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O que é o Ano Zero?

Em Consciência, Sociedade por Victor LisboaComentário

Não se trata de mudar o mundo, mas de reco­nhe­cer que a mudança já come­çou.

O ano “zero” não existe em nosso calen­dá­rio gre­go­ri­ano. O ano 1 Antes de Cristo foi ime­di­a­ta­mente seguido do ano 1 Depois de Cristo. O ano “0”, o momento inter­me­diá­rio entre a tra­di­ção pré-cristã e o que se con­ven­ci­o­nou cha­mar de “Anno Domini”, per­ma­nece como um período de tempo mera­mente con­cei­tual, que marca o momento em que a huma­ni­dade viven­cia uma trans­for­ma­ção sig­ni­fi­ca­tiva.

E, neste exato momento da his­tó­ria, esta­mos pas­sando por outro pro­cesso de mudança pro­funda do mundo e da pró­pria con­cep­ção de ser humano. Esse pro­cesso é ine­xo­rá­vel, pois já foi ini­ci­ado pelo pro­gresso dos meios de comu­ni­ca­ção, pela der­ro­cada dos emba­tes ide­o­ló­gi­cos do século XX e pelo desen­vol­vi­mento da alta tec­no­lo­gia. Por isso e cada vez mais o ama­nhã começa agora, e não se trata de que­rer mudar o mundo, mas sim de ten­tar­mos cole­ti­va­mente ori­en­tar uma mudança que já está acon­te­cendo. Mas se essa mudança trará prin­ci­pal­mente bene­fí­cios ou infor­tú­nios para a raça humana, trata-se de algo que depende da nossa capa­ci­dade de com­pre­en­der ple­na­mente a exata natu­reza dessa trans­for­ma­ção, para que pos­sa­mos, ao menos em parte, con­tro­lar os seus rumos e seu ritmo.

O pro­jeto Ano Zero pre­tende criar um espaço não só de refle­xão e dis­cus­são, mas de efe­tiva imple­men­ta­ção de algu­mas mudan­ças neces­sá­rias para que as trans­for­ma­ções do mundo e da huma­ni­dade ocor­ram não de forma des­con­tro­lada e caó­tica, mas com cons­ci­ên­cia e con­trole. Em jogo, está a feli­ci­dade pes­soal de cada um de nós e a sobre­vi­vên­cia da huma­ni­dade.

Con­si­de­rando essa pro­posta, o AZ baseia-se em três prin­cí­pios. Pri­meiro, ao invés de bus­car­mos um mundo “melhor”, busca-se um mundo em evo­lu­ção. Segundo, essa evo­lu­ção depende do apri­mo­ra­mento pes­soal de cada um, de modo que todo ser humano pro­cure tor­nar-se a melhor ver­são de si mesmo. Por fim, atra­vés dessa evo­lu­ção pes­soal, desen­vol­ve­re­mos a cons­ci­ên­cia cole­tiva neces­sá­ria para con­tro­lar­mos os rumos da trans­for­ma­ção que já se opera atu­al­mente.

 

1 — Ao invés de revolução, evolução.

 

Quando fala­mos em um mundo “melhor”, cada um de nós tem uma opi­nião dife­rente, con­forme sua con­cep­ção sobre o que é certo ou errado, “bem” e “mal”. Hitler e Mao aspi­ra­vam a um mundo “melhor”, segundo seu pró­prio ponto de vista. Ciente disso, Ano Zero é um pro­jeto que pre­fere tomar empres­tado da bio­lo­gia o con­ceito de “evo­lu­ção”: um mundo mais evo­luído é um mundo adap­tado aos desa­fios que se apre­sen­tam, um mundo efi­ci­ente em lidar com seus pro­ble­mas.

Mas qual a dife­rença efe­tiva em subs­ti­tuir “mundo melhor” por “mundo em evo­lu­ção”? Em pri­meiro lugar, sob esse último enfo­que, teo­rias sobre como as coi­sas são e devem ser (os “ismos”) têm uma impor­tân­cia ape­nas rela­tiva, pois o que importa é o que fun­ci­ona na prá­tica, o que pro­duz efei­tos com­pro­va­dos. Nossa pro­posta é ana­li­sar as trans­for­ma­ções soci­ais com pen­sa­mento com­plexo (a “raposa” de Tols­toi) e diá­logo não-vio­lento (sem demo­ni­zar adver­sá­rios, bus­cando com­pre­endê-los para além da retó­rica, focando nas suas moti­va­ções tam­bém emo­ci­o­nais).

