Capa do artigo "O rock morreu, e Erasmo Carlos o sepultou", de Marcel Hz.

O rock morreu, e Erasmo Carlos o sepultou

Em Consciência, Música, Política por Marcel HorowitzComentário

Erasmo Car­los e Cae­tano Veloso se apre­sen­ta­ram na ocu­pa­ção do antigo pré­dio do MinC, no Rio de Janeiro. Mais do que cole­gas, sócios em um lucra­tivo negó­cio.

A breve extin­ção do Minis­té­rio da Cul­tura (MinC) ser­viu de força motriz para o iní­cio de uma série de espe­tá­cu­los por parte daque­les que se bene­fi­ciam dire­ta­mente da exis­tên­cia deste apa­re­lho esta­tal. Assis­ti­mos sem sur­presa às rei­vin­di­ca­ções de ato­res, músi­cos, escri­to­res e outros pro­fis­si­o­nais do ramo que enxer­ga­ram com maus olhos a fusão dos Minis­té­rios da Cul­tura e Edu­ca­ção, pro­mo­vida pelo já desa­cre­di­tado Governo Temer, e exi­gi­ram a con­ti­nui­dade daquilo que cha­mam de “polí­ti­cas cul­tu­rais”.

Até aí nada de novo. Somente a men­ção de qual­quer espé­cie de mudança na estru­tura do órgão res­pon­sá­vel pelos sub­sí­dios gover­na­men­tais à classe artís­tica foi o bas­tante para sus­ci­tar pro­tes­tos daque­les mais apa­ni­gua­dos pelo Estado, e nin­guém espe­rava que fosse dife­rente.

Porém, me vi espe­ci­al­mente decep­ci­o­nado — a nível pes­soal — com uma das demons­tra­ções ocor­ri­das na ocu­pa­ção da antiga cede do MinC no Rio de Janeiro: A apre­sen­ta­ção con­junta de Erasmo Car­los e Cae­tano Veloso.

A maes­tria com que Cae­tano se move no meio polí­tico não é de hoje. Seja apoi­ando as can­di­da­tu­ras de Mar­celo Freixo (PSOL) ou de Antô­nio Car­los Maga­lhães Neto (DEM) à pre­fei­tura de suas res­pec­ti­vas cida­des anos atrás, o autor do genial LPTransa”, de 1972, já demons­trou por diver­sas vezes que esque­ceu dos idos anos ses­senta – quando era acu­sado de “fan­to­che do impe­ri­a­lismo ian­que” pela esquerda e “agente de sub­ver­são”, pela direita.

Sem lado, nem ide­o­lo­gia, o filho de Dona Canô deixa evi­dente a astú­cia que o faz per­ma­ne­cer poli­ti­ca­mente influ­ente no pano­rama cul­tu­ral bra­si­leiro há tan­tos anos, assim como seus cole­gas Gil­berto Gil, Gal Costa, Dja­van, entre tan­tos outros. A meu ver, o pro­blema é no caso par­ti­cu­lar de Erasmo Car­los mesmo.

Admito que não passa de ino­cên­cia da minha parte demons­trar qual­quer sinal de sur­presa com as ações deste que, ao lado dos já cita­dos, inte­gra uma enti­dade polí­tico-cul­tu­ral nome­ada “Pro­cure Saber”, cri­ada quando da ten­ta­tiva de cen­su­rar o lan­ça­mento de bio­gra­fias não auto­ri­za­das, e que já mani­fes­tou o seu pare­cer ofi­cial sobre o caso em uma nota.

O que choca é a pos­tura sub­ser­vi­ente deste que, ao lado de Raul Sei­xas e Rita Lee, é um, sem dúvida, um dos pais do Rock naci­o­nal, gênero que pos­sui na sua essên­cia a ati­tude anti­con­for­mista e rebelde carac­te­rís­tica de sua ori­gem juve­nil e mar­gi­nal.

