alfred russel wallace

O pai esquecido da evolução

Em Ciência por Josmael CorsoComentário

Alfred Rus­sel Wal­lace pos­sui mui­tas razões para ser lem­brado. Repre­senta um fan­tás­tico exem­plo de auto­di­data, aven­tu­reiro, cien­tista e, mais impor­tante de tudo, curi­oso.

1. Um evolucionista nada convencional

 

Mui­tos não sabem, pou­cos conhe­cem e um número ainda menor lem­bra-se de que o Bra­sil abri­gou, por longo período, um dos mai­o­res natu­ra­lis­tas do século XIX.

Certo, pode­ría­mos estar nos refe­rindo a Char­les Darwin (1809–1882), o que seria até ver­dade. Mas o inglês que cha­mou nos­sos “avós” de maca­cos esteve por um pequeno período – ape­nas qua­tro meses – em ter­ras bra­si­lei­ras. Além disso, Darwin ficou pou­cos meses por aqui.

Estou falando de outro sujeito, aquele que ficou à sua som­bra. O pai esque­cido da evo­lu­ção.

É curi­oso como che­ga­mos às mes­mas ideias” — Darwin, em carta a Wal­lace em 1867.

Alfred Rus­sel Wal­lace nas­ceu em 07 de janeiro de 1823, no País de Gales, e pos­sui méri­tos de sobra para lem­brar­mos sua tra­je­tó­ria de con­tri­bui­ções à ciên­cia, que ini­ciou aqui, em solo bra­si­leiro.

Espera-se de um natu­ra­lista que tenha feito des­co­ber­tas de novas espé­cies, estu­dado plan­tas, ani­mais, ou seja, algo exclu­si­va­mente rela­ci­o­nado às ciên­cias natu­rais. Porém, Wal­lace foi além e se envol­veu tam­bém com ques­tões soci­ais e exa­tas. Em rela­ção à ciên­cia dos núme­ros, incri­vel­mente ele se meteu a demons­trar que a Terra não é plana — mas antes de che­gar nessa ques­tão, vamos ler um pouco do seu cami­nho até lá.

Dife­ren­te­mente dos pri­mei­ros natu­ra­lis­tas da Era Vito­ri­ana, Wal­lace era fruto de uma famí­lia bas­tante modesta e tra­ba­lhou a vida inteira para sobre­vi­ver. Aos 14 anos teve que dei­xar a escola para tor­nar-se apren­diz de cons­tru­tor. Pouco tempo depois, apren­deu tam­bém o ofí­cio de agri­men­sor, rea­li­zando levan­ta­mento de pro­pri­e­da­des rurais. Da ati­vi­dade ao ar livre aca­bou por desen­vol­ver o inte­resse por his­tó­ria natu­ral, espe­ci­al­mente botâ­nica, geo­lo­gia e astro­no­mia.

Wal­lace, que nunca estu­dou em uma uni­ver­si­dade, che­gou a minis­trar aulas de topo­gra­fia, car­to­gra­fia e dese­nho. Como todo grande curi­oso, pas­sava seu tempo livre na bibli­o­teca, imerso em lei­tu­ras que influ­en­ci­a­ram for­te­mente seu futuro, como o livro “Uma via­gem pelo Rio Ama­zo­nas” de Wil­liam H Edwards (1847) que empol­gou Wal­lace a con­du­zir sua pri­meira expe­di­ção no Bra­sil.

 

2. A viagem à Amazônia e o naufrágio do navio em chamas

 

Em abril de 1848, ao lado de seu amigo Henry Wal­ter Bates (1825–1892), Wal­lace che­gou à atual cidade de Belém, no Pará. Os jovens aven­tu­rei­ros (Wal­lace com 25 e Bates com 23 anos) espe­ra­vam cus­tear a expe­di­ção com a cap­tura e venda de espé­cies cole­ta­das para museus e cole­ci­o­na­do­res par­ti­cu­la­res. Bates per­ma­ne­ceu por 11 anos no país e sua prin­ci­pal des­co­berta ilus­tra todos os livros didá­ti­cos de bio­lo­gia. Wal­lace, a exem­plo dos natu­ra­lis­tas do seu tempo, man­ti­nha curi­o­si­dade em tudo ao seu redor, tanto do que era vivo e como não vivo. Escre­veu ensaios sobre dife­ren­tes cam­pos da bio­lo­gia, geo­gra­fia e até sobre antro­po­lo­gia, des­cre­vendo voca­bu­lá­rios das tri­bos do Rio Uau­pés, Ama­zo­nas.

Aquarelas feitas por Wallace durante suas viagens pelo mundo.

Aqua­re­las fei­tas por Wal­lace durante suas via­gens pelo mundo.

