Linchamento no Guarujá/SP em três de maio; no dia seguinte, tentativa de linchamento em Jacarepaguá/RJ; passada uma semana, novo linchamento em Araraquara/SP: o número de barbaridades cometidas por justiceiros parece estar crescendo. Podemos cogitar a hipótese de que, ultimamente, tais incidentes têm sido mais documentados, o que causaria a ilusão de uma epidemia de linchamentos e de “justiça” com as próprias mãos – hipótese que acho mais coerente.

A violência, num sentido geral, não parece ser uma peculiaridade dos nossos dias modernos, nem parece estar pior do que era há milhares de anos. Evidências arqueológicas exibem uma grande quantidade de fósseis e esqueletos rachados por pancadas, perfurados por objetos pontudos, fraturados por golpes, encravados por lanças e flechas. Nada disso indica que éramos pacifistas arborículas, como sugere o mito do bom selvagem, presente na obra de Rousseau, embora outras evidências sugiram que nossa natureza cooperativa foi importantíssima para que tenhamos sobrevivido.

Assim, suspeito que existe um fundo filogenético comum envolvido, em parte, nesses comportamentos violentos tão recorrentes ao longo de nossa temporada milenar por aqui.

Entretanto, apesar desses atos serem uma constante na história da humanidade, não devemos nos chocar menos. Digo isso não como uma frase estilo senso comum auto-ajuda, em que todos parecem obrigados a demonstrar horror, mas como uma reação natural e também bem-vinda, já que, quando experimentado sinceramente, o estranhamento frente a tais episódios brutais constitui um lembrete de que ainda não os naturalizamos (no sentido moral) completamente, que não alcançamos uma insensibilidade psicopática generalizada.

Montagem de “O Guarani” em 1916. No romance de José de Alencar, o índio Peri era o exemplo do “bom selvagem”.

A referência aos casos que abrem este texto trata de um tipo específico de violência: a justiça com as próprias mãos, enfeitada com outros ingredientes que mostram o caráter especial da mobilização de uma massa determinada a punir alguém que parece ter sido deslocado da categoria humana. Este deslocamento tornaria o acusado ‘merecedor’ das mais cruéis injúrias, como ocorreu no linchamento do Realengo e em diversos outros casos noticiados semanalmente.

Será que podemos pensar nessa situação como provocada por um grupo de pessoas afetadas por uma psicopatologia? Seriam psicopatas os cidadãos que diariamente resolvem imitar os vigilantes dos quadrinhos, fazendo justiça com as próprias mãos? Ou seriam esquizofrênicos sofrendo de delírios persecutórios? Ou, então, a hipótese mais bizarra e aterradora: seriam todos esses indivíduos ‘normais’, como eu e você?

Temo que a resposta à última questão seja afirmativa. Fatos históricos de longa data me fazem chegar a essa conclusão, apesar de também, obviamente, saber que seria no mínimo improvável que, coincidentemente, a mulher vitimada estivesse cercada por doentes mentais perigosos.

Em suma, os seguintes fatos sugerem que há certo substrato humano agindo de modo a criar os moldes da antiga Lei de Talião, só que em versões renovadas ao londo da história. E essas versões parecem incluir um pacote de vieses cognitivos e perceptivos que nos habilitam a ver o “oponente” como alguém indigno do respeito dedicado ao ser humano, o que contaria com a legitimização pública também. Isto é, poderíamos estar falando de uma programação existente em todos nós, esperando para ser ativada.

Ainda estão na memória coletiva as ações aterradoras que o Nazismo nos deixou enquanto legado histórico. Milhões de pessoas foram simplesmente exterminadas e outras foram usadas em experimentos científicos brutais.

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O nazismo e a banalidade do mal.

Como filmes recentes exemplificam, o período hitlerista caracterizou-se por uma extrema comoção do povo alemão, na qual aqueles que não concordavam com o 3º Reich eram obrigados a fingir que o apoiavam. Também era grande a paranoia envolvida no risco de ser denunciado como alguém que estivesse ajudando a ocultar judeus foragidos, assim como uma outra ampla quantidade de categorias humanas foi também incluída nesse processo de desumanização. Um exemplo atual disso é a propagação do lema “Direitos Humanos para humanos direitos”. Ou seja, alguns Homo sapiens merecem o título de humanos, já outros, não.

Aqui,“infra-humanos” não deixa de ser um termo infeliz, como se fosse justificável executar sumariamente indivíduos de espécies não-humanas. E que fique claro: este é um termo usado como referência à compreensão inferiorizada com relação a certos tipos de pessoas, que certos grupos tem – não que isso represente a realidade de alguma forma.

