O Eu performer

Em Consciência por Felipe Gue MartiniComentário

Entre tan­tas tare­fas diá­rias, tra­ba­lho, estudo, cui­dado com a casa e os filhos, desen­volvi o hábito de ten­tar cui­dar da saúde. Nem sem­pre é tarefa fácil, uma vez que viajo, saio da rotina ali­men­tar, tenho (como boa parte das pes­soas) res­pon­sa­bi­li­da­des angus­ti­an­tes no emprego, pres­são por pro­du­ti­vi­dade, excesso de atri­bui­ções, essas coi­sas comuns no cená­rio con­tem­po­râ­neo do mundo do tra­ba­lho.

Pois era um dia comum, eu ia para a nata­ção e ouvi uma pro­pa­ganda de rádio sobre um novo modelo de auto­mó­vel (não importa qual), “um carro com per­for­mance de gente grande” (ou algo do gênero). Aquela frase cha­mou aten­ção.

Per­for­mance”.

Recen­te­mente, li um pouco sobre essa pala­vra por conta de um curso que minis­trei aqui em Caxias do Sul cari­nho­sa­mente cha­mado de Doc Per­for­mance (o resul­tado está aqui). A pro­posta do curso seria filo­so­far atra­vés da pro­du­ção audi­o­vi­sual a noção de per­for­mance artís­tica (action pain­ting, hap­pe­ning etc) e o cinema docu­men­tá­rio (como um pro­duto onde o docu­men­ta­rista pode assu­mir esse papel ativo de “per­for­mer” com uma câmera na mão).

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Paul Mccarthy, em sua per­for­mance Pain­ter, de 1995

Bom, o impor­tante é essa pala­vra ter inva­dido meu coti­di­ano nova­mente, quando pen­sava sobre o tra­ba­lho, sobre essa con­di­ção na qual vive­mos desde o advento da moder­ni­dade, onde esta­mos sub­me­ti­dos à nossa indi­vi­du­a­li­dade per­for­má­tica para exis­tir no mundo. Do nas­cer ao mor­rer, pre­ci­sa­mos ser sujei­tos de ação, sujei­tos que lidam com a neces­si­dade de indi­vi­du­a­ção ante o mundo, ou seja, pre­ci­sa­mos lidar com a liber­dade imposta pela nossa pró­pria evo­lu­ção enquanto espé­cie.

Uma liber­dade que é posi­tiva, pois a par­tir dela ela­bo­ra­mos nosso “eu”, nossa inde­pen­dên­cia ante o mundo, ao mesmo tempo car­re­gada de nega­ti­vi­dade, por conta da angús­tia e soli­dão que gera, a soli­dão de ser senhor do seu des­tino. (O autor Erich Fromm em seu livro O medo à liber­dade aborda muito bem esse tema ao tra­zer a his­to­ri­ci­dade da noção de liber­dade desde o período da Reforma, no século XV).

Para ser no mundo temos que agir, ter uma boa per­for­mance enquanto seres huma­nos pro­du­ti­vos (não ape­nas con­tem­pla­ti­vos, se trou­xés­se­mos o exem­plo do filó­sofo grego Aris­tó­te­les). Cri­an­ças que rapi­da­mente apren­dem a falar, andar e a fazer cocô sozi­nhos, comer, ler, lutar judô, falar inglês, medi­tar, fabri­car bom­bas, enfim, con­su­mir e inte­grar a soci­e­dade.

O soció­logo esta­du­ni­dense Louis Hine denun­ciou o tra­ba­lho infan­til entre o final do século XIX e iní­cio do século XX nos EUA atra­vés de suas foto­gra­fais

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Ao che­gar na aca­de­mia aca­bei me dis­traindo, ten­tando não esque­cer os itens essen­ci­ais da nata­ção, no cami­nho entre o ves­tiá­rio e a pis­cina (embora sejam ape­nas 04, toca, ócu­los, chi­ne­los e toa­lha, é pre­ciso de memó­ria). Adoro nadar, não só por­que coloco em movi­mento noventa e tan­tos por cento dos meus mús­cu­los, mas pelo silên­cio sob a água, pelo foco na res­pi­ra­ção. Entro em estado medi­ta­tivo. Neste dia, porém, eu pare­cia absor­vido por uma dis­po­si­ção aní­mica dife­rente e impus um ritmo ace­le­rado ao treino. E fui acu­mu­lando che­ga­das e pis­ci­nas numa con­ta­gem empol­gante e repen­tina, com­pe­tindo com meus limi­tes pes­so­ais. Cum­pri os dois mil metros com sen­sa­ção rara de satis­fa­ção e êxtase. Cami­nhei leve e ofe­gante até os chu­vei­ros.

