Imagem de capa do artigo "O dinheiro tem alma", de Victor Lisboa, publicado no Portal Ano Zero.

O dinheiro tem alma

Em Comportamento, Sociedade por Victor LisboaComentários

Fé e dinheiro têm muito mais em comum do que a vã filo­so­fia de cer­tos pas­to­res pode supor.


Deixa eu con­tar duas his­tó­rias.

Certa vez, quando con­tei a uma amiga de esquerda que havia rece­bido dinheiro para escre­ver um texto para o site Papo de Homem, ela disse ter ficado pro­fun­da­mente decep­ci­o­nada comigo e com todos os outros auto­res do site. De certa forma, sem que ela con­se­guisse expli­car, o fato de ganhar­mos para escre­ver nos­sas opi­niões tor­nava tudo o que dizía­mos sem valor. Ela tra­tava o dinheiro como algo espú­rio, algo que com­pro­me­tia a sin­ce­ri­dade de qual­quer cri­a­ção humana.

Minha amiga não per­ce­bia, mas ape­sar de ser de esquerda e ateia, sua per­cep­ção sobre o dinheiro era pro­fun­da­mente reli­gi­osa e cató­lica.

A outra his­tó­ria é do con­sul­tor finan­ceiro Edu­ardo Amuri. No iní­cio deste vídeo ele conta que, quando come­çou seu tra­ba­lho e pas­sou a auxi­liar cli­en­tes a resol­ver pro­ble­mas de finan­ças pes­so­ais, espe­rava tra­tar de aspec­tos obje­ti­vos e prá­ti­cos. Porém, para sua sur­presa, des­co­briu-se quase fazendo um tra­ba­lho de “tera­peuta”, enfren­tando pro­ble­mas de ordem emo­ci­o­nal e de con­cep­ção de mundo.

Isso é muito comum. Quando fala­mos de dinheiro, pen­sa­mos em núme­ros, fra­ções e per­cen­tu­ais. Ima­gi­na­mos que tra­tar de dinheiro é tra­tar de ques­tões obje­ti­vas.

Mas dinheiro é tudo, menos obje­tivo. Dinheiro é ape­nas uma parte de nossa psi­que (do grego psy­che, “alma”). Uma fic­ção con­sen­sual, uma rea­li­dade inter­sub­je­tiva, como a chama o his­to­ri­a­dor isra­e­lense Yuval Harari: con­ven­ci­o­na­mos que um pedaço de papel ou que uma moeda de metal tem um valor espe­cí­fico con­forme uma escala ima­gi­ná­ria, e con­ven­ci­o­na­mos que os obje­tos e ser­vi­ços que pres­ta­mos uns aos outros pos­suem uma “metri­fi­ca­ção” con­sen­sual de seu valor nessa mesma escala.

Imagem 1 no texto "O dinheiro tem alma", de Victor Lisboa, para o Portal Ano Zero | Breaking Bad Money

O dinheiro, na ver­dade, é uma ideia abs­trata, um tipo espe­cí­fico de sonho, um sonho que vive das moti­va­ções do ego. O ser humano, essen­ci­al­mente falando, não é um ani­mal raci­o­nal, mas um ani­mal que habita seu pró­prio ima­gi­ná­rio. E o dinheiro é a expres­são nego­ciá­vel dos dese­jos que sur­gem no ima­gi­ná­rio humano. Essa expres­são, até pouco tempo, era física, na forma de moeda e papel moeda, mas tem se tor­nado cada vez mais abs­trata, um regis­tro num banco de dados do sis­tema finan­ceiro inter­na­ci­o­nal.

