O que a vida quer de você

O que a vida quer de você?

Em Consciência por Alysson AugustoComentário

O com­pro­misso é deve­ras impor­tante. E com­pro­misso é res­pon­sa­bi­li­dade. Com­pro­me­ter-se é res­pon­sa­bi­li­zar-se. E isso me lem­bra a pales­tra de Vik­tor Emil Frankl e o Sen­tido da Vida, minis­trada pelo pro­fes­sor Luci­ano Mar­ques de Jesus, da PUCRS, que já assisti duas vezes. Frankl, mesmo à mar­gem da exis­tên­cia tal qual a conhe­ce­mos, foi capaz de afir­mar que “o ser humano é incon­di­ci­o­nal­mente livre”.

Ora, se mui­tas vezes somos capa­zes, com os con­for­tos e apa­tias que nos são per­mi­ti­dos, de afir­mar cega­mente que não somos livres (“somos con­di­ci­o­na­dos por nos­sas von­ta­des”, como dizia Kant), o que faz alguém como Frankl, vítima dos hor­ro­res do Nazismo, con­tem­po­râ­neo e tes­te­mu­nha do holo­causto, afir­mar com con­vic­ção algo tão dis­cu­tido e polê­mico, inclu­sive nos dias atu­ais?

Para ele, somos víti­mas de um con­senso. Per­gun­ta­mos a nós mes­mos o que deve­mos espe­rar da vida quando, na ver­dade, deve­ría­mos per­gun­tar o que a vida espera de nós. Nesse ponto, che­ga­mos a uma visão indis­tinta da vida, em que nos ajo­e­lha­mos diante de algo que nos espera de pé: a pró­pria vida. Somos comu­mente pas­si­vos e, por vezes, rea­ci­o­ná­rios. Há um certo medo do novo, medo de enca­rar o que está por vir.

Viktor Frankl

Vik­tor Frankl

A pró­pria Bíblia narra a his­tó­ria de Adão e Eva, seres con­ce­bi­dos por Deus como os pri­mei­ros huma­nos. Esse livro, sagrado para alguns e fabu­lís­tico para outros, nos conta que, desde os pri­mór­dios da huma­ni­dade, após pro­va­rem do fruto da árvore do conhe­ci­mento do bem e do mal, o pri­meiro casal humano reage a Deus como, após a mor­dida no fruto, seres de amor pró­prio exa­cer­bado. Da mesma forma que eles, tam­bém a con­tem­po­ra­nei­dade se faz vítima deste mal.

Relem­brando a pas­sa­gem bíblica onde Adão e Eva ten­tam des­cul­par-se de sua irres­pon­sa­bi­li­dade para com Deus, obser­ve­mos  agora os prin­ci­pais ver­sí­cu­los que denun­ciam este mal que per­dura até os tem­pos atu­ais, o mal da irres­pon­sa­bi­li­dade:

12 Então disse Adão: A mulher que me deste por com­pa­nheira, ela me deu da árvore, e comi.

13 E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A ser­pente me enga­nou, e eu comi.

14 Então o SENHOR Deus disse à ser­pente: Por­quanto fizeste isto, mal­dita serás mais que toda a fera, e mais que todos os ani­mais do campo; sobre o teu ven­tre anda­rás, e pó come­rás todos os dias da tua vida.”

(Gêne­sis 3:12–14)

Tome­mos, agora, o caso de Nova Ior­que, cidade onde, na costa oeste, fora cons­truída a Está­tua da Liber­dade, sim­bo­li­zando algo que impul­si­ona o cida­dão como ser livre e, por­tanto, como deten­tor do bem maior que é a pró­pria Liber­dade.

