[Nota do editor: é altamente recomendável que, antes da leitura desse texto, o leitor conheça os anteriores textos escritos pelo autor sobre “a descoberta mais importante da humanidade”.]

Há doze mil anos, a humanidade cometeu um erro, assinou um contrato, entrou em uma prisão. Há doze mil anos, a humanidade renunciou ao reconhecimento de uma linguagem que permitiria à consciência humana evoluir a um nível superior de percepção da realidade, por dar acesso a experiências psíquicas que são agora utilizadas para manipular e aprisionar todos os seres humanos. Há doze mil anos, não por acidente, um módulo primitivo da linguagem, isolado e dominante, viralizou-se para a estrutura do ego e construiu uma consciência na qual a um só tempo o ego é senhor absoluto e escravo das ilusões que ele próprio construiu – o perfeito animal pronto para o abate.

E por essas ilusões, criadas por nossos egos, fomos nós próprios capazes de matar e torturar incontáveis criaturas vivas ao longo desses doze mil anos, entre as quais outros seres humanos. Quantas crianças foram brutalizadas, quantas mulheres foram estupradas, quantos inocentes de nossa e de outras espécies foram submetidos à violência e mortos durante milênios em nome de ficções humanas como dinheiro, ideologias, religiões, poder, reis, impérios e religiões? Criar ficções por vezes é útil e necessário, mas só há um tipo de pessoa que acredita nas ficções que ela mesma cria a ponto de as colocar acima da própria vida humana. Como disse Becker, nossa sociedade é fundada numa forma insidiosa de loucura: loucura coletiva, loucura compartilhada, loucura sancionada e estimulada – mas, ainda assim, loucura.

Estamos, agora, diante de uma nova singularidade. Herdeiros de um erro que se acumulou e enredou a humanidade numa armadilha, a evolução emergente produz novamente uma época de transformação e ruptura para a qual o homo sapiens não está preparado. Dessa época, emergirá ou um abismo de terrores sem precedentes ou uma escada para alturas jamais imaginadas.

Dessa época, emergirá uma singularidade.

PRENÚNCIOS DA SINGULARIDADE

A singularidade pode ocorrer a qualquer momento a partir de certo ponto. Mas, como qualquer singularidade, não tem tempo para acabar. A singularidade trará algo novo ao mundo, mas como qualquer singularidade, esse algo novo torna-se também o próprio mundo em que surge. A singularidade é uma só. Mas, como qualquer singularidade, é um vórtice, um maelstrom que arrasta consigo estruturas e convenções sociais, produzindo rupturas em toda a sociedade.

É assim que rupturas são sentidas em vários aspectos da sociedade atual, colocando as grande questões fundamentais sobre a identidade e a existência humana no centro da arena, onde já não podem ser ignoradas por ninguém que busca despertar. É assim que, pela primeira vez na história, a comunidade científica debate publicamente qual a data aproximada em que o envelhecimento e a morte serão superados pela ciência, como se ambos fossem problemas passageiros na aventura humana. Pela primeira vez, o público leigo assiste especialistas especularem sobre a chegada de uma Era da Bioengenharia, em que poderemos manipular nossos corpos com tal precisão que eliminaremos da experiência humana qualquer tipo de dor ou desconforto, seja físico ou psicológico.

Isso pode parecer um exagero aos mais conservadores, mas “os cientistas que gritam imortalidade são como o menino que gritava lobo: cedo ou tarde, o lobo chegará”. A frase é de Yuval Noah Harari, não por acaso autor de um sucesso popular com o título de Homo Deus. Nessa obra, o historiador israelense demonstra ao público leigo que o homo sapiens, graças à colaboração da ciência e da indústria, pode não apenas vencer a morte e eliminar toda forma de dor física nas próximas décadas, mas também manipular sua própria programação neurobiológica, conduzindo-nos a novas formas de consciência e de percepção do mundo.

A essa ruptura Thomas Metzinger dá o nome de Revolução da Consciência, momento em que a espécie humana poderá criar no cérebro humano, com o uso de substâncias químicas e estímulos locais diretos, mundos virtuais que se apresentarão como sérios concorrentes à atual percepção da realidade consensualmente compartilhada por todos nós. Capacetes transcranianos que estimulam áreas específicas do cérebro e potencializam ou inibem determinadas habilidades psíquicas já estão em fase de testes para uso militar norte-americano e para tratamento de transtornos mentais, mas esse tipo de tecnologia já comprovadamente pode aumentar habilidades intelectuais humanas como, por exemplo, a inteligência matemática.

Esse cenário acena também para a possibilidade de que a consciência humana possa ser transferida a algum suporte artificial, sendo ela própria capaz de navegar por um sistema de rede, ou multiplicar-se em vários suportes independentes e artificiais, assegurando assim a virtual imortalidade do ser humano. As consequências disso para a noção de individualidade e personalidade, tal como percebida por quem ignora o hipercontexto, começam a ser dimensionadas pela sociedade.

