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O quanto de verdade você suporta?

Em Comportamento, Consciência por Victor LisboaComentários

No iní­cio desse mês assisti a peça Krum, ence­nada pela Com­pa­nhia Bra­si­leira de Tea­tro e de auto­ria do dra­ma­turgo isra­e­lense Hanoch Levin. Na ver­dade, aquilo não é uma peça: é mas­sa­cre da serra elé­trica exis­ten­cial, mas rea­li­zado com tal iro­nia que  a maior parte dos expec­ta­do­res nem notou que teve suas cabe­ças dece­pa­das ao longo das duas horas de espe­tá­culo. A cada cinco minuto, vinha um soco no estô­mago, um chute no saco ou uma esbo­fe­te­ada na cara. E tudo exposto com tama­nha cru­eza que cer­ta­mente parte do público blo­queou den­tro de si metade daquilo que estava sendo dito: seus nari­zes san­gra­vam e tinham hema­to­mas por todo o corpo, mas as ver­da­des apre­sen­ta­das ali eram nar­co­ti­za­das pela nossa incrí­vel habi­li­dade em escon­der de nós mes­mos o que há de incon­ve­ni­ente em nos­sas vidas.

E as ver­da­des incon­ve­ni­en­tes repre­sen­ta­das na peça com a habi­li­dade e pre­ci­são de um bis­turi cor­tando a carne são aque­las que enfren­ta­mos todos os dias da maneira mais tola e ao mesmo mais efi­ci­ente que arran­ja­mos: igno­rando-as des­ca­ra­da­mente, esco­lhendo a cegueira volun­tá­ria como sub­ter­fú­gio para não per­ce­ber o que está bem diante dos olhos. Vive­mos sub­mer­sos em um estado de semi-sonam­bu­lismo, cri­ando em nos­sas men­tes uma novela sobre quem somos, na qual jun­ta­mos as infor­ma­ções frag­men­ta­das da nossa vida meio aci­den­tal num roteiro apa­ren­te­mente coeso mas ilu­só­rio, dis­far­çando de nós mes­mos a men­sa­gem que nos é pas­sada por even­tos coti­di­a­nos que nos infor­mam con­ti­nu­a­mente sobre a nossa mor­ta­li­dade, fali­bi­li­dade e insig­ni­fi­cân­cia, sobre o estado de aban­dono fun­da­men­tal em que nos encon­tra­mos.

E se você leu o pará­grafo acima e supôs que o autor da peça estava depri­mido ou pos­suído por um arre­ba­ta­mento emo­ci­o­nal opres­sivo, se você leu e pen­sou em como é exa­ge­ra­da­mente trá­gica essa visão das coi­sas, isso é só a evi­dên­cia do quanto esta­mos desa­cos­tu­ma­dos à ver­dade. Não existe nada de ine­ren­te­mente depres­sivo, opres­sivo ou trá­gico nes­sas afir­ma­ções: esses sen­ti­men­tos sur­gem ape­nas como resul­tado do fenô­meno de tran­si­ção entre nosso estado de sonam­bu­lismo, de cons­tante nega­ção da rea­li­dade, e o estado do breve des­per­tar que temos quando a ver­dade nos é exposta — ainda que somente no nível super­fi­cial do dis­curso.

E ao lado des­sas ver­da­des uni­ver­sais sobre a con­di­ção humana, há tam­bém aque­las ver­da­des par­ti­cu­la­res igual­mente difí­ceis.

Todos nós viven­ci­a­mos isso no coti­di­ano: nota­mos coi­sas sobre as pes­soas ao nosso redor que pare­cem evi­den­tes, mas que elas não con­se­guem per­ce­ber. Todos nós temos ami­gos e fami­li­a­res que osten­tam carac­te­rís­ti­cas ou com­por­ta­men­tos que con­di­ci­o­nam, de regra para pior, as suas vidas. Em geral são coi­sas que, se a pes­soa per­ce­besse, tra­ta­ria de modi­fi­car em sua con­duta - e para melhor. É como a ponta do nariz, visí­vel para todas as pes­soas exceto para seu dono, pois está pró­ximo demais do seu olhar.