Tal­vez Erasmo Car­los esteja sim­ples­mente pres­tando uma home­na­gem a um de seus ído­los, Elvis Pres­ley, quando este se com­pro­me­teu em 1977 com o governo de Richard Nixon no auxí­lio de seus pro­gra­mas polí­ti­cos. Mesmo se for o caso, o Rock and Roll como mani­fes­ta­ção cul­tu­ral se torna um gênero ana­crô­nico uma vez que se posi­ci­one ao lado daque­les con­tra quem dire­ci­ona suas crí­ti­cas.

Seja qual for o par­tido que ocupe o poder, o Rock como sono­ri­dade traz con­sigo a carac­te­rís­tica básica de se posi­ci­o­nar sem­pre do lado oposto, mar­gi­nal, exer­cendo a fun­ção de ques­ti­o­nar todo e qual­quer padrão esta­be­le­cido como vigente.

O rock morreu, e Erasmo Carlos o sepultou | Raul Seixas vestindo camiseta com os dizeres "Vote nulo, não sustente parasitas!".

Em uma foto que cir­cula pela inter­net, Raul Sei­xas pode ser visto ves­tindo uma cami­seta com a frase “Vote nulo, não sus­tente para­si­tas”. Canek San­chez “Gue­vara”, neto de Che Gue­vara, exi­lou-se de Cuba após sofrer insis­tente per­se­gui­ção do governo ape­nas pelo fato de ser voca­lista em uma banda de rock. Nos Esta­dos Uni­dos, o rock e a con­tra­cul­tura de forma geral, assim como no Bra­sil, sofreu com a dura cen­sura gover­na­men­tal durante os anos 50, 60 e 70 por esti­mu­lar com­por­ta­men­tos “imo­rais” entre os jovens. Os Bea­tles foram deti­dos nas Fili­pi­nas por se posi­ci­o­na­rem con­tra a dinas­tia de Imelda Mar­cos. No Irã, o rock e o pop são gêne­ros musi­cais proi­bi­dos pelo Estado desde a cha­mada revo­lu­ção cul­tu­ral, no final dos anos 1970. Na Ale­ma­nha Ori­en­tal, a Stasi per­se­guiu o movi­mento punk por julgá-lo uma ame­aça à ordem naci­o­nal.

O Rock, mais do que um estilo de música, é uma ati­tude de mani­festa inde­pen­dên­cia, o “faça você mesmo”, que inde­pende da apro­va­ção ou da ajuda de qual­quer tipo de governo, uma vez que sua his­tó­ria demons­tra os male­fí­cios sofri­dos pela cen­sura imposta por par­ti­dos das mais vari­a­das ver­ten­tes ide­o­ló­gi­cas, em dife­ren­tes paí­ses.

Assis­tir Erasmo Car­los uti­li­zando a sua música como fer­ra­menta em defesa da exis­tên­cia de um minis­té­rio é, para mim, uma decep­ção. Erasmo sabe como um governo pode pre­ju­di­car a pro­du­ção artís­tica de um país, pois viveu, e can­tou, durante os anos de dita­dura mili­tar no Bra­sil.

Naquele tempo, teve até uma de suas música, “Maria Juana”, impe­dida por lei de ser exe­cu­tada nas rádios. Deve­ria tam­bém ter conhe­ci­mento, por­tanto, que se o Estado sub­si­dia a cul­tura de um país, este não é movido somente por um impulso altruísta de dis­se­mi­nar a arte e o conhe­ci­mento de maneira aces­sí­vel, e sim por inte­resse pró­prio daque­les que domi­nam a esfera do poder público local, cons­ti­tuindo uma elite polí­tica.

