Jovem adulto retirando máscara de si mesmo, que representa sua identidade. | O futuro da identidade

O Futuro da Identidade

Em Consciência, Série Transumanismo por Mark MansonComentário

(Esta é a tra­du­ção auto­ri­zada do artigo ori­gi­nal, escrito por Mark Man­son em seu site. Se você quer acom­pa­nhar os novos arti­gos em lín­gua inglesa, cli­que aqui e assine a news­let­ter de Mark)


Ima­gine o seguinte: existe uma máquina que pode fazer o down­load de seu cére­bro para um com­pu­ta­dor e salvá-lo como um arquivo. Todas as suas espe­ran­ças, sonhos, aspi­ra­ções, memó­rias, segre­dos sujos e fan­ta­sias bizar­ras estão nesse arquivo, e podem ser car­re­ga­das em um pro­grama que trans­for­ma­ria o com­pu­ta­dor em uma repli­ca­ção sin­té­tica per­feita, embora tem­po­rá­ria, de “você”.

O com­pu­ta­dor pode­ria, então, fazer tare­fas bási­cas que você acha abor­re­ci­das com os mes­mos gos­tos e pre­fe­rên­cias que você mesmo faria. Pode­ria encon­trar e requi­si­tar um tapete novo para a sala de visi­tas, fazer a pes­quisa para um pro­jeto no tra­ba­lho, cal­cu­lar seus impos­tos, cal­cu­lar as finan­ças para o fundo da facul­dade dos seus filhos, tudo enquanto você dorme ou se senta no sofá e fica gordo.

De certo modo, seria “você”, embora fosse algo com­ple­ta­mente fora de seu corpo e per­cep­ção cons­ci­ente.

Agora ima­gine que esse mesmo pro­grama per­mi­tisse que você alte­rasse a si mesmo. Você pode­ria apa­gar algu­mas lem­bran­ças trau­má­ti­cas, ajus­tar um pouco sua auto-estima, remo­ver um mau hábito e ins­ta­lar alguns bons hábi­tos. Então você pode­ria conec­tar o com­pu­ta­dor de volta em sua cabeça e bai­xar o novo “você” em ques­tão de segun­dos, assim como Neo fez em “The Matrix”, e subi­ta­mente você saberá lutar Kung Fu.

Mas diga­mos que você fique louco e decida apa­gar todas as suas memó­rias e subs­ti­tuí-las com fal­sas memó­rias, sin­té­ti­cas. Você ainda é “você”? E se você apa­gar e subs­ti­tuir a sua per­so­na­li­dade tam­bém? E aí?

Ou vamos radi­ca­li­zar na bizar­rice. Diga­mos que você e uma amiga quei­ram se diver­tir, então você car­rega seus cére­bros para o com­pu­ta­dor e faz o down­load da cons­ci­ên­cia de cada um na cabeça do outro. Então, agora, “você” está no corpo dela, e “ela” está em seu corpo. Agora ima­gine que vocês per­ma­ne­çam nos cor­pos uns dos outros por anos, até o ponto em que cada uma de suas per­so­na­li­da­des, memó­rias e per­cep­ções se fun­dam em per­so­na­li­da­des híbri­das, parte você e parte sua amiga. Você ainda é você mesmo? Sua amiga ainda é ela? Ou vocês são uma nova e estra­nha enti­dade?

Mas espere, vai ficar ainda mais bizarro.

Diga­mos que, nesse futuro hipo­té­tico e avan­çado, nós já colo­ni­za­mos Marte. E o Impe­ra­dor Galác­tico Elon Musk decre­tou que seus súdi­tos mere­cem ter via­gens rápi­das e aces­sí­veis à Marte. Então, o Impe­ra­dor Musk começa uma empresa para inven­tar um dis­po­si­tivo de tele­trans­porte. E ele chama essa empresa de “Foda-se, eu sou Elon Musk e eu posso fazer qual­quer coisa.” E den­tro de três anos o valor de mer­cado da empresa é de US$ 8 tri­lhões.

E com cer­teza, com Musk cri­ando esse dis­po­si­tivo de tele­trans­porte, esta­ría­mos pron­tos para nos enviar para Marte da mesma forma que pro­va­vel­mente cami­nha­mos até a caixa de cor­reio nesta manhã.