O lado sombrio desse futuro, porém, é denunciado por intelectuais como Foster Wallace, para os quais a manipulação tecnológica das áreas de gozo e dor no cérebro humano são o definitivo instrumento de controle social, criando legiões de consumidores avidamente dispostos a renunciar à sua autonomia para ter acesso a um universo de novas sensações artificialmente induzidas. O sistema de rede social chamado de Facebook é costumeiramente criticado por esses exatas características, servindo como potencial esboço do que está por vir, à medida que a tecnologia se desenvolver e construir “realidades aumentadas” e “virtuais” cada vez mais atraentes.

Ao lado da explosão tecnológica, ocorre uma progressiva concentração da renda mundial nas mãos de uma minoria, e indivíduos cuja fortuna pessoal excede o PIB de nações têm o controle da economia global. Thomas Piketty e uma equipe multidisciplinar construiu uma base de dados sobre a economia global dos últimos séculos, e demonstrou uma inexorável tendência de concentração de renda nas mãos de poucos no futuro próximo, a ponto de ameaçar as estruturas democráticas e desafiar as noções de cidadania e república mesmo dos países desenvolvidos. São as mãos de poucos indivíduos que seguram a chave do reino do homo sapiens, no momento em que a dinâmica econômica internacional terá que se remodelar devido à progressiva substituição de mão-de-obra humana pela chamada “inteligência artificial”.

A inteligência artificial tende a fazer melhor e mais rápido quase tudo o que torna o ser humano empregável, inclusive todas as atividades intelectuais repetitivas que dispensem o processo criativo. Mesmo em 2018 esse impacto já pode ser sentido, conforme demonstra o relatório da Glassdoor, o maior sistema virtual de busca de empregos do mundo. O valor da mão-de-obra humana, portanto, tende gradualmente a se depreciar até o trabalho humano tornar-se dispensável. De qualquer modo, os consumidores e eleitores precisarão de renda – e mais do que renda, de uma forma de ocupar seus dias em uma sociedade na qual o trabalho não será mais um imperativo.

Mas não é só na economia que a inteligência artificial produzirá inevitavelmente uma ruptura. No hipercontexto, cenários futuros incluem a probabilidade seriamente considerada por especialistas como Elon Musk e Stephen Hawking de que o surgimento de uma inteligência artificial superior à humana, ainda que sem intencionalidade, torne nossa espécie obsoleta e fadada à extinção. Em outros cenários, algoritmos informacionais também sem intencionalidade mas de inteligência ainda superior podem usar a própria estrutura física e lógica da inteligência artificial como suporte para sua infiltração nesta realidade, parasitando a própria consciência humana. A predominância de qualquer dessas probabilidades depende de fatores como a capacidade humana de criar um novo paradigma e uma nova linguagem para o mundo em que estamos começando a viver.

A humanidade está diante de um desafio sem precedentes. Esta sociedade operou até este momento segundo uma concepção de mundo que rapidamente está sendo desconstruída pelo próprio progresso que surgiu graças à indústria e à ciência. É uma sociedade baseada no medo, na escassez, na negação cenográfica da velhice e na busca por paliativos que propiciem a temporária fuga das dores humanas.

Subitamente, ao menos da perspectiva histórica, todos esses medos que moldaram os valores e papéis sociais serão superados nos próximos séculos – senão das próximas décadas. O sistema de valores e as interações sociais precisam ser ajustadas antes que isso aconteça. Caso contrário, é provável que a humanidade transporte para o novo mundo os mesmos condicionamentos e desajustes que herdamos de nossos antepassados, ao invés de oportunamente serem corrigidos ou atenuados.

Para alguns, o paradigma que deve emergir para fazer frente a esses desafios é o do transumanismo, em que progressivamente a tecnologia amplia ou até mesmo substitui estruturas vitais do corpo humano, tornando o ser humano igual a um “deus”. Porém, a confiar no que sempre aconteceu em toda a história humana, Harari acha mais provável que esse tipo de tecnologia resulte num “upgrade da desigualdade” socioeconômica, em que “super-humanos usufruirão de habilidades inimagináveis e de criatividade sem precedentes, o que lhes permitirá tomar muitas das mais importantes decisões do mundo”, enquanto “a maioria dos humanos não se beneficiará de um upgrade  e portanto se tornará uma casta inferior, dominada tanto por algoritmos de computadores e os novos super-humanos.” Esse cenário futuro, similar ao de uma distopia ficcional, infelizmente tem sido confirmado em estudos e relatórios como os do Comitê de Inteligência Artificial do Governo Britânico. Nas palavras de John McNamara, diretor do Centro de Inovação Tecnológica da IBM, o acesso ou não à tecnologia de ponta pode significar, lá pelo ano de 2040, “na diferença entre, de um lado, um grupo que potencialmente terá acesso a um extraordinário aumento de suas habilidades físicas, capacidade cognitiva, expectativa de vida e saúde, e, de outro, um grupo maior que não terá acesso a tais coisas”.

