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O linchador em você

Em Consciência por Felipe NovaesComentário

A vio­lên­cia, num sen­tido geral, não parece ser uma pecu­li­a­ri­dade dos nos­sos dias moder­nos, nem parece estar pior do que era há milha­res de anos. Evi­dên­cias arque­o­ló­gi­cas exi­bem uma grande quan­ti­dade de fós­seis e esque­le­tos racha­dos por pan­ca­das, per­fu­ra­dos por obje­tos pon­tu­dos, fra­tu­ra­dos por gol­pes, encra­va­dos por lan­ças e fle­chas. Nada disso indica que éra­mos paci­fis­tas arbo­rí­cu­las, como sugere o mito do bom sel­va­gem, pre­sente na obra de Rous­seau, embora outras evi­dên­cias sugi­ram que nossa natu­reza coo­pe­ra­tiva foi impor­tan­tís­sima para que tenha­mos sobre­vi­vido.

Assim, sus­peito que existe um fundo filo­ge­né­tico comum envol­vido, em parte, nes­ses com­por­ta­men­tos vio­len­tos tão recor­ren­tes ao longo de nossa tem­po­rada mile­nar por aqui.

Entre­tanto, ape­sar des­ses atos serem uma cons­tante na his­tó­ria da huma­ni­dade, não deve­mos nos cho­car menos. Digo isso não como uma frase estilo senso comum auto-ajuda, em que todos pare­cem obri­ga­dos a demons­trar hor­ror, mas como uma rea­ção natu­ral e tam­bém bem-vinda, já que, quando expe­ri­men­tado sin­ce­ra­mente, o estra­nha­mento frente a tais epi­só­dios bru­tais cons­ti­tui um lem­brete de que ainda não os natu­ra­li­za­mos (no sen­tido moral) com­ple­ta­mente, que não alcan­ça­mos uma insen­si­bi­li­dade psi­co­pá­tica gene­ra­li­zada.

Mon­ta­gem de “O Gua­rani” em 1916. No romance de José de Alen­car, o índio Peri era o exem­plo do “bom sel­va­gem”.

A refe­rên­cia aos casos que abrem este texto trata de um tipo espe­cí­fico de vio­lên­cia: a jus­tiça com as pró­prias mãos, enfei­tada com outros ingre­di­en­tes que mos­tram o cará­ter espe­cial da mobi­li­za­ção de uma massa deter­mi­nada a punir alguém que parece ter sido des­lo­cado da cate­go­ria humana. Este des­lo­ca­mento tor­na­ria o acu­sado ‘mere­ce­dor’ das mais cruéis injú­rias, como ocor­reu no lin­cha­mento do Rea­lengo e em diver­sos outros casos noti­ci­a­dos sema­nal­mente.

Será que pode­mos pen­sar nessa situ­a­ção como pro­vo­cada por um grupo de pes­soas afe­ta­das por uma psi­co­pa­to­lo­gia? Seriam psi­co­pa­tas os cida­dãos que dia­ri­a­mente resol­vem imi­tar os vigi­lan­tes dos qua­dri­nhos, fazendo jus­tiça com as pró­prias mãos? Ou seriam esqui­zo­frê­ni­cos sofrendo de delí­rios per­se­cu­tó­rios? Ou, então, a hipó­tese mais bizarra e ater­ra­dora: seriam todos esses indi­ví­duos ‘nor­mais’, como eu e você?

Temo que a res­posta à última ques­tão seja afir­ma­tiva. Fatos his­tó­ri­cos de longa data me fazem che­gar a essa con­clu­são, ape­sar de tam­bém, obvi­a­mente, saber que seria no mínimo impro­vá­vel que, coin­ci­den­te­mente, a mulher viti­mada esti­vesse cer­cada por doen­tes men­tais peri­go­sos.

Em suma, os seguin­tes fatos suge­rem que há certo subs­trato humano agindo de modo a criar os mol­des da antiga Lei de Talião, só que em ver­sões reno­va­das ao londo da his­tó­ria. E essas ver­sões pare­cem incluir um pacote de vie­ses cog­ni­ti­vos e per­cep­ti­vos que nos habi­li­tam a ver o “opo­nente” como alguém indigno do res­peito dedi­cado ao ser humano, o que con­ta­ria com a legi­ti­mi­za­ção pública tam­bém. Isto é, pode­ría­mos estar falando de uma pro­gra­ma­ção exis­tente em todos nós, espe­rando para ser ati­vada.

Ainda estão na memó­ria cole­tiva as ações ater­ra­do­ras que o Nazismo nos dei­xou enquanto legado his­tó­rico. Milhões de pes­soas foram sim­ples­mente exter­mi­na­das e outras foram usa­das em expe­ri­men­tos cien­tí­fi­cos bru­tais.

