Sentamos em silêncio. Minha amiga olhou profundamente para seu copo vazio, mexendo o gelo com seu canudo. “Uau “, disse ela. Eu sento e espero que ela diga mais alguma coisa. O que começou como uma noite festiva, de alguma forma se tornou uma longa discussão profunda sobre o amor, o que ele é e como é algo raro.

Então, finalmente, eu digo : “Uau, o quê?”

“Eu só estou pensando que eu nunca experimentei isso.”

“Bem, talvez você apenas ainda não tenha encontrado a pessoa certa”, digo – a coisa mais clichê e que todo amigo diz nesta situação.

“Não”, ela diz. “Quero dizer, eu nunca tinha experimentado isso com ninguém. Meus pais, minha família, até mesmo a maioria dos meus amigos.” Ela olha para mim, com os olhos vidrados e molhados: “talvez eu não saiba o que é o amor”.


Quando você é um adolescente, ser “popular” é como fazer negócio. Você acumula tanta popularidade quanto possível e, em seguida, encontra outras crianças com mais popularidade e você negocia com elas compartilhando essa popularidade para fazer uns aos outros ainda mais populares.

E se em algum momento você cruza com uma criança muito menos popular do que você, você diz pro babaca ir se ferrar e parar de ser um perdedor, pois ser amigo de um babaca significaria diminuir sua popularidade – afinal, as outras crianças populares podem vê-lo, e vão comentar entre si sobre isso.

O saldo de sua popularidade determina o nível de procura por um relacionamento com você. Se você for péssimo em esportes, e esportes são populares, em seguida haverá menos demanda por sua amizade. Se você é incrível em tocar violão, e violões são populares, então o seu estoque de popularidade vai subir de forma adequada e as pessoas vão gostar de você novamente. Desta forma, o ensino médio é uma corrida armamentista constante para cultivar tanta popularidade quanto for possível.

A maior parte das besteiras que esses adolescentes pensam é resultado desse “mercado” de popularidade. Eles fodem com a própria cabeça e se gabam de merdas que eles não fazem. Eles pensam que amam as pessoas que na verdade odeiam e pensam que odeiam as pessoas que realmente amam, simplesmente porque essas coisas os fazem parecer mais populares do que são, e isso os traz mais seguidores no Snapchat e uns amassos na formatura.

(amor) Relações condicionais são todas fumaça e espelhos onde você nunca realmente sabe quem é a outra pessoa.
Relações condicionais são feitas de fumaça e espelhos, em que você nunca realmente sabe quem é a outra pessoa.

Essas amizades de ensino médio são condicionadas pela natureza. São relações do tipo: “eu faço isso pra você se você fizer isso pra mim”. São aquelas amizades em que a mesma pessoa que num ano é seu melhor amigo porque você gosta do mesmo DJ que ela no ano seguinte é o seu pior inimigo, porque eles tiraram sarro de você na aula de biologia.

Essas relações são inconstantes. E superficiais. E altamente dramáticas. E essa é a razão de ninguém sentir falta ou querer voltar ao ensino médio.

E isso é bom. A negociação no mercado da popularidade faz parte de crescer e descobrir quem você é. Você tem que participar de todas essas besteiras, a fim de superar isso e aprender.

Porque, em algum momento, você vai ultrapassar essa forma “toma lá/dá cá” de viver a vida. Você começa a apreciar as pessoas apenas pelo que elas são, não porque jogam futebol ou usam a mesma marca de papel higiênico que você.

Mas nem todo mundo supera essas relações condicionais. Muitas pessoas, por qualquer motivo, ficam presas no mercado da popularidade e continuam a jogar esse jogo mesmo depois de adultas. A manipulação se torna mais sofisticada, mas os mesmos jogos estão lá. Elas nunca abandonam a crença de que o amor e a aceitação estão condicionados a algum benefício que propiciam às outras pessoas, a alguns requisitos que precisam preencher.

O problema com as relações condicionais é que elas, por natureza, priorizam algo acima do relacionamento. Portanto, não é você que realmente me interessa, mas sim o seu acesso às pessoas do mundo da música. Ou não é realmente eu que te interesso, mas meu rosto extraordinariamente bonito e meus fãs virtuais (eu sei, eu sei – tá OK).

Essas relações condicionais podem realmente chegar a um nível emocional fodido. Porque a decisão de buscar a popularidade não acontece por acaso. Buscamos a popularidade porque nos sentimos uns merdas e precisamos desesperadamente nos sentir de outra forma.

(amor) Relações condicionais, muitas vezes, fazem com que você sinta algo por uma pessoa, mas a mostrando algo completamente diferente.
Relações condicionais, muitas vezes, fazem com que você sinta algo por uma pessoa, mas a mostrando algo completamente diferente.

Portanto, não é realmente você que me interessa, mas sim usar você para me fazer sentir bem comigo mesmo. Talvez eu esteja sempre tentando lhe poupar ou corrigir os seus problemas ou proporcionar coisas para você ou impressioná-lo de alguma forma. Talvez eu esteja usando você para ter sexo, dinheiro ou para impressionar os meus amigos. Talvez você esteja me usando para ter sexo, e isso me faz sentir bem, porque pela primeira vez eu me sinto querido e visto.

