[dropcap]H[/dropcap]á livros inesquecíveis por trazerem uma lição importante sobre mundo, a vida ou nós próprios. Mas à raros livros que trazem não só uma, mas várias lições fundamentais. Esse é o caso da obra Sapiens, do historiador israelense Yuval Harari. Mas entre todas as lições desse livro, uma das mais importantes é contraintuitiva: a humanidade foi capaz de sobreviver e progredir graças a sua capacidade de acreditar consensualmene nas ficções que ela própria criou. É que durante aquilo que Harari denomina de Revolução Coletiva, que ocorreu há cerca de setenta mil anos, fomos capazes de criar algo que o historiador chama de linguagem ficcional, e isso mudou o curso da história.

É como se fôssemos um hipnotizador que coloca a si mesmo em transe, ou uma criança que canta uma canção de ninar para si até adormecer e sonhar com mundos que ela própria inventa. Foi assim que criamos o mundo de imaginário coletivo em que vivemos. Sim isso soa como algo feito por alguém estúpido. Afinal, quem gostaria de inventar coisas para a seguir acreditar nelas? Mas, ao contrário do que se supõe, esse autosonambulismo não conduziu nossos passos até a beira de um abismo (ao menos até agora), e sim permitiu a criação da civilização e da maioria das coisas que são importantes em nossas vidas.

Harari, por respeitar a resistência de seus leitores em aceitarem a verdade, por vezes chama essas ficções de realidades intersubjetivas, mas isso é o máximo de gentileza que ele se permite. De resto ele não cansa de nos lembrar que vivemos imersos em um mundo de ficções que tem menos substância que o vapor de uma chaleira fervente.

Dinheiro, Estado, propriedade, reputação social, leis, religiões, cultura: tudo isso e outras tantas coisas que compõem os alicerces da civilização são apenas ficções úteis, criadas para nos organizar e mobilizar nossas forças na construção de um mundo comum. Dinheiro é apenas um convenção coletiva sobre o valor aleatoriamente atribuído a um objeto abstrato (moeda), sem correspondência com seu valor real. As leis são ficções consensuais que nos ajudam a viver em sociedade – por exemplo, “propriedade” não é algo que existe na natureza, você não tem a propriedade da sua roupa na realidade, e quem lhe rouba o carro no mundo natural não pratica crime algum, apenas detém algo que antes você detinha. Mesmo nossos sentimentos mais nobres (honra, bondade, noção de dever, dignidade humana) são ficções, constructos emocionais que elaboramos a partir de sentimentos brutos – até mesmo o amor romântico é uma invenção consensual (como o mitólogo Joseph Campbell demonstrou, o amor romântico não existia na antiguidade, e foi criado na Idade Média).

Mas o fato de todas essas coisas e outras tantas serem ficções não as tornam mentiras espúrias, fantasias vazias. Na verdade, essas ficções são importantes para a manutenção da sociedade: também cada um de nós precisa dessas invencionices humanas assim como o peixe precisa de água (guarde essa metáfora).

O mais doce sonho

No terceiro episódio de THE CENTURY OF THE SELF, documentário da BBC sobre a influência das ideias de Freud na publicidade, o autor nortemericano Werner Erhard relata sua experiência com um grupo de voluntários que, na década de 70, decidiu participar de uma terapia radical. O grupo partia do pressuposto de que cada ser humano possuía uma personalidade luminosa e poderosa, mas que estava soterrada pelos condicionamentos sociais e pelas neuroses cotidianas. A partir desse pressuposto, os participantes submeteram-se a procedimentos experimentais destinados a eliminar todos os condicionamentos sociais (outro termo para ficção consensual) e neuroses (produzidas pelo nosso extremo apego à essas ficções). Acreditavam que, no fundo de tudo isso, surgiria o verdadeiro eu autêntico de cada um de nós.

O problema não foi que o grupo de Werner Erhard não conseguiu cumprir essa tarefa. Ao contrário, o problema é que conseguiram cumpri-la, não encontraram nada: no fundo da natureza humana, eliminados todos o condicionamentos, não havia nenhuma personalidade luminosa e potente – na verdade, não havia coisa alguma. O grupo, claro, se dispersou.

Isso nos dá um recado importante: as ficções consensuais de Harari são fundamentais para a manutenção da vida humana tal como a conhecemos; elimine-as e estaremos retirando o chão sob nossos próprios pés. Isso é verdadeiro tanto para o indivíduo (como o grupo de Werner Erhard percebeu) como para a sociedade: se toda a humanidade amanhã consensualmente decidisse não atribuir qualquer valor ao dólar, a economia mundial ruiria.

A lição é que essas ficções consensuais são fundamentais para a vida humana, e são as responsáveis pelas nossas maiores pela maior parte de nossa felicidade neste mundo, e conferem sentido e propósito a nossas vidas.