Lá, dois meni­nos faziam a maior bagunça, brin­cando com uma des­sas bolas de plás­tico rígido que pela dureza rico­che­teiam sem tré­gua. Esta­vam numa feli­ci­dade rara de ver. Na grande sala retan­gu­lar ple­na­mente pre­en­chida por 18 chu­vei­ros nas três pare­des (res­tando livre ape­nas a entrada) me posi­ci­o­nei num dos can­tos, ten­tando iso­la­mento e dis­tân­cia para um banho pro­lon­gado.

Mas súbito (como eu já des­con­fi­ava), a boli­nha me atin­giu na cos­tela. Fitei com os olhos cer­ra­dos o menino mais velho, de uns oito ou nove anos, ele sor­riu com cara de quem fez caca, e uma frase inva­diu meu pen­sa­mento: isso não é lugar de brin­ca­deira, isso é uma escola de nata­ção, tenham mais cui­dado!

Por sorte, fiquei calado e fui redi­mido por um raio de sere­ni­dade. Como que esse não é um lugar de brin­car? Por que eu fiz essa cara de tio irri­tado para essas cri­an­ças? Quem sou eu que­rendo ban­car o adulto e ter orgu­lho de minha per­for­mance numa pis­cina esco­lar de nata­ção?

A epi­fa­nia foi tão rápida que no milé­simo de segundo encai­xei o sor­riso de retri­bui­ção ao menino, que pegou a boli­nha reba­tida de minhas cos­tas e cor­reu na dire­ção do outro, sem chi­ne­los, des­li­zando no piso ala­ga­diço. Eu quase gri­tei para ele não cor­rer para não escor­re­gar, mas me con­tive. Por que ele não pode­ria escor­re­gar? (tal­vez a huma­ni­dade pre­cise muito mais de escor­re­gões do que de chi­ne­los anti-der­ra­pan­tes neste momento).

Fiquei refle­tindo sobre o quanto sou ridí­culo nes­tes momen­tos de crença ina­ba­lá­vel no homem que me tor­nei. E no quanto que a per­for­mance arras­tada e alheia para a qual tenho me pre­pa­rado por tanto tempo me desu­ma­niza, como se eu esti­vesse quase sem­pre a pro­cura de supe­rar essa fra­gi­li­dade da morte mor­rendo dia a dia, entre­gue aos obje­ti­vos for­mais que eu mesmo me impus. Os garo­tos podem cor­rer, pois é per­mi­tido escor­re­gar, é sau­dá­vel, é pre­ciso. Quem sabe se não é um escor­re­gão que vai deses­ta­bi­li­zar essa sen­sa­ção de segu­rança sobre a qual vive­mos? A fé no homem e sua huma­ni­dade per­for­má­tica. Campo vigi­ado para onde empur­ra­mos nos­sos filhos, nos­sos sonhos, nos­sas expec­ta­ti­vas de ser. Será que somos tudo isso?

Me senti um tanto cul­pado por acre­di­tar na capa­ci­dade mes­si­â­nica de mudar o mundo atra­vés da ação. Da arro­gân­cia de exer­cer auto­ri­dade sobre as cri­an­ças ou de pro­du­zir tex­tos como este, na pre­ten­são de apon­tar cami­nhos, de inda­gar outros infa­mes como eu a move­rem-se do sofá. Não sei se somos capa­zes, não sei se temos tempo, não sei se há o que fazer, há espe­ran­ças demais em nos­sas arras­ta­das per­for­man­ces coti­di­a­nas e refle­xão de menos sobre para onde ruma­mos com estas bra­ça­das.

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