Mas nin­guém informa às pes­soas sobre tais carac­te­rís­ti­cas ou com­por­ta­men­tos, nin­guém coloca diante delas um espe­lho capaz de evi­den­ciar a elas aquilo que todo mundo con­se­gue ver. Mais ainda: rara­mente nos per­gun­ta­mos se nós pró­prios tam­bém não pos­suí­mos carac­te­rís­ti­cas e con­di­ci­o­na­men­tos per­fei­ta­mente visí­veis aos outros mas não a nós mes­mos, e cuja per­cepção nos tra­ria gran­des bene­fí­cios

Nietz­che, porém, disse que tal­vez uma das con­di­ções para via­bi­li­dade da vida humana tal­vez seja o engano. Ou seja, tal­vez só pos­sa­mos ter uma vida fun­ci­o­nal e ajus­tada admi­tindo alguma forma de ilu­são.

Mas o quanto de ilu­são? Se vive­mos em semi-sonam­bu­lismo para esque­cer coti­di­a­na­mente todas as impli­ca­ções que a mor­ta­li­dade, a fali­bi­li­dade, a insig­ni­fi­cân­cia e o estado fun­da­men­tal de aban­dono tra­zem em nos­sas vidas con­cre­tas, faze­mos isso por covar­dia ou por ins­tinto de sobre­vi­vên­cia? Dito de outra forma: é pos­sí­vel a um ser humano viver sau­da­vel­mente e equi­li­bra­da­mente sem esque­cer no coti­di­ano todas as ver­da­des sobre sua con­di­ção?

E se for pos­sí­vel para alguns indi­ví­duos viver dessa forma, isso é válido para todas as pes­soas? Ou há aque­las para as quais a per­cep­ção da ver­dade seria insu­por­tá­vel a ponto de ser melhor que se man­te­nham ilu­di­das? Temos o direito de pri­var os outros de ilu­sões que tal­vez sejam neces­sá­rias para a sua sobre­vi­vên­cia emo­ci­o­nal? Como aque­les capa­zes de viver total­mente des­per­tos para as ver­da­des sobre sua con­di­ção con­se­guem esse pro­dí­gio?

Mas saindo da teo­ria e indo para algo mais con­creto: quem você real­mente é? qual é sua ver­da­deira situ­a­ção? o que você não per­cebe sobre si mesmo e que seria fun­da­men­tal per­ce­ber? o que você está escon­dendo de si mesmo? no que você está se ilu­dindo? de quais ver­da­des você está fugindo?

Já que esta­mos elen­cando inú­me­ras per­gun­tas, há uma fun­da­men­tal, que cada um de nós deve­ria se per­gun­tar antes mesmo de cogi­tar fazer qual­quer coisa em sua vida, que pre­ci­sa­mos res­pon­der antes de todas as demais. É que se todas as per­gun­tas impor­tan­tes sobre nossa vida pes­soal e con­creta ser­vem para obter­mos res­pos­tas ver­da­dei­ras, há uma ques­tão fun­da­men­tal que pre­ci­sa­mos ter a sin­ce­ri­dade e a cora­gem de enfren­tar antes de sair atrás de qual­quer outra res­posta:

O quanto da ver­dade você con­se­gue supor­tar em sua vida?

Res­pon­der essa ques­tão para si mesmo seria o pri­meiro gesto de grande hones­ti­dade, o pri­meiro grande favor que pode­ría­mos nos con­ce­der. Sem­pre par­ti­mos do pre­con­ceito, da supers­ti­ção de que a ver­dade é algo bonito e dese­jado, de que a ver­dade liberta. Mas e se Oscar Wilde esti­vesse certo ao dizer que a ver­dade nunca é pura e rara­mente é sim­ples? Se algu­mas ver­da­des fos­sem tão impu­ras ao ponto de serem tóxi­cas demais para alguns de nós? Com­pre­en­der isso pou­pa­ria muito sofri­mento, muito des­gaste de ener­gia com pro­je­tos que depen­de­riam de uma ver­dade que, no fundo, não que­re­mos conhe­cer.