O curi­oso, e aí está um dos segre­dos da efi­ci­ên­cia desse sis­tema, é que somos capa­zes de divi­dir e quan­ti­fi­car, por meio do dinheiro, algo que a prin­cí­pio não pode ser men­su­rado: o desejo humano, seja esse desejo gui­ado pela cobiça hedo­nista ou pela neces­si­dade ani­mal. Uma nota de cem dóla­res pode repre­sen­tar uma par­cela maior desse ima­gi­ná­rio vin­cu­lado ao desejo do que uma nota de cinco dóla­res. Divi­di­mos, quan­ti­fi­ca­mos, medi­mos os sonhos huma­nos quando eles repre­sen­tam um desejo. O sis­tema finan­ceiro é uma máquina oní­rica sofis­ti­cada, que tenta “apre­en­der” sim­bo­li­ca­mente o desejo que a rea­li­dade obje­tiva des­perta em nós.

Se esta­mos no mundo dos sonhos, esta­mos pró­ximo do mundo da reli­gião. Afi­nal, o dinheiro é uma parte da psi­que, e a pala­vra psi­que quer dizer, em grego, alma. Além disso, toda e qual­quer inte­ra­ção social que envolva dinheiro depende de que tenha­mos fé em que as outras pes­soas per­ma­ne­ce­rão con­cor­dando que aquela atri­bui­ção sim­bó­lica de valor às coi­sas e à moeda é intei­ra­mente válida: “sem fé em um pedaço de papel pin­tado, nenhuma troca have­ria de ter lugar”, disse o antro­pó­logo Olav Velthuis em seu ensaio Taking Pri­ces.

Dinheiro é parte da “alma” e depende de fé. Não é a toa que, para o visi­o­ná­rio Jodo­rowski (nesse tre­cho de seu último filme, A Dança da Rea­li­dade), dinheiro é como Cristo, é como Buda:

O psi­có­logo ame­ri­cano James Hill­man, em seu famoso ensaio no qual ana­lisa como o dinheiro é tra­tado nos Evan­ge­lhos, afirma o dinheiro é uma ter­ceira coisa entre o puro espí­rito e a pura maté­ria, e por­tanto ter dinheiro é estar num ter­ceiro nível da rea­li­dade, em que “alma” (psi­que) e maté­ria se mis­tu­ram.

Assim como nas fábu­las de outrora magos e fei­ti­cei­ras eram capa­zes de trans­for­mar abó­bo­ras em car­ru­a­gens e sapa­tos de couro gasto em sapa­tos de cris­tal, tam­bém quem pos­sui dinheiro hoje em dia é um mago moderno, capaz de fazer mágica ou lan­çar mal­di­ções: muito dinheiro pode ali­men­tar toda uma popu­la­ção faminta, nos levar até Marte ou con­de­nar milha­res de pes­soas enfer­mas à morte. O dinheiro trans­forma o modo como as pes­soas nos enxer­gam e o jeito como nos tra­tam. O dinheiro pode abrir nos­sos olhos ou nos cegar.

Dinheiro é tudo menos algo obje­tivo. É uma forma de ener­gia psí­quica, e como ener­gia pode ser com­pa­rada à ele­tri­ci­dade: a ele­tri­ci­dade pode ser útil para ilu­mi­nar nos­sas noi­tes e aque­cer nos­sos lares, mas se você colo­car o dedo na tomada, pode ficar gru­dado na parede e mor­rer quando for “pos­suído” pela cor­rente elé­trica. Da mesma forma, dinheiro pode garan­tir o justo con­forto e todas agra­dá­veis como­di­da­des da vida moderna — e nesse sen­tido é algo muito posi­tivo. Mas, em algum momento dessa rela­ção com o dinheiro, ele pode se tor­nar um fim em si mesmo, e apri­si­o­nará você num sis­tema que matará algo de sua alma.

Mas essa metá­fora, como qual­quer uma, fun­ci­ona até certo ponto. Pois a ele­tri­ci­dade é forma de ener­gia pas­siva, que se deixa mani­pu­lar se tomar­mos os devi­dos cui­da­dos. Dinheiro, porém, como toda forma de fic­ção con­sen­sual que sus­tenta nossa soci­e­dade, molda em parte nossa pró­pria iden­