Imagine do jeito que você quiser, mas no final do dia tudo segue sendo o mesmo. Esses são os relacionamentos construídos condicionalmente. Eles são construídos com: “Eu vou te amar somente se você fizer eu me sentir bem comigo mesmo; você vai me amar apenas se eu fizer você se sentir bem consigo mesmo.”

Relações condicionais são inerentemente egoístas. Quando eu me preocupo com o seu dinheiro mais do que com você, então realmente tudo o que estou tendo é um relacionamento com esse dinheiro. Se você se preocupa com o sucesso da carreira da sua parceira mais do que com ela, então você realmente não tem um relacionamento com ela, só com a sua carreira. Se a sua mãe só cuida de você e te ensina que não é bom beber muito porque isso faz ela se sentir melhor sobre si mesma enquanto mãe, então ela realmente não tem um relacionamento com você – ela tem um relacionamento com o sentir-se bem sobre si mesma enquanto mãe.

Quando nossos relacionamentos são condicionais, nós não temos relações verdadeiras.

Nós nos apegamos aos objetos superficiais e ideias e depois tentamos vivê-los indiretamente através das pessoas que nos aproximam disso. Essas relações condicionais, em seguida, nos tornam ainda mais solitários porque nenhuma conexão real está sempre sendo feita.

Relações condicionais podem nos acostumar a sermos tratados mal. Afinal, se eu estou namorando alguém porque ela tem um corpo sarado que impressiona todos os meus amigos de cara, então eu sou mais propenso a me permitir ser tratado como lixo por ela, porque, afinal, eu não estou com ela pelo jeito que ela me trata, eu estou com ela para impressionar os outros.

Relações condicionais não duram porque as condições em que são baseadas nunca duram. E quando as condições se vão, é como se um tapete fosse puxado debaixo de você – as duas pessoas envolvidas vão cair e se machucar e você nunca perceberá isso chegando.

Esta natureza transitória das relações condicionais geralmente é algo que as pessoas só podem perceber com a passagem de uma quantidade suficiente de tempo. Adolescentes são jovens e estão apenas descobrindo suas identidades, por isso faz sentido estarem constantemente obcecados com a forma como eles são vistos pelos outros. Mas, com o passar dos anos, a maioria das pessoas percebem que poucas pessoas permanecem em suas vidas. E provavelmente há uma razão para isso.

Como a maioria das pessoas mais velhas, a maioria desses jovens então passará a priorizar relacionamentos incondicionais – relacionamentos onde cada pessoa é aceita incondicionalmente como ele ou ela é, sem expectativas adicionais. Isso é chamado de “idade adulta” e é uma terra mística que poucas pessoas, independentemente da sua idade, já viram, e menos ainda habitam.

O truque para “crescer” é priorizar relacionamentos incondicionais, para aprender a apreciar alguém apesar de suas falhas, erros, ideias furadas, e julgar um parceiro ou um amigo apenas com base em como eles tratam você, e não com base em como você se beneficia a partir deles, para finalmente vê-los como um fim em si mesmos, em vez de um meio para outro fim.

Relacionamentos incondicionais são relações em que ambas as pessoas respeitam e apoiam uma a outra sem qualquer expectativa de algo em troca. Dito de outra forma, cada pessoa no relacionamento é valorizada principalmente pelo seu papel no próprio relacionamento – a empatia e apoio mútuos – não pelo seu trabalho, status, aparência, sucesso ou qualquer outra coisa.

Relacionamentos incondicionais são os únicos relacionamentos reais. Eles não são abalados pelos altos e baixos da vida. Eles não são alterados pelos benefícios superficiais e nem por falhas. Se você e eu temos uma amizade incondicional, não importa se eu perder o meu emprego, se me mudar para outro país, ou você mudar de sexo e começar a tocar cavaquinho; você e eu vamos continuar a nos respeitar e apoiar um ao outro. A relação não é submetida ao mercado da popularidade, onde eu deixaria você no mesmo instante em que isso afetasse minhas chances de impressionar os outros. E eu definitivamente não daria bola se você optasse por fazer algo com sua vida que eu não faria com a minha.

Pessoas com relações condicionais nunca aprenderam a ver as pessoas ao seu redor em termos de outra coisa senão os benefícios que elas proporcionam. Isso porque elas provavelmente cresceram em um ambiente onde só foram apreciadas pelos benefícios que elas forneciam.

Os pais, como de costume, são muitas vezes os culpados aqui. Mas a maioria dos pais não são conscientemente “condicionais” em relação as filhos (na verdade, as chances são de que eles nunca tenham sido amados incondicionalmente por seus pais, então eles estão apenas reproduzindo o que aprenderam a fazer). Mas, como em todas as práticas de relacionamento, isso começa na família.

