Erasmo Carlos e Caetano Veloso se apresentaram na ocupação do antigo prédio do MinC, no Rio de Janeiro. Mais do que colegas, sócios em um lucrativo negócio.

A breve extinção do Ministério da Cultura (MinC) serviu de força motriz para o início de uma série de espetáculos por parte daqueles que se beneficiam diretamente da existência deste aparelho estatal. Assistimos sem surpresa às reivindicações de atores, músicos, escritores e outros profissionais do ramo que enxergaram com maus olhos a fusão dos Ministérios da Cultura e Educação, promovida pelo já desacreditado Governo Temer, e exigiram a continuidade daquilo que chamam de “políticas culturais”.

Até aí nada de novo. Somente a menção de qualquer espécie de mudança na estrutura do órgão responsável pelos subsídios governamentais à classe artística foi o bastante para suscitar protestos daqueles mais apaniguados pelo Estado, e ninguém esperava que fosse diferente.

Porém, me vi especialmente decepcionado – a nível pessoal – com uma das demonstrações ocorridas na ocupação da antiga cede do MinC no Rio de Janeiro: A apresentação conjunta de Erasmo Carlos e Caetano Veloso.

A maestria com que Caetano se move no meio político não é de hoje. Seja apoiando as candidaturas de Marcelo Freixo (PSOL) ou de Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM) à prefeitura de suas respectivas cidades anos atrás, o autor do genial LP “Transa”, de 1972, já demonstrou por diversas vezes que esqueceu dos idos anos sessenta – quando era acusado de “fantoche do imperialismo ianque” pela esquerda e “agente de subversão”, pela direita.

Sem lado, nem ideologia, o filho de Dona Canô deixa evidente a astúcia que o faz permanecer politicamente influente no panorama cultural brasileiro há tantos anos, assim como seus colegas Gilberto Gil, Gal Costa, Djavan, entre tantos outros. A meu ver, o problema é no caso particular de Erasmo Carlos mesmo.

Admito que não passa de inocência da minha parte demonstrar qualquer sinal de surpresa com as ações deste que, ao lado dos já citados, integra uma entidade político-cultural nomeada “Procure Saber”, criada quando da tentativa de censurar o lançamento de biografias não autorizadas, e que já manifestou o seu parecer oficial sobre o caso em uma nota.

O que choca é a postura subserviente deste que, ao lado de Raul Seixas e Rita Lee, é um, sem dúvida, um dos pais do Rock nacional, gênero que possui na sua essência a atitude anticonformista e rebelde característica de sua origem juvenil e marginal.

Talvez Erasmo Carlos esteja simplesmente prestando uma homenagem a um de seus ídolos, Elvis Presley, quando este se comprometeu em 1977 com o governo de Richard Nixon no auxílio de seus programas políticos. Mesmo se for o caso, o Rock and Roll como manifestação cultural se torna um gênero anacrônico uma vez que se posicione ao lado daqueles contra quem direciona suas críticas.

Seja qual for o partido que ocupe o poder, o Rock como sonoridade traz consigo a característica básica de se posicionar sempre do lado oposto, marginal, exercendo a função de questionar todo e qualquer padrão estabelecido como vigente.

O rock morreu, e Erasmo Carlos o sepultou | Raul Seixas vestindo camiseta com os dizeres "Vote nulo, não sustente parasitas!".

Em uma foto que circula pela internet, Raul Seixas pode ser visto vestindo uma camiseta com a frase “Vote nulo, não sustente parasitas”. Canek Sanchez “Guevara”, neto de Che Guevara, exilou-se de Cuba após sofrer insistente perseguição do governo apenas pelo fato de ser vocalista em uma banda de rock. Nos Estados Unidos, o rock e a contracultura de forma geral, assim como no Brasil, sofreu com a dura censura governamental durante os anos 50, 60 e 70 por estimular comportamentos “imorais” entre os jovens. Os Beatles foram detidos nas Filipinas por se posicionarem contra a dinastia de Imelda Marcos. No Irã, o rock e o pop são gêneros musicais proibidos pelo Estado desde a chamada revolução cultural, no final dos anos 1970. Na Alemanha Oriental, a Stasi perseguiu o movimento punk por julgá-lo uma ameaça à ordem nacional.