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O nazismo e a bana­li­dade do mal.

Como fil­mes recen­tes exem­pli­fi­cam, o período hitle­rista carac­te­ri­zou-se por uma extrema como­ção do povo ale­mão, na qual aque­les que não con­cor­da­vam com o 3º Reich eram obri­ga­dos a fin­gir que o apoi­a­vam. Tam­bém era grande a para­noia envol­vida no risco de ser denun­ci­ado como alguém que esti­vesse aju­dando a ocul­tar judeus fora­gi­dos, assim como uma outra ampla quan­ti­dade de cate­go­rias huma­nas foi tam­bém incluída nesse pro­cesso de desu­ma­ni­za­ção. Um exem­plo atual disso é a pro­pa­ga­ção do lema “Direi­tos Huma­nos para huma­nos direi­tos”. Ou seja, alguns Homo sapi­ens mere­cem o título de huma­nos, já outros, não.

Aqui,“infra-humanos” não deixa de ser um termo infe­liz, como se fosse jus­ti­fi­cá­vel exe­cu­tar suma­ri­a­mente indi­ví­duos de espé­cies não-huma­nas. E que fique claro: este é um termo usado como refe­rên­cia à com­pre­en­são infe­ri­o­ri­zada com rela­ção a cer­tos tipos de pes­soas, que cer­tos gru­pos tem — não que isso repre­sente a rea­li­dade de alguma forma.

Sécu­los antes do holo­causto nazista, pode­mos citar o epi­só­dio ocor­rido em Mas­sa­chu­setts, uma para­noia cole­tiva que ficou conhe­cida como caça às bru­xas de Salém. O medo da bru­xa­ria como algo rela­ci­o­nado a for­ças demo­nía­cas era tão grande que durante um ano inteiro várias víti­mas, prin­ci­pal­mente mulhe­res, foram exe­cu­ta­das em jul­ga­men­tos cujo molde se asse­me­lhava muito aos que eram fei­tos durante a Inqui­si­ção Espa­nhola, que atuou do século XV até mea­dos do XIX. A saber: os acu­sa­dos eram con­fron­ta­dos com per­gun­tas que tinham por obje­tivo fazê-los con­fes­sar ou negar a prá­tica de magia negra. Se con­fes­sas­sem, seriam mor­tos e acu­sa­dos de bru­xa­ria; se negas­sem a acu­sa­ção, seriam tor­tu­ra­dos até que, num momento de irra­ci­o­na­li­dade pro­vo­cado pela dor e deses­pero, assu­mis­sem a falsa rela­ção com tais prá­ti­cas e fos­sem exe­cu­ta­dos da mesma forma.

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Exe­cu­ção de Brid­get Bishop, uma das supos­tas bru­xas de Salém.

Nos anos 50, o Mar­car­tismo ope­rou de forma seme­lhante em ter­mos de para­noia per­se­cu­tó­ria. Dedi­cava-se a cap­tu­rar e pren­der comu­nis­tas em ati­vi­dade nos EUA. Seu modus ope­randi era muito seme­lhante ao do Nazismo e ao de Salém, pois sub­me­tia a tor­tu­ras cruéis os acu­sa­dos e ainda obti­nha enorme acei­ta­ção popu­lar. Arrisco dizer que esses indí­cios mos­tram que está pre­sente nes­ses três casos a lógica do rebai­xa­mento da cate­go­ria humana, o que tor­nava todos esses atos lar­ga­mente jus­ti­fi­ca­dos.

Dada a repe­ti­ção ao redor do mundo em tem­pos diver­sos da his­tó­ria, penso que esse gati­lho do “olhem aquele cri­mi­noso, vamos fazê-lo pagar!” ou do “denun­cie aquele imo­ral inu­mano para que ele tenha o que merece!” tenha sido uma espé­cie de meca­nismo psi­co­ló­gico pre­ser­vado pela sele­ção natu­ral. Digo isso não numa ten­ta­tiva de jus­ti­fi­car atos sel­va­gens, mas de encon­trar mesmo uma expli­ca­ção para a cons­tante mani­fes­ta­ção disso em nossa espé­cie.

Teo­ri­ca­mente, o Estado deve­ria dar conta de todas as deman­das de cri­mes atra­vés do jul­ga­mento do acu­sado e da aná­lise do caso por um con­junto de regras pre­es­ta­be­le­ci­das, as leis. Esse foi, de fato, um arti­fí­cio que fez cair ver­ti­gi­no­sa­mente os índi­ces de vio­lên­cia ao redor do globo, como mos­tra o psi­có­logo e lin­guista Ste­ven Pin­ker em seu último livro. Atra­vés dessa enti­dade impes­soal cri­ada pelos seres huma­nos, eli­mi­na­mos a neces­si­dade de fazer jus­tiça com as pró­prias mãos.

