[Nota do editor: esta é a terceira parte da tradução autorizada do texto original de Tim Urban; antes, recomendamos que você leia a parte 2.]

O software da maioria das pessoas

Nós sempre escutamos histórias sobre o desenvolvimento humano e como suas experiências durante os primeiros anos de vida determina quem você se torna. O cérebro de um recém-nascido é uma bola maleável de argila, e a principal missão de uma criança é aprender rapidamente sobre qualquer que seja o ambiente em que nasceu, passando a moldar-se na ferramenta ideal para a sobrevivência nessas circunstâncias. É por isso que é tão fácil para as crianças aprenderem novas habilidades.

À medida em que as pessoas crescem, a argila começa a endurecer e se torna mais difícil mudar a forma como o cérebro funciona. Minha avó vem usando um computador a tanto tempo quanto eu, mas uso o meu confortavelmente e facilmente porque meu cérebro de infância, maleável, desenvolveu facilmente habilidades básicas de informática, enquanto ela faz diante do computador a mesma cara que minha tartaruga faz quando a coloco em uma mesa de vidro e ela acha que está inexplicavelmente pairando no ar, um metro acima do chão. Minha avó usará um computador sempre que precisar, mas não jamais será uma relação amistosa.

Então, quando se trata de nosso software cerebral (nossos valores, percepções, sistemas de crença, técnicas de raciocínio) o que estamos aprendendo durante esses primeiros anos decisivos?

Todos cresceram de forma diferente. Mas, para a maioria das pessoas que conheço, foi algo assim:

Aprendemos todo o tipo de coisa com nossos pais e professores – o que é certo e o que é errado, o que é seguro e o que é perigoso, o tipo de pessoa que você deveria e não deveria ser. Mas a mensagem principal era: “eu sou um adulto, então sei muito mais sobre isso do que você próprio, isso está fora de discussão, então não discuta, apenas obedeça. É aí que aquele jogo clichê de ficar perguntando “Por quê?” começa (o que, na linguagem de Musk, é chamado de “o porquê acorrentado”).

O instinto da criança não é apenas saber o que fazer e o que não fazer – ela quer compreender como funcionam as regras do meio ambiente. E para entender algo, você precisa ter uma ideia de como a coisa toda foi construída. Quando pais e professores dizem a uma criança para fazer XYZ e simplesmente obedecer, é como instalar um software já projetado na cabeça da criança. Quando as crianças perguntam “por quê?”, estão tentando desmontar esse software para ver como ele foi construído – para chegar aos primeiros princípios que estão por trás de tudo e poder avaliar o quanto realmente deveriam se preocupar com as coisas sobre as quais os adultos tanto falam.

As primeiras vezes em que uma criança joga o jogo do “Porquê”, os pais acham fofo. Mas muitos pais e a maioria dos professores não demoram a arranjar um jeito de acabar como o jogo:

“Porque eu disse.”

“Porque eu disse” joga um bloco de concreto em cima do esforço de desconstrução da criança, debaixo do qual mais nenhum “Porquê” consegue passar. O adulto diz: “Você quer os primeiros princípios? Aqui está: esta é sua posição na hierarquia. Nenhum outro porquê é necessário. Agora coloque seus tênis e vamos indo porque eu disse para se apressar.”

Imagine como isso aconteceria no mundo das ciências.

Para sermos justos, a vida dos pais é difícil. Eles ainda precisam continuar a fazer todas as merdas que costumavam fazer, mas agora além disso têm em suas vidas essas pequenas criaturas egoístas e preguiçosas que devem sustentar e que acham que os pais existem para atendê-las. Em um dia agitado, de mau humor, com 80 coisas para fazer, o jogo do “Porquê” é um pesadelo.

Mas pode ser um pesadelo que vale a pena suportar. Dar um comando, lição ou palavra de sabedoria sem qualquer explicação sobre os passos lógicos que o embasam é como dar o peixe sem ensinar a pescar. E quando é dessa forma que crescemos, acabamos com um monte de peixes mas nenhum anzol ou rede – temos um software instalado que aprendemos a usar, mas não conseguimos programar coisa alguma sozinhos.

