[Nota do editor: esta é a segunda parte da tradução autorizada do texto original de Tim Urban; antes, recomendamos que você leia a parte 1.]

O SOFTWARE DE MUSK

A estrutura do software de Musk começa como o software da maioria de nós, com o que chamaremos a Caixa de Desejos:

Esta caixa contém qualquer coisa na vida quando você deseja, em que a Situação A dá lugar à Situação B.

Situação A é o que está acontecendo agora. E você quer que algo mude para que a Situação B passe a acontecer em seu lugar. Alguns exemplos:

A Caixa de Desejos tem uma parceira, que chamaremos de Caixa da Realidade. Ela contém todas as coisas que são possíveis no mundo real:
Simples assim.

A sobreposição das caixas Desejo e Realidade resulta na Piscina de Metas, onde ficam os seus objetivos:

Então você escolhe uma meta da Piscina de Metas, a coisa que você vai tentar mudar da Situação A para a Situação B.

E como você faz para que algo mude? Você direciona seu poder para esse fim. O poder de uma pessoa pode assumir várias formas: seu tempo, sua energia (mental e física), seus recursos, sua capacidade de persuasão, sua conexão com os outros, etc.

O conceito de “trabalho assalariado” é apenas a Pessoa A usando o poder de seus recursos (um salário) para direcionar o tempo e/ou a energia da Pessoa B para realizar o objetivo da Pessoa A. Já quando a uma celebridade respeitada recomenda publicamente um livro, ela está combinando seu poder de conexão (ela tem um enorme alcance) e seu poder de persuasão (as pessoas confiam nela) e direcionando-os para o objetivo de colocar o livro nas mãos de milhares de pessoas que, de outra forma, nunca teriam tomado conhecimento dele.

Uma vez que certa meta foi selecionada, você sabe para onde direcionar o seu poder. Agora é hora de descobrir a maneira mais eficaz de usar esse poder para gerar o resultado desejado – essa é a sua estratégia:

Simples, certo? E provavelmente não é tão diferente de como você pensa.

Mas o que torna o software de Musk tão eficaz não é a sua estrutura, e sim o fato de que ele o usa como um cientista. Carl Sagan disse: “A ciência é uma forma de pensar muito mais do que um sistema de conhecimento”, e você pode ver Musk aplicar essa maneira de pensar de duas formas principais:

1) Ele constrói cada componente do software, desde o início.

Musk chama isso de “raciocínio dos primeiros princípios”. Vou deixá-lo explicar:

“Eu acho que geralmente o processo de pensamento das pessoas é muito limitado por convenções ou analogias com experiências anteriores. É raro que as pessoas tentem pensar em algo partindo dos primeiros princípios. Elas dirão: “Nós faremos assim porque sempre foi feito assim.” Ou não farão algo porque “bem, ninguém nunca fez isso, então não deve ser bom.” Mas isso é uma maneira ridícula pensar. Você tem que construir o raciocínio desde o início – “dos primeiros princípios” é a frase que é usada na Física. Você olha os fundamentos e constrói o seu raciocínio a partir daí, e então você verá se você tem uma conclusão que funciona ou não funciona, e pode ou não ser diferente do que as pessoas fizeram no passado.”

Na ciência, isso significa começar com aquilo que as evidências nos mostram ser verdade. Um cientista não diz: “nós sabemos que a Terra é plana porque é assim que ela parece ser, o que é intuitivo, e é isso que todos concordam que é verdade”. Um cientista diz: “a parte da Terra que posso ver em qualquer determinado momento parece ser plana, o que ocorre quando se olha para uma pequena parte de muitos objetos de formas diferentes, então não tenho informações suficientes para saber qual é a forma da Terra. Uma hipótese razoável é que a Terra seja plana, mas até que tenhamos ferramentas e técnicas que possam ser usadas para provar ou refutar essa hipótese, essa é uma questão em aberto “.

Um cientista reúne apenas o que sabe ser verdadeiro (os primeiros princípios) e usa-os como as peças de um quebra-cabeça para construir sua conclusão.

Raciocínio dos primeiros princípios é uma coisa difícil de fazer na vida, e Musk é um mestre nisso. O software de nosso cérebro tem quatro grandes centros de tomada de decisão:

1) Preenchimento da Caixa de Desejos;

2) Preenchimento da Caixa da Realidade;

3) Seleção de metas na Piscina de Metas; e

4) Formação de estratégia.