Então, por qual motivo con­ti­nu­a­mos a agir como se não tivés­se­mos essa máquina esta­tal?

Já denun­ciei um pouco da res­posta. Nós con­ti­nu­a­mos a agir assim por­que, como diriam os psi­có­lo­gos cri­a­do­res da Psi­co­lo­gia Evo­lu­ci­o­nista, Cos­mi­des e Tooby, somos seres moder­nos com uma mente da Idade da Pedra. O que eles que­rem dizer, em suma, é que a estru­tura fun­ci­o­nal de nossa mente foi mol­dada pela sele­ção natu­ral de acordo com as neces­si­da­des do ambi­ente onde está­va­mos há milha­res de anos atrás, pro­va­vel­mente nas sava­nas afri­ca­nas. Então, somos pro­gra­ma­dos para lidar com os desa­fios desse tipo de ambi­ente. Um des­ses desa­fios cer­ta­mente era lidar com indi­ví­duos pro­ble­má­ti­cos den­tro do grupo.

Como seria pos­sí­vel lidar com com­por­ta­men­tos des­vi­an­tes e pre­ju­di­ci­ais à coa­li­são de huma­nos, sem a exis­tên­cia de um código e de todo um corpo jurí­dico ofi­cial? O único jeito teria sido desen­vol­ver estra­té­gias, diga­mos, vis­ce­rais, como a puni­ção aqui e agora, na mai­o­ria das vezes sig­ni­fi­cando uma surra (letal ou não). No livro Eu, Pri­mata, Frans de Waal, um pri­ma­to­lo­gista holan­dês, relata dúzias de exem­plos de ocor­rên­cias desse tipo entre chim­pan­zés – ani­mais muito coo­pe­ra­ti­vos mas em igual medida vin­ga­ti­vos e cri­a­do­res de caso. Isso sugere que tal arqui­te­tura psi­co­ló­gica venha sido escul­pida pela evo­lu­ção já em pri­ma­tas ante­ri­o­res aos Homo sapi­ens.

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Cena de “2001 — Uma Odis­seia no Espaço”, de Stan­ley Kubrick

A expli­ca­ção filo­ge­né­tica para os valen­tões do coti­di­ano e mesmo para a rápida mobi­li­za­ção que um com­por­ta­mento des­vi­ante oca­si­ona (prin­ci­pal­mente quando envolve a suposta prá­tica de abuso de meno­res, incesto, roubo ou assas­si­nato) num grupo de pes­soas parece resol­ver alguns dos enig­mas apre­sen­ta­dos e nos dar sub­sí­dios para olhar a nossa his­tó­ria cul­tu­ral e bio­ló­gica de forma mais inte­grada. Porém, mais do que isso, pode for­ne­cer fer­ra­men­tas dire­tas ou indi­re­tas para enten­der o meca­nismo por trás de tal com­por­ta­mento, cola­bo­rando para nos pre­ve­nir­mos em rela­ção a ele ou mesmo notar­mos seu fla­grante cará­ter ultra­pas­sado – o que tam­bém for­ti­fica nosso repú­dio a esse tipo de con­duta.

Enten­der o fundo filo­ge­né­tico do com­por­ta­mento humano é enten­der que o que somos é fruto de uma dia­lé­tica muita mais com­pli­cada do que ima­gi­na­mos. É pen­sar que somos mol­da­dos por uma série de for­ças soci­ais, mas do que pelo modo como res­pon­de­mos a essas for­ças é em parte devido ao nosso pas­sado evo­lu­tivo que mol­dou o modo como nossa mente fun­ci­ona.

No entanto, fazer isso não é reco­nhe­cer que o Homo sapi­ens é uma espé­cie sem sal­va­ção. Não! E esse “não” se deve a duas boas notí­cias: a pri­meira, é que não temos uma natu­reza vol­tada ao egoísmo nem à vio­lên­cia. Temos o poten­cial tanto para a coo­pe­ra­ção quanto para o auto-cen­tra­mento. Qual se sobres­sairá, depende de uma equa­ção com­pli­cada de influên­cias. A segunda boa notí­cia é que pes­soas vio­len­tas não são lou­cas — pelo menos não neces­sa­ri­a­mente. Elas são nor­mais, e isso sig­ni­fica que a mesma pro­gra­ma­ção algo­rít­mica que nos faz poten­ci­ais lin­cha­do­res tam­bém pode nos tor­nar seres alta­mente trei­na­dos no desen­vol­vi­mento da com­pai­xão.

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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