Para aque­les que, como eu, cres­ce­ram influ­en­ci­a­dos por dis­cos como “Car­los, Erasmo” (1971) e “Pro­jeto Salva Terra” (1974), obser­var o ati­vismo mili­tante de um dos pila­res do Rock bra­zuca em nome de um minis­té­rio que o bene­fi­cia — há anos, diga-se de pas­sa­gem – parece, no mínimo, inco­e­rente com a his­tó­ria do artista e o estilo musi­cal que este repre­senta.

Se os roquei­ros bra­si­lei­ros se colo­cam em con­tra­di­ção em rela­ção às ori­gens da música que tocam — e até mesmo da pró­pria arte como forma livre de expres­são cri­a­tiva — ao defen­der medi­das gover­nis­tas, ao menos nos dão um enten­di­mento melhor de como fun­ci­ona a men­ta­li­dade de seu público em geral. Quando os agen­tes que for­mam a cul­tura de um país estão em posi­ção de depen­dên­cia das medi­das de um governo atu­ante, é impos­sí­vel que haja qual­quer liber­dade em rela­ção à sua pró­pria cri­a­ção e, con­se­quen­te­mente, pas­sam ide­ais de ser­vi­dão para a sua pla­teia, ao invés de liber­dade.

Longe dos prin­ci­pais repre­sen­tan­tes da classe artís­tica atu­a­rem de forma inde­pen­dente em rela­ção a um governo/partido, estes não ape­nas se mos­tram atu­an­tes no seu suporte como dis­se­mi­nam a men­ta­li­dade de eterna depen­dên­cia da arte em rela­ção ao poder público. Erasmo Car­los não passa mais a men­sa­gem de rebel­dia que ento­ava em seus idos vinte e pou­cos anos de idade, mas, pelo con­trá­rio, esti­mula a ideia do artista como fun­ci­o­ná­rio público, patente de ser sus­ten­tado por polí­ti­cas esta­tais.

Todas as ini­ci­a­ti­vas pro­ve­ni­en­tes do Minis­té­rio da Cul­tura ates­tam a sua ine­fi­ci­ên­cia. Se o obje­tivo ini­cial desta pasta era pos­si­bi­li­tar o acesso e a maior dis­se­mi­na­ção dos meca­nis­mos de cul­tura no Bra­sil, esta só con­se­guiu eli­ti­zar pro­gres­si­va­mente qual­quer mani­fes­ta­ção artís­tica sur­gida desde sua exis­tên­cia.

Basta olhar­mos à nossa volta, não ape­nas para aque­les artis­tas e pro­je­tos que foram agra­ci­a­dos com o aval da mão pater­nal e sub­si­diá­ria do MinC, mas para a situ­a­ção do qua­dro cul­tu­ral de nosso país em ter­mos gerais. A cul­tura tor­nou-se um bem caro de ser pro­du­zido e con­su­mido e sua afluên­cia é cada vez mais res­trita às for­mas de atu­a­ção polí­tico-gover­na­men­tais.

O Rock, assim como qual­quer expres­são artís­tica, seja ela musi­cal, cênica ou lite­rá­ria, é um pro­cesso inde­pen­dente do aval de qual­quer governo ou pes­soa. As dife­ren­tes for­mas de arte têm o dever essen­cial de se mani­fes­tar de maneira impo­si­tiva a qual­quer espé­cie de res­tri­ção e só pode­rão aumen­tar o seu raio de abran­gên­cia quando forem fei­tas do povo e para o povo, ori­gi­na­das de maneira orgâ­nica e sem qual­quer tipo de inter­ven­ção.

Caso o con­trá­rio não será mais arte e sim um mero ins­tru­mento de divul­ga­ção de pro­pa­ganda polí­tica e par­ti­dá­ria, como no caso de Erasmo Car­los que trans­for­mou seu ver­da­deiro Rock and Roll em uma espé­cie de Rock Gover­nista, gênero que é um sucesso cada vez maior em nosso país.


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Estudante de jornalismo contra os estudantes de jornalismo em geral. Músico com especialidade em milonga e tango, que só terá seu talento reconhecido após a morte.

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