A maneira como esse dis­po­si­tivo de tele­trans­porte fun­ci­ona é sim­ples: toma o corpo humano e o obli­tera em seus tri­lhões de áto­mos cons­ti­tuin­tes. Em seguida, codi­fica esses áto­mos e bar­ras em dados à velo­ci­dade da luz para um dis­po­si­tivo seme­lhante em Marte. O dis­po­si­tivo em Marte então toma esses dados e orga­niza alguns tri­lhões de áto­mos de volta para a con­fi­gu­ra­ção exata que foi obli­te­rada na Terra, ou seja, você, e boom! Agora você está em Marte.

Está?

Veja: você foi obli­te­rado na Terra. Cada único átomo que­brado e sepa­rado. E o “você” que foi sin­te­ti­zado em Marte — ape­sar de pos­suir o mesmo corpo, cére­bro, pen­sa­men­tos e memó­rias — é uma enti­dade intei­ra­mente recém-cons­truída.

Em um sen­tido muito real, o dis­po­si­tivo de tele­trans­porte fun­ci­ona bru­tal­mente assas­si­nando você na Terra e, em seguida, rapi­da­mente te clo­nando como você era no momento antes de mor­rer, em outro local.

Então, isso é que é “você” em Marte? Ou ape­nas é uma per­feita cópia sua que é real­mente alguém?

 

SE VOCÊ PENSA QUE É DIFÍCILENCONTRAR A SI MESMOAGORA, ESPERE APENAS ALGUMAS DÉCADAS.

Essas ques­tões podem pare­cer lou­cas e sur­re­ais, mas caso você não tenha ouvido ainda, a tec­no­lo­gia está avan­çando em uma taxa expo­nen­cial. Mui­tas des­sas tec­no­lo­gias pro­va­vel­mente serão intro­du­zi­das den­tro de nos­sas vidas.

E olha que já esta­mos enfren­tando algu­mas des­sas ques­tões de iden­ti­dade hoje, só que em uma escala muito menor e mais sutil.

Fazer um “upload” de nos­sas per­so­na­li­da­des intei­ras para uma rede pode pare­cer insano, mas você já envia uma grande por­cen­ta­gem de sua vida para mídias soci­ais, e-mail e “nuvem”. Esses dados car­re­ga­dos são uma repre­sen­ta­ção exata de “você”? É parte de sua iden­ti­dade? Se tudo fosse supri­mido e subs­ti­tuído com outra infor­ma­ção, “você” muda­ria?

Como seres huma­nos, está em nossa natu­reza pro­cu­rar refe­rên­cias exter­nas para nos iden­ti­fi­car. João é um bom bate­rista. Gre­gó­rio gosta de anime. Cris é advo­gada.

Mas esses pon­tos de refe­rên­cia exter­nos são, em grande parte, deter­mi­na­dos por nos­sas cir­cuns­tân­cias mate­ri­ais. Você não pode ser um bom advo­gado se não há um código legal escrito e um sis­tema judi­cial. Você não pode ser um nerd de anime se não hou­ver tele­vi­são, assim como você não pode ser um bom bate­rista se nin­guém inven­tou a bate­ria ainda.

Esses são exem­plos sim­ples. Mas o ponto per­ma­nece: o que vemos como nós mes­mos, as nos­sas iden­ti­da­des — aquilo em que somos bons, como nos pare­ce­mos, aquilo em que acre­di­ta­mos, o que valo­ri­za­mos — é deter­mi­nado prin­ci­pal­mente pelas cir­cuns­tân­cias tec­no­ló­gi­cas e econô­mi­cas em que nos situ­a­mos.

Se você for para uma ilha com um grupo de pes­soas e nenhuma deles sou­ber nadar, você rapi­da­mente con­so­li­dará sua iden­ti­dade como “o nada­dor”. Agora, se você na infân­cia entrou na equipe de nata­ção da escola e che­gou em último lugar em cada prova, sua iden­ti­dade se con­so­lida como “o per­de­dor”. Mas se em dez anos a equipe de nata­ção da escola fosse subs­ti­tuída por robôs androi­des, sua iden­ti­dade será sim­ples­mente de “o ser humano” (que é pés­simo na nata­ção).

