ISENTAO

O Isentão, a nova caricatura da política brasileira

Em Política por Nelson MoraesComentários

O isen­tão é somente mais um mem­bro da car­tu­nesca famí­lia já for­mada pelo coxi­nha e pelo petra­lha, e que ilus­tra bem o quanto o debate polí­tico bra­si­leiro anda raso e debi­loide.

Por­que não gos­ta­mos de nuan­ces. Temos aler­gia aos meios-tons. Vene­ra­mos o este­reó­tipo escan­ca­rado, uni­di­men­si­o­nal, gri­tante, do nível A Praça é Nossa, sem traço algum de suti­leza — afi­nal isso é coisa de fes­ti­val de cinema inde­pen­dente hún­garo.

O coxi­nha é uma figura cre­ti­na­mente dese­nhada na medida em que con­si­dera todos os opo­si­to­res do atual governo uni­ca­mente como dân­dis que só ves­tem camisa Lacoste e jogam o pulô­ver por cima do ombro. O petra­lha é uma figura abes­ta­lha­da­mente deli­ne­ada na medida em que mos­tra os apoi­a­do­res do atual governo exclu­si­va­mente como petis­tas dog­má­ti­cos pron­tos para pegar em armas.

Aí, não bas­tas­sem estar repre­sen­ta­dos por estas cari­ca­tu­ras cons­tran­ge­do­ras, os dois espec­tros da mili­tân­cia se unem em sua idi­o­tice para criar o isen­tão. Tosca e apres­sa­da­mente dese­nhado — assim como o foram os outros dois da “famí­lia” -, ele é nin­guém menos que “aquele que, se não apoia nenhum dos lados, está con­tra o nosso já que devia estar mili­tando conosco”. Ou seja, ambos os espec­tros, já satu­ra­dos de sua incom­pe­tên­cia para tor­nar mini­ma­mente res­pei­tá­veis os tópi­cos de sua agenda junto às hos­tes ini­mi­gas, se irma­nam para criar um ter­ceiro ini­migo — este sim um alvo sem graça de tão fácil.

Acon­tece que até quem tem dois dígi­tos de QI sabe que essa “ter­ceira metade” se mos­tra, sim — como os demais espec­tros — plena de nuan­ces: é gente que não se vê repre­sen­tada por nenhuma das lide­ran­ças, ou não enxerga vali­dade ética em nenhuma das ban­dei­ras, ou que tenta cos­tu­rar o que, no seu pare­cer, cada lado tem de posi­tivo, e vis­lum­brar daí uma pos­si­bi­li­dade de enten­di­mento, sem o qual dinâ­mica cole­tiva nenhuma vai para a frente (óbvio que entre eles há os apá­ti­cos, os nii­lis­tas de oca­sião que que­rem mais é que tudo se exploda. Sem­pre vai ter). É gente que pode estar errada, mas é assim que ela pre­fere inte­ra­gir com esse dua­lismo super­fi­ci­a­lista.

Mas não. Igno­rem-se todas as nuan­ces, pro­ceda-se como na ela­bo­ra­ção dos outros dois per­fis da famí­lia: estampe-se o isen­tão como o autista que podia estar engros­sando as filei­ras de nosso con­tin­gente mas pre­fere ficar na sua, e que nos passa a ser tre­men­da­mente útil como “adver­sá­rio” já que não temos mais habi­li­dade nem fôlego para con­fron­tar o ini­migo his­tó­rico.

Nunca a direita e a esquerda se mos­tra­ram tão des­pre­pa­ra­das para o debate como no momento em que se aca­sa­la­ram pro­gra­ma­ti­ca­mente para criar a figura do isen­tão.

O tal negó­cio: a dis­cus­são polí­tica bra­si­leira não é ape­nas retar­dada, per­ni­ci­osa e rasa. Ela é pior — faz gente que se pre­tende humo­rista escre­ver sério de vez em quando. E isso é imper­doá­vel.


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Nelson Moraes
Almirante de quatro costados (todos eles disponíveis para uso publicitário), é especialista em pescar pérolas e distribuí-las sem dar crédito às ostras.

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