A escola torna as coisas mais difíceis. Um dos meus pensadores favoritos, o escritor Seth Godin (cujo blog está cheio de princípios fundamentais de sabedoria) explica em um TED Talk que o sistema educacional atual é um produto da Era Industrial, um tempo que catapultou a produtividade e o padrão de vida. Mas, juntamente com muitas outras fábricas, veio a necessidade de muitos mais trabalhadores nessas fábricas, então nosso sistema educacional foi redesenhado em torno desse objetivo. Ele explica:

O negócio era o seguinte: educação pública universal cuja única intenção não era treinar os estudiosos do amanhã – já tivemos muitos estudiosos. A intenção era treinar pessoas para estarem dispostas a trabalhar nas fábricas. Era para treinar as pessoas para se comportarem, cumprirem ordens e se adequarem. “Educamos você por um ano inteiro. Se você está com defeito, nós o reiniciamos e educamos você de novo. Nós sentamos você em classes em filas retas, assim como organizamos as coisas nas fábricas. Nós construímos um sistema composto de pessoas substituíveis porque fábricas são baseadas em partes substituíveis.”

Junte esse conceito ao que outro escritor favorito meu, James Clear, explicou recentemente em seu blog:

Na década de 1960, um investigador de performance criativa chamado George Land realizou um estudo com 1.600 crianças de cinco anos, e 98 % das crianças foram classificadas como “altamente criativas”. Dr. Land voltou a fazer testes com essas crianças a cada cinco anos. Quando as mesmas crianças tinham dez anos de idade, obtiveram apenas 30% puderam ser classificadas como “altamente criativas”. Este número caiu para 12% aos 15 anos e apenas 2% aos 25 anos. À medida em que as crianças cresciam e tornavam-se adultos, efetivamente foram treinadas a eliminar a criatividade. “O comportamento não criativo é aprendido”.

Faz sentido, certo? O pensamento criativo é um primo próximo do raciocínio dos primeiros princípios. Em ambos os casos, o pensador precisa inventar seus próprios caminhos de pensamento. As pessoas tratam a criatividade como se fosse um talento natural, mas na verdade a criatividade é muito mais uma maneira de pensar – é a versão mental da pintura de uma tela em branco. Mas, para isso ocorrer, é necessário um software no cérebro que seja habilidoso e eficiente em formular novas ideias, e a escola nos treina para fazer exatamente o oposto: para seguir o líder, decorar informações e ter bom desempenho em provas que testam essa memória. Em vez de uma tela em branco, a escola entrega às crianças um livro para colorir e ordena que mantenham as cores dentro das linhas.

(Musk recentemente criou uma nova escola que seus filhos frequentam, uma sem séries rígidas e onde os estudantes aprendem através da aplicação, e não da memorização.)

O que tudo isso significa é que, durante os anos mais maleáveis do nosso cérebro, pais, professores e sociedade acabam colocando nossa argila em um molde e apertando-a firmemente numa forma predefinida.

E quando crescemos, sem termos aprendido a construir nosso próprio estilo de raciocínio e já tendo superado a fase inicial de profunda investigação sobre si mesmo que o pensamento independente exige, acabamos por nos apoiar, para todas as coisas da vida, em qualquer que seja o software que tenham instalado em nossas cabeças, software esse que, sendo proveniente de pais e professores, provavelmente foi projetado há trinta anos atrás.

Trinta anos se tivermos sorte. Vamos pensar sobre isso por um minuto.

Digamos que você tem uma mãe dominadora, que insiste em que você cresça guiado pelos valores dela, por sua visão de mundo, seus medos e suas ambições – porque ela sabe o que é melhor, porque lá fora há um mundo assustador, porque XYZ é digno de respeito, porque ela disse que sim.

Sua cabeça pode acabar executando durante toda a vida o software “porque minha mãe diz isso”. Se você jogar o jogo do “Porquê” com algo como, por exemplo, a razão pela qual você está no seu trabalho atual, pode demorar alguns “Porquês” chegar lá, mas provavelmente acabará batendo em algum muro em que estará escrita alguma versão de “porque sua mãe disse isso”.

Mas porque sua mãe disse isso?