O Rock, mais do que um estilo de música, é uma atitude de manifesta independência, o “faça você mesmo”, que independe da aprovação ou da ajuda de qualquer tipo de governo, uma vez que sua história demonstra os malefícios sofridos pela censura imposta por partidos das mais variadas vertentes ideológicas, em diferentes países.

Assistir Erasmo Carlos utilizando a sua música como ferramenta em defesa da existência de um ministério é, para mim, uma decepção. Erasmo sabe como um governo pode prejudicar a produção artística de um país, pois viveu, e cantou, durante os anos de ditadura militar no Brasil.

Naquele tempo, teve até uma de suas música, “Maria Juana”, impedida por lei de ser executada nas rádios. Deveria também ter conhecimento, portanto, que se o Estado subsidia a cultura de um país, este não é movido somente por um impulso altruísta de disseminar a arte e o conhecimento de maneira acessível, e sim por interesse próprio daqueles que dominam a esfera do poder público local, constituindo uma elite política.

Para aqueles que, como eu, cresceram influenciados por discos como “Carlos, Erasmo” (1971) e “Projeto Salva Terra” (1974), observar o ativismo militante de um dos pilares do Rock brazuca em nome de um ministério que o beneficia – há anos, diga-se de passagem – parece, no mínimo, incoerente com a história do artista e o estilo musical que este representa.

Se os roqueiros brasileiros se colocam em contradição em relação às origens da música que tocam – e até mesmo da própria arte como forma livre de expressão criativa – ao defender medidas governistas, ao menos nos dão um entendimento melhor de como funciona a mentalidade de seu público em geral. Quando os agentes que formam a cultura de um país estão em posição de dependência das medidas de um governo atuante, é impossível que haja qualquer liberdade em relação à sua própria criação e, consequentemente, passam ideais de servidão para a sua plateia, ao invés de liberdade.

Longe dos principais representantes da classe artística atuarem de forma independente em relação a um governo/partido, estes não apenas se mostram atuantes no seu suporte como disseminam a mentalidade de eterna dependência da arte em relação ao poder público. Erasmo Carlos não passa mais a mensagem de rebeldia que entoava em seus idos vinte e poucos anos de idade, mas, pelo contrário, estimula a ideia do artista como funcionário público, patente de ser sustentado por políticas estatais.

Todas as iniciativas provenientes do Ministério da Cultura atestam a sua ineficiência. Se o objetivo inicial desta pasta era possibilitar o acesso e a maior disseminação dos mecanismos de cultura no Brasil, esta só conseguiu elitizar progressivamente qualquer manifestação artística surgida desde sua existência.

Basta olharmos à nossa volta, não apenas para aqueles artistas e projetos que foram agraciados com o aval da mão paternal e subsidiária do MinC, mas para a situação do quadro cultural de nosso país em termos gerais. A cultura tornou-se um bem caro de ser produzido e consumido e sua afluência é cada vez mais restrita às formas de atuação político-governamentais.

O Rock, assim como qualquer expressão artística, seja ela musical, cênica ou literária, é um processo independente do aval de qualquer governo ou pessoa. As diferentes formas de arte têm o dever essencial de se manifestar de maneira impositiva a qualquer espécie de restrição e só poderão aumentar o seu raio de abrangência quando forem feitas do povo e para o povo, originadas de maneira orgânica e sem qualquer tipo de intervenção.

Caso o contrário não será mais arte e sim um mero instrumento de divulgação de propaganda política e partidária, como no caso de Erasmo Carlos que transformou seu verdadeiro Rock and Roll em uma espécie de Rock Governista, gênero que é um sucesso cada vez maior em nosso país.


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escrito por:

Marcel Horowitz

Estudante de jornalismo contra os estudantes de jornalismo em geral. Músico com especialidade em milonga e tango, que só terá seu talento reconhecido após a morte.