o preço das coisas e o trânsito no brasil

O preço das coisas e o trânsito no Brasil

Em Consciência, Economia, Sociedade por Thiago Hiroshi ArasakiComentário

Quanto você paga­ria por uma gela­deira? Acha que R$10 mil é um absurdo? Bem, vamos pen­sar por esse lado: pagando R$10 mil em uma gela­deira que vai ficar na sua casa por uns 10 anos, (ape­sar de não ser muito tempo, já que tem gente que tem uma gela­deira na vida) divi­dindo pelo tempo, seria como durante todo esse período fos­sem usa­dos mil reais por ano até o fim do uso do pro­duto. Usa­mos a gela­deira todos os dias, várias vezes e nem ima­gi­na­mos ter uma vida sem ela certo? Mas R$10 mil? Muito caro certo?

Agora vamos ima­gi­nar nosso carro. E se com­prás­se­mos um carro de R$50 mil (o que não clas­si­fica nem como um carro popu­lar nem um carro de luxo) e o usás­se­mos por uns 5 anos. Divi­dindo pelo tempo, seriam usa­dos R$10 mil reais por ano até o fim do uso deste pro­duto. São R$10 mil por ano! Sem con­tar todos os gas­tos extras ine­ren­tes do uso de um auto­mó­vel. E depois de 5 anos, você vai que­rer com­prar outro carro, de outro modelo, mais veloz ou maior, melhor ou mais novo (con­se­quen­te­mente mais caro). Pois não é comum as pes­soas tro­ca­rem de gela­deira quando sai um modelo novo, já com o carro…

Per­cebe a dife­rença? Você pode­ria viver sem uma gela­deira? E sem um carro? Mas hoje no Bra­sil pagar R$50 mil por um carro é “nor­mal”. O pro­blema que lá fora o custo do mesmo carro é bem menor. Por que isso? Cul­par somente os impos­tos? Não. No Bra­sil as coi­sas têm o valor que nós que­re­mos que elas tenham. Você acha que os valo­res estão um absurdo? Eles só estão neste pata­mar por­que as pes­soas pagam por isso. Atu­al­mente no nosso país o carro é um sinô­nimo que sta­tus e riqueza. Já ouviu falar na máxima de que em paí­ses sub­de­sen­vol­vi­dos o rico tem carro e o pobre anda de ôni­bus e que em paí­ses desen­vol­vi­dos o rico anda de ôni­bus e é o pobre que anda de carro?

Bem, a nossa malha viá­ria não vai aumen­tar ou melho­rar tão cedo. Mas parece que ainda é difí­cil que nos­sos gover­nos invis­tam em trans­porte cole­tivo. Já que a quan­ti­dade de ruas não vai aumen­tar, não seria mais fácil melho­rar e aumen­tar a quan­ti­dade de gente tran­si­tando por uni­dade motora? Mas aí mui­tas pes­soas dizem que não que­rem andar com um monte de gente aper­tada den­tro de um ôni­bus velho e pior, de pé durante o tra­jeto.

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Vou com­par­ti­lhar a expe­ri­ên­cia que tive do outro lado do mundo, no Japão, onde morei por quase dois anos. Lá o trans­porte cole­tivo fun­ci­ona e fun­ci­ona assus­ta­do­ra­mente muito bem. Só para dar alguns exem­plos, dife­rente daqui, lá cada ponto de ôni­bus tem o horá­rio que ele irá pas­sar como se fosse um ter­mi­nal. E pode apos­tar se está escrito que ele vai pas­sar as 07h08­min, ele vai pas­sar as 07h08­min. Como é pos­sí­vel? Pla­ne­ja­mento. Outro exem­plo que vi por lá eram pon­tos de ôni­bus que ao invés de terem o horá­rio impresso, tinham um qua­dro com todas as linhas que pas­sa­vam por lá e diziam como em uma esta­ção, se o ôni­bus estava se apro­xi­mando ou não. Desta maneira é mais difí­cil de encon­trar ôni­bus lota­dos e sem pre­vi­são e hora de che­gada ou saída.

Mas isso é do outro lado do mundo, você pode pen­sar. Mas eles não come­ça­ram do nada e com cer­teza nem tudo deu certo logo no começo. Mas lá tudo come­çou com a cons­ci­en­ti­za­ção da popu­la­ção do uso do trans­porte público. O carro popu­lar custa metade do que custa aqui, mas nem por isso todo mundo quer ter o seu carro. E nem todo ôni­bus é novi­nho e boni­ti­nho, ele é sim, fun­ci­o­nal e passa no horá­rio, ponto! As pes­soas pre­fe­rem usar o trans­porte cole­tivo por ser mais barato e mais rápido.

Não vou ser hipó­crita e dizer que é con­for­tá­vel igual andar de carro, mas eu sem­pre fui e sou um usuá­rio diá­rio do trans­porte cole­tivo e não pre­ciso de um carro. Nunca tive um. Claro que quero com­prar um em deter­mi­nada etapa da minha vida, mas é algo neces­sá­rio agora? Ou é somente um luxo para poder tran­si­tar por aí? Ter um carro lhe dá teo­ri­ca­mente mobi­li­dade, mas pode ter cer­teza que que­rendo ou não você vai ser mais um ser humano preso na sua gai­ola de metal e vidro no trân­sito parado da sua cidade.

Não digo para dar­mos as mãos e andar de bici­cleta vivendo do que a terra nos for­nece, mesmo por­que o carro é neces­sá­rio para tra­ba­lho e trans­porte de mui­tos e tam­bém por­que não vive­mos na Holanda, país hoje con­si­de­rado o melhor para peda­lar no mundo. Mas sei que ini­ci­a­ti­vas como hoje estão sendo fei­tas em São Paulo, aumen­tando e melho­rando a infra­es­tru­tura para os ciclis­tas é um passo impor­tante para a melho­ria da qua­li­dade de vida. E que deve­ria ser seguida por todas as nos­sas cida­des.


É justo ter que pagar tão caro por um carro? Que­rer usar o trans­porte cole­tivo, mas mudar de ideia por­que se sabe que ele é ruim? Bem, para mudar a cidade pre­ci­sa­mos pelo menos ten­tar mudar nós mes­mos.

Pense quando foi a última vez que dei­xou o carro em casa para andar pelas redon­de­zas. Afi­nal quando via­ja­mos para conhe­cer outros luga­res é sem­pre melhor peram­bu­lar pelas ruas do que olhar de relance pelas jane­las do seu carro.

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