Justamente por serem importantes é que nos agarramos fortemente à elas, justamente por isso nos envolvemos tanto com essas ficções que esquecemos totalmente de sua natureza meramente consensual. E isso acaba, paradoxalmente, fazendo com que elas também sejam as responsáveis pela maior parte de nossa infelicidade.

O pior pesadelo

As mesmas ficções consensuais que criamos para construir nossas vidas e nossa sociedade, também são responsáveis pela maior parte do sofrimento e da violência que há no mundo, podem destruir vidas humanas e arruinar nações. Pense em quantas pessoas perdem suas vidas (ou comprometem a vida de outros) na busca de dinheiro. Lembre-se de como ao longo do século XX vários Estados (ficção consensual) totalitários impuseram leis (ficção consensual) opressoras para eliminar opositores da ideologia (ficção consensual) oficial, levando países inteiros a longos períodos de repressão e sofrimento, enviando seres humanos a campos de concentração na Polônia ou a prisões desumanas na Sibéria. Pense em quantas ficções consensuais estão presentes no cérebro do terrorista que, motivado pelo fundamentalismo religioso, corta cabeças ou joga aviões contra arranha-céus.  Faça um exercício mental e liste quantas ficções consensuais estão envolvidas em um daqueles reiterados casos em que um motorista armado tira a vida de outro por uma discussão de trânsito: quantas ficções (a propriedade do carro é uma delas) estão envolvidas nesse tipo de homicídio? Vá mais longe: pense nas coisas que ultimamente têm sido motivo de preocupação ou desgosto para você, e enumere quantas delas podem ser classificadas como as ficções consensuais de Harari.

Precisamos aprofundar nossa investigação, levantar a pele dessa realidade ficcional para compreendermos a nossa condição.

base-harari-impossiveisEm seu livro A Negação da Morte (The Denial of Death), o antropólogo norte-americano Ernest Becker especula que a consciência humana tem uma função de filtro da realidade. O mundo ao nosso redor, diz Becker, é sublime e devastador a um só tempo para qualquer observador humano realmente atento. Milagres naturais (o espetáculo da vida e da morte) ocorrem constantemente diante de nossos olhos. Somos seres vivos morando na superfície de uma rocha gigantesca que está flutuando no espaço, orbitando uma bola de fogo 1,3 milhões de vezes maior, tudo isso em um cosmo de proporções inimagináveis. Por todos os lados, há outros seres vivos vivendo suas vidas, alguns microscópicos como nossa flora intestinal, outros enormes como uma baleia. Não bastasse tudo isso, nós despertamos para essa vida ao nascer e mal temos tempo de compreender parte dessas coisas quando nossos olhos já começam a se fechar diante da finitude de nossas vidas.

Viver constantemente atento e encantado diante dos aspectos deslumbrantes e desconcertantes da vida humana e do mundo seria uma tragédia para qualquer um de nós. Como conseguiríamos nos concentrar nas tarefas cotidianas, em acordar cedo, estudar, trabalhar e fazer inúmeras outras coisas que exigem nossa atenção rotineira? Por isso, como sugere Becker, há em nossa consciência uma função essencialmente filtradora: ela faz com que ignoremos o mundo milagroso ao nosso redor, entorpece nossa capacidade de nos maravilharmos constantemente e faz com que voltemos nossa atenção com muita intensidade para tudo aquilo que impeça a emergência dessa percepção do quão a vida é sublime.

Essa era uma ideia já proposta por Aldous Huxley em As Portas da Percepção: a consciência ordinária filtra a realidade e cria mecanismos para mantermos nosso foco longe de tudo aquilo que pode nos maravilhar e constantemente assustar. As ficções consensuais são parte desses mecanismos de sobrevivência, são o sonho que o sonhador cria para se manter sonâmbulo e, cooperando com outros humanos, criar uma vida compreensível e nada assustadora ou milagrosa – assim podemos ser funcionais, assim podemos operacionalizar de forma eficiente nossas energias. Mais ainda, só assim podemos criar as coisas que são capazes de ter algum sentido para nós, as coisas que nos fazem felizes.

O mecanismo emocional, portanto, está estreitamente vinculado às ficções consensuais de Harari: acreditamos nas ficções que nós próprios inventamos coletivamente porque é a partir delas que construímos nossa identidade pessoal e atribuímos significado a nossa vida. Mas essa vinculação emocional não só produz grande sofrimento. Ela também nos impede de perceber um pouco do magnífico espetáculo da vida cotidiana – aquele mundo em que poetas e desviantes vivem.

O despertar

Lá no início usamos a metáfora do peixe e da água para descrever nossa relação com as ficções consensuais. Estamos imersos nessas ficções, sem elas a vida humana não é possível, mas cotidianamente ignoramos sua realidade. Em seu famoso discurso justamente intitulado “Isso é água“, o escritor David Foster Wallace fala da importância de percebermos as coisas fundamentais da vida que, por serem tão óbvias e estarem tão perto de nós, não reconhecemos.