Ao mesmo tempo, ao ten­tar res­pon­der essa per­gunta pode­ría­mos des­co­brir que esta­mos sonam­bu­li­za­dos e agar­ra­dos a ilu­sões que nos afas­tam do conhe­ci­mento de ver­da­des que somos sim capa­zes de supor­tar, e cujo reco­nhe­ci­mento nos livra­ria de mui­tas boba­gens às quais nos pren­de­mos por hábito ou injus­ti­fi­cada covar­dia. Reli­giões, espi­ri­tu­a­li­dade, pla­nos pro­fis­si­o­nais, roman­tismo exa­cer­bado, con­su­mismo incon­se­quente, hedo­nismo irre­fle­tido: essas e outras tan­tas coi­sas podem ser­vir de sub­ter­fú­gio e ao mesmo tempo pri­são a que nos sujei­ta­mos docil­mente.

Mui­tas pes­soas seguem suas vidas no auto­má­tico, tomando as deci­sões mais impor­tan­tes de suas vidas (o casa­mento, os filhos, a pro­fis­são,…) gui­a­das ape­nas por aquilo que a soci­e­dade con­ven­ci­o­nou ser o cor­reto, o ade­quado, sim­ples­mente por essa ser uma forma con­ve­ni­ente de evi­tar ques­ti­o­na­men­tos incô­mo­dos sobre a sua con­di­ção pes­soal. Mui­tas pes­soas fazem as esco­lhas mais essen­ci­ais de seu des­tino ori­en­ta­das por uma ima­gem ilu­só­ria que ape­nas repre­senta como elas gos­ta­riam que as coi­sas e elas pró­prias fos­sem, sem que essa mira­gem tenha cor­res­pon­dên­cia com o que as coi­sas e elas pró­prias real­mente são. Se elas tomas­sem a pílula amarga da rea­li­dade, embora o gosto não fosse ini­ci­al­mente dos melho­res, tal­vez no final con­se­guis­sem adqui­rir a luci­dez neces­sá­ria para fazer as esco­lhas cer­tas e con­du­zir o seu des­tino com a hones­ti­dade fun­da­men­tal que mere­ce­mos ter perante a vida.

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Nietzs­che tam­bém dizia que a medida de todo ser humano é a quan­ti­dade de ver­dade que uma pes­soa é capaz de supor­tar. Mais do que isso, o ale­mão bigo­dudo afir­mava que havia pes­soas espe­ci­ais, capa­zes não só de sobre­vi­ver às ver­da­des mais indi­ges­tas sobre a con­di­ção humana, mas tam­bém de se for­ta­le­ce­rem diante des­sas ver­da­des.

Mas como tais pes­soas fariam isso? Aí entra a con­cep­ção muito pecu­liar de Nietzs­che sobre a arte. A arte, para ele, não seria uma exclu­siva maté­ria de artis­tas, objeto de con­tem­pla­ção do público e tam­pouco se expres­sa­ria ape­nas em obras espe­cí­fi­cas como pin­tu­ras, peças tea­trais, escul­tu­ras e músi­cas. Para Nietz­che, a arte seria o poten­cial cri­a­tivo e esté­tico humano capaz de nos recon­ci­liar mesmo com os aspec­tos mais ter­rí­veis e pro­ble­má­ti­cos de nos­sas vidas.

Para usar um exem­plo reti­rado do livro A Ser­vi­dão Humana de Somer­set Maugham, algu­mas pes­soas seriam capa­zes, ao reco­nhe­ce­rem as mais difí­ceis ver­da­des sobre si mes­mas, de toma­rem deci­sões de modo a fazer com que suas vidas se tor­nas­sem uma espé­cie de tape­ça­ria dotada, senão de sen­tido, ao menos de beleza. E isso por­que há uma grande potên­cia em per­ce­ber-se o quão pouco se pode: eco­no­mi­za­mos a ener­gia neces­sá­ria para dire­ci­oná-la ao que real­mente somos capa­zes de alte­rar. David Fos­ter-Wal­lace nos pre­ve­nia do risco de não valo­ri­zar­mos ver­da­des por soa­rem como gran­des cli­chês, e tal­vez aquele sur­rado lema de for­ma­tura sobre ser­mos capa­zes de reco­nhe­cer o que pode­mos e o que não pode­mos mudar repre­sente, em seu lugar-comum, uma grande sabe­do­ria.