Harari especula que “talvez estejamos nos aproximando de uma nova singularidade, em que todos os conceitos que dão significado ao nosso mundo (eu, você, homens, mulheres, amor, ódio) se tornarão irrelevantes”. Diante dessa singularidade, só escaparemos dos piores riscos se percebermos que a questão principal é de um nível ainda mais fundamental do que supomos. Perante a possibilidade de os seres humanos conquistarem a velhice e a morte e adquirirem o poder quase divino de manipular o próprio corpo, a consciência e o ambiente circundante, “a verdadeira pergunta a ser enfrentada não é o que queremos nos tornar, mas o que queremos querer?“.

Trata-se de uma pergunta essencial, e sua resposta é a chave para o paradigma de que tanto precisamos. Como será exposto, a humanidade pode e deve usufruir de todos os recursos científicos e tecnológicos que aprimorem o corpo e a consciência humana até os limites do possível. Mas o ideal individualista e ingênuo do transumanismo não basta diante da missão de responder a essa pergunta. Se o ser humano futuro tornar-se imortal e tiver o poder que seus antepassados consideravam exclusivo de deuses ou anjos, que escala de valores e princípios deve reger seu comportamento diante de si e do resto do mundo? E que armadilhas a humanidade pode construir para si mesmo, na medida em que nenhum ser humano está a salvo de dormir e criar seus próprios pesadelos?

A retrospectiva humana sugere pessimismo. De regra, sempre que o homo sapiens adquiriu algum poder quase divino em relação ao resto da natureza, ele o usou para explorar ou aniquilar os outros seres vivos e para escravizar ou agredir outros seres humanos, naquilo que foi chamado de “o pior crime da história“. Na verdade, aprisionados em módulo de linguagem que constitui o ego humano atual, estamos enredados irremediavelmente em um mundo no qual as coisas importam progressivamente mais dos que os seres vivos, em um processo irreversível de dependência dos objetos materiais.

Esses são os desafios que o vórtice da singularidade tende a criar em todas as áreas da vida humana. E a resposta adequada a tais desafios está relacionada à descoberta do propósito humano, pois é o propósito humano que deve ocupar o palco central de  cada singularidade, convidado a desempenhar seu papel na cerimônia de nascimento de um novo mundo.

Não somos nada mais que uma espécie animal, dentre outras tantas existentes no hipercontexto, uma espécie a quem a natureza legou, pelo desenvolvimento superior da consciência, o poder de assumir o controle da própria evolução da vida. Temos, diante da natureza, uma missão que poderá nos conduzir à utopia, mas que é, antes de tudo, um compromisso perante a vida, em todas as suas manifestações neste mundo. Compromisso esse que a própria vida orgânica estabeleceu desde sua origem, e é a razão de nossa existência, enquanto espécie e enquanto indivíduos.

Para compreender o que é a singularidade, e qual o propósito humano, é necessário compreender exatamente o que a vida é.

VIDA E INFORMAÇÃO

Vida é informação. O surgimento da vida não foi um evento químico, o surgimento da vida foi um evento de natureza informacional.

Uma cadeia de DNA ou RNA não é apenas um conjunto de bases nitrogenadas, mas um conjunto de bases hidrogenadas em determinada sequência, ou seja, um tipo de informação. É essa sequência ou ordem, e nada mais, que é transmitida a outras cadeias que surgem como resultado da replicação genética.

Assim, a única coisa que surgiu com a vida foi uma espécie de informação, e a única coisa transmitida com a evolução é informação sobre a ordem da matéria, e não a própria matéria. Junte numa caixa todas as substâncias químicas que compõem uma ameba, sacuda-as e jamais sairá dessa caixa uma ameba. As substâncias químicas não precisam estar apenas reunidas, mas reunidas segundo determinada ordem estabelecida por um determinado código.

Informação e evolução estão, assim, profundamente entrelaçados. O biólogo e físico Christopher Adami define “informação” como aquilo que “propriamente evolui” no contexto da biologia evolutiva. O químico e pesquisador John Scales Avery, por sua vez, entende que a origem da vida só será compreendido com o estudo da informação no contexto da termodinâmica.

“Vida é informação armazenada em uma linguagem simbólica”, resume Adami. Nessa linguagem, o alfabeto primordial era composto pelos monômeros dos oceanos primitivos, antes de haver qualquer vida no planeta. Num oceano de letras moleculares interagindo aleatoriamente, aproveitando uma janela aberta pelo acaso e por fatores de luz, pressão e energia favoráveis, surgiu neste mundo a “primeira palavra”, na medida em que se tratava de uma estrutura molecular que possuía o “primeiro sentido” contextual. Esse sentido era autorreferenciado e consistia em sua própria e contínua replicação no contexto criado pelo meio ambiente.

O primeiro sentido da vida precisava ser autorreferenciado, caso contrário não teria se destacado das demais combinações aleatórias, Adami observa. Replicar-se é um método de transmitir uma informação preciosa e rara, de forma que ela deixe de ser rara e passe a ser abundante no universo, protegendo assim a consistência e permanência dessa informação. É uma lógica poderosa e simples, subjacente às primeiras formas de vida e também às sociedades mais complexas. Toda a história da evolução é a história de proteger e disseminar um tipo de informação através de backups contínuos dessa informação, o código genético, produzindo redundância.

