No início desse mês assisti a peça Krum, encenada pela Companhia Brasileira de Teatro e de autoria do dramaturgo israelense Hanoch Levin. Na verdade, aquilo não é uma peça: é massacre da serra elétrica existencial, mas realizado com tal ironia que  a maior parte dos expectadores nem notou que teve suas cabeças decepadas ao longo das duas horas de espetáculo. A cada cinco minuto, vinha um soco no estômago, um chute no saco ou uma esbofeteada na cara. E tudo exposto com tamanha crueza que certamente parte do público bloqueou dentro de si metade daquilo que estava sendo dito: seus narizes sangravam e tinham hematomas por todo o corpo, mas as verdades apresentadas ali eram narcotizadas pela nossa incrível habilidade em esconder de nós mesmos o que há de inconveniente em nossas vidas.

E as verdades inconvenientes representadas na peça com a habilidade e precisão de um bisturi cortando a carne são aquelas que enfrentamos todos os dias da maneira mais tola e ao mesmo mais eficiente que arranjamos: ignorando-as descaradamente, escolhendo a cegueira voluntária como subterfúgio para não perceber o que está bem diante dos olhos. Vivemos submersos em um estado de semi-sonambulismo, criando em nossas mentes uma novela sobre quem somos, na qual juntamos as informações fragmentadas da nossa vida meio acidental num roteiro aparentemente coeso mas ilusório, disfarçando de nós mesmos a mensagem que nos é passada por eventos cotidianos que nos informam continuamente sobre a nossa mortalidade, falibilidade e insignificância, sobre o estado de abandono fundamental em que nos encontramos.

E se você leu o parágrafo acima e supôs que o autor da peça estava deprimido ou possuído por um arrebatamento emocional opressivo, se você leu e pensou em como é exageradamente trágica essa visão das coisas, isso é só a evidência do quanto estamos desacostumados à verdade. Não existe nada de inerentemente depressivo, opressivo ou trágico nessas afirmações: esses sentimentos surgem apenas como resultado do fenômeno de transição entre nosso estado de sonambulismo, de constante negação da realidade, e o estado do breve despertar que temos quando a verdade nos é exposta – ainda que somente no nível superficial do discurso.

Krum
Krum

E ao lado dessas verdades universais sobre a condição humana, há também aquelas verdades particulares igualmente difíceis.

Todos nós vivenciamos isso no cotidiano: notamos coisas sobre as pessoas ao nosso redor que parecem evidentes, mas que elas não conseguem perceber. Todos nós temos amigos e familiares que ostentam características ou comportamentos que condicionam, de regra para pior, as suas vidas. Em geral são coisas que, se a pessoa percebesse, trataria de modificar em sua conduta – e para melhor. É como a ponta do nariz, visível para todas as pessoas exceto para seu dono, pois está próximo demais do seu olhar.

Mas ninguém informa às pessoas sobre tais características ou comportamentos, ninguém coloca diante delas um espelho capaz de evidenciar a elas aquilo que todo mundo consegue ver. Mais ainda: raramente nos perguntamos se nós próprios também não possuímos características e condicionamentos perfeitamente visíveis aos outros mas não a nós mesmos, e cuja percepção nos traria grandes benefícios

Nietzche, porém, disse que talvez uma das condições para viabilidade da vida humana talvez seja o engano. Ou seja, talvez só possamos ter uma vida funcional e ajustada admitindo alguma forma de ilusão.

Mas o quanto de ilusão? Se vivemos em semi-sonambulismo para esquecer cotidianamente todas as implicações que a mortalidade, a falibilidade, a insignificância e o estado fundamental de abandono trazem em nossas vidas concretas, fazemos isso por covardia ou por instinto de sobrevivência? Dito de outra forma: é possível a um ser humano viver saudavelmente e equilibradamente sem esquecer no cotidiano todas as verdades sobre sua condição?