Musk trabalha em cada uma dessas caixas usando o raciocínio de primeiros princípios. Preencher a Caixa de Desejos utilizando os primeiros princípios requer uma compreensão profunda, honesta e independente sobre si mesmo. Preencher a Caixa da Realidade exige a imagem mais desobstruída possível dos fatos reais do mundo e de suas próprias habilidades. A Piscina de Metas deve ser um Laboratório de Seleção de Metas que contém ferramentas para medir e pesar inteligentemente as opções disponíveis. E estratégias devem ser elaboradas com base no que você sabe, e não no que normalmente é feito.

2) Ele ajusta continuamente as conclusões de cada componente à medida que novas informações chegam.

Você deve se lembrar de fazer provas de matemática na escola, algo comum na infância de todos nós. Aprendíamos coisas como isso:

Se: A = B

E se: B = C + D

Então: A = C + D

Matemática é algo satisfatoriamente exato. Seus dados são exatos e suas conclusões são precisas.

Em matemática, chamamos os dados de axiomas, e axiomas são 100% verdadeiros. Então, quando construímos conclusões a partir de axiomas, chamamos essas conclusões de teoremas, que também são 100% verdadeiros.

A ciência não tem axiomas ou provas, por boas razões.

Poderíamos ter chamado a Lei da Gravitação Universal de Newton de teorema – e por um longo tempo, certamente ela parecia um. Mas Einstein apareceu e mostrou que Newton na verdade estava vendo uma imagem “de perto”, como alguém que vê a Terra de perto e a chama de plana. E Einstein demonstrou que quando você muda de perspectiva, descobre que a verdadeira lei é a da Relatividade Geral, pois a Lei da Gravitação Universal de Newton deixa de funcionar em condições extremas. E então você fica tentado a chamar a Lei da Relatividade Geral de teorema, mas surge a Mecânica Quântica e mostra que a Lei da Relatividade Geral falha quando é aplicada em escalas microscópicas, e que um novo conjunto de leis precisa ser aplicada para explicar nesses casos.

Não há axiomas ou teoremas na ciência porque nada é certo, e tudo aquilo de que temos certeza sobre pode ser refutado. Richard Feynman disse: “o conhecimento científico é um conjunto de declarações com diversos graus de certeza – algumas mais inseguras, algumas quase seguras, mas nenhuma absolutamente segura sobre sua certeza.” Em vez de teoremas, a ciência tem teorias. As teorias baseiam-se em provas concretas e tratadas como verdades, mas a qualquer momento elas são susceptíveis de serem ajustadas ou refutadas, à medida em que surgem novos dados.

Assim, na ciência, é mais como:

Se (por enquanto): A = B

E se (por enquanto): B = C + D

Então (por enquanto): A = C + D

Em nossas vidas, o único verdadeiro axioma é “eu existo”. Além disso, nada é certo. Para a maioria das coisas na vida, não podemos sequer construir uma verdadeira teoria científica, porque a vida não tende a ter medidas exatas.

Normalmente, o melhor que podemos fazer é ter um palpite forte com base nos dados que temos. E na ciência, um palpite é chamado de hipótese. O que funciona assim:

Se (com base no que eu sei): A = B

Se (com base no que eu sei): B = C + D

Então (com base no que eu sei): A = C + D

As hipóteses são construídas para serem testadas. Testar uma hipótese pode refutá-la ou fortalecê-la, e se ela passar em testes suficientes, pode ser atualizada para uma teoria.

Então, depois que Musk constrói suas conclusões a partir dos primeiros princípios, o que ele faz? Ele testa a ideia no mundo real continuamente, e a ajusta regularmente com base no que aprende. Vamos percorrer todo o processo para mostrar como:

Você começa como o raciocínio de primeiros princípios para (A) preencher a Caixa de Desejos, (B) preencher a Caixa de Realidade, (C) selecionar uma meta da Piscina de Metas, e (D) construir uma estratégia. Em seguida, você começa a trabalhar. Você usou os primeiros princípios para decidir para onde direcionar seu poder e a maneira mais eficaz de usá-lo.