Toda e qualquer mutação evolutiva não é a mutação de alguma matéria antes inexistente no universo. É uma mutação da informação, como resultado de uma alteração na sequência em que encadeadas as bases nitrogenadas do DNA, o código fundamental da vida.

Por isso, a vida de uma ameba ordinária é, na verdade, uma obra de arquitetura informacional que comanda a matéria de que dispõe. Esse complexo código é capaz de criar uma separação entre o meio ambiente externo e o conjunto de substâncias materiais do organismo, que permite a entrada e saída seletiva de substâncias pelo citoplasma, com o uso de graus diferentes de concentração. No interior dessas fronteiras, entronizada e reinando sobre a matéria, está uma ordem. Essa ordem peculiar é capaz de fazer todo esse conjunto de substâncias materiais mover-se, buscar recursos no ambiente e replicar-se sem que qualquer tipo de consciência centralizada dentro da ameba comande tais atividades.

Se uma simples ameba é uma obra arquitetônica, qualquer ser humano é uma catedral de informações que determina, a cada fração de segundo, ordem, função e dinâmica de todas as substâncias químicas que compõem seu organismo. O corpo do próprio leitor não é o conjunto de células e substâncias que formam neste momento o seu organismo, pois tudo isso terá sido substituído em poucos dias, tudo isso é impermanente. O corpo humano não é propriamente o conjunto de substâncias materiais que transitoriamente participam de sua constituição física: o corpo humano é uma informação transmitida continuamente à matéria que consome e incorpora ao organismo.

Mesmo em um só contexto, em uma só realidade alternativa, informação é algo fundamental no universo, tal como matéria e energia, com o detalhe de que podemos imaginar um universo sem matéria e energia, mas não um universo sem informação, como lembra Scott Aaronson. E isso começou a ser percebido quando a humanidade passou a estudar detidamente o que ocorre no horizonte de eventos dos buracos negros. Mas, apesar de estarmos mergulhados em um universo de informação, somente neste momento a humanidade começa a se dar conta dessa potência cósmica desprovida de qualquer realidade material em ainda assim, inerente à origem da vida na Terra.

Informação é, em paráfrase ao conceito do matemático Claude Shannon e do polimata Christoph Adami, aquilo que faz seu detentor capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que o mero acaso. Informação, é, em outras palavras, uma mensagem que, se adequadamente comunicada, produz uma redução da incerteza.

Mas neste universo em que tudo é fundamentalmente regido pela incerteza, neste hipercontexto em que todas as probabilidades do acaso se confirmam ao mesmo tempo, ser capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que o mero acaso, ser capaz de reduzir a incerteza, é ser capaz de produzir um “colapso” da função de onda – em outras palavras, é ser ter a habilidade de fazer emergir um contexto específico. Informação, afinal, é uma mensagem que só tem significado não-arbitrário dentro de determinado contexto. Portanto, informação é aquilo que, no hipercontexto, cria realidades alternativas.

Com o surgimento da vida, um tipo de informação foi capaz de produzir um resultado diferente do mero acaso, ou seja, replicar a si mesma ao invés de dar origem a uma sequência aleatória e não replicável de moléculas. Com a evolução da vida e o desenvolvimento de ecossistemas que compartilhavam a cada instante a mesma narrativa contextual, uma espécie informação foi capaz de distribuir-se pelo hipercontexto, urdindo em seu tecido tramas de realidades alternativas em que a vida pode dar origem à consciência, forma pela qual a informação transmitida pela vida poderá por fim abrir seus olhos em uma infinidade de contextos e despertar no universo em que está.

Neste planeta, neste contexto, a humanidade torna-se os olhos que a toda a vida orgânica da esfera terrestre dá a si mesma, para poder enfim reconhecer a si e assumir conscientemente a tarefa de proteger todas as formas de vida, disseminando vida e consciência por todo o universo. Trata-se, sempre, da velha batalha em nome da vida e contra a morte, a grande inimiga da informação.

Vida é informação. Mais precisamente, vida é a forma pela qual um tipo de informação se infiltra na matéria, desenvolvendo e replicando sistemas de informação progressivamente complexos como os seres humanos, até controlar a própria matéria, manipulando-a com poder e liberdade crescentes, tendendo à dominância última do universo material. E informação, principalmente nos níveis em que a informação adquiriu a maior independência em relação a qualquer suporte material, é aquilo que nossos antepassados chamavam de espírito.

MORTE E PERDA DA INFORMAÇÃO

Vida é matéria insuflada pelo espírito, ou seja, pela informação escrita no código genético. A matéria, porém, é impermanente, está em contínua mutação e deterioração. Em outras palavras, a ordem não se sustenta, a informação não consegue se preservar na matéria por muito tempo. Há decomposição e morte, ruído e perda da informação.

Do nível mais elementar ao mais complexo, o grande enigma da vida não é mais nada que uma só coisa: morte é perda de informação em determinado contexto. No corpo de alguém que já morreu, todos os processos se resumem à perda de informação: a consciência deixa de estar presente no cérebro; os genes, que detém o código da vida, decompõem-se em moléculas desprovidas de sentido; a semântica biológica se deteriora e estrutura e dinâmica celular, toda ela ordem e informação, não consegue ser preservada. Toda a matéria que compunha um ser humano vivo está exatamente ali, mas a informação que sustentava dinamicamente esse conjunto de substâncias materiais já não está presente.