É a mesma ati­vi­dade, mas com iden­ti­da­des com­ple­ta­mente dife­ren­tes — ou seja, manei­ras com­ple­ta­mente dife­ren­tes de rotu­lar e ver a si mesmo com base nas cir­cuns­tân­cias exter­nas e tec­no­lo­gia envol­vida.

O fato de você estar lendo isto agora sig­ni­fica que você viu a tec­no­lo­gia mudar mais durante a sua vida do que ela mudou nos 100 anos antes de você nas­cer. Isso sig­ni­fica que você está lendo este texto num dis­po­si­tivo que tem mais infor­ma­ções dis­po­ní­veis ao alcance de um toque do que todo o conhe­ci­mento acu­mu­lado por civi­li­za­ções intei­ras ao longo de milha­res de anos. Isso sig­ni­fica que você pro­va­vel­mente está exposto a mais ideias e ima­gens novas em um dia do que seus ante­pas­sa­dos esti­ve­ram em uma vida.

Devido ao enorme fluxo livre de infor­ma­ções nas últi­mas déca­das, nos­sas iden­ti­da­des estão se tor­nando mais flui­das e mais abran­gen­tes por­que nos­sas cir­cuns­tân­cias mudam muito rapi­da­mente. Com a tec­no­lo­gia de hoje, as pes­soas não ape­nas esco­lhem como se apre­sen­tar aos outros e como se defi­nir, mas tam­bém são capa­zes de edi­tar, modi­fi­car e acen­tuar essas repre­sen­ta­ções exa­ta­mente como que­rem.

Mesmo no mundo offline, cirur­gia plás­tica e modi­fi­ca­ção do corpo estão se tor­nando mais fáceis e mais bara­tas do que nunca. Medi­ca­men­tos e suple­men­tos far­ma­cêu­ti­cos são abun­dan­tes, alte­rando ligei­ra­mente a quí­mica de nos­sas men­tes para se adap­ta­rem a quem pen­sa­mos que deve­mos ser. Com as limi­ta­ções do mundo físico remo­vi­das, o reino online ofe­rece um ambi­ente de baixo risco para nós “expe­ri­men­tar­mos” novas per­so­na­li­da­des e ver como elas se encai­xam em nós. E à medida em que encar­na­mos os nos­sos ava­ta­res online, isso tam­bém afeta nos­sas vidas offline (e vice-versa).

Fron­tei­ras de todos os tipos con­ti­nuam a se dis­sol­ver com cada avanço na tec­no­lo­gia da infor­ma­ção moderna [1]. Nos­sas pos­ses estão sendo des­ma­te­ri­a­li­za­das — música, fotos, vídeos, men­sa­gens e pala­vras escri­tas, dados e infor­ma­ções, até mesmo nosso dinheiro está sendo digi­ta­li­zado [2].

O con­teúdo gerado pelo usuá­rio está bor­rando a linha entre pro­du­to­res e con­su­mi­do­res. Smartpho­nes e aces­sos cons­tan­tes à Inter­net estão rapi­da­mente dis­sol­vendo a fron­teira entre estar offline e online. Nos­sas memó­rias estão sendo arma­ze­na­das como fotos digi­tais, atu­a­li­za­ções de sta­tus, comen­tá­rios e “cur­ti­das” que podem ser aces­sa­dos em segun­dos.

A dis­tin­ção entre o bio­ló­gico e tec­no­ló­gico está desa­pa­re­cendo (implan­tes cocle­a­res, arti­cu­la­ções e mem­bros arti­fi­ci­ais, implan­tes mamá­rios, mar­ca­pas­sos, mem­bros robó­ti­cos que inte­ra­gem com o sis­tema ner­voso, exo­es­que­le­tos moto­ri­za­dos). Essas e mui­tas outras ino­va­ções de tec­no­lo­gia bio­ló­gica são rela­ti­va­mente comuns e acei­tas ou estão pres­tes a se tor­nar comuns e acei­tas num futuro não tão dis­tante.

Embora mui­tos de nós ainda vejam uma divi­são bem clara entre o mundo digi­tal e o mundo “real”, mesmo esses limi­tes men­tais estão se dis­sol­vendo gra­du­al­mente [3].