Mas a estratégia de conquista de metas que você criou foi apenas o seu primeiro passo. Era uma hipótese, madura o suficiente para ser testada. E você testa uma hipótese de estratégia de uma só maneira: agindo. Você direciona seu poder para implementar a estratégia e vê o que acontece. Ao fazer isso, os dados começam a fluir em resultados, feedback e novas informações do mundo exterior. Certas partes de sua hipótese de estratégia podem ser fortalecidas por esses novos dados, outras podem ser enfraquecidas e novas idéias podem surgir na sua cabeça graças à experiência. De qualquer forma, algum ajuste é geralmente necessário:

À medida em que esse loop de estratégia vai ocorrendo e seu poder se torna mais e mais eficaz na realização de seu objetivo, outras coisas começam a acontecer.

Para alguém que usa o raciocínio de primeiros princípios, a Caixa de Desejos a qualquer momento é uma fotografia de seus desejos mais íntimos, tirada na última vez em que pensou muito sobre isso. Mas o conteúdo da Caixa de Desejos também é uma hipótese, e a experiência pode mostrar que você estava errado sobre algo que achou que queria ou que você quer uma coisa mas ainda não havia se dado conta desse desejo. Ao mesmo tempo, o seu eu interior não é uma estátua rígida, mas uma escultura cambiante e multiforme, cujos valores mais íntimos mudam com o passar do tempo. Portanto, mesmo se algo na Caixa de Desejos estivesse correto em determinado momento, esse desejo específico pode perder seu lugar na Caixa de Desejos conforme você se desenvolve. A Caixa de Desejos deve refletir da melhor forma possível o seu eu interior atual, o que exige que você a mantenha atualizada. E isso é uma coisa que você faz através da reflexão:

Um loop (uma volta no circuito) que atualiza a Caixa de Desejos é chamado de evolução.

Por sua vez, a Caixa de Realidade também estará passando por um processo contínuo de atualização. “Coisas que são possíveis” é uma hipótese, talvez mais do que qualquer outra coisa. Essa hipótese leva em conta tanto o estado do mundo como suas próprias habilidades. E à medida que suas próprias habilidades mudam e se desenvolvem, o mundo muda ainda mais rápido. O que era possível no mundo em 2005 é muito diferente do que é possível hoje, e é uma vantagem enorme trabalhar com uma Caixa de Realidade atualizada.

Preencher a sua Caixa de Realidade usando o raciocínio de primeiros princípios é um grande desafio, e mantê-la atualizada para que corresponda rigorosamente à realidade exige trabalho contínuo.

Para cada uma dessas áreas, a caixa representa a hipótese atual e o círculo representa a fonte de nova informação que pode ser usada para ajustar a hipótese. É nosso dever lembrar sempre que os círculos é que mandam, e não as caixas – as caixas estão apenas tentando fazer o seu melhor para deixar os círculos sentirem-se orgulhosos de seu trabalho. E se ficarmos desconectados daquilo que está acontecendo nos círculos, a informação nas caixas se tornará desatualizada e obsoleta.

Pensando no software como um todo, vamos dar um passo para trás. O que vimos é um mecanismo de elaboração de objetivos abaixo e um mecanismo de realização de metas acima. Uma coisa que a realização de metas muitas vezes requer é foco extremo. Para obter resultados, concentramos nossa atenção nos pequenos detalhes, investimos toda a nossa energia na busca de nossa meta e aprimoramos continuamente nossa estratégia com um loop.

Mas, com o passar do tempo, ajustamos o conteúdo e a forma da Caixa Desejos e da Caixa de Realidade. E, eventualmente, algo mais pode acontecer: a Piscina de Metas é alterada.

A Piscina de Metas é apenas a sobreposição da Caixa de Desejos e da Caixa de Realidade, então sua própria forma e conteúdo são totalmente dependentes da situação dessas caixas. E como você vive sua vida dentro do mecanismo de obtenção de metas acima descrito, é importante assegurar-se de que aquilo em que você está trabalhando tão duramente permaneça alinhado com a Piscina de Metas – então vamos adicionar duas grandes setas vermelhas para esse fim:

Manter-se atualizado com os dois círculos abaixo exige que às vezes levantemos nossas cabeças da missão micro para fazermos uma reflexão macro. E quando ocorrem mudanças suficientes nas caixas de Desejos e de Realidade, o objetivo que você persegue não estará mais na Piscina de Metas, o que exigirá uma grande mudança de vida – uma ruptura, um deslocamento, uma troca de prioridade, uma atitude que altera o jogo.