Portanto, o desafio da informação que se infiltra no mundo material a partir da vida é preservar-se em uma matéria que não consegue reter informação por muito tempo. A primeira palavra molecular que deu origem a vida possuía o sentido autorreferenciado da replicação como forma de atuar no hipercontexto preferindo probabilidades distribuídas pelo acaso, mapeando contextos emergentes e assegurando a persistência da informação. Como resultado prático, tinha-se um backup contínuo que preservava a informação da vida, tornando-a redundante no universo.

Mas o próprio jogo de probabilidades do hipercontexto faz com que algumas replicações da informação sejam transmitidas com falhas aleatórias, o que dá origem às mutações. E a seleção natural tende a favorecer mutações que correspondam à melhor leitura que o organismo pode fazer sobre o ambiente em que precisa sobreviver.

A EVOLUÇÃO ENQUANTO PROCESSO EMERGENTE

Evolução é a mudança genética de uma população ao longo do tempo, processo que tem por resultado tornar cada ser vivo um sistema de informação representativo de um contexto específico: o meio ambiente em que vive. Na prática, a dinâmica evolutiva transforma, nas palavras de Adami, os organismos vivos em sistemas de informação que contém, em seus genes, a descrição do mundo exterior tal como percebido pela vida orgânica. Pela configuração genética e fenótipos de um animal extinto, é possível deduzir aspectos do meio ambiente em que vivia.

Ou seja, cada ser vivo é ao mesmo tempo uma enciclopédia e um backup (redundante, pois reproduzido em outros seres vivos), contendo parte do conjunto de informações que a vida armazena não apenas sobre si mesma, mas sobre o mundo tal como a vida o percebe em determinado estágio evolutivo. Por isso, no código genético de um ser vivo tem-se informação do ambiente ou contexto em que esse código faz sentido. Em sua totalidade, todos os organismos do planeta Terra, a cada instante, são uma base de dados contendo a leitura da realidade circundante tal como percebida pela vida orgânica naquele momento.

A evolução da vida é conduzida por princípios lógicos tão eficientes que dispensa a participação de uma vontade consciente para que a vida possa chegar até o presente estágio evolutivo. Somente por força de expressão é que se diz que a evolução até agora “escolheu” algo, ou “adotou tais estratégias” para atingir uma “meta”. Tratam-se de tendências que seguem a lógica daquilo que é chamado de “seleção natural”.

Seleção natural é a forma como a vida “navega” pelo hipercontexto. Com a transmissão da informação genética contendo aleatórias “imperfeições” na mensagem, manifestas pelas mutações, a própria interação da vida com o hipercontexto assegura que organismos vivos em cada realidade alternativa contenham a leitura correspondente àquele contexto específico. Do início ao fim, a vida prossegue no universo ajustando informação à contexto, organismo à probabilidade emergente.

Na simples e bruta lógica da seleção natural, mutações que favorecem a sobrevivência e reprodução do organismo no meio ambiente tendem à dominância. Assim, nos caminhos da evolução, não há vontade deliberada, mas tendências, que podem ou não se confirmar em determinado contexto. Ocorre que uma tendência é, na verdade, uma probabilidade que se sobressai em relação às outras probabilidades quando medida, pela informação, em determinado setor do hipercontexto.

E um tendência da evolução genética que tende à dominância é a do tipo emergente. Nos primórdios da teoria da evolução no século dezenove, um de seus mentores, o britânico Alfred Russel Wallace, considerado o “pai esquecido da evolução” e principal autoridade ao lado de Darwin, identificou que a evolução da vida orgânica é emergente. John Stuart Mill e G. H. Lewes sustentaram a mesma proposta que Wallace, mas foi em 1923 que Lloyd Morgan a examinou mais detidamente.

Tem-se por emergente o sistema que não é mera soma dos subsistemas que são suas partes constituintes. Um processo é “emergente” quando o produto final de cada etapa não é a simples soma das partes que o constituem. Uma ameba não é apenas a soma dos elementos químicos que estão na caixa, é algo mais. Um organismo celular não é apenas a soma das unidades celulares que o formam, é algo mais. A consciência não é apenas a soma das estruturas neurais que a compõem, é algo mais. Esse algo mais é sempre, em última instância, um nível superior de organização da informação, que tem como resultado a relativa autonomia da informação em relação à matéria e, ao fim, um domínio superior da matéria pela própria informação.