E tal­vez as úni­cas qua­li­da­des morais real­mente genuí­nas só pos­sam exis­tir a par­tir da capa­ci­dade de reco­nhe­cer aque­las ver­da­des que Nietzs­che cha­mou de ter­rí­veis e pro­ble­má­ti­cas. E isso por­que quando somos capa­zes de per­ce­ber nos­sas falhas, nossa mor­ta­li­dade e nossa impo­tên­cia em rela­ção à várias coi­sas, é impos­sí­vel não nos tor­nar­mos humil­des. E logo se per­cebe que o estado de fali­bi­li­dade e mor­ta­li­dade é o subs­trato comum não só a expe­ri­ên­cia humana, mas tam­bém de todos os outros seres vivos, de forma que a única coisa lógica a fazer­mos cole­ti­va­mente é tra­ba­lhar­mos na dire­ção da com­pai­xão.

Tam­bém somente a par­tir da capa­ci­dade de reco­nhe­cer as ver­da­des mais difí­ceis sobre si mesmo e o mundo é que pas­sa­mos a ser capa­zes de tam­bém nos rela­ci­o­nar­mos genui­na­mente com as outras pes­soas. Enquanto sub­mer­sos em ilu­sões sobre como as coi­sas são ou deve­riam ser, esta­mos semi-des­per­tos, pro­je­tando nas outras pes­soas nos­sas expec­ta­ti­vas, sonhos e temo­res, sem a pos­si­bi­li­dade de olhar­mos as pes­soas com a aber­tura e cla­reza neces­sá­rias para que pos­sa­mos real­mente cap­turá-las a essên­cia e com­pre­endê-las.

Os budis­tas têm um con­ceito deno­mi­nado bodi­chita. A céle­bre monja ame­ri­cana Pema Cho­dron equi­para bodi­chita a um ponto no cora­ção humano que tra­ta­mos como uma ferida ou um ponto fraco exis­tente em cada um de nós: ali, onde você se machuca mais, naquele espaço oculto em seu cora­ção que você esconde de tudo e de todos e que busca pro­te­ger do mundo inteiro com receio de se ferir, é onde está a parte mais pre­ci­osa do seu ser. Esse ponto fraco ou ferida que existe em todo o cora­ção humano, e que man­te­mos oculto e fechado para não nos machu­car, é justo a parte de nosso ser que deve­ria estar exposta e aberta. Somente assim con­se­gui­mos esta­be­le­cer com os outros rela­ções ver­da­dei­ras e sig­ni­fi­ca­ti­vas. Mas jus­ta­mente esse ponto em nosso cora­ção é o que ten­ta­mos pro­te­ger das ver­da­des desa­gra­dá­veis que podem nos ferir, por­tanto só quando entra­mos em con­tato com tais árduas ver­da­des e renun­ci­a­mos à qual­quer ten­ta­tiva de nos pou­par dessa expe­ri­ên­cia é que come­ça­mos a real­mente sen­tir com viva­ci­dade e ple­ni­tude.

As ver­da­des mais impor­tan­tes são duras e com­ple­xas, e a grande mai­o­ria das pes­soas ilude-se cons­tan­te­mente sobre a rea­li­dade de suas vidas, dei­xando-se guiar por mira­gens sobre como gos­ta­riam que as coi­sas fos­sem e fazendo suas esco­lhas com base em uma covar­dia fun­da­men­tal (na ver­dade, uma mis­tura de covar­dia, como­dismo e igno­rân­cia)  em rela­ção à rea­li­dade das coi­sas. Ade­rindo à essa cegueira volun­tá­ria, con­du­zi­mos o nosso des­tino de forma errá­tica e estra­nha­mos quando as coi­sas não suce­dem tal como espe­rá­va­mos — o grande dese­nho que repre­senta nos­sas vidas é enorme demais para que pos­sa­mos visu­a­lizá-lo da pequena pers­pec­tiva de nos­sas ilu­sões. A grande pers­pec­tiva é aces­sí­vel ape­nas a quem aceita enca­rar coti­di­a­na­mente as ver­da­des mais difí­ceis sobre sua exis­tên­cia, mas para isso é pre­ciso recons­truir-se a par­tir des­sas pró­prias ver­da­des. Quem assim o faz, e sobre­vive a isso, adquire uma grande humil­dade, uma pro­funda com­pai­xão por todos os seres e uma ver­da­deira capa­ci­dade para se rela­ci­o­nar com os outros para além de todas as pro­je­ções.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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