Juntando tudo isso, o software que descrevi é um sistema vivo e pulsante, construído em alicerces sólidos (os primeiros princípios) e feito para ser ágil, refletir a sua verdade e atualizar-se quando for necessário, a fim de melhor servir seu proprietário.

E se você ler sobre a vida de Elon Musk, pode acompanhar esse software em ação.

COMO O SOFTWARE DE MUSK DETERMINOU SUA HISTÓRIA

COMEÇANDO

O primeiro passo para Elon foi preencher o conteúdo de sua Caixa de Desejos. Fazer isso a partir dos primeiros princípios é um desafio enorme – você tem que aprofundar sua análise de conceitos como certo e errado, bem e mal, importante e trivial, valioso e dispensável. Você tem que descobrir o que você respeita, o que despreza, o que o fascina, o que o aborrece e o que empolga profundamente sua criança interior. Claro, não há nenhuma receita para qualquer pessoa de qualquer idade obter uma resposta clara para essas perguntas, mas Elon fez a melhor coisa que ele poderia ao ignorar os outros e pensar com autonomia.

Conversei com ele sobre o seu processo de pensamento inicial para descobrir o que faria em sua vida. Ele disse muitas vezes que se importava profundamente com o futuro bem-estar da espécie humana – algo que está claramente no centro de sua caixa de desejos. Eu perguntei como ele chegou a isso, e ele explicou:

A única coisa que me interessa é: quando olho para o futuro, vejo-o como uma série de fluxos de probabilidade de ramificação. Então, você precisa se perguntar sobre o que estamos fazendo para estimular o bom fluxo de probabilidades – o que é suscetível de concretizar um bom futuro? Porque, de outra forma, você olhará os futuros possíveis e dirá “a coisa vai ficar preta”. Se você está projetando o futuro e diz: “Uau, vamos acabar em alguma situação terrível”, isso é deprimente.

Justo. Aprofundando a análise de seu caminho em particular, mencionei para Musk os grandes físicos modernos como Einstein e Hawking e Feynman, e perguntei-lhe se havia considerado tornar-se um cientista em vez de um engenheiro. A resposta dele foi:

Eu certamente admiro as descobertas dos grandes cientistas. Eles estão descobrindo o que já existe – é uma compreensão mais profunda de como o universo já funciona. Isso é legal, mas o universo já sabe disso. O que importa é o conhecimento em um contexto humano. O que estou tentando garantir é que o conhecimento em um contexto humano ainda seja possível no futuro. Então é como se eu fosse mais como o jardineiro, e depois há as flores. Se não houver jardim, não há flores. Eu poderia tentar ser uma flor no jardim, ou eu poderia tentar certificar-me de que há um jardim. Então eu estou tentando ter certeza que haverá um jardim, de modo que no futuro muitos Feynmans possam florescer.

Em outras palavras: tanto A como B são bons, mas sem A não há B; então escolho A.

Ele prosseguiu:

Houve um momento em que pensei em seguir a carreira de Físico – eu me formei em Física. Mas, para realmente avançar na Física hoje em dia, você precisa de dados. A física é fundamentalmente governada pelo progresso da engenharia. Esse debate – “Qual é melhor, engenheiros ou cientistas? Os cientistas não são melhores? Einstein não era a pessoa mais inteligente? “- pessoalmente, eu acho que a engenharia é melhor porque na ausência da engenharia você não tem os dados. Você apenas atingiu um limite. E sim, você pode ser muito inteligente dentro do contexto do limite dos dados que você tem, mas a menos que você tenha uma maneira de obter mais dados, você não pode fazer progresso. Como olhar para Galileo. Ele projetou o telescópio – foi isso que lhe permitiu ver que Júpiter tinha luas. O fator limitante, se você quiser, é a engenharia. E se você quiser avançar a civilização, você deve abordar o fator limitante. Portanto, você deve abordar a engenharia.

A e B são ambos bons, mas B só pode avançar se A avançar. Então eu escolho A.

Ao pensar na faculdade sobre o melhor caminho para ajudar a humanidade, Musk analisou a questão raciocinando a partir dos primeiros princípios: “O que mais afetará o futuro da humanidade?” E então elaborou uma lista com cinco coisas, como explicou em uma entrevista: “a internet; a energia sustentável; a exploração espacial (em particular a extensão permanente da vida para além da Terra); a inteligência artificial; e reprogramar o código genético humano.”