Em 1852, em retorno a sua terra natal, o navio em que se encon­trava incen­diou-se, per­dendo grande parte dos itens cole­ta­dos, incluído espé­ci­mes vivas. A cole­ção par­ti­cu­lar de inse­tos e aves for­ma­das desde que che­gou ao Bra­sil per­deu-se, sendo frus­trada a opor­tu­ni­dade de des­cre­ver cen­te­nas de novas espé­cies. Mas Wal­lace e a tri­pu­la­ção tive­ram muita sorte em sobre­vi­ver, e foram res­ga­ta­dos após dias em alto mar.

Com as ano­ta­ções que con­se­guiu sal­var do nau­frá­gio ela­bo­rou dois livros: Pal­mei­ras da Amazô­nia e seus usos e Nar­ra­tiva da via­gem ao Rio Negro e Ama­zo­nas. Os tra­ba­lhos reper­cu­ti­ram certo pres­tí­gio, o que lhe pro­pi­ciou con­di­ções para rei­ni­ciar suas ati­vi­da­des de explo­ra­dor numa segunda expe­di­ção.

Durante o período que esteve na região, rea­li­zou cen­te­nas de expe­di­ções às ilhas e cole­tou uma incrí­vel quan­ti­dade de espé­ci­mes: em torno de 125 mil, pró­ximo de 5 mil eram espé­cies novas à ciên­cia. As expe­ri­ên­cias desse período estão rela­ta­das na obra O Arqui­pé­lago Malaio (1869), con­si­de­rado o melhor livro de via­gem cien­tí­fica do século XIX, des­cre­vendo a cap­tura de oran­go­tan­gos, aves-do-paraíso e o con­ví­vio com os povos nati­vos.

 

O impasse com Charles Darwin

 

O ano de 1858 foi mar­cado por um acon­te­ci­mento his­tó­rico muito impor­tante para a Ciên­cia: o impasse entre Wal­lace e Char­les Darwin. Nosso pes­qui­sa­dor pas­sou anos inves­ti­gando os meca­nis­mos que atu­a­vam sobre a evo­lu­ção dos orga­nis­mos, porém foi atra­vés de um epi­só­dio de febre por malá­ria, quase lhe cus­tando a vida, que con­ce­beu a teo­ria pela qual orga­nis­mos com atri­bu­tos melhor ajus­ta­dos ao ambi­ente pos­suem uma chance ele­vada de sobre­vi­ver e trans­fe­rir carac­te­rís­ti­cas aos seus des­cen­den­tes. Empol­gado com sua des­co­berta, Wal­lace escre­veu um ensaio e enviou para Darwin, com quem já se cor­res­pon­dia há anos.

Foi só um impasse, mas não resis­ti­mos em fomen­tar a dis­cór­dia.

A teo­ria de Wal­lace, embora muito seme­lhante, era dis­tinta da pro­posta de Darwin. Sem pré­via per­mis­são de Wal­lace, seu ensaio, jun­ta­mente com frag­men­tos iné­di­tos da futura e mais impor­tante obra de Darwin, foi apre­sen­tado à reu­nião da Soci­e­dade Line­ana de Lon­dres em 1° de Julho de 1858. Darwin estava há cerca de 20 anos tra­ba­lhando em um volume muito maior e deta­lhado sobre o sur­gi­mento de espé­cies, e mui­tos estu­di­o­sos afir­mam que o ensaio de Wal­lace o auxi­liou para que con­cluísse de forma com­pacta e sim­ples a obra marco das ciên­cias natu­rais – A Ori­gem das Espé­cies (1859), publi­cada 18 meses após a lei­tura dos ensaios.


Inter­pre­tado mui­tas vezes como uma com­pe­ti­ção entre os dois natu­ra­lis­tas, esse acon­te­ci­mento per­mi­tiu que Wal­lace se tor­nasse conhe­cido e abriu por­tas para que par­ti­ci­passe dos diá­lo­gos cien­tí­fi­cos em gru­pos res­tri­ta­mente fecha­dos. Wal­lace pôde usu­fruir dessa opor­tu­ni­dade e man­teve-se como admi­ra­dor do tra­ba­lho de Darwin, escre­vendo uma dedi­ca­ção no livro O Arqui­pé­lago Malaio (1869) e uma obra com­pleta para difun­dir as idéias sobre sele­ção natu­ral em Darwi­nismo (1889).

3. Wallace e a Sociedade da Terra plana

Em 1870, anos depois do retorno da ultima expe­di­ção, Wal­lace aceita uma aposta com o líder da Soci­e­dade da Terra Plana, John Hamp­den, no valor de 500 libras – que na época deviam valer muito mais – para pro­var em publico que a Terra pos­suía cur­va­tura.