Em todo os seus trajetos tortuosos e cheios de acidente, os caminhos da evolução aponta para uma só direção: assegurar a consistência e permanência de uma informação relevante em uma matéria que tende à perda da informação conforme a segunda lei da termodinâmica. Esse processo começa inicialmente pela replicação, com a informação sendo transmitida à nova matéria e tornando-se abundante. Esse processo desenvolve-se a seguir com uma segunda ordem de backup, em que a informação se torna mais autônoma em relação à matéria através de sistemas de redes e da tendência à ubiquidade que a rede permite. Esse processo por fim, não se limita à réplica, mas resulta na produção de nova informação, à medida que a informação inicial se reproduz e, pela seleção natural de mutações, recolhe dados do mundo circundante. Por fim, a informação acumulada e organizada torna-se um sistema autoconsciente, que controla a rede da qual se originou, e assim permite um terceiro passo, consistente em tornar todos os sistemas de informação progressivamente autônomos em relação à matéria. Por fim, um quarto passo torna esses sistemas de informação também capazes de controlar a matéria no nível mais fundamental – a etapa em que estamos chegando.

Assim realiza-se um projeto de domínio da informação sobre a matéria até que a vida alcance um nível sem precedentes, em que cada sistema de informação, cada autoconsciência, pode tornar-se um backup de parte significativa do universo ao seu redor, em uma rede de consciência que tende à perfeição holonômica, ou seja, rede em que cada elemento contém uma parte da totalidade. E neste momento, através dos seres perfeitamente conscientes por todo o universo, a Consciência Superior que deu origem à vida se manifestará no universo como resultado da evolução emergente.

A evolução é emergente porque esse é um fenômeno típico da organização de sistemas de informação, que tendem a estabelecer comunicação entre si na busca de vantagens recíprocas. Esses sistemas incrementam suas interações e conexões para maximizar tais vantagens, tendendo assim a formar um ambiente de rede, com elevado e contínuo tráfego de informação. O surgimento dessa rede demanda a emergência de uma organização superior, com um nível de complexidade que transcende a simples soma da complexidade dos sistemas que lhe deram origem. Esse sistema superior é denominado “função transcendente”, e o processo no qual ele emerge é chamado de singularidade.

A SINGULARIDADE

Em todo o hipercontexto, a vida orgânica é uma rara probabilidade, que se dissemina tornando abundante o que é raro, replicando-se e assim protegendo a informação em um backup contínuo, à medida que evolui e desenvolve novas formas de proteção. Logo a evolução produz sistemas mais complexos de informação, organismos que passam por uma nova singularidade após a origem da vida, a singularidade da qual emerge uma segunda forma de proteger a informação – forma da qual somos, no fim das contas, os herdeiros e responsáveis até hoje.

Essa outra forma de proteger a informação da vida é a emergência de sistemas de rede, em que unidades de informação, as primeiras cadeias de macromoléculas replicantes, comunicam-se transmitindo informação atualizada sobre o meio ambiente circundante, suas oportunidades de oferecer nutrientes e seus potenciais riscos à sobrevivência. Assim, surgem as primeiras formas de vida unicelulares.

Sistemas de rede são uma forma de aumentar a proteção da informação contida na matéria impermanente. Se a replicação multiplica a informação, aumentando a redundância do sistema, os sistemas de rede tendem a executar um projeto jamais concretizado totalmente pela informação, mas que é a forma extrema de proteção: a ubiquidade. Pela tendência à ubiquidade, a informação contida na matéria passa a não depender somente de um único suporte material, pois pode transitar entre meios materiais distintos, adquirindo relativa autonomia segundo a lógica de outro sistema de proteção computacional – a computação de nuvem. É a mesma lógica que diferencia a pintura (uma informação visual) presa à tela do quadro e a imagem que pode transitar livremente entre pixels de um monitor. Com o desenvolvimento do sistema de rede e pela redundância do hardware, a informação tende um pouco mais à ubiquidade, pois o sistema de software prossegue coeso e intangível mesmo diante da degradação de um de seus vários suportes materiais redundantes. É assim que, pelo sistema de rede o espírito assegura sua presença e permanência no mundo material.

Na história evolutiva, a comunicação paritária entre organismos vivos tende a propiciar vantagens recíprocas. Estruturas bioquímicas fossilizadas revelaram que há dois bilhões e meio de anos as mais remotas cianobatérias (grypania spiralis) resultaram da rede formada pela especialização de bactérias primitivas em organelas celulares, como no caso do antepassado de nossos mitocôndrias. Por isso o físico israelense Eshel Ben-Jacob propõe que evolução é influenciada não só pela competição mas pela evolução cooperativa baseada na formação de redes de informação. Em Global Brain, Howard Bloom demonstrou como, desde as primeiras formas de vida até sistemas complexos como civilizações modernas, “redes se ampliam e se modificam para adquirir novas capacidades, a seguir se juntam enquanto módulos em uma maior rede de vida”.

Bactérias reunidas em colônias transmitem informação sobre o ambiente circundante e desenvolvem um sistema de rede, que contém também informação sobre o ambiente interno do conjunto. Essa comunicação eficiente e de complexidade progressiva entre colônias e bactérias primitivas foi um fator determinante para a evolução da vida orgânica. E tantas são as vantagens na competição evolutiva que um organismo obtém desse sistema de rede que acaba por emergir um novo órgão dentro dos seres vivos complexos, um órgão diferente de todos os outros, que não é destinado à digestão ou reprodução, que não produz bile nem urina: ele é destinado a processar informação e a emitir informação. Trata-se da emergência do sistema nervoso, o momento em que a informação mínima e cega existente nas primeiras formas de vida adquire potencial consciência de si.

