O isentão é somente mais um membro da cartunesca família já formada pelo coxinha e pelo petralha, e que ilustra bem o quanto o debate político brasileiro anda raso e debiloide.

Porque não gostamos de nuances. Temos alergia aos meios-tons. Veneramos o estereótipo escancarado, unidimensional, gritante, do nível A Praça é Nossa, sem traço algum de sutileza – afinal isso é coisa de festival de cinema independente húngaro.

O coxinha é uma figura cretinamente desenhada na medida em que considera todos os opositores do atual governo unicamente como dândis que só vestem camisa Lacoste e jogam o pulôver por cima do ombro. O petralha é uma figura abestalhadamente delineada na medida em que mostra os apoiadores do atual governo exclusivamente como petistas dogmáticos prontos para pegar em armas.

Aí, não bastassem estar representados por estas caricaturas constrangedoras, os dois espectros da militância se unem em sua idiotice para criar o isentão. Tosca e apressadamente desenhado – assim como o foram os outros dois da “família” -, ele é ninguém menos que “aquele que, se não apoia nenhum dos lados, está contra o nosso já que devia estar militando conosco”. Ou seja, ambos os espectros, já saturados de sua incompetência para tornar minimamente respeitáveis os tópicos de sua agenda junto às hostes inimigas, se irmanam para criar um terceiro inimigo – este sim um alvo sem graça de tão fácil.

Acontece que até quem tem dois dígitos de QI sabe que essa “terceira metade” se mostra, sim – como os demais espectros – plena de nuances: é gente que não se vê representada por nenhuma das lideranças, ou não enxerga validade ética em nenhuma das bandeiras, ou que tenta costurar o que, no seu parecer, cada lado tem de positivo, e vislumbrar daí uma possibilidade de entendimento, sem o qual dinâmica coletiva nenhuma vai para a frente (óbvio que entre eles há os apáticos, os niilistas de ocasião que querem mais é que tudo se exploda. Sempre vai ter). É gente que pode estar errada, mas é assim que ela prefere interagir com esse dualismo superficialista.

Mas não. Ignorem-se todas as nuances, proceda-se como na elaboração dos outros dois perfis da família: estampe-se o isentão como o autista que podia estar engrossando as fileiras de nosso contingente mas prefere ficar na sua, e que nos passa a ser tremendamente útil como “adversário” já que não temos mais habilidade nem fôlego para confrontar o inimigo histórico.

Nunca a direita e a esquerda se mostraram tão despreparadas para o debate como no momento em que se acasalaram programaticamente para criar a figura do isentão.

O tal negócio: a discussão política brasileira não é apenas retardada, perniciosa e rasa. Ela é pior – faz gente que se pretende humorista escrever sério de vez em quando. E isso é imperdoável.


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escrito por:

Nelson Moraes

Almirante de quatro costados (todos eles disponíveis para uso publicitário), é especialista em pescar pérolas e distribuí-las sem dar crédito às ostras.


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