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O poder e o peso da clareza

Em Consciência, O MELHOR DO AZ por Gustl RosenkranzComentário

Alguém ques­ti­o­nou há uns dias, em uma con­versa, o porquê de as pes­soas não enxer­ga­rem o óbvio, de se nega­rem a ver as coi­sas como real­mente são. Esse alguém estava com­pre­en­si­vel­mente indig­nado com tanta coisa ruim que acon­tece no mundo, tanto no âmbito cole­tivo, com toda a huma­ni­dade pas­sando por pro­ble­mas sérios (aque­ci­mento glo­bal, guer­ras, cor­rup­ção nos gover­nos de mui­tos paí­ses, um capi­ta­lismo sel­va­gem que mais escra­viza que liberta, etc.), como no âmbito indi­vi­dual (as rela­ções se tor­nam cada dia mais super­fi­ci­ais, as pes­soas se iden­ti­fi­cam mais com a maté­ria do que com o espí­rito, o amor é uma pala­vra em moda, mas sem que seja vivido como deve­ria, etc.).

Dis­cu­ti­mos sobre o assunto e sobre as pos­sí­veis cau­sas, inclu­sive aque­las apon­ta­das por auto­res diver­sos por aí, mas cons­ta­ta­mos que mui­tas expli­ca­ções per­dem a con­sis­tên­cia quando são refle­ti­das com maior pro­fun­di­dade. A falta de edu­ca­ção, que na opi­nião de alguns faz com que a “massa cin­zenta” tenha um raci­o­cí­nio limi­tado, fazendo-a viver pra­ti­ca­mente sem pen­sar, por exem­plo, não vale como argu­mento, já que há pes­soas com boa for­ma­ção, aca­dê­mi­cos e até mesmo cien­tis­tas que se negam a enxer­gar o óbvio da mesma forma.

Outros argu­men­tam com a mani­pu­la­ção das pes­soas pela mídia, pela tele­vi­são, pelas revis­tas, pelos jor­nais, pela inter­net… Cons­ta­ta­mos de fato que essa mani­pu­la­ção existe, mas tam­bém isso não parece ser o motivo mais pro­fundo de tama­nha “cegueira”, pois uma mani­pu­la­ção deve­ria per­der seu poder sobre uma pes­soa assim que ela toma cons­ci­ên­cia de que está sendo mani­pu­lada. Como essa mani­pu­la­ção da mídia é conhe­cida e mui­tos de nós sabe­mos que ela existe, ela tam­bém não pode ser a causa das pes­soas “vira­rem a cabeça, fin­gindo não ver o que estão vendo”.

E refle­ti­mos ainda sobre outros aspec­tos, sobre outras pos­sí­veis cau­sas, como o con­su­mismo, o egoísmo e o ime­di­a­tismo das pes­soas, mas não che­ga­mos a nenhuma con­clu­são. Somente alguns dias depois, refle­tindo sozi­nho, é que encon­trei o motivo que acre­dito ser o prin­ci­pal de tal com­por­ta­mento: MEDO. Medo de enxer­gar, medo de enten­der, medo da cla­reza, que, por um lado, nos leva um passo adi­ante, mas, por outro, aumenta nossa res­pon­sa­bi­li­dade, faz com que sur­jam novas per­gun­tas e torna nossa vida mais com­pli­cada, mesmo que mais plena.

Ilustração de Goya: "O sono da Razão produz monstros". Circa 1979.

Ilus­tra­ção de Goya: “O sono da Razão pro­duz mons­tros”. Circa 1979. Você está dor­mindo agora?