Ao ouvi-lo falar sobre o que é importante para ele, você pode ver toda a sequência de raciocínios sobre a Caixa de Desejos que o levou à sua vida atual.

Mas ele também tem outras motivações. Ao lado de ajudar a humanidade, na sua Caixa de Desejos também está algo que ele explicou em uma entrevista:

Estou interessado em coisas que mudam o mundo ou afetam o futuro através de alguma tecnologia fantástica que faz você dizer “Como isso aconteceu? Como isso é possível?”

Isto se encaixa no cenário da paixão de Musk por tecnologia super-avançada e na empolgação que ele transmite a outras pessoas. Assim, tendo em conta tudo o que vimos acima, uma meta ideal para Musk seria algo envolvendo engenharia, algo em uma área que seria importante para o futuro, e algo relacionado com tecnologia de ponta. Esses itens básicos e genéricos permitiram que ele reduzisse consideravelmente os objetivos possíveis em sua Piscina de Metas.

Enquanto isso, ele era um adolescente sem dinheiro, reputação ou conexões, e com conhecimento e habilidades limitadas. Em outras palavras, sua caixa de realidade não era tão grande. Então ele fez o que muitos jovens fazem – ele focou seus objetivos iniciais não em torno de alcançar seus desejos, mas em ampliar sua Caixa de Realidade e sua lista de “coisas que são possíveis”. Ele queria poder ficar legalmente nos EUA depois da faculdade, e ele também queria ganhar mais conhecimento sobre engenharia. Então ele matou dois pássaros com uma só pedra inscrevendo-se num programa de doutorado em Stanford, para estudar os capacitores de alta densidade, uma tecnologia que busca oferecer uma maneira mais eficiente de armazenar energia, em relação às baterias tradicionais.

A GRANDE VIRADA COM A INTERNET

Musk foi para a Piscina de Metas e escolheu o doutorado em Stanford, e a seguir se mudou para a Califórnia. Mas era o ano de 1995. A internet estava nos estágios iniciais de decolagem e sua evolução era muito mais rápida do que as pessoas tinham antecipado. Era também um mundo em que Musk poderia mergulhar sem dinheiro e sem reputação. Então ele adicionou um monte de possibilidades relacionadas à Internet em sua Caixa de Realidade. Os estágios iniciais de desenvolvimento da internet eram também mais emocionantes do que ele tinha previsto, então envolver-se com internet rapidamente foi parar na sua Caixa de Sonhos.

Esses rápidos ajustes causaram grandes mudanças em sua Piscina de Metas, até o ponto em que o doutorado em Stanford não era mais o foco da formação de metas de seu software interno.

A maioria das pessoas teria ficado com o doutorado em Stanford – porque já havia dito a todos sobre isso e seria estranho parar, porque era Stanford, porque era um caminho mais normal, porque era mais seguro, porque a internet poderia ser um moda, porque podia acabar aos 35 anos fracassado e sem dinheiro por não conseguir emprego já que não tinha a qualificação adequada.

Musk desistiu do doutorado após dois dias de reflexão. Seu software constatou que o doutorado já não estava mais em sua Piscina de Metas, e ele confiava em seu software – então fez uma grande mudança.

Ele iniciou a Zip2 com seu irmão, um cruzamento precoce entre os conceitos de Páginas Amarelas e Google Maps. Quatro anos depois, eles venderam a empresa e Elon foi embora com US$ 22 milhões.

Peter Thiel e Elon Musk – como se pode observar, o software de Musk também cuidou de sua calvície iminente (nota do editor).

Como um milionário do mundo dotcom, a sabedoria convencional aconselhava que ele se acomodasse como um cara rico que investiria seu dinheiro em outras empresas ou começaria algo novo com o dinheiro de outras pessoas. Mas o centro de formação de metas de Musk tinha outras idéias. Sua Caixa de Desejos estava cheia de ambiciosas ideias de startups que ele imaginava que poderiam ter grande impacto no mundo, e sua Caixa de Realidade, que agora incluía US$ 22 milhões, informou-lhe que ele tinha uma alta chance de sucesso. Ficar acomodado não estava de modo algum em sua Caixa de Desejos e era algo totalmente desnecessário de acordo com sua Caixa de Realidade.