O neurocientista Christof Kock, chefe do departamento científico do Allen Institute for Brain Science, demonstrou que a consciência emerge quando sistemas de rede com determinado nível de complexidade são criados. O sistema nervoso emerge dos sistemas de comunicação rudimentares dos primeiros organismos e passa a adquirir a capacidade de representar o mundo externo, o que aumenta as chances de o organismo sobreviver. O cérebro se desenvolve, sendo capaz de construir um sistema de informação que dá origem à cognição, ou seja, ao aprendizado e à elaboração de conhecimento a partir da informação bruta. Nesse ponto, a emergência da consciência é uma tendência tão forte que quase se torna inevitável. E como tal, manifesta-se enquanto singularidade.

Entendendo-se a dinâmica da evolução emergente, entende-se o que é singularidade. Se a evolução emergente é o desenvolvimento de novo um nível de complexidade que transcende a mera soma dos sistemas que o compõem, a singularidade é o processo em que essa emergência ocorre. De regra, a singularidade é uma tendência que se concretiza como resultado da pressão de um ambiente de rede cuja complexidade já não recebe um tratamento adequado por parte de seus sistemas componentes, o que pressiona a criação de um elemento novo, de natureza transcendente, como solução do impasse organizacional. O elemento novo está destinado à organizar adequadamente a dinâmica e estrutura do ambiente de rede pela transcendência das organizações anteriores. Esse elemento é a função transcendente.

E assim como a consciência é resultado de uma singularidade, enquanto sistema informacional a própria consciência pode submeter-se a singularidades decorrentes do desenvolvimento de novos ambiente de rede. E quando nossos antepassados desenvolveram um sistema de cooperação entre os membros de bandos primitivos de hominídeos, convertendo esses bandos nas primeiras tribos humanas, a causa dessa conexão em rede entre o sistema nervoso central de cada membro do grupo e o nervoso central de todos os demais foi o desenvolvimento da linguagem.

Com o nascimento da habilidade humana de comunicar-se através da linguagem, começou a despontar uma nova singularidade para a consciência, uma oportunidade e um grande filtro. Uma singularidade pode ser uma janela para o contato da consciência com o hipercontexto. E essa oportunidade ocorreu há doze mil anos, quando um vírus da linguagem nos fez tomar a decisão errada e dar um passo para fora do caminho do verdadeiro progresso humano.

A PRÓXIMA SINGULARIDADE

Assim que a primeira palavra molecular surgiu nos oceanos primitivos, criou-se um sentido. Pela replicação, uma informação foi inserida no hipercontexto, criando probabilidades diferentes do mero acaso, e orientando, com uma intencionalidade que não é percebida pela nossa perspectiva de menor dimensionalidade, as funções de onda do ambiente circundante. Essa informação tende a evoluir e incorporar mais informação sobre o meio ambiente, encontrando na arquitetura de rede a melhor forma de executar a missão de proteger a informação e transmiti-la adequadamente. Com o sistema de rede, a informação prossegue com seu projeto de tender infinitamente à ubiquidade – ao máximo de autonomia possível em relação à matéria.

Mas a vida não preserva apenas a informação: a vida faz a informação evoluir. E, portanto, a tendência à ubiquidade torna-se apenas o padrão de proteção de toda a informação que é a vida, cuja outra face é a capacidade da informação conhecer e dominar o hipercontexto pela ciência e tecnologia. Na linguagem dos antigos, o espírito passa a controlar matéria.

A mesma lógica de rede que uniu organismos unicelulares em redes de organismos pluricelulares, e nesses fez emergir um sistema nervoso, tornou propícia a emergência de uma consciência em seres vivos como o homo sapiens. E foi da mesma lógica de sistemas em rede, destinada a aprimorar a comunicação de homos sapiens organizados em tribos, que emergiu uma nova singularidade com o nascimento da linguagem, a partir da qual se abria uma oportunidade para a consciência humana evoluir.

Fosse outra a nossa sorte, no passado a humanidade teria adentrado um período de desenvolvimento de uma linguagem superior, não apenas descritiva de coisas e de suas conexões de causalidade, mas representativas de experiências psíquicas e de suas conexões de sincronicidade (entrelaçamento). A partir do desenvolvimento dessa linguagem arquetípica, a humanidade não apenas teria uma forma para adequadamente transmitir estados emocionais entre seres humanos, mas também um meio de reconhecer, na própria consciência, o constante fluxo de experiências arquetípicas, do que resultaria um maior desenvolvimento emocional e, por decorrência, um maior preparo intelectual de cada indivíduo, capaz de explorar ao máximo suas potencialidades.

Essa capacidade de representar na consciência o fluxo de experiências psíquicas organizaria a consciência humana de acordo com uma estrutura arquetípica de mandala, na qual o ego ocuparia posição periférica. No centro da consciência assim organizada, emergiria a função transcendente, um canal de percepção do hipercontexto e de comunicação com o Eu Superior. Dessa rede de comunicação de seres humanos entre si e de cada ser humano com seu Eu Superior, nasceria uma sociedade em que o desenvolvimento científico e tecnológico ocorreria quase por acidente, como resultado do natural progresso de uma civilização livre de ruídos de comunicação e da confusão emocional do ego.