Ela disse isso porque a mãe dela disse isso para ela – depois de crescer na Polônia em 1932, numa casa em que o pai dela dizia isso porque o pai dele, um funcionário público secundário de uma pequena cidade da Cracóvia, disse a mesma coisa após seu pai, que viu umas merdas terríveis durante o Levante Siberiano de 1866, enfiar na cabeça de seus filhos uma lição fundamental da vida sobre jamais fazer negócios com a guilda dos ferreiros.

Através de um longo telefone sem fio, sua mãe hoje em dia aprendeu a aspirar por empregos em escritórios, e você se descobre com uma forte motivação de considerar que a única carreira verdadeiramente estável seria dentro de uma sólida empresa. E você pode até fazer uma lista das razões pelas quais se sente assim, mas se alguém insistir em investigar mesmo quais são as suas razões e qual o raciocínio por trás delas, você acabará sentindo-se muito confuso. E fica tudo confuso porque os primeiros princípios que sustentam todo o seu raciocínio são uma mistura de valores e crenças de um monte de gente de diferentes gerações e origens – um monte de gente que não é você, em resumo.

Um exemplo comum disso no mundo de hoje é que muitas pessoas que conheci foram criadas por pessoas que foram criadas por pessoas que passaram pela Grande Depressão norte-americana. Se você pedir conselhos de carreira de alguém nascido nos EUA lá pela década de 1920, há uma grande chance de que a seguinte resposta pule automaticamente de seu software:

A pessoa que dá essa resposta viveu uma vida longa e fez todo o caminho até 2017, mas seu software foi codificado durante uma grande crise econômica, e se ela não for do tipo acostumada com a autorreflexão e não evoluir regularmente, ela ainda desenvolverá seu pensamento segundo um software da década de 1930. E se ela instalou o mesmo software na cabeça de seus filhos e esses transmitiram-no para seus próprios filhos, um membro da Geração Y hoje pode se sentir assustado demais para tentar uma carreira artística ou empreendedora e continuará totalmente ignorante de que está sendo na verdade assombrado pelo fantasma de uma crise econômica do século passado.

Quando o software antigo é instalado em novos computadores, as pessoas acabam com um conjunto de valores que não necessariamente são baseados em seu próprio pensamento autêntico, e levam consigo um conjunto de crenças sobre o mundo que não necessariamente são baseadas na realidade do mundo em que vivem, e podem ter muita dificuldade de defender com o coração honesto um monte de opiniões que compartilham com outras pessoas.

Em outras palavras, muitas convicções não são realmente baseadas em dados reais. Temos uma palavra para isso.

DOGMA

“Eu não sei qual é o problema com as pessoas: elas não aprendem pela compreensão, eles aprendem de outra maneira – pela tradição ou algo assim. Seu conhecimento é tão frágil!” -Richard Feynman

O dogma está em toda parte e vem em mil variedades diferentes, mas o formato geralmente é o mesmo: X é verdade porque [autoridade] diz assim. A autoridade pode ser muitas coisas.

O dogma, ao contrário do raciocínio dos primeiros princípios, não é personalizado para o crente ou seu ambiente e não deve ser criticado e ajustado à medida em que as coisas mudam. Não é um software a ser codificado – é um livro de regras impresso. Suas regras podem ser originalmente baseadas no raciocínio de um certo tipo de pensador em um determinado conjunto de circunstâncias, em um momento no passado ou em um lugar distante, ou pode ser baseado em raciocínio algum. Mas isso não importa porque você não deveria cavar muito fundo abaixo da superfície de qualquer maneira – você simplesmente deve aceitá-lo, abraçá-lo e viver por ele. Não é necessária nenhuma evidência.

Você pode não gostar de viver pelo dogma de outra pessoa, mas fica sem muita escolha. Quando suas tentativas de compreensão na infância são confrontadas com um “Porque eu disse” e você absorve a mensagem implícita, que é “Sua capacidade de raciocínio é uma merda, nem tente, apenas siga estas regras para não ferrar com sua vida”, você cresce com pouca confiança em seu próprio processo de raciocínio. Quando você nunca foi forçado a desenvolver seu próprio raciocínio, você se torna hábil em ignorar o difícil processo de investigação profunda destinado a descobrir seus próprios valores, e consegue evitar a por vezes dolorosa experiência de testar esses valores no mundo real, aprendendo-o a ajustá-los – e então você cresce como um amador na capacidade de raciocinar por si próprio.