Em segundo lugar, a soci­e­dade não será apri­mo­rada pela des­trui­ção das atu­ais estru­tu­ras soci­ais e sua subs­ti­tui­ção por estru­tu­ras ide­a­li­za­das, e sim pelo apri­mo­ra­mento das estru­tu­ras já exis­ten­tes. A expe­ri­ên­cia his­tó­rica demons­tra que revo­lu­ções, por melhor que sejam as aspi­ra­ções dos revo­lu­ci­o­ná­rios, criam uma etapa de caos na qual ape­nas os pio­res ele­men­tos, aque­les pre­dis­pos­tos à vio­lên­cia e con­du­zi­dos ape­nas pelo desejo de poder, pre­do­mi­nam.

O que torna um edi­fí­cio um pre­sí­dio, ao invés de um lar, não são suas pare­des e muros, mas a inten­ci­o­na­li­dade daque­les que lá tra­ba­lham e vivem. As ins­ti­tui­ções e estru­tu­ras soci­ais exis­ten­tes, como qual­quer fer­ra­menta, são moral­mente neu­tras, e acre­di­tar que a des­trui­ção de suas pare­des e muros solu­ci­o­nará as maze­las soci­ais é ape­nas criar novas pri­sões ali adi­ante. A ver­da­deira mudança do mundo ocorre com a trans­for­ma­ção da inten­ci­o­na­li­dade dos seres huma­nos por trás des­sas ins­ti­tui­ções e estru­tu­ras soci­ais.

 

2 — Torne-se a melhor versão de você mesmo.

 

E como imple­men­tar na prá­tica um pro­jeto de evo­lu­ção do mundo atra­vés do apri­mo­ra­mento estru­tu­ras soci­ais? Trans­for­mando os seres huma­nos que inte­gram essas estru­tu­ras, medi­ante a evo­lu­ção da cons­ci­ên­cia na busca da nossa rea­li­za­ção pes­soal, res­pei­tada a indi­vi­du­a­li­dade e os sonhos de cada um.

Aqui sim, a expres­são “melhor” pode ser uti­li­zada, pois cada um de nós tem uma per­so­na­li­dade pró­pria e um pro­jeto par­ti­cu­lar de vida. Não faz sen­tido mirar­mos em um só ideal de ser humano e não há razão para nos com­pa­rar­mos mutu­a­mente. Cada um de nós deve ten­tar ser a melhor ver­são de si mesmo, aquela ver­são que se apro­xima de seus sonhos sobre quem gos­ta­ria de ser, o que deseja fazer de sua vida e o que ambi­ci­ona con­quis­tar.

Mas mesmo o que que­re­mos ser, ter e fazer não são noções que nas­cem pron­tas: são o resul­tado de um pro­cesso cons­tante de apren­di­zado sobre si mesmo. E quanto ao apren­di­zado, os pro­fes­so­res são os pro­fis­si­o­nais mais impor­tan­tes da soci­e­dade, mas nosso sis­tema edu­ca­ci­o­nal está dete­ri­o­rado e obso­leto diante das trans­for­ma­ções do mundo moderno. Já as famí­lias, que têm uma par­ti­ci­pa­ção fun­da­men­tal na for­ma­ção do indi­ví­duo, não con­se­guem pre­pa­rar-nos para os reais desa­fios da vida atual.

Diante desse pano­rama, a pro­posta de Ano Zero é apren­der­mos cole­ti­va­mente o que deve­ria ter sido ensi­nado já na infân­cia, caso nosso sis­tema edu­ca­ci­o­nal e estru­tura fami­liar esti­ves­sem sin­to­ni­za­dos com o com­plexo mundo de hoje em dia: como desen­vol­ver a auto­cons­ci­ên­cia, como cons­truir rela­ci­o­na­men­tos sau­dá­veis, como com­pre­en­der juri­di­ca­mente a cida­da­nia, como auto­ge­rir-se finan­cei­ra­mente e empre­en­der, como fil­trar o excesso de infor­ma­ções e outras dis­ci­pli­nas que deve­riam estar incluí­das, ao menos de forma opta­tiva, na grade cur­ri­cu­lar de um sis­tema edu­ca­ci­o­nal ade­quado à com­ple­xi­dade de nossa soci­e­dade. Nesse tópico, o Ano Zero tem uma agenda ambi­ci­osa e muito além da inter­net, mas que depende do pro­gres­sivo desen­vol­vi­mento de nos­sas ati­vi­da­des.