Sim, a cla­reza, que é pode­rosa e pesada: pode­rosa por­que nos torna seres mais inde­pen­den­tes, autár­qui­cos, crí­ti­cos e ple­nos, mas pesada por­que ter cla­reza sig­ni­fica per­der a ilu­são, ver a vida e o mundo como real­mente são, faz com que dei­xe­mos (pelo menos um pouco) de ser “ani­mais de reba­nho” e, ao invés de seguir os outros sim­ples­mente, come­ça­mos a ques­ti­o­nar o cami­nho, o que nos traz pro­ble­mas de con­vi­vên­cia com os demais, pois muda nossa men­ta­li­dade, fazendo-nos refle­tir sobre nos­sas rela­ções, sobre nos­sas neces­si­da­des, sobre nos­sos sonhos e ide­ais e “com­pli­cando” nossa vida, já que ela (a cla­reza) faz com que deter­mi­na­dos mode­los sejam inda­ga­dos e mes­mos rejei­ta­dos, der­ru­bando lite­ral­mente cer­tas con­ven­ções, mui­tas vezes sem que já haja uma nova con­vic­ção. Ou seja, com o aumento da cla­reza, nos des­pe­di­mos de algo antigo, que já car­re­ga­mos conosco tal­vez por uma vida inteira, sem que sai­ba­mos ainda o que nas­cerá no lugar disso. E isso mete medo!

Veja só como a cla­reza “com­plica” nossa vida: ima­gi­ne­mos uma pes­soa que adora cur­tir a vida e que come e bebe de tudo, doces, sal­ga­dos, fast food, carne, con­ser­vas, refri­ge­ran­tes, bebi­das alcoó­li­cas e tudo que ela acha que tem direito, sem nunca refle­tir sobre isso (falta de cla­reza).

Um dia essa pes­soa lê por acaso em algum lugar sobre a impor­tân­cia de se ali­men­tar bem, já que nosso corpo pro­duz dia­ri­a­mente e durante toda a vida novas célu­las e essas célu­las são com­pos­tas daquilo que inge­ri­mos, e que uma boa ali­men­ta­ção é o requi­sito prin­ci­pal para que pos­sa­mos levar uma vida sau­dá­vel. Ima­gine agora as pos­sí­veis rea­ções dessa pes­soa:

a) pode ser que ela real­mente entenda e inte­ri­o­rize o que leu, refle­tindo pro­fun­da­mente sobre a impor­tân­cia de se ali­men­tar bem, con­cluindo que seria sen­sato ter mais cui­dado com o que ela come. Essa pes­soa vai ter então que mudar seus hábi­tos, ler emba­la­gens dos ali­men­tos que com­pra, estu­dando os ingre­di­en­tes, ques­ti­o­nando se aquilo tudo real­mente fará bem a seu corpo, e ela vai dei­xar de comer (ou comer menos) no McDonald’s ou na lan­cho­nete da esquina, cozi­nhando mais vezes ela mesma e tendo muito tra­ba­lho para que sua ali­men­ta­ção seja real­mente sau­dá­vel. Se isso acon­te­cer, a pes­soa terá se deci­dido pela CLAREZA e por uma vida mais “com­pli­cada”.

Ou ela se decide pela outra opção:

b) o texto lido é igno­rado, essa pes­soa irá, no máximo, fazer uma obser­va­ção do tipo “que bes­teira!” ou “sem­pre comi o que quero e isso nunca me fez mal!” e des­car­tará a cla­reza, optando por con­ti­nuar se ali­men­tando da mesma forma como até agora, sem ler as emba­la­gens, sem refle­tir sobre o efeito de cer­tas subs­tân­cias sobre seu corpo, fazendo de conta que aquele texto nunca exis­tiu. Se isso acon­te­cer, a pes­soa terá se deci­dido pela FALTA DE CLAREZA e por uma vida mais “sim­ples”.

É claro que a opção b) mos­tra em pri­meiro plano um COMODISMO da pes­soa, mas acre­dito vee­mente que a ver­da­deira causa seja MEDO. E para expli­car isso, tenho que ir um pouco mais a fundo na aná­lise desse com­por­ta­mento humano:

Em minha opi­nião, o ser humano é movido por dois impul­sos bási­cos: a neces­si­dade de sobre­vi­ver e a von­tade de ser feliz. O sobre­vi­ver é mais fácil, já que é gui­ado por nos­sos ins­tin­tos, coisa que rece­be­mos da natu­reza, que fun­ci­ona sem­pre mais ou menos, mesmo que mui­tas vezes agi­mos con­tra aquilo que é natu­ral. Mas a coisa com­plica quando se trata do anseio de ser feliz.