Assim, ele usou sua riqueza para iniciar a X.com em 1999, com o objetivo de construir uma instituição financeira on-line. A internet ainda era jovem e o conceito de armazenar seu dinheiro em um banco on-line era totalmente inconcebível para a maioria das pessoas, e Musk foi aconselhado por muitos a desistir, pois seu plano era maluco.

Mas, novamente, Musk confiou em seu software. O que ele sabia sobre a internet lhe disse que sua ideia estava dentro da Caixa da Realidade – porque seu raciocínio indicava que, quando se tratava da internet, a Caixa da Realidade crescia muito mais do que as pessoas previam – e isso era tudo o que ele precisava saber para prosseguir. Na parte superior de seu software, à medida em que realizava o loop de ajustes em sua estratégia conforme o resultado de suas ações, o serviço da X.com mudou, a equipe mudou, a missão mudou, até o nome mudou. No momento em que o eBay a comprou, em 2002, a empresa de Musk chamava-se PayPal e era um serviço de transferência de dinheiro. Musk conseguiu US$ 180 milhões por ela.

LEVANDO SEU SOFTWARE AO ESPAÇO

Agora com 31 anos de idade e fabulosamente rico, Musk teve que descobrir o que fazer com sua vida. Além da sabedoria convencional que lhe dizia “faça o que fizer, definitivamente não se arrisque a perder o dinheiro que tem”, também a lógica comum das pessoas lhe dizia “Você é incrível na construção de empresas de internet, mas isso é tudo que você sabe já que nunca fez mais nada. Você tem mais de trinta anos agora e é tarde demais para fazer algo grande em um campo totalmente diferente. Este é o caminho que você escolheu: você é um cara da internet.”

Mas Musk voltou aos primeiros princípios. Ele olhou para dentro de sua Caixa de Desejos, e depois de refletir, concluiu que fazer outra coisa na internet não estava mais dentro dela. O que estava ali era seu desejo ainda ardente de ajudar o futuro da humanidade. Em particular, ele sentiu que para ter um futuro longo, a espécie humana teria que se tornar muito melhor em viagens espaciais.

Então ele começou a explorar os limites da sua Caixa de Realidade quando passou a se envolver com a indústria aeroespacial.

A sabedoria convencional gritava com toda força de seus pulmões para que ele parasse. Disse que ele não tinha nenhuma instrução formal no campo e que não sabia nada sobre ser um cientista de foguetes. Mas seu software lhe disse que a educação formal era apenas outra maneira de fazer o download de informações em seu cérebro – e “um download dolorosamente lento”. Então ele começou a ler, conhecer pessoas e a fazer perguntas.

A sabedoria convencional dizia que nenhum empreendedor jamais tivera sucesso num empreendimento como esse, e que ele não deveria arriscar seu dinheiro em algo tão improvável. Mas a filosofia declarada de Musk é: “quando algo é importante o suficiente, você o faz mesmo se as probabilidades não estiverem a seu favor”.

A sabedoria convencional dizia que ele não podia se dar ao luxo de construir foguetes porque eles eram muito caros. A mesma sabedoria convencional apontou para o fato de que ninguém jamais havia feito um foguete barato antes – mas, assim como os cientistas que não escutaram quem afirmava que a Terra tinha só seis mil anos e era plana, Musk começou a esmiuçar os números para fazer as contas ele mesmo. Veja como ele relata seus pensamentos nesta entrevista:

Historicamente, todos os foguetes têm sido caros. Por isso, no futuro, todos os foguetes serão caros. Mas na verdade isso não é verdade. Se você pergunta, “de que é feito um foguete?” A resposta é que um foguete é feito de alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono. E você então pode perguntar: “qual é o custo de matéria-prima de todos estes componentes?” E se você os tiver empilhados no chão e pudesse acenar uma varinha mágica para que o custo de rearranjar os átomos da matéria-prima desses componentes para transformá-los em alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono, para que o valor fosse zero, então qual seria o custo do foguete? E eu estava pensando, “ok, é realmente pouco, é só 2% do que um foguete custa”. Então claramente se trata de como os átomos da matéria prima são arranjados, de modo que você precisa descobrir como pode conseguir que os átomos fiquem com as formas corretas de forma mais eficiente. E assim tive uma série de reuniões aos sábados com pessoas, algumas das quais ainda estavam trabalhando nas grandes empresas aeroespaciais, apenas para tentar descobrir se havia algum problema nessa história que eu ainda não havia percebido. Mas não consegui encontrar nada que não tivesse percebido. Então comecei a SpaceX.