 

3 — A formação da consciência coletiva.

 

O cerne da mudança que está se ope­rando no mundo é fun­da­men­tal­mente prá­tico e con­creto: em essên­cia, o desen­vol­vi­mento da tec­no­lo­gia e da ciên­cia apli­cada está por trás da radi­cal alte­ra­ção em nossa con­cep­ção de mundo e de ser humano.

Neste momento, como quem per­ma­nece na crista de uma onda sem per­ce­ber seu tama­nho, não temos uma ade­quada noção das trans­for­ma­ções que a tec­no­lo­gia está pro­du­zindo em toda a huma­ni­dade. Esta­mos conec­ta­dos em redes de comu­ni­ca­ção durante quase todo o tempo em que per­ma­ne­ce­mos des­per­tos, e em breve a inter­net se des­vin­cu­lará de com­pu­ta­do­res e celu­la­res e estará inte­grada em todo ambi­ente cir­cun­dante — é a ubi­qui­dade da conec­ti­vi­dade, a inter­co­ne­xão cons­tante entre nos­sas nar­ra­ti­vas indi­vi­du­ais.

O sonho do visi­o­ná­rio Tei­lhard de Char­din está, de uma forma que ele pró­prio mal sus­pei­tava, se rea­li­zando: a cri­a­ção da noos­fera, ou seja, da cons­ci­ên­cia cole­tiva que unirá a todos nós e impli­cará na for­ma­ção da cons­ci­ên­cia uni­ver­sal de toda a bios­fera ter­res­tre. 

Para Char­din, no atual está­gio da his­tó­ria humana, esta­ría­mos trans­pondo o limiar de uma época em que ocor­rerá a uni­fi­ca­ção de nos­sas cons­ci­ên­cias por meio da tec­no­lo­gia. Ele con­si­de­rava que a nova tec­no­lo­gia estava cri­ando um “sis­tema ner­voso” para a huma­ni­dade, uma mem­brana reti­cu­lar sobre a Terra, ini­ci­ando a era da civi­li­za­ção uni­fi­cada. Suas pre­vi­sões têm se con­cre­ti­zado nas últi­mas déca­das, mas esse pro­cesso parece, iro­ni­ca­mente, estar sendo con­du­zido de forma incons­ci­ente pela huma­ni­dade.

Além disso, a nano­tec­no­lo­gia, a bio­tec­no­lo­gia e o desen­vol­vi­mento da inte­li­gên­cia arti­fi­cial escan­ca­ram as por­tas daquilo que antes era ape­nas um delí­rio, mas que a cada dia se torna uma rea­li­dade con­creta: o tran­su­ma­nismo, a apli­ca­ção das des­co­ber­tas cien­tí­fi­cas e da tec­no­lo­gia a fim de supe­rar­mos as atu­ais limi­ta­ções huma­nas. Nova­mente, é pos­sí­vel que esse pro­cesso ocorra sem que per­ce­ba­mos todas as suas impli­ca­ções, ris­cos e bene­fí­cios. O pro­jeto AZ pre­tende ser tam­bém um espaço de refle­xão cui­da­dosa e crí­tica a res­peito des­ses temas. 


Essa pers­pec­tiva é ambi­ci­osa, e esta­mos ape­nas na etapa embri­o­ná­ria de nosso pro­jeto. Embora o AZ pareça atu­al­mente ser só um por­tal na inter­net, esse por­tal é o movi­mento ini­cial, neces­sá­rio para a obten­ção do suporte mate­rial e finan­ceiro des­ti­nado à imple­men­ta­ção dos outros pro­je­tos sobre os quais, ao menos por enquanto, pre­fe­ri­mos ape­nas men­ci­o­nar as siglas: CAZEAZ.

Se você ficou inte­res­sado no AZ, pode acom­pa­nhar nosso pro­jeto assi­nando a nossa news­let­ter, cur­tindo nossa página no Face­book, con­tri­buindo com a manu­ten­ção do nosso site (os anún­cios do Goo­gle não cobrem todos os gas­tos) e, prin­ci­pal­mente, sendo cola­bo­ra­dor do pro­jeto AZ. E como ser um cola­bo­ra­dor? Entre em con­tato conosco!

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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