Somente uma forte habilidade de raciocínio constrói um caminho de vida único, e sem essa habilidade rapidamente algum dogma o fará viver a vida de outra pessoa. O dogma não conhece você ou se preocupa com você e muitas vezes é completamente errado para você – ele fará alguém que se sentiria feliz como artista passar a vida inteira como advogado.

Mas quando você não sabe raciocinar, você não sabe como evoluir e se adaptar. Se o dogma com que você cresceu não está trabalhando a seu favor, você pode rejeitá-lo, mas, como você tem um raciocínio amador, fazer isso sozinho geralmente acaba com você encontrando outro dogma para se agarrar como tábua de salvação – outro livro de regras e outra autoridade para obedecer. Você não sabe como codificar seu próprio software, então você instala o software feito por outra pessoa.

As pessoas não fazem isso intencionalmente – geralmente, se rejeitarmos um tipo de dogma, nossa intenção é libertar-se de uma vida de pensamento dogmático e assumir coragem para os ventos frios do raciocínio independente. Mas o pensamento dogmático é um hábito difícil de quebrar, especialmente quando é tudo o que você sabe.

Eu tenho uma amiga que acabou de ter um bebê e ela me disse que era muito mais aberta do que seus pais, porque eles queriam que ela tivesse uma carreira de prestígio, mas ela estaria aberta para que sua filha fizesse alguma coisa de que discordasse. Depois de um minuto, ela pensou nisso e disse: “Bem, na verdade, não, o que quero dizer com isso é se ela quisesse fazer algo como viver toda a sua vida no meio do mato em uma comunidade alternativa, eu não teria problemas com isso, embora meus pais certamente tivessem – mas se ela decidisse trabalhar como executiva, eu a mataria”. Ela percebeu a meio da frase que ela não estava livre do rígido pensamento dogmático de seus pais, ela tinha apenas mudado de um dogma para outro.

Esta é a armadilha dos dogmas, e é difícil escapar dela, e especialmente proque os dogmas têm um aliado poderoso – o grupo.

TRIBOS

“Algumas coisas que penso são muito conservadoras, ou muito liberais. Quando alguém cai em uma só categoria para todas as suas opiniões, fico muito desconfiado. Não faz sentido para mim que você tenha uma mesma solução para cada problema.” -Louis C.K.

A maioria dos pensamentos dogmáticos tende a se resumir em outra boa frase de Seth Godin:

“Pessoas como a gente fazem esse tipo de coisa. É o grito de manifestação do tribalismo.”

Há uma distinção importante a fazer aqui. O tribalismo tende a ter uma conotação negativa, mas o conceito de uma tribo em si não é ruim. Uma tribo é apenas um grupo de pessoas ligadas entre si por algo que têm em comum – uma religião, uma etnia, uma nacionalidade, uma família, uma filosofia, uma causa. O cristianismo é uma tribo. O Partido Democrata dos EUA é uma tribo. Os australianos são uma tribo. Os fãs de Radiohead são uma tribo. E dentro de tribos grandes e soltas, há menores, mais resistentes, sub-tribos. Os americanos são uma tribo, dos quais os texanos são uma sub-tribo, dos quais os cristãos evangélicos em Amarillo, Texas, são uma sub-sub-tribo.

O que torna o tribalismo bom ou ruim depende dos membros da tribo e do relacionamento deles com a tribo. Em particular, uma distinção simples:

O tribalismo é bom quando a tribo e o membro da tribo têm uma opinião independente que acontece de ser a mesma. O membro da tribo escolheu ser parte da tribo porque ela parece coincidir com quem ele realmente é. Se a identidade da tribo ou do membro evoluem até o ponto em que os dois já não concordam, a pessoa deixará a tribo. Vamos chamar isso de tribalismo consciente.