 

O FUTURO DA IDENTIDADE

O homem das caver­nas não podia fazer merda. Era tipo caçar ou colher fru­tas e fazer bebês. Não se podia ir muito longe disso. Como tal, seu senso de iden­ti­dade era mais ou menos ine­xis­tente. Você não per­gun­ta­ria a Zug Zug se ele se achava um liber­tá­rio ou qual era seu estilo favo­rito de tocar bate­ria. Isso não exis­tia. As iden­ti­da­des eram base­a­das no grupo, por­que todos con­fi­a­vam no grupo para sobre­vi­ver.

Nos tem­pos anti­gos, come­çou a haver uma divi­são de tra­ba­lho e o cres­ci­mento de cida­des e de peque­nos esta­dos. Logo, o fazen­deiro tinha uma exis­tên­cia clara e dis­tinta do sol­dado, que tinha uma exis­tên­cia dis­tinta do artista ou do monge ou de quem quer que fosse.

Mas não foi até o Ilu­mi­nismo que se enrai­zou a ideia de que as pes­soas tinham sua pró­pria alma e mente indi­vi­dual e dis­tinta dos demais. A ideia de direi­tos e igual­dade flo­res­ceu e a crença huma­nista da “busca da feli­ci­dade” se fir­mou.

Grande parte disso é pro­va­vel­mente atri­buí­vel ao maior avanço tec­no­ló­gico nos sécu­los: a imprensa. Livros bara­tos e dis­po­ní­veis per­mi­ti­ram que as pes­soas les­sem e obti­ves­sem acesso à mente de outros, sim­pa­ti­zando com suas ideias, desa­fios e lutas pela pri­meira vez. De repente, as pes­soas não eram mera­mente defi­ni­das por sua ocu­pa­ção ou classe social — eram defi­ni­das por suas emo­ções, ideias e aspi­ra­ções tam­bém.

Então você chega ao século vinte, e a indus­tri­a­li­za­ção tor­nou a pro­du­ção de boba­gens tão barata e fácil que as pes­soas só come­ça­ram a com­prar coi­sas para se diver­tir, e não por pre­ci­sa­rem delas. Como resul­tado, durante grande parte do século vinte, a iden­ti­dade foi ampla­mente defi­nida pela forma como alguém con­some, pelo modo como gasta seu dinheiro. Você com­pra uma casa junto ao lago ou uma casa na cidade? Você é um cara da natu­reza ou você gosta de res­tau­ran­tes finos? Cami­nho­nete ou sedan? Budwei­ser ou Mil­ler? Rol­ling Sto­nes ou Bea­tles?

Olhando a his­tó­ria humana, vemos duas ten­dên­cias para­le­las:

  1. À medida que a tec­no­lo­gia avança, cada indi­ví­duo recebe maior fle­xi­bi­li­dade e opor­tu­ni­dade de se expres­sar e melho­rar sua vida.
  2. Com acesso a maior fle­xi­bi­li­dade e opor­tu­ni­da­des, nos­sas iden­ti­da­des (ou como deci­di­mos nos defi­nir e nos ver) tor­nam-se mais fluí­das e mais abs­tra­tas.

O homem das caver­nas teve que con­fiar 100% na coe­são social para sobre­vi­ver. Por­tanto, sua iden­ti­dade depen­dia do grupo. As pes­soas no mundo antigo encai­xa­vam-se em papéis muito espe­cí­fi­cos den­tro de um sis­tema feu­dal ou de cas­tas e, por­tanto, suas iden­ti­da­des foram con­fi­na­das a esses papéis.

Na idade moderna, as pes­soas come­ça­ram a se iden­ti­fi­car com base em seus pen­sa­men­tos e sen­ti­men­tos indi­vi­du­ais, e mais tarde, por suas deci­sões de com­pra e estilo de vida.

Hoje, esta­mos vendo defi­ni­ções ainda mais abs­tra­tas da iden­ti­dade, e mesmo aspec­tos fun­da­men­tais tais como gênero, sexu­a­li­dade, raça e apa­rên­cia física estão se tor­nando mais fluí­dos e rela­ti­vos. Se eu qui­sesse, ama­nhã pode­ria me defi­nir como um ciclista esco­cês trans­gê­nero cha­mado Epiphany. E não há real­mente nada que você possa fazer para me impe­dir.

Isso é uma coisa boa. Mas tam­bém faz a com­pre­en­são de nós mes­mos e a defi­ni­ção de quem somos uma tarefa mais com­pli­cada do que, diga­mos, algu­mas gera­ções atrás.