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A busca pela feli­ci­dade ime­di­ata nos des­co­necta da rea­li­dade.

Quando não saci­ado, esse anseio pode se trans­for­mar em angús­tia, em afli­ção, algo nada agra­dá­vel, que ten­ta­mos evi­tar a qual­quer custo. Assim, com medo de ser­mos infe­li­zes, bus­ca­mos a feli­ci­dade ime­di­ata em tudo que faze­mos, ten­tando achar sem­pre o cami­nho mais fácil e curto, pois não que­re­mos sen­tir tal angústia/aflição. O pro­blema aqui é que, ao agir de tal modo, nos ilu­di­mos, já que essa feli­ci­dade ime­di­ata per­ma­nece sem­pre na super­fí­cie, nos tor­nando igual­mente super­fi­ci­ais.

Come­ça­mos a rede­fi­nir a feli­ci­dade de uma forma sem muita con­sis­tên­cia, bus­ca­mos saciar nosso anseio com coi­sas mate­ri­ais e, no final das con­tas, acre­di­ta­mos que somos feli­zes quando com­pra­mos ou mais ainda quando ganha­mos um novo iPhone, um carro, uma moto ou mesmo um seca­dor de cabe­los. Mas, assim que temos aquele objeto tal alme­jado, per­ce­be­mos que a ale­gria (que con­fun­di­mos com feli­ci­dade) passa rápido, que nos sen­ti­mos logo vazios e que pre­ci­sa­mos de outro “brin­quedo” para dis­trair nossa angús­tia emer­gente, e assim nos tor­na­mos víti­mas cati­vas do con­su­mismo.

Ou então nos entre­ga­mos a uma vida cheia de diver­ti­men­tos, fes­tas a cada fim de semana (ou várias vezes por semana!), bebe­mos, usa­mos dro­gas, vive­mos rela­ções “amo­ro­sas” diver­sas sem nenhum elo mais pro­fundo, escu­tando música alta o tempo todo (fugindo do silên­cio!) ou nos entre­ga­mos ao mundo de fan­ta­sia apre­sen­tado pela TV ou pela inter­net, sem que isso nunca seja sufi­ci­ente, fazendo com que quei­ra­mos sem­pre mais, e assim nos tor­na­mos víti­mas da dis­tra­ção eterna e da mani­pu­la­ção (pela TV, por redes soci­ais na inter­net, por quem orga­niza even­tos e pre­cisa de público que pague os cus­tos e o lucro, etc.).


Tanto de uma forma como de outra, isso não é sau­dá­vel e, pior ainda, isso não leva a lugar algum. Temos medo de ser infe­li­zes, teme­mos a angús­tia, teme­mos até mesmo per­ce­ber que somos frá­geis, que somos pas­sa­gei­ros, que tudo e todos um dia ter­mi­na­rão de exis­tir (neste mundo). Assim ten­ta­mos dis­trair essa angús­tia, essa afli­ção, cor­rendo o tempo todo atrás de alguma coisa que des­vie nossa aten­ção, atrás da “inje­ção de feli­ci­dade ime­di­ata” que nos traz aca­lanto e paz inte­rior, mesmo que somente apa­ren­tes.

Sou con­victo de que todos nós, no fundo, sabe­mos disso, mas temos medo de aban­do­nar uma tra­je­tó­ria per­cor­rida até agora por estar­mos fami­li­a­ri­za­dos com ela, por­que acha­mos mais fácil nos pren­der a uma “feli­ci­dade” tra­zida por um milhão de coi­si­nhas pas­sa­gei­ras e super­fi­ci­ais do que bus­car uma feli­ci­dade pro­funda e plena, que nos traga aca­lanto e paz inte­rior de ver­dade. E temos medo de que, sem todos “ape­tre­chos” à nossa volta, per­ce­ba­mos que não somos tão feli­zes assim, que nos­sas ami­za­des não sejam tão boas assim, que nosso desejo de ser feliz e amado é muito mais pro­fundo do que parece, que nossa alma pre­cisa de muito mais. Assim, com medo de enxer­gar a fundo e ver o que está por trás da fachada, pre­fe­ri­mos viver sem cla­reza, acre­di­tando que isso nos levará a algum lugar.