A história, a sabedoria convencional e seus amigos diziam uma coisa, mas seu próprio software, raciocinando com base nos primeiros princípios, dizia outra coisa – e ele confiava em seu software. Assim Musk começou SpaceX, novamente com seu próprio dinheiro, e mergulhou de cabeça no projeto. A missão: reduzir drasticamente o custo das viagens espaciais para tornar possível para a humanidade tornar-se multi-planetária.

TESLA E ALÉM

Dois anos mais tarde, enquanto administrava uma SpaceX em desenvolvimento, um amigo levou Elon a uma empresa chamada AC Propulsion, que criou um protótipo para um automóvel elétrico super-rápido e de longo alcance. Ele ficou impressionado. A Caixa de Realidade do software de Musk tinha lhe informado que tal coisa ainda não era possível, mas acontece que ele ainda não tinha conhecimento de como as baterias de lítio haviam avançado, e o que ele viu na AC Propulsion era nova informação sobre o mundo que colocou “começar uma empresa de carros elétricos” na sua Caixa de Realidade.

Ele novamente escutou a sabedoria convencional falar sobre os custos das baterias, da mesma forma que falou sobre os custos de foguetes. As baterias nunca tinham sido feitas de forma suficientemente barata para permitir um carro elétrico de grande porte e de longo alcance, porque o custo de fazer uma bateria era simplesmente muito alto. Ele usou a mesma lógica de primeiros princípios e uma calculadora para determinar que a maior parte do problema era o custo dos intermediários, não das matérias-primas, e decidiu que na verdade a sabedoria convencional estava errada e as baterias poderiam ser muito mais baratas no futuro. Então, ele co-fundou a TESLA com a missão de acelerar o advento de um veículo elétrico no mundo, primeiro investindo seus recursos para financiar a iniciativa, e mais tarde contribuindo com seu tempo e energia ao tornar-se CEO da empresa.

Dois anos depois, Musk co-fundou a SolarCity com seus primos, uma empresa cujo objetivo era revolucionar a produção de energia, permitindo a instalação de painéis solares em milhões de casas. Musk sabia que seu poder de tempo e energia (o único tipo de poder que tem limites rígidos, não importa quem você seja), estava quase todo esgotado, mas ele ainda tinha muitos outros recursos – então ele colocou-os para trabalhar em outro objetivo em sua Piscina de Metas.

Mais recentemente, Musk iniciou uma grande mudança em outra área que é importante para ele: a forma como as pessoas se transportam de cidade em cidade. Sua idéia é que deve haver um modo totalmente novo de transporte que conduziria pessoas por centenas de quilômetros transportando-as através de um tubo. Ele chama isso de Hyperloop. Para esse projeto, ele não está usando seu tempo, energia ou recursos. Em vez disso, apresentou seus pensamentos iniciais e criou uma competição para engenheiros apresentarem suas inovações, e assim Musk está utilizando seu poder de conexão e de persuasão para criar mudanças.

——-

Há várias empresas de tecnologia que criam softwares. Elas analisam exaustivamente, por anos, qual a melhor e mais eficiente maneira de fazer o seu produto. Musk vê as pessoas como computadores, e vê o software em seu cérebro como o produto mais importante que possui – e uma vez que não há empresas lá fora projetando software de cérebro, ele projetou o seu próprio, faz testes com versões beta a cada dia e realiza atualizações constantemente. É por isso que ele é tão escandalosamente eficaz, pode incomodar várias grandes indústrias ao mesmo tempo e consegue aprender tão rapidamente, planejar tão bem suas estratégias e visualizar o futuro com tanta clareza.

Essa parte do que Musk faz não é um grande mistério – é bom senso. Sua vida inteira funciona no software em sua cabeça – então por que você não ficaria obsecado com sua otimização?

E, porém, não só a maioria de nós não está obcecada com o seu próprio software – a maioria de nós nem sequer compreende o seu próprio software, como funciona ou porque funciona assim. Vamos tentar descobrir por quê.

[Nota do tradutor: na próxima parte, Tim Urban irá analisar como funciona a mente da maior parte das pessoas.]