E só vai ficar mais com­pli­cado. No pas­sado falava-se em “crise de meia-idade” — uma crise de iden­ti­dade e de pro­pó­sito de vida que afeta as pes­soas entre os 40 e 50 nos. Recen­te­mente, se fala de “crise do um quarto de idade” — momento em que, devido à enorme vari­e­dade de opor­tu­ni­da­des que os jovens têm hoje, parece impos­sí­vel sim­ples­mente esco­lher e defi­nir-se por um cami­nho.

Com a tec­no­lo­gia se desen­vol­vendo cada vez mais rapi­da­mente, não me sur­pre­en­de­ria se as pes­soas esti­ves­sem em uma cons­tante crise de iden­ti­dade, pois, para ser franco, essa merda está ficando cada vez mais estra­nha.

Aqui estão ape­nas três gran­des áreas de desen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico que pode­riam emba­ra­lhar com­ple­ta­mente quem somos e quem que­re­mos ser.

 

1. Engenharia genética e nanotecnologia.

Essas duas tec­no­lo­gias pode­riam poten­ci­al­mente tor­nar nosso corpo um recep­tá­culo cus­to­mi­zá­vel — algo que você per­so­na­liza e muda como par­tes de um carro.

A tera­pia gené­tica nos per­mi­tirá sele­ci­o­nar e esco­lher nos­sos pró­prios genes e os genes de nos­sos filhos. As doen­ças e con­di­ções gené­ti­cas pode­rão ser remo­vi­das da árvore gene­a­ló­gica, e carac­te­rís­ti­cas físi­cas menos dese­já­veis podem poten­ci­al­mente ser subs­ti­tuí­das por outras mais dese­já­veis.

Nano­tec­no­lo­gia sig­ni­fica que pode­mos come­çar a implan­tar com­pu­ta­do­res micros­có­pi­cos em par­tes do nosso corpo e, em alguns casos, subs­ti­tuir as célu­las por ver­sões mais efi­ci­en­tes das célu­las. Quer segu­rar a res­pi­ra­ção debaixo da água por 15 minu­tos? Os nano­bots que subs­ti­tuem ou aju­dam os gló­bu­los ver­me­lhos pode­riam nos per­mi­tir fazer isso. Pode­ría­mos cor­rer milhas de uma só vez sem des­canso e nos tor­nar pro­te­gi­dos de doen­ças e infe­ções bási­cas.

Além disso tudo, não há razão para não acre­di­tar que coi­sas como a cirur­gia plás­tica e outras modi­fi­ca­ções à apa­rên­cia física não se tor­na­rão mais con­ven­ci­o­nais e aces­sí­veis. Hoje em dia, mais de 15 milhões de pro­ce­di­men­tos de cirur­gia plás­tica são rea­li­za­dos anu­al­mente nos EUA, e esse número con­ti­nua a cres­cer (espe­ci­al­mente para os homens) [5].

Den­tro de uma década ou duas, nos­sas carac­te­rís­ti­cas físi­cas e habi­li­da­des podem tor­nar-se tão arbi­trá­rias em rela­ção à nossa iden­ti­dade como o que come­mos para o café da manhã ou qual nosso pro­grama de TV favo­rito.

 

2. Robótica e Inteligência Artificial.

Em seu livro Race Against the Machine, os pro­fes­so­res do MIT Erik Bryn­jolfs­son e Andrew McA­fee obser­va­ram que o cres­ci­mento expo­nen­cial do poder de pro­ces­sa­mento do com­pu­ta­dor, com­bi­nado com a dimi­nui­ção expo­nen­cial do custo desse poder de pro­ces­sa­mento, sig­ni­fica que é ine­vi­tá­vel que todos os tra­ba­lhos huma­nos, exceto os mais cri­a­ti­vos, sejam ter­cei­ri­za­dos com sucesso para máqui­nas base­a­das em Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial.

Médi­cos, con­ta­do­res, ban­quei­ros, até mesmo a buro­cra­cia do governo pro­va­vel­mente será auto­ma­ti­zada atra­vés de algum tipo de algo­ritmo ou máquina de apren­di­za­gem inte­li­gente algum dia.