Para essa Soci­e­dade, se a Terra fosse plana, o raio de cur­va­tura seria infi­nito e não pode­ria ser medido. Wal­lace, esti­mu­lado pelo desa­fio e por difi­cul­da­des finan­cei­ras, desen­vol­veu um expe­ri­mento em um canal de nave­ga­ção. Ele esta­be­le­ceu dois pon­tos com esta­cas de mesma altura, dis­tan­tes a cerca de 10km em linha reta no canal acima do nível da água, com auxi­lio de um ins­tru­mento de men­su­ra­ção pre­cisa, o teo­do­lito. Desse modo, demons­trar que as esta­cas não per­ma­ne­ciam ali­nha­das por conta da cur­va­tura da Terra. O teste ainda apon­tou o raio da Terra de 6.428 km, ou seja, leve­mente maior que a atual esti­ma­tiva de 6.378 km. Tudo isso fis­ca­li­zado por enge­nhei­ros.

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Esquema feito por um pro­fes­sor ame­ri­cano, defen­sor da teo­ria da Terra Plana (cli­que para ampliar).

O juiz da aposta decla­rou Wal­lace ven­ce­dor, porém o líder ati­vista não acei­tou a der­rota e lan­çou uma extensa cam­pa­nha de com­bate à Wal­lace. Esse fato ficou conhe­cido como Expe­ri­mento do Canal Bed­ford, e Wal­lace viu-se envolto em uma bata­lha judi­cial que afe­tou pro­fun­da­mente a sua ima­gem. Como as soci­e­da­des cien­tí­fi­cas bri­tâ­ni­cas da época não que­riam con­fli­tos com gru­pos reli­gi­o­sos, man­ti­ve­ram-se apá­ti­cas e dei­xa­ram Wal­lace desam­pa­rado aca­de­mi­ca­mente.

 

4. O cientista hiperativo

 

Durante seus 90 anos de vida, Wal­lace pro­du­ziu 22 livros e mais de 700 arti­gos, englo­bando uma grande diver­si­dade de temas. Atu­al­mente, foi reco­nhe­cido por suas con­tri­bui­ções à Ciên­cia. Entre essas con­tri­bui­ções, é con­si­de­rado o pai da bio­ge­o­gra­fia, pela des­co­berta da des­con­ti­nui­dade da dis­tri­bui­ção da fauna. Tam­bém é con­si­de­rado co-fun­da­dor da astro­bi­o­lo­gia e antro­po­lo­gia evo­lu­tiva, sendo o pri­meiro a suge­rir que a extin­ção de ani­mais no final do Pleis­to­ceno (Era do Gelo – 12 mil anos atrás) pode­ria ter sido cau­sada por excesso de caça pelos huma­nos pré-his­tó­ri­cos. Foi pre­si­dente da Soci­e­dade pela Naci­o­na­li­za­ção de Ter­ras por cerca de 30 anos, pro­mo­vendo dis­cus­sões sobre a reforma agrá­ria na Ingla­terra.

Embora pouco popu­lar, Wal­lace foi mem­bro de um grande número de soci­e­da­des aca­dê­mi­cas, rece­bendo títu­los e pre­mi­a­ções de diver­sas uni­ver­si­da­des e ins­ti­tui­ções. Entre elas rece­beu a meda­lha de Ordem de Mérito em 1908, pre­mi­a­ção for­ne­cida pelo Impé­rio Bri­tâ­nico. Foi a quinta per­so­na­li­dade a rece­ber a meda­lha de ouro da Soci­e­dade Line­ana, em 1892. A mesma soci­e­dade esta­be­le­ceu o prê­mio ‘Meda­lha Darwin-Wal­lace’ para des­co­ber­tas rela­ci­o­na­das à bio­lo­gia evo­lu­tiva, uma forma de reco­nhe­cer e repa­rar suas con­tri­bui­ções.

Pelos menos duas hipó­te­ses podem expli­car o menor reco­nhe­ci­mento aca­dê­mico de Wal­lace. Em pri­meiro lugar, ele per­ten­cia a uma classe sócio-econô­mica dife­rente da tra­di­ci­o­nal elite social inglesa, res­pon­sá­vel pelo conhe­ci­mento cien­tí­fico reco­nhe­cido na época. Em segundo, envol­veu-se com o espi­ri­tismo e escre­veu a res­peito do tema (embora hou­vesse mem­bros reli­gi­o­sos na aca­de­mia cien­tí­fica, não eram espí­ri­tas). Em con­junto, esses fatos podem ter cola­bo­rado para a resis­tên­cia às suas ideias.

Alfred Rus­sel Wal­lace pos­sui mui­tas razões para ser lem­brado. Repre­senta um fan­tás­tico exem­plo de auto­di­data, aven­tu­reiro, cien­tista e, mais impor­tante de tudo, de curi­oso. O nome de Wal­lace deve ser posto ao lado de Gali­leu, Darwin, Eins­tein, entre outros gênios. Gra­du­al­mente, suas con­tri­bui­ções à Ciên­cia e à huma­ni­dade estão sendo reco­nhe­ci­das, e tri­bu­tos ten­dem a aumen­tar ao passo em que se conhece mais sobre esse sin­gu­lar natu­ra­lista.


(artigo ori­gi­nal­mente publi­cado em Sci­ence Blogs)


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