Ou seja, aquele povo se deu ao luxo de cons­truir uma obra mag­ní­fica, patrimô­nio da UNESCO, res­pei­tada mun­di­al­mente e sonho de visi­ta­ção turís­tica para mui­tos. Mas essa está­tua tam­bém não repre­sen­ta­ria o medo de enca­rar o novo? Não repre­sen­ta­ria a irres­pon­sa­bi­li­dade de Adão e Eva – irres­pon­sa­bi­li­dade da qual resul­tou um empurra-empurra, parando a culpa na ser­pente, que em nada se com­pro­me­teu com Deus (ao con­trá­rio, fora Adão e Eva os com­pro­me­ti­dos, por­tanto os erra­dos na his­tó­ria)? Essa situ­a­ção não se rela­ci­ona, logo, com a cora­josa afir­ma­ção de liber­dade incon­di­ci­o­nal de Frankl?

A repre­sen­ta­ti­vi­dade da Está­tua da Liber­dade, sím­bolo do Ser Livre, nos lem­bra o livre-arbí­trio. Pode­mos tomar nos­sas pró­prias deci­sões.

O medo de “enca­rar” o novo e o que está por vir, dis­cu­ti­vel­mente (sem impôr ver­da­des abso­lu­tas) influ­en­cia nos­sas deci­sões. O des­cum­pri­mento do com­pro­misso e a irres­pon­sa­bi­li­dade de Adão e Eva, levando-se em conta que são expres­são do que ocorre cons­tan­te­mente na vida humana, demons­tra aquilo que o ser humano é capaz de fazer com suas deci­sões (fruto de sua Liber­dade): não assu­mir a res­pon­sa­bi­li­dade por seus atos.

Frankl, enquanto afir­mava a liber­dade humana – por mais que as con­di­ções a que estava sub­me­tido não pos­si­bi­li­tas­sem o mesmo de mui­tos de nós -, enten­dia que exis­ti­ria no ser humano um desejo e uma von­tade de “sen­tido”. E tal­vez a Está­tua da Liber­dade não tenha sido cons­truída por mero capri­cho e seja aí mera repre­sen­ta­ção da Liber­dade, mas tam­bém do pró­prio Sen­tido da Vida. O Ser Humano (e tes­te­mu­nho a favor) neces­sita de Sen­tido, pre­cisa de uma ori­en­ta­ção, de uma “estrela guia”, algo que con­duza a uma ver­dade rema­nes­cente, que dê sig­ni­fi­ca­ção ao sim­ples ato de Exis­tir.

E aí, con­si­de­rando a incon­di­ci­o­na­li­dade de liber­dade de Frankl, per­gunto:

De que basta a Liber­dade em si? Para que temos liber­dade se cos­tu­mei­ra­mente não temos pro­pó­si­tos para usu­fruir dela?

adameve

Se a per­gunta sobre “o que devo espe­rar da Vida?” deve ser inver­tida por “o que a Vida espera de mim?”, então tam­bém deve­mos enten­der que a Está­tua da Liber­dade neces­sita de uma com­pa­nheira, a Está­tua da Res­pon­sa­bi­li­dade – se a Vida espera algo de mim, é por­que estou res­pon­sa­bi­li­zado com algo – (e ponham-na na costa leste de Nova Ior­que), pois se a liber­dade nos é dada a esmo dela não extraí­mos pro­pó­si­tos, não enxer­ga­mos o porquê de sua exis­tên­cia. Mas, usando a Liber­dade para fins de Res­pon­sa­bi­li­dade, há algo que bri­lha, uma “luz no fim do túnel”.

A par­tir des­tas con­si­de­ra­ções, é pos­sí­vel dar um sen­tido para a vida; tal­vez não uni­ver­sal, porém obje­tivo, sim­pli­fi­cado, escla­re­cido como um porquê viver.

Somos livres, mas a Liber­dade con­siste em lidar com os obs­tá­cu­los da Vida, enfrentá-los de peito estu­fado, res­pon­sa­bi­li­zar-nos por nos­sos atos, não pra­ti­cando do mal ori­gi­nal de Adão e Eva.

E então, o que a vida quer de você?

É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). E, não menos importante, editor do melhor site da internet, o Ano Zero. Mas o necessário a saber mesmo é de seu amor declarado por churros.

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