O resul­tado, então, será uma popu­la­ção na sua mai­o­ria desem­pre­gada. A mai­o­ria das pes­soas não terá nada pro­du­tivo para fazer pela sim­ples razão de que suas habi­li­da­des são facil­mente supe­ra­das pelos com­pu­ta­do­res.

Além das cri­ses soci­o­e­conô­mi­cas e polí­ti­cas que isso cau­sará, pro­va­vel­mente haverá uma crise de iden­ti­dade mun­dial tam­bém. Grande parte de nossa iden­ti­dade é deter­mi­nada pelo que de mais vali­oso faze­mos [6]. E se a tec­no­lo­gia reduz aquilo que faze­mos e que nos dá valor social a nada, então pode­mos aca­bar com milhões de pes­soas nos per­gun­tando qual era o pro­pó­sito de tudo isso afi­nal de con­tas.

 

3. Realidade virtual.

Os games mais popu­la­res dos últi­mos dez anos têm sido todos jogos de per­so­ni­fi­ca­ção — jogos em que você assume a iden­ti­dade de um herói anô­nimo, usa suas habi­li­da­des e toma deci­sões em cen­te­nas (ou milha­res) de horas de jogo. Esses “ava­ta­res” dão aos joga­do­res uma saída para “tes­tar” iden­ti­da­des às quais de outra forma não teriam acesso.

Com a che­gada da rea­li­dade vir­tual, não há razão para pen­sar que isso não vai con­ti­nuar a cres­cer e a se tor­nar o obje­tivo prin­ci­pal. De fato, a rea­li­dade vir­tual pode nos dar uma capa­ci­dade ili­mi­tada para alte­rar nos­sas per­so­na­li­da­des em um mundo vir­tual, e tes­tar os limi­tes de como nos con­cei­tu­a­mos em um ambi­ente seguro e livre de con­seqüên­cias.

O con­tro­verso futu­rista e inven­tor Ray Kurzweil acre­dita que a rea­li­dade vir­tual se tor­nará tão agra­dá­vel e per­so­na­li­zá­vel que uma grande por­cen­ta­gem da popu­la­ção um dia sim­ples­mente desis­tirá do “mundo real” intei­ra­mente. Ele diz que isso não é neces­sa­ri­a­mente uma coisa ruim, tam­pouco boa [8].

Afi­nal, por que lidar com os con­tí­nuos altos e bai­xos dos sen­ti­men­tos, rela­ci­o­na­men­tos e fra­cas­sos, quando você pode sim­ples­mente habi­tar um mundo vir­tual que se recon­fi­gura para todos os seus dese­jos?

E se você pudesse se conec­tar a um pro­grama de com­pu­ta­dor de rea­li­dade vir­tual que lhe per­mite lite­ral­mente se tor­nar um deus, que lhe per­mite expe­ri­men­tar o tempo em uma fra­ção do ritmo no mundo real, que remo­vesse todos os limi­tes da per­cep­ção física e per­mi­tisse que você rea­li­zasse cada fan­ta­sia ou desejo que você tivesse?

Em uma escala de 1 a 10, o quanto isso ferra com seu senso de si mesmo? Como você pode­ria falar com outro ser humano depois disso?

 

A CHEGADA DO TECNOBUDISMO

No futuro, pro­va­vel­mente alcan­ça­re­mos o ponto em que nos­sos cor­pos físi­cos pode­rão ser alte­ra­dos e atu­a­li­za­dos à von­tade, onde nossa cons­ci­ên­cia pode ser car­re­gada, modi­fi­cada, bai­xada e tro­cada numa rede em nuvem, onde máqui­nas e inte­li­gên­cia arti­fi­cial irão geren­ciar a mai­o­ria das impor­tan­tes tare­fas glo­bais, nos dando uma quan­ti­dade quase ili­mi­tada de tempo para o lazer. E a loca­li­za­ção física se tor­nará quase insig­ni­fi­cante, frente ao poder e à enorme dis­po­ni­bi­li­dade da conec­ti­vi­dade glo­bal.

Em resumo, todos esses iden­ti­fi­ca­do­res clás­si­cos para quem “você” é e quem “eu” sou — apa­rên­cia, loca­li­za­ção, valo­res, cren­ças, expe­ri­ên­cias — se dis­si­pa­rão e se tor­na­rão inter­cam­biá­veis e arbi­trá­rios, e todo o con­ceito de uma iden­ti­dade indi­vi­dual sin­gu­lar pode se tor­nar um ves­tí­gio de um pas­sado há muito esque­cido, da mesma forma que olha­mos para o con­ceito de uma tribo ou de um reino hoje.