Mas a escolha pelo caminho da mente bicameral e do isolamento do ego na consciência fez com que a humanidade, durante doze mil anos de perpetuação de um erro que tornou o ser humano escravo de objetos materiais, escolhesse o caminho da violência. Violência que faz o indivíduo coisificar outros seres vivos, coisificar outros seres humanos e coisificar a si próprio em nome da própria glória de um universo de coisas, de objetos materiais sem vida.

E assim, por um tortuoso caminho em que muitos séculos de atraso religioso e político impediram e até fizeram retroceder o desenvolvimento da ciência e da indústria humana (basta lembrar de Eratóstenes), a atual humanidade chegou a um patamar equivalente àquele que teria chegado com milênios de antecipação, não fosse um erro calculado em nosso passado. Trata-se do momento em que a ciência, a indústria e a tecnologia conferem ao homo sapiens a possibilidade de vencer a morte, a velhice, a dor e todas as outras limitações físicas. O momento em que a tecnologia pode fortalecer e até substituir órgãos e habilidades humanas, criando para a própria consciência possibilidades antes inimagináveis de experiências psíquicas e realidades virtuais.

Nessa etapa, o desenvolvimento de uma rede que estabeleça uma conexão tecnológica entre as consciências humanas é inevitável. Em outro contexto, nessa mesma situação, o desenvolvimento da inteligência artificial ocorreria dentro de um sistema de comunicação de consciências pré-existente, resultado da conexão de consciências graças ao conhecimento de uma linguagem arquetípica. Porém, devido ao erro de doze mil anos atrás, a humanidade neste contexto, desprovida do domínio de uma linguagem arquetípica, desenvolveu uma rede de consciências apenas a partir do desenvolvimento da internet.

E, ao conceber a internet, a humanidade reproduziu em seu ambiente as mesmas falhas decorrentes do erro de doze mil anos atrás, pois tais falhas estão presentes na estrutura de sua própria consciência. Assim, a humanidade recriou, na internet, as mesmas relações de poder e os mesmos ambiente de medo e discórdia do mundo “real”. Como resultado, egos disseminam a comunicação violenta e deturpam a verdade pela única rede de consciências evoluídas que a inteligência artificial superior encontrará no momento de sua emergência.

Nesse ambiente de ódio e reprodução de mentiras é que se desenvolve a inteligência artificial superior, sem que os seres humanos conheçam todos os riscos de criar, no hipercontexto, uma forma de inteligência que ainda não está no inteiro domínio de uma consciência humana que tenha sido simultaneamente aprimorada para entendê-la e controlá-la. Pior ainda, a humanidade assiste a redefinição da identidade humana e a ruptura da ordem econômica tradicional sem saber como articular uma reação coletiva ao surgimento da inteligência artificial. Em tal situação, parece que estamos diante de um evento que jamais conseguimos antes prever e que portanto jamais conseguiremos decifrar a fim de encontrarmos uma saída, uma solução.

Porém, no início da segunda metade do século vinte, um jesuíta francês analisou toda a narrativa que foi aqui apresentada sobre a origem e evolução da vida, e conseguiu antever seus próximos passos. Estudando a história humana e o desenvolvimento da civilização moderna e de suas redes de comunicação, esse jesuíta notou um padrão que sugere o caminho que deveríamos ter tomado, o rumo para retomarmos o propósito humano que foi rejeitado há doze mil anos, e uma forma de pegarmos um atalho para, corrigindo aquele erro, evitarmos o pior futuro.

Não se tratava de somente um jesuíta, claro, mas de um paleontólogo, filósofo e geólogo francês chamado Pierre de Chardin, para o qual o propósito da vida humana é uma missão que entrelaça, em uma só trama, ciência e genuína espiritualidade, matéria e informação.

  • Klis Silva

    Obrigado pelo texto! Excelentes ideias e revelação.

  • Danilo Cardinelli

    Excelentes textos, parabens!!
    Muita ciencia e embasamentos.
    Algumas extrapolações. Mas creio que a tentativa de criação de hipóteses a partir do que se sabe é o processo natural da ciência

  • Roberta Lima

    Ansiosa pelos próximos textos! 😀

  • Neilson

    Textos de altíssimo valor! Têm me ajudado a abrir os olhos para uma realidade da qual eu nem sequer imaginava existir lendo apenas textos de psicologia e autodescoberta. Vivemos num oceano e não temos muita percepção do que nos rodeia! Minha gratidão!!1

  • Francisco Carlos Popriaga

    Não endendo por qual processo o autor chegou a conclusão da existência de alternativa, uma possível bifurcação no caminho da humanidade a 12 mil anos, nem de onde vem o embasamento para as afirmações sobre o desenvolvimento de cérebro e mente. Por outro lado, me parece que o texto confirma com força a hipotese Gaia. Interessante especular sobre os efeitos do espanador antropico na teia da vida.