Mas, como já dito, isso não é ver­dade e o efeito atin­gido é exa­ta­mente o con­trá­rio do que o dese­jado arden­te­mente: sem­pre tere­mos momen­tos de luci­dez que nos mos­tra­rão que, no fundo, somos infe­li­zes. Se for­mos esper­tos, reco­nhe­ce­mos esses momen­tos de luci­dez como um con­vite a refle­tir, a bus­car maior cla­reza e uma feli­ci­dade real e pro­funda. Mas, se for­mos medro­sos, vamos optar por tomar mais uma “inje­ção de con­sumo e dis­tra­ção” e, como um vici­ado em dro­gas, con­fun­dir mais uma vez essa embri­a­guez com a rea­li­dade.

A pílula da felicidade superficial e ilusória ou a pílula da compreensão profunda da realidade?

A pílula da feli­ci­dade super­fi­cial e ilu­só­ria ou a pílula da com­pre­en­são pro­funda da rea­li­dade?

Ape­sar de pesada, a cla­reza tem uma van­ta­gem muito grande em rela­ção à falta dela: ela nos torna mais cons­ci­en­tes do que e de quem somos, nos torna mais livres, mais aber­tos para o que é autên­tico e nos per­mite conhe­cer uma feli­ci­dade real­mente ver­da­deira.

Ser feliz é encon­trar den­tro de si aquele sen­ti­mento que conhe­ce­mos de nossa infân­cia, quando vivía­mos aqui e agora, sem pre­o­cu­pa­ções e sem más­ca­ras, quando éra­mos por­que éra­mos e não por­que tínha­mos alguma coisa, quando tínha­mos uma cons­ci­ên­cia bela e pura de que feli­ci­dade sim­ples­mente existe, sem pre­ci­sar de ape­tre­chos, sta­tus, enfei­tes, fama ou seja lá do quê.

Ser real­mente feliz sig­ni­fica tra­ba­lhar em si mesmo, con­quis­tar seu espaço neste mundo, sen­tir e res­pei­tar seu valor como ser humano e per­ce­ber que a feli­ci­dade é bem mais do que a ale­gria pas­sa­geira tra­zida por algo mate­rial. O cami­nho que deve­mos seguir é longo, e esse cami­nho é a vida, nossa vida, que quer e deve ser vivida em sua ple­ni­tude, com seus dias de sol e chuva, com as ale­grias e tris­te­zas, com os dias e as noi­tes, com suas fases feli­zes e outras menos feli­zes. Sim, um cami­nho mui­tas vezes pedre­goso, mas vale a pena segui-lo, mesmo por­que não há alter­na­tiva, a não ser viver como alguém que corre da luz, do óbvio, da cla­reza, acre­di­tando ser feliz sem ser, vul­ne­rá­vel a sofrer assim que a “dose coti­di­ana de sua droga” (con­sumo e dis­tra­ção) lhe falte.


Esse longo cami­nho com­paro ao Níger, na África, um dos rios mais lon­gos do mundo. Ele pra­ti­ca­mente morre bem perto do lugar que nasce. Para ser feliz, você tem que seguir o rio assim mesmo, pois não há ata­lhos que levem rapi­da­mente da nas­cente à foz. A ten­ta­ção pode ser forte, já que a dis­tân­cia é pouca, mas não vale e pena ten­tar, pois, mesmo que você con­siga cor­tar o cami­nho, sua feli­ci­dade jamais será a mesma de alguém que seguiu todo o per­curso do rio por vários mil quilô­me­tros.

Se você é um ser humano que deseja cres­cer, ama­du­re­cer e (!) ser real­mente feliz, não tenha então medo da cla­reza, de ver as coi­sas com sobri­e­dade e como real­mente são. E, mesmo que a cla­reza seja “pesada”, nunca esqueça que você é forte o sufi­ci­ente para car­regá-la.


Ori­gi­nal­mente publi­cado por Gustl Rosen­kranz no seu site pes­soal.

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