Entre tantas tarefas diárias, trabalho, estudo, cuidado com a casa e os filhos, desenvolvi o hábito de tentar cuidar da saúde. Nem sempre é tarefa fácil, uma vez que viajo, saio da rotina alimentar, tenho (como boa parte das pessoas) responsabilidades angustiantes no emprego, pressão por produtividade, excesso de atribuições, essas coisas comuns no cenário contemporâneo do mundo do trabalho.

Pois era um dia comum, eu ia para a natação e ouvi uma propaganda de rádio sobre um novo modelo de automóvel (não importa qual), “um carro com performance de gente grande” (ou algo do gênero). Aquela frase chamou atenção.

“Performance”.

Recentemente, li um pouco sobre essa palavra por conta de um curso que ministrei aqui em Caxias do Sul carinhosamente chamado de Doc Performance (o resultado está aqui). A proposta do curso seria filosofar através da produção audiovisual a noção de performance artística (action painting, happening etc) e o cinema documentário (como um produto onde o documentarista pode assumir esse papel ativo de “performer” com uma câmera na mão).

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Paul Mccarthy, em sua performance Painter, de 1995

Bom, o importante é essa palavra ter invadido meu cotidiano novamente, quando pensava sobre o trabalho, sobre essa condição na qual vivemos desde o advento da modernidade, onde estamos submetidos à nossa individualidade performática para existir no mundo. Do nascer ao morrer, precisamos ser sujeitos de ação, sujeitos que lidam com a necessidade de individuação ante o mundo, ou seja, precisamos lidar com a liberdade imposta pela nossa própria evolução enquanto espécie.

Uma liberdade que é positiva, pois a partir dela elaboramos nosso “eu”, nossa independência ante o mundo, ao mesmo tempo carregada de negatividade, por conta da angústia e solidão que gera, a solidão de ser senhor do seu destino. (O autor Erich Fromm em seu livro O medo à liberdade aborda muito bem esse tema ao trazer a historicidade da noção de liberdade desde o período da Reforma, no século XV).

Para ser no mundo temos que agir, ter uma boa performance enquanto seres humanos produtivos (não apenas contemplativos, se trouxéssemos o exemplo do filósofo grego Aristóteles). Crianças que rapidamente aprendem a falar, andar e a fazer cocô sozinhos, comer, ler, lutar judô, falar inglês, meditar, fabricar bombas, enfim, consumir e integrar a sociedade.

O sociólogo estadunidense Louis Hine denunciou o trabalho infantil entre o final do século XIX e início do século XX nos EUA através de suas fotografais

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Ao chegar na academia acabei me distraindo, tentando não esquecer os itens essenciais da natação, no caminho entre o vestiário e a piscina (embora sejam apenas 04, toca, óculos, chinelos e toalha, é preciso de memória). Adoro nadar, não só porque coloco em movimento noventa e tantos por cento dos meus músculos, mas pelo silêncio sob a água, pelo foco na respiração. Entro em estado meditativo. Neste dia, porém, eu parecia absorvido por uma disposição anímica diferente e impus um ritmo acelerado ao treino. E fui acumulando chegadas e piscinas numa contagem empolgante e repentina, competindo com meus limites pessoais. Cumpri os dois mil metros com sensação rara de satisfação e êxtase. Caminhei leve e ofegante até os chuveiros.

Lá, dois meninos faziam a maior bagunça, brincando com uma dessas bolas de plástico rígido que pela dureza ricocheteiam sem trégua. Estavam numa felicidade rara de ver. Na grande sala retangular plenamente preenchida por 18 chuveiros nas três paredes (restando livre apenas a entrada) me posicionei num dos cantos, tentando isolamento e distância para um banho prolongado.

Mas súbito (como eu já desconfiava), a bolinha me atingiu na costela. Fitei com os olhos cerrados o menino mais velho, de uns oito ou nove anos, ele sorriu com cara de quem fez caca, e uma frase invadiu meu pensamento: isso não é lugar de brincadeira, isso é uma escola de natação, tenham mais cuidado!

Por sorte, fiquei calado e fui redimido por um raio de serenidade. Como que esse não é um lugar de brincar? Por que eu fiz essa cara de tio irritado para essas crianças? Quem sou eu querendo bancar o adulto e ter orgulho de minha performance numa piscina escolar de natação?

A epifania foi tão rápida que no milésimo de segundo encaixei o sorriso de retribuição ao menino, que pegou a bolinha rebatida de minhas costas e correu na direção do outro, sem chinelos, deslizando no piso alagadiço. Eu quase gritei para ele não correr para não escorregar, mas me contive. Por que ele não poderia escorregar? (talvez a humanidade precise muito mais de escorregões do que de chinelos anti-derrapantes neste momento).

Fiquei refletindo sobre o quanto sou ridículo nestes momentos de crença inabalável no homem que me tornei. E no quanto que a performance arrastada e alheia para a qual tenho me preparado por tanto tempo me desumaniza, como se eu estivesse quase sempre a procura de superar essa fragilidade da morte morrendo dia a dia, entregue aos objetivos formais que eu mesmo me impus. Os garotos podem correr, pois é permitido escorregar, é saudável, é preciso. Quem sabe se não é um escorregão que vai desestabilizar essa sensação de segurança sobre a qual vivemos? A fé no homem e sua humanidade performática. Campo vigiado para onde empurramos nossos filhos, nossos sonhos, nossas expectativas de ser. Será que somos tudo isso?

Me senti um tanto culpado por acreditar na capacidade messiânica de mudar o mundo através da ação. Da arrogância de exercer autoridade sobre as crianças ou de produzir textos como este, na pretensão de apontar caminhos, de indagar outros infames como eu a moverem-se do sofá. Não sei se somos capazes, não sei se temos tempo, não sei se há o que fazer, há esperanças demais em nossas arrastadas performances cotidianas e reflexão de menos sobre para onde rumamos com estas braçadas.

escrito por:

Felipe Gue Martini