Leonard Euler

O mestre de todos

Em Ciência por Rodrigo ZottisComentário

Leo­nhard Euler nas­ceu na Suíça em 1707, e tor­nou-se um dos mais pro­du­ti­vos e influ­en­tes mate­má­ti­cos de todos tem­pos. Porém, sur­pre­en­den­te­mente, pouco se fala sobre o seu legado. Para cor­ri­gir essa injus­tiça, Ronald Calinger’s escre­veu uma bibli­o­gra­fia sobre Euler.

E qual a razão de se con­si­de­rar o silên­cio sobre Euler uma injus­tiça?

Bom, foi Sir Isacc New­ton que apre­sen­tou o cál­culo moderno a uma nova gera­ção no século XVIII, mas foi Euler que esta­be­le­ceu o cál­culo como prin­cí­pio básico da mate­má­tica e da ciên­cia. Euler tam­bém levou adi­ante outro aspecto do legado de New­ton, mos­trando que as teo­rias do movi­mento e da gra­vi­ta­ção pode­riam ser usa­das para obter resul­ta­dos muito pre­ci­sos do movi­mento da Lua e de outros fenô­me­nos pla­ne­tá­rios.

Além disso, ele rea­li­zou avan­ços em uma gama sur­pre­en­dente de assun­tos, abran­gendo desde os mais sim­ples até os mais com­ple­xos, de uma forma que seria impos­sí­vel para qual­quer mate­má­tico de hoje. Suas publi­ca­ções eram sobre a física, astro­no­mia, acús­tica, balís­tica, arti­lha­ria, car­to­gra­fia, nave­ga­ção, cons­tru­ção naval, óptica e a teo­ria da música, bem como teo­ria dos núme­ros e os fun­da­men­tos do cál­culo.

O legado de Euler foi notá­vel, e ele pos­suía uma grande moti­va­ção, além de uma memó­ria excep­ci­o­nal. Por exem­plo, o mate­má­tico con­se­guia reci­tar todo o texto de “Eneida”, de Vir­gí­lio, de cabeça, além de sua pro­du­ti­vi­dade ser igual­mente sur­pre­en­dente. Durante sua car­reira escre­veu mais de 850 publi­ca­ções, incluindo 18 livros. Seus tra­ba­lhos foram publi­ca­dos em for­ma­tos de 80 gran­des volu­mes, que se tor­na­ram dis­po­ní­veis a par­tir de 1910 (alguns volu­mes estão na pen­dên­cia de serem publi­ca­dos).

A car­reira de Euler se desen­vol­veu na Europa oci­den­tal. Mas aos 19 anos ele fez uma via­gem de sete sema­nas para a Rús­sia para assu­mir um cargo na Aca­de­mia Impe­rial de São Peters­burgo de Ciên­cias, que o impe­ra­dor, Pedro, o Grande, tinha como pri­o­ri­dade como parte de seu plano para moder­ni­zar a Rús­sia.

Além de seu inte­resse em ciên­cia teó­rica, Euler se envol­veu inten­sa­mente em outros assun­tos, tais como a cons­tru­ção de mapas pre­ci­sos do Impé­rio Russo e estu­dos sobre inun­da­ções, incên­dios e cons­tru­ção naval. Mas ele tam­bém per­se­guia seus pró­prios inte­res­ses, levando adi­ante seus estu­dos sobre a série infi­nita dos núme­ros e a forma da Terra.

Leonhard Euler

Selo da União Sovié­tica em come­mo­ra­ção ao 250° ani­ver­sá­rio de Euler. O texto diz: 250 anos do nas­ci­mento do grande mate­má­tico, o aca­dê­mico Leo­nhard Euler.

Um avanço notá­vel acon­te­ceu em 1735, quando Euler anun­ciou sua solu­ção para o famoso Pro­blema de Basi­leia. O desa­fio mate­má­tico envol­via a soma da série infi­nita 1 + 1/4 + 1/9 + 1/16 + …, cuja solu­ção final per­ma­ne­ceu uma incóg­nita para todos os mate­má­ti­cos por quase um século (a res­posta, caso queira saber, é pi²/6).

problema de basileia

O Pro­blema de Basi­leia

Em São Peters­burgo, Euler se casou e teve 13 filhos (incrí­vel, mas no meio de todos os seus estu­dos ele tam­bém arran­jou tempo para isso), mas ape­nas cinco con­se­gui­ram pas­sar da infân­cia. Euler come­çou a sofrer for­tes dores de cabeça, e sua visão se dete­ri­o­rou de forma cons­tante. Per­deu a visão de um olho em seus pri­mei­ros 30 anos, e estava quase cego pela idade de 60 anos.

Em 1741, Euler foi con­tra­tado em Ber­lim, por Fre­de­rico, o Grande, que dese­java cons­truir um nova Aca­de­mia Real Prus­si­ana, povo­ada pelos cra­ques da ciên­cia e da filo­so­fia da época. Euler tinha a espe­rança de lide­rar o pro­jeto, mas aca­bou não se encai­xando. Sua repu­ta­ção cien­tí­fica era ine­gá­vel, mas ele não pos­suía as manei­ras refi­na­das nem a inte­li­gên­cia social tão apre­ci­a­das pela corte de Fre­de­rico. Escre­vendo para Vol­taire, Fre­de­rico sati­ri­zou a defi­ci­ên­cia de Euler o cha­mando de “o grande ciclope da geo­me­tria”.

Como as rela­ções com Fre­de­rico aze­da­ram, Euler deci­diu se mudar nova­mente. Em 1766, Cata­rina, a Grande (era uma época de “Gran­des”, você pode per­ce­ber) havia o con­tra­tado de volta para São Peters­burgo. Ape­sar de quase cego, Euler tor­nou-se a figura prin­ci­pal na aca­de­mia russa, publi­cando mais de 400 arti­gos, um impor­tante tra­ba­lho de três volu­mes sobre o movi­mento lunar e “Car­tas a uma prin­cesa alemã” — uma das pri­mei­ras e mais bem suce­di­das ten­ta­ti­vas de popu­la­ri­za­ção da ciên­cia para a público em geral.

Leonhard Euler homenagem

Selo da antiga Repú­blica Demo­crá­tica Alemã home­na­ge­ando Euler no 200º ani­ver­sá­rio de sua morte. Cen­tra­li­zada, a fór­mula do poli­e­dro (rela­ção de Euler), atu­al­mente escrita como v — a + f = 2.

A bio­gra­fia de Calin­ger sobre Euler é um tra­ba­lho muito impres­si­o­nante sobre a vida do cien­tista. É longa, mas mos­tra sua fas­ci­nante vida, sua obra e o mundo ao seu redor. Para o lei­tor que pro­cura mais, uma enorme vari­e­dade de escri­tos de Euler pode ser encon­trada online no Arquivo Euler (porém, sem tra­du­ção para o por­tu­guês).

Pierre-Simon Laplace, outro mate­má­tico do século 18, teria dito: “Leia Euler, leia Euler, pois ele é o mes­tre de todos nós.”


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Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

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