Se o seu pai só aprovava você quando você obedecia suas ordens, se sua mãe só gostava de você quando tirava boas notas, se seu irmão só foi legal com você quando ninguém mais estava por perto… todas essas coisas treinam você para tratar a si mesmo, inconscientemente, como se fosse uma ferramenta para os benefícios de outras pessoas. Você então construirá seus futuros relacionamentos moldando a si mesmo para atender às necessidades de outras pessoas. Não as suas próprias necessidades. Você também vai construir seus relacionamentos manipulando outros para atender às suas necessidades, em vez de você mesmo cuidar disso. Esta é a base para um relacionamento tóxico.

As condições vêm de ambos os sentidos. Você não fica amigo de uma pessoa que está usando você para se sentir melhor sobre si mesmo, a menos que você também esteja de alguma forma obtendo algum benefício com essa amizade. Apesar do que toda menina que posta as elegantes citações da Marilyn Monroe no Facebook pensa, não é por acidente que você acaba namorando alguém que lhe usa por causa de seus seios enquanto você está incondicionalmente amando-o. Não, você aceita as condições dessa pessoa porque você estava usando-a para atender às suas próprias condições.

(amor) Meme com Marilyn Monroe:
“Morta por overdose quando estava miserável e sozinha, mas citada décadas depois por mulheres que buscam se sentir melhor por estarem miseráveis e sozinhas.”

A maioria dos relacionamentos condicionais começam inconscientemente – isto é, eles começam sem pensamento consciente sobre quem é essa pessoa ou por que ela gosta de você, nem com a percepção consciente do que o comportamento dela em relação a você pode indicar a seu respeito. Você só vê suas tatuagens bacanas e inveja sua bicicleta radical e quer estar perto dela.

As pessoas que entram em relações condicionais o fazem pela simples razão de que essas relações as fazem se sentir realmente bem. Mas essas pessoas nunca param para se questionar por que isso é tão bom. Afinal de contas, a cocaína faz você se sentir muito bem, mas você não vai sair correndo para comprar um monte agora que você leu isso, não é?

(Não responda isso.)

Crie situações hipotéticas baseadas nos seus relacionamentos. Pergunte a si mesmo:

  • “Se eu perdesse meu emprego, meu pai ainda me respeitaria?”
  • “Se eu parasse de lhe dar dinheiro, mamãe ainda me amaria e me aceitaria?”
  • “Se eu dissesse à minha esposa que eu queria começar uma carreira como fotógrafo, isso destruiria nosso casamento?”
  • “Se eu parasse de fazer sexo com esse cara, ele ainda iria querer me ver?”
  • “Se eu dissesse a Jake que eu discordo fortemente da sua decisão, ele pararia de falar comigo?”

Mas você também precisa se ​​virar e perguntar sobre si mesmo, também:

  • “Se eu me mudasse para Kentucky, eu ainda manteria contato com Paul?”
  • “Se John não me conseguisse ingressos gratuitos para concertos, eu me incomodaria de sair com ele?”
  • “Se meu pai parasse de pagar a escola, eu ainda iria visitá-lo?”

Há um milhão de perguntas hipotéticas e você deveria estar se perguntando cada uma delas. O tempo todo.

Porque se alguma delas tem uma resposta diferente de: “Isso não mudaria nada”, então você provavelmente tem um relacionamento condicional em suas mãos – isto é, você não tem o relacionamento real amoroso que acha que tem.

Dói admitir, eu sei.

Mas espere, tem mais!

Se você quiser remover ou reparar as relações condicionais de sua vida e ter relacionamentos incondicionais fortes, você vai ter que mijar em algumas pessoas. O que quero dizer é que você tem que parar de aceitar as condições das pessoas. E você tem que abandonar as suas próprias.

Isso envolve, invariavelmente, dizer a alguém próximo um “não” justo na situação em que ele não queria ouvir isso. Isso vai causar um drama. Uma merda de tempestade de drama, muitas vezes. Afinal, você estará pegando de volta partes de você que alguém tem utilizado para se sentir melhor, estará negando isso a ele a partir de então. A reação dele será ficar com raiva e culpá-lo. Ele vai dizer um monte de coisas ruins sobre você.

Mas não se desanime. Este tipo de reação é apenas mais uma prova de um relacionamento condicional. Um amor honesto real é disposto a respeitar e aceitar algo que não se quer ouvir. Um amor condicional vai revidar.

Mas esse drama é necessário. Porque uma das duas coisas vai sair dessa situação. Ou a pessoa não será capaz de abrir mão de suas condições e, portanto, sairá da sua vida (que, em última análise, é uma coisa boa na maioria dos casos). Ou a pessoa será forçada a apreciá-lo incondicionalmente, para amá-lo apesar dos incômodos que você pode representar para ela ou para a sua auto-estima.

Isso é realmente muito difícil, é claro. Mas relacionamentos são difíceis por natureza, porque as pessoas são difíceis por natureza. Se a vida fosse somente divertimento e boquete, então nada de bom jamais seria feito. E ninguém jamais iria crescer.


Artigo traduzido e originalmente publicado no site do autor.


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escrito por:

Mark Manson

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