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E se for possível para alguns indivíduos viver dessa forma, isso é válido para todas as pessoas? Ou há aquelas para as quais a percepção da verdade seria insuportável a ponto de ser melhor que se mantenham iludidas? Temos o direito de privar os outros de ilusões que talvez sejam necessárias para a sua sobrevivência emocional? Como aqueles capazes de viver totalmente despertos para as verdades sobre sua condição conseguem esse prodígio?

Mas saindo da teoria e indo para algo mais concreto: quem você realmente é? qual é sua verdadeira situação? o que você não percebe sobre si mesmo e que seria fundamental perceber? o que você está escondendo de si mesmo? no que você está se iludindo? de quais verdades você está fugindo?

Já que estamos elencando inúmeras perguntas, há uma fundamental, que cada um de nós deveria se perguntar antes mesmo de cogitar fazer qualquer coisa em sua vida, que precisamos responder antes de todas as demais. É que se todas as perguntas importantes sobre nossa vida pessoal e concreta servem para obtermos respostas verdadeiras, há uma questão fundamental que precisamos ter a sinceridade e a coragem de enfrentar antes de sair atrás de qualquer outra resposta:

O quanto da verdade você consegue suportar em sua vida?

Responder essa questão para si mesmo seria o primeiro gesto de grande honestidade, o primeiro grande favor que poderíamos nos conceder. Sempre partimos do preconceito, da superstição de que a verdade é algo bonito e desejado, de que a verdade liberta. Mas e se Oscar Wilde estivesse certo ao dizer que a verdade nunca é pura e raramente é simples? Se algumas verdades fossem tão impuras ao ponto de serem tóxicas demais para alguns de nós? Compreender isso pouparia muito sofrimento, muito desgaste de energia com projetos que dependeriam de uma verdade que, no fundo, não queremos conhecer.

Ao mesmo tempo, ao tentar responder essa pergunta poderíamos descobrir que estamos sonambulizados e agarrados a ilusões que nos afastam do conhecimento de verdades que somos sim capazes de suportar, e cujo reconhecimento nos livraria de muitas bobagens às quais nos prendemos por hábito ou injustificada covardia. Religiões, espiritualidade, planos profissionais, romantismo exacerbado, consumismo inconsequente, hedonismo irrefletido: essas e outras tantas coisas podem servir de subterfúgio e ao mesmo tempo prisão a que nos sujeitamos docilmente.

Muitas pessoas seguem suas vidas no automático, tomando as decisões mais importantes de suas vidas (o casamento, os filhos, a profissão,…) guiadas apenas por aquilo que a sociedade convencionou ser o correto, o adequado, simplesmente por essa ser uma forma conveniente de evitar questionamentos incômodos sobre a sua condição pessoal. Muitas pessoas fazem as escolhas mais essenciais de seu destino orientadas por uma imagem ilusória que apenas representa como elas gostariam que as coisas e elas próprias fossem, sem que essa miragem tenha correspondência com o que as coisas e elas próprias realmente são. Se elas tomassem a pílula amarga da realidade, embora o gosto não fosse inicialmente dos melhores, talvez no final conseguissem adquirir a lucidez necessária para fazer as escolhas certas e conduzir o seu destino com a honestidade fundamental que merecemos ter perante a vida.

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Nietzsche também dizia que a medida de todo ser humano é a quantidade de verdade que uma pessoa é capaz de suportar. Mais do que isso, o alemão bigodudo afirmava que havia pessoas especiais, capazes não só de sobreviver às verdades mais indigestas sobre a condição humana, mas também de se fortalecerem diante dessas verdades.

Mas como tais pessoas fariam isso? Aí entra a concepção muito peculiar de Nietzsche sobre a arte. A arte, para ele, não seria uma exclusiva matéria de artistas, objeto de contemplação do público e tampouco se expressaria apenas em obras específicas como pinturas, peças teatrais, esculturas e músicas. Para Nietzche, a arte seria o potencial criativo e estético humano capaz de nos reconciliar mesmo com os aspectos mais terríveis e problemáticos de nossas vidas.