O tribalismo é ruim quando as identidades da tribo e do membro da tribo são iguais. A identidade do membro da tribo é determinada pelo que o dogma da tribo diz. Se a identidade da tribo muda, a identidade do membro da tribo muda com ela. A identidade do membro da tribo não pode mudar independentemente da identidade tribal porque o membro não possui uma identidade independente. Vamos chamar esse tribalismo cego.

No tribalismo consciente, o membro da tribo e sua identidade vem primeiro. A identidade do membro da tribo é o cão alfa, que determina de quais tribos ele participa. No tribalismo cego, a tribo vem primeiro. A tribo é o cão alfa e é a tribo que determina quem ele é.

Isso não é preto e branco (há tons de cinza), mas quando alguém é criado sem forte habilidade de raciocínio, essa pessoa também pode não ter uma forte identidade independente, e pode acabar vulnerável ao lado tribal cego das coisas – especialmente em relação às tribos em que nasceu. Isso é o que Einstein estava querendo transmitir quando disse: “Poucas pessoas são capazes de expressar com equanimidade opiniões que diferem dos preconceitos de seu ambiente social. A maioria das pessoas é mesmo incapaz de formar tais opiniões “.

Uma grande tribo como uma religião, nação ou partido político conterá membros que se enquadram em toda a gama de tons de cinza entre o tribalismo cego e o consciente. Mas algumas tribos em si serão do tipo que atraem um certo tipo de seguidor. Faz sentido lógico que, quanto mais rígida e dogmática for a tribo, mais provável será que atrairá membros do tipo tribalista cego. O ISIS terá uma porcentagem muito maior de membros do tipo tribalista cego do que um Clube de Filosofia de Londres.

O fascínio das tribos dogmáticas faz sentido – apelam para partes muito fundamentais da natureza humana.

Os seres humanos desejam conexão e camaradagem, e um dogma orientador é uma cola comum para unir um grupo de indivíduos como se fossem um só.

Os seres humanos querem segurança interna, e para alguém que cresce se sentindo instável em relação ao seu próprio caráter distintivo, uma tribo e seu dogma orientador é uma linha de orientação importante – um balcão único para um conjunto completo de opiniões e valores humanos.

Os seres humanos também desejam o conforto e a segurança da certeza, e em nenhum lugar a convicção está mais presente do que no pensamento coletivo do tribalismo cego.

Enquanto as opiniões de um cientista são tão fortes quanto as evidências que tem e são inerentemente sujeitas a mudanças, o dogmatismo tribal é um exercício de fé e, sem evidências a serem investigadas, os membros da tribo cega acreditam no que acreditam com convicção.

Nós discutimos porque a matemática tem provas, a ciência tem teorias e, na vida, provavelmente devemos nos limitar às hipóteses. Mas o tribalismo cego prossegue com a confiança do matemático:

Se (porque a tribo diz isso): A = B

E se (porque a tribo diz isso): B = C + D

Portanto, com certeza: A = C + D

E como tantos outros na tribo se sentem confiantes sobre as coisas, sua própria confiança nas certezas da tribo é tranquilizada e reforçada.

Mas há um custo pesado para esse conformismo. A insegurança pode ser obtida da maneira mais difícil ou mais fácil – e ao dar às pessoas a opção fácil, as tribos dogmáticas eliminam a pressão para que elas façam o trabalho árduo de evoluir para uma pessoa mais independente e com uma identidade mais internamente definida. Dessa forma, as tribos dogmáticas reforçam a cegueira de seus membros para as deficiências que possuem.

O qué insidioso sobre dogmas tribais rígidos e adesão cega é que eles gostam de se disfarçar de pensamento aberto e com a adesão consciente. Eu penso que muitos de nós talvez estejamos mais perto do lado da adesão cega das coisas com certas tribos do que gostamos de admitir – e as tribos de que somos parte podem não ser tão abertas quanto tendemos a pensar.

Um bom teste para isso é a intensidade do fator “Nós”. Essa palavra-chave na frase “Pessoas como nós fazem coisas assim” pode levá-lo a problemas muito rapidamente.