Na vida prática, estamos quase sempre imersos nesse universo de coisas imaginárias inventadas por nós. E quase todos os tradicionais defeitos de caráter decantados pelos nossos antepassados (egoísmo, vaidade, preconceito, ganância,…) são formas de “excessiva crença” na realidade dessas ficções: em todos esses casos, estamos tão adormecidos para a natureza ficcional de nossas convenções que, nesse sonambulismo, nessa tremenda credulidade pelo inventado, nos machucamos e machucamos aqueles a nosso redor.

Uma forma de sabedoria é justo despertar como o peixe que percebe a água em que vive: na vida prática, aprendermos a reconhecer quais são essas ficções convencionais e, apesar de usualmente prosseguir lidando com elas com seriedade e respeito à invenções fundamentais para a manutenção social e mesmo para nossas vidas, despertar e reconhecer sua natureza imaginária quando essa crença começa a nos trazer sofrimento desnecessário ou a justificar atos que passam por cima da decência humana, da atenção e benevolência que precisamos ter uns com os outros – e com nós mesmos.

Werner Erhard, aquele cara do grupo que pretendia eliminar condicionamentos e neuroses para revelar a “autêntica personalidade humana”, afirmou que seu grupo se assustou e se dissolveu, mas que isso foi um erro – pois o medo foi maior do que a curiosidade. Para ele, o grupo deveria ter prosseguido e, reconhecendo que os blocos que pretendia eliminar eram, na verdade, o fundamento da personalidade humana, dar um passo além para começar a reconstruir a personalidade humana a partir da reorganização desses mesmos blocos.

Nietzsche tinha uma metáfora a respeito disso: a do camelo, do leão e a da criança. Afirmava que a natureza humana de início suporta o enorme peso das ilusões que lhe colocam nas costas quando nascemos; a seguir, despertamos como leão e destruímos todas essas ficções; por fim, percebemos que elas são a matéria com que podemos criar novos mundos e novas formas de ser – e assim, como crianças, começamos a reconstruir nossas vidas.

Neste exato momento, em que a tecnologia maximizou as consequências de nossos erros, em que populações inteiras sofrem em virtudes de disputas políticas, hostilidades religiosas e rivalidades entre nações (tudo isso ficção consensual), em que indivíduos são vitimizados por neuroses e transtornos psicológicos, em que matamos e morremos em nome do dinheiro, da propriedade e de ideologias, é chegada a hora de despertarmos dos sonhos que nós próprios criamos. Mas não para destruí-los, pois agora, ao mesmo tempo em que reconhecemos sua natureza ficcional – também percebemos de sua importância. Precisamos nos tornar senhores dessas ficções, e não, como fazemos hoje, agirmos como seus servos. Precisamos colocá-las ao nosso serviço e reconfigurá-las para ampliar o benefício que podemos obter delas, ao mesmo tempo em que atenuamos ao máximo seus efeitos colaterais nocivos.

O que Erhard, Wallace e Nietzsche propõe é que nos tornemos sonhadores e ao mesmo tempo artesãos: que saibamos construir mundos de ficção intersubjetiva adequados à nossas necessidades, mas que também saibamos submergir nessas criações coletivas para construir uma vida com propósito e significado. Que saibamos despertar quando é hora de despertar, e sonhar quando nossas criações são tão bem elaboradas que podemos utilizá-las como fonte de grandes alegrias e importantes realizações.

E que não esqueçamos, nesses sonhos, de construir algumas janelas para percebermos como a vida é sublime e milagrosa. Pois nenhuma criação humana se compara ao mundo real.

  • Neder Diogo Junior

    Esse novo design do site hein galera?! ANIMAL
    Parabéns

  • Kriss Cabral

    Eu sou uma farsa, mas essa farsa sou eu.
    Lindo retorno, obrigada.

  • Márcia Alves

    Olá! Tem um erro de grafia na segunda oração, imagino que ao invés de “à” seria “há”, no sentido de existir. Ótima reflexão! Parabéns pelo novo site! 😉

  • Felipe Amorim

    Eu li “Sapiens” no ano novo e achei um livro maravilhoso. Pois não sabia que estava tão imerso em uma ficção. O livro me fez olhar o mundo de outra maneira, como se desperta e de uma Matrix que nós mesmos criamos. Descobri que preconceitos que eu tinha foram para água abaixo, e idéia do que é fundamental e verdadeiro, como uma gotículas de vapor passa longe das nossas ficções, porém estas são de real importância para nossa sociedade. Então se as pessoas começarem a se tornarem uma criança, tiraremos todas nossas ficções de lado e colocamos o que mais se aproxima da realidade.

  • Rodrigo Ricardo

    Saudade das reflexões do Victor, ótimo retorno. Obrigado.