Séculos antes do holocausto nazista, podemos citar o episódio ocorrido em Massachusetts, uma paranoia coletiva que ficou conhecida como caça às bruxas de Salém. O medo da bruxaria como algo relacionado a forças demoníacas era tão grande que durante um ano inteiro várias vítimas, principalmente mulheres, foram executadas em julgamentos cujo molde se assemelhava muito aos que eram feitos durante a Inquisição Espanhola, que atuou do século XV até meados do XIX. A saber: os acusados eram confrontados com perguntas que tinham por objetivo fazê-los confessar ou negar a prática de magia negra. Se confessassem, seriam mortos e acusados de bruxaria; se negassem a acusação, seriam torturados até que, num momento de irracionalidade provocado pela dor e desespero, assumissem a falsa relação com tais práticas e fossem executados da mesma forma.

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Execução de Bridget Bishop, uma das supostas bruxas de Salém.

Nos anos 50, o Marcartismo operou de forma semelhante em termos de paranoia persecutória. Dedicava-se a capturar e prender comunistas em atividade nos EUA. Seu modus operandi era muito semelhante ao do Nazismo e ao de Salém, pois submetia a torturas cruéis os acusados e ainda obtinha enorme aceitação popular. Arrisco dizer que esses indícios mostram que está presente nesses três casos a lógica do rebaixamento da categoria humana, o que tornava todos esses atos largamente justificados.

Dada a repetição ao redor do mundo em tempos diversos da história, penso que esse gatilho do “olhem aquele criminoso, vamos fazê-lo pagar!” ou do “denuncie aquele imoral inumano para que ele tenha o que merece!” tenha sido uma espécie de mecanismo psicológico preservado pela seleção natural. Digo isso não numa tentativa de justificar atos selvagens, mas de encontrar mesmo uma explicação para a constante manifestação disso em nossa espécie.

Teoricamente, o Estado deveria dar conta de todas as demandas de crimes através do julgamento do acusado e da análise do caso por um conjunto de regras preestabelecidas, as leis. Esse foi, de fato, um artifício que fez cair vertiginosamente os índices de violência ao redor do globo, como mostra o psicólogo e linguista Steven Pinker em seu último livro. Através dessa entidade impessoal criada pelos seres humanos, eliminamos a necessidade de fazer justiça com as próprias mãos.

Então, por qual motivo continuamos a agir como se não tivéssemos essa máquina estatal?

Já denunciei um pouco da resposta. Nós continuamos a agir assim porque, como diriam os psicólogos criadores da Psicologia Evolucionista, Cosmides e Tooby, somos seres modernos com uma mente da Idade da Pedra. O que eles querem dizer, em suma, é que a estrutura funcional de nossa mente foi moldada pela seleção natural de acordo com as necessidades do ambiente onde estávamos há milhares de anos atrás, provavelmente nas savanas africanas. Então, somos programados para lidar com os desafios desse tipo de ambiente. Um desses desafios certamente era lidar com indivíduos problemáticos dentro do grupo.

Como seria possível lidar com comportamentos desviantes e prejudiciais à coalisão de humanos, sem a existência de um código e de todo um corpo jurídico oficial? O único jeito teria sido desenvolver estratégias, digamos, viscerais, como a punição aqui e agora, na maioria das vezes significando uma surra (letal ou não). No livro Eu, Primata, Frans de Waal, um primatologista holandês, relata dúzias de exemplos de ocorrências desse tipo entre chimpanzés – animais muito cooperativos mas em igual medida vingativos e criadores de caso. Isso sugere que tal arquitetura psicológica venha sido esculpida pela evolução já em primatas anteriores aos Homo sapiens.

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Cena de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick

A explicação filogenética para os valentões do cotidiano e mesmo para a rápida mobilização que um comportamento desviante ocasiona (principalmente quando envolve a suposta prática de abuso de menores, incesto, roubo ou assassinato) num grupo de pessoas parece resolver alguns dos enigmas apresentados e nos dar subsídios para olhar a nossa história cultural e biológica de forma mais integrada. Porém, mais do que isso, pode fornecer ferramentas diretas ou indiretas para entender o mecanismo por trás de tal comportamento, colaborando para nos prevenirmos em relação a ele ou mesmo notarmos seu flagrante caráter ultrapassado – o que também fortifica nosso repúdio a esse tipo de conduta.

Entender o fundo filogenético do comportamento humano é entender que o que somos é fruto de uma dialética muita mais complicada do que imaginamos. É pensar que somos moldados por uma série de forças sociais, mas do que pelo modo como respondemos a essas forças é em parte devido ao nosso passado evolutivo que moldou o modo como nossa mente funciona.

No entanto, fazer isso não é reconhecer que o Homo sapiens é uma espécie sem salvação. Não! E esse “não” se deve a duas boas notícias: a primeira, é que não temos uma natureza voltada ao egoísmo nem à violência. Temos o potencial tanto para a cooperação quanto para o auto-centramento. Qual se sobressairá, depende de uma equação complicada de influências. A segunda boa notícia é que pessoas violentas não são loucas – pelo menos não necessariamente. Elas são normais, e isso significa que a mesma programação algorítmica que nos faz potenciais linchadores também pode nos tornar seres altamente treinados no desenvolvimento da compaixão.

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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