Para usar um exemplo retirado do livro A Servidão Humana de Somerset Maugham, algumas pessoas seriam capazes, ao reconhecerem as mais difíceis verdades sobre si mesmas, de tomarem decisões de modo a fazer com que suas vidas se tornassem uma espécie de tapeçaria dotada, senão de sentido, ao menos de beleza. E isso porque há uma grande potência em perceber-se o quão pouco se pode: economizamos a energia necessária para direcioná-la ao que realmente somos capazes de alterar. David Foster-Wallace nos prevenia do risco de não valorizarmos verdades por soarem como grandes clichês, e talvez aquele surrado lema de formatura sobre sermos capazes de reconhecer o que podemos e o que não podemos mudar represente, em seu lugar-comum, uma grande sabedoria.

E talvez as únicas qualidades morais realmente genuínas só possam existir a partir da capacidade de reconhecer aquelas verdades que Nietzsche chamou de terríveis e problemáticas. E isso porque quando somos capazes de perceber nossas falhas, nossa mortalidade e nossa impotência em relação à várias coisas, é impossível não nos tornarmos humildes. E logo se percebe que o estado de falibilidade e mortalidade é o substrato comum não só a experiência humana, mas também de todos os outros seres vivos, de forma que a única coisa lógica a fazermos coletivamente é trabalharmos na direção da compaixão.

Também somente a partir da capacidade de reconhecer as verdades mais difíceis sobre si mesmo e o mundo é que passamos a ser capazes de também nos relacionarmos genuinamente com as outras pessoas. Enquanto submersos em ilusões sobre como as coisas são ou deveriam ser, estamos semi-despertos, projetando nas outras pessoas nossas expectativas, sonhos e temores, sem a possibilidade de olharmos as pessoas com a abertura e clareza necessárias para que possamos realmente capturá-las a essência e compreendê-las.

Os budistas têm um conceito denominado bodichita. A célebre monja americana Pema Chodron equipara bodichita a um ponto no coração humano que tratamos como uma ferida ou um ponto fraco existente em cada um de nós: ali, onde você se machuca mais, naquele espaço oculto em seu coração que você esconde de tudo e de todos e que busca proteger do mundo inteiro com receio de se ferir, é onde está a parte mais preciosa do seu ser. Esse ponto fraco ou ferida que existe em todo o coração humano, e que mantemos oculto e fechado para não nos machucar, é justo a parte de nosso ser que deveria estar exposta e aberta. Somente assim conseguimos estabelecer com os outros relações verdadeiras e significativas. Mas justamente esse ponto em nosso coração é o que tentamos proteger das verdades desagradáveis que podem nos ferir, portanto só quando entramos em contato com tais árduas verdades e renunciamos à qualquer tentativa de nos poupar dessa experiência é que começamos a realmente sentir com vivacidade e plenitude.

As verdades mais importantes são duras e complexas, e a grande maioria das pessoas ilude-se constantemente sobre a realidade de suas vidas, deixando-se guiar por miragens sobre como gostariam que as coisas fossem e fazendo suas escolhas com base em uma covardia fundamental (na verdade, uma mistura de covardia, comodismo e ignorância)  em relação à realidade das coisas. Aderindo à essa cegueira voluntária, conduzimos o nosso destino de forma errática e estranhamos quando as coisas não sucedem tal como esperávamos – o grande desenho que representa nossas vidas é enorme demais para que possamos visualizá-lo da pequena perspectiva de nossas ilusões. A grande perspectiva é acessível apenas a quem aceita encarar cotidianamente as verdades mais difíceis sobre sua existência, mas para isso é preciso reconstruir-se a partir dessas próprias verdades. Quem assim o faz, e sobrevive a isso, adquire uma grande humildade, uma profunda compaixão por todos os seres e uma verdadeira capacidade para se relacionar com os outros para além de todas as projeções.

escrito por:

Victor Lisboa

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