“Nós” parece ótimo. Uma grande parte do apelo de estar numa tribo é que você faz parte de um “Nós”, algo que os seres humanos estão programados a procurar. E um “Nós” receptivo é algo bom, como o “Nós” formados por membros esclarecidos e independentes de uma tribo consciente.

Mas o “Nós” do tribalismo cego é assustador. No tribalismo cego, o dogma orientador da tribo funciona como uma identidade para os membros da tribo, e o fator “Nós” fortalece essa condição. Os membros da tribo consciente chegam a conclusões – os membros da tribo cega são conclusões. Com um “Nós” cego, se a maneira como você é como um indivíduo é conter opiniões, traços ou princípios que se encontram fora das bordas externas das paredes do dogma, eles precisarão ser derramados – ou as coisas ficarão feias. Ao desafiar o dogma da sua tribo, você está desafiando o senso de certeza de que os membros da tribo ganham força e as linhas de identidade claras em que confiam.

Mas o “Nós” no tribalismo cego é assustador. No tribalismo cego, o dogma principal da tribo é fortalecido pela própria identidade de seus membros, e o fator “Nós” reforça esse vínculo. Enquanto os membros de uma tribo consciente possuem opiniões em comum, no caso de uma tribo cega o que seus membros têm em comum é sua própria identidade. Com um “Nós” cego, se você individualmente possui opiniões, práticas ou princípios que não se mantém dentro dos muros do dogma, você precisa se corrigir – ou as coisas vão ficar feitas para seu lado. Ao desafiar o dogma de sua tribo, você desafia tanto o sentimento de segurança do qual os membros retiram sua confiança quanto a identidade em que eles se apoiam. Qualquer elemento de rigidez e cegueira que se expresse na identidade dos membros da sua tribo irá se revelar quando você ousar validar qualquer aspecto do dogma de tribos rivais.

Faça uma tentativa. Na próxima vez que encontrar um membro de uma tribo a que você pertence, expresse uma mudança de opinião que se alinhe com algum tema que sua tribo associe à opinião das tribos rivais. Se você é um cristão religioso, diga a pessoas na igreja que você não está mais certo de que existe um Deus. Se você é de um grupo vegano, sugira que o aquecimento global talvez possa ser uma farsa da esquerda. Se você é iraquiano, diga a sua família que vê com simpatia as reinvidicações de Israel. Se você é conservador, diga aos seus amigos conservadores que é a favor da legalização da maconha.

Se você estiver numa tribo com mentalidade cega e dogmática, provavelmente você verá uma expressão de horror em seu interlocutor. Para ele, sua opinião não parecerá errada, ela será uma heresia. Ele pode ficar com raiva, ou pode apaixonadamente tenta convencê-lo do contrário, ou só querer cortar o papo, mas sob hipótese alguma haverá uma conversa aberta. E porque a identidade está muito entrelaçada com crenças no tribalismo cego, depois disso a pessoa pode até começar a se afastar de você. Porque, para as pessoas estritamente tribalitas, um dogma compartilhado desempenha um papel mais importante em seus relacionamentos íntimos do que eles seriam capazes de admitir.

A maioria das principais brigas em nosso mundo emergem do tribalismo cego, e no extremo mais radical do espectro (onde as pessoas formam uma manada) o tribalismo pode levar a coisas aterrorizantes. Como aqueles momentos da história em que líderes carismáticos conseguiram inspirar nos soldados de seus exércitos a exibições apaixonadas de força. Porque o tribalismo cego é o verdadeiro vilão por trás das maiores atrocidades da história humana.

A maioria de nós não teria se juntado ao partido nazista porque não estaríamos no extremo mais cego do espectro tribal de nossa sociedade. Mas não acho que a maioria de nós estaria no extremo mais consciente da sociedade também. Na verdade, de regra estaríamos num ponto intermediário, em que seria vantajoso aprimorar o software em nossa cabeça aprendendo como funciona o software de pessoas notáveis por sua habilidade de pensar corretamente.

[Por isso, leitor, na última parte desta tradução, semana que vem, Tim Urban apresenta as diferenças entre o modo como Musk pensa e o modo como a maioria de nós pensa.]

  • Neder Diogo Junior

    Aeeee que texto!!
    Valeu por mais uma tradução, galera!