Há oito bilhões de anos, esse cara cha­mado Buda cau­sou uma grande polê­mica afir­mando que real­mente não existe essa coisa de “eu”, que tudo é ima­gi­nado e arbi­trá­rio, e que esta­mos todos fazendo um grande baru­lho por nada. Ele disse que aquilo que per­ce­be­mos como “nós” é ape­nas apego a um monte de obje­tos tem­po­rá­rios e expe­ri­ên­cias que nosso cére­bro nos induz a pen­sar que real­mente repre­sen­tam algo.

De uma forma estra­nha e louca, a tec­no­lo­gia está pró­xima de pro­var a rea­li­dade dessa ideia. A ideia de que há um eu cen­tral — isto é, em algum nível, um “eu” cons­tante e um “você” imu­tá­vel — está se dis­sol­vendo bem na nossa frente. No entanto, a ilu­são do eu é tão forte que nem sequer per­ce­be­mos o quão fácil é mudar “quem” somos.

De certa maneira, todas as nos­sas iden­ti­da­des são iden­ti­da­des vir­tu­ais. Você pode pen­sar que quem você é no mundo físico é o “ver­da­deiro você”, mas pro­va­vel­mente isso ocorre por­que você tem medo de renun­ciar à iden­ti­dade que acre­dita ter. Você cons­truiu uma iden­ti­dade com a qual se sente con­for­tá­vel, tem uma per­cep­ção de esta­bi­li­dade e pre­vi­si­bi­li­dade e con­fia nisso para acor­dar de manhã e fazer alguma coisa. Todos nós faze­mos isso.

Mas, na ver­dade, o seu eu offline não é uma des­cri­ção mais pre­cisa de quem você é do que o seu eu online (ou o seu eu no tra­ba­lho, ou o seu eu domés­tico, ou seu eu de férias, ou seja o que for) por­que todas as suas iden­ti­da­des são intei­ra­mente e total­mente con­tex­tu­ais, fei­tas de infor­ma­ção e nada mais [9].

E quanto mais a tec­no­lo­gia nos per­mite mani­pu­lar e mol­dar a infor­ma­ção, mais sere­mos capa­zes de mani­pu­lar e nos mol­dar, até que a pró­pria con­cep­ção de iden­ti­dade não exista mais.


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Notas:
  1. Sheth, J. N., & Solo­mon, M. R. (2014). Exten­ding the Exten­ded Self in a Digi­tal World. Jour­nal of Mar­ke­ting The­ory and Prac­tice, 22(2), 123–132.
  2. Will cash become extinct? | Bankrate.com
  3. Parte disso pode ser uma dife­rença de idade/geração, pois pes­soas mais jovens, que vive­ram a maior parte de suas vidas na era digi­tal iden­ti­fi­cam-se mais com seus per­fis vir­tu­ais do que pes­soas mais velhas.
  4. The Ame­ri­can Soci­ety of Aesthe­tic Plas­tic Sur­gery
  5. Chris­ti­an­sen, C. H. (1999). Defi­ning lives: Occu­pa­tion as iden­tity: An essay on com­pe­tence, cohe­rence, and the cre­a­tion of mea­ning. Ame­ri­can Jour­nal of Occu­pa­ti­o­nal The­rapy, 53(6), 547–558.
  6. Alguém pode argu­men­tar que isso já está acon­te­cendo em uma escala muito menor e mais sutil. Esta­mos tes­te­mu­nhando o retorno da direita menos civi­li­zada nos paí­ses desen­vol­vi­dos, e isso se deve ao fato de que os empre­gos tem sido, prin­ci­pal­mente, auto­ma­ti­za­dos ou ter­cei­ri­za­dos, resul­tando num enorme número de desem­pre­ga­dos com nenhuma real pers­pec­tiva de melhora.
  7. Kurzweil, R. (2006). The Sin­gu­la­rity Is Near: When Humans Trans­cend Bio­logy. Pen­guin Books.
  8. Hon­gla­da­rom, S. (2011). Per­so­nal iden­tity and the self in the online and offline world. Minds and Machi­nes, 21(4), 533–548.

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