Durante o vácuo de acontecimentos do Carnaval, rolou uma pseudo polêmica que me parece incrível, especialmente representativa da máquina de picuinhas e ecos tristes que temos sido.

Começaram a dizer que o Bolsonaro participaria de uma palestra ou debate num clube paulista de tradição judaica, o Hebraica. Imediatamente a reação surgiu: abaixo assinado, nota de repúdio, acusações de que Bolsonaro seria nazista ou antissemita, etc (todo mundo sabe que ele fala muita merda, mas curiosamente não surgiu nenhum registro de que ele tenha falado pejorativamente sobre judeus. Acho que pra esse pessoal ofender qualquer “minoria” é equivalente, judeu, mulher, homossexual, tudo a mesma coisa). Rapidamente alcançamos o nível máximo de ultraje e indignação.

O clube logo avisou que Bolsonaro não faria mais palestra lá. Vitória? Mais ou menos. Bolsonaro lançou abaixo assinado próprio, pelo “direito de palestrar na hebraica”. Já tem dezenas de milhares de assinaturas, e está sendo coberto na grande mídia.

Mais: tem gente dizendo que o anúncio original de que haveria palestra lá nem era oficial, mas sim uma sugestão ou pedido. A reação ofendida obrigou o clube a garantir o cancelamento de algo que talvez nem acontecesse.

[pullquote cite=”Guilherme Assis” type=”left”]Se a ideia é realmente se opor ao Bolsonaro, não é muito esperto contribuir pra que ele seja visto como monstro.[/pullquote]

Isso indica que o fenômeno “bolsonaro” já é praticamente uma máquina de moto contínuo, auto sustentável. Ela nem precisa mais correr atrás de polêmicas ou de publicidade: o mero boato de que ele talvez faça algo já é suficiente pra que ocorra toda a dança de indignação e reação, que curiosamente sempre resulta em mais atenção para o deputado (o que é tudo que ele quer).

Eu li um artigo outro dia que falava sobre o Trump, a Alt Tight e toda essa galera, escrito por um marketeiro que já se utilizou bastante dessa estratégia “gerar ofensa pra conseguir propagar gratuita feita pelos seus inimigos”.

O que ele diz é: todo esse movimento que exige que não “normalizemos” Trump e a direita só serve pra dar mais força a eles. Esse pessoal vive de uma noção de que são diferentes, outsiders, rebeldes. Eles não querem ser normalizados. Eles querem essa percepção: a ideia de que são perseguidos por uma “normalidade” corrupta e preconceituosa. Reagir tentando calar e chamando eles de perigosos e criminosos só confirma essa narrativa.

Cancelar palestras do Bolsonaro não é uma vitória. Bolsonaro ter pouquíssimos votos para presidente da câmara não é uma vitória. Matéria depois de matéria com ícones da esquerda dizendo que bolsonaro é perigoso e deve ser calado não é uma vitória. Isso só faz ele se tornar mais SEXY pros seguidores. Numa situação de crise e catástrofe, ser “anormal” é uma vantagem. Enquanto a esquerda defende os restos mortais do status quo, o “mito” surfa a onda só por se mostrar contrário a isso.

Se a ideia é realmente se opor a esses caras, não é muito esperto contribuir pra que ele seja visto como monstro impressionante. A estratégia é exatamente o contrário: banalizar. Mostrar que o mito é sim só mais um. Jogar luz nessa figura pra que fique claro quão pequena ela é. Só mais um político, bundão como todos os outros, defensor de nacionalismos burros que o aproximam mais de uma Dilma do que seus defensores suspeitam. Não tem monstro nenhum aí – só mais do mesmo, com marketing que a gente ajudou a financiar. Hora de cortar esses fundos.

Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.
  • Olha a cara de PTralha asqueroso desse sujeito! Isso mesmo, abram todas as portas ao Mito, parem de critica-lo e se esforcem muito, muito para mostrar que Bolsonaro é um gangster como lula, um duas caras covarde como os tucanos e um omisso fingido que fica em cima do muro como marina. Kkk…isso mesmo comuna, sua estratégia é vencedora kkkkk
    VIVA BOLSONARO!!!