o funcionamento misterioso da mente de um gênio apenas para perceber que o segredo de Musk é que ele é o único a ser normal. E sozinho, Musk seria um tema muito chato – é o pano de fundo formado por nós que o torna mais interessante. E é desse pano de fundo que esta série é realmente trata.

Então … qual é o problema com nós? Como foi que acabamos sendo cozinheiros tão amadores na habilidade de pensar? E como aprender um ser mais como os grandes chefs do mundo, que parecem abrir tão sem dificuldades o caminho da própria vida? Eu acho que se trata de três coisas.

[Na quinta e última parte dessa série, Tim Urban apresentará epifanias e dicas que permitirão a qualquer um desenvolver e aprimorar o seu próprio software de raciocínio].

  • Luiz Sommer

    Incrível! A cada final de um texto do Tim fico impressionado com a forma que ele consegue associar as coisas e criar analogias tão cabíveis para explicar seu ponto, além dessa desenvoltura lógica e de uma sensação de ler algo que foi escrito com boas intenções. Tornando-se uma real satisfação ler o wbw, bem como muitos artigos daqui da Ano-Zero. Mais uma vez, obrigado pleo tralho incrível que vocês têm feito.

    • Neder Diogo Junior

      Concordo muito

  • Texto genial. É realmente a comparação entre o que faz dos gênios gênios e o que faz da maioria de nós só a maioria, que torna esse assunto interessante. Indivíduos são apenas indivíduos, no sentido de que saber isoladamente a história de um é só saber um compilado de histórias, acontecimentos, percursos.

    Existe só uma coisa que poderia — ou não — ser abordada nesse texto: a epidemia de pseudo-chefs.

    Existe um grupo de pessoas, que aumenta em números de maneira cíclica ao longo do tempo, que parece ser original em seus questionamentos das convenções. Mas o problema é que elas questionam errado. Um bom exemplo são os questionadores atuais da eficácia das vacinas. Eles deveriam antes se informar sobre a tonelada de informações a favor da eficácia, não partir de maneira bitolada questionando algo.

    É aquela velha história de sermos apoiados por ombros de gigantes. Temos que saber diferenciar bem entre um pensamento original e racional, e um pensamento que é original simplesmente porque o que está sendo proposto é diferente do geral (mas completamente errado).

    Enfim, só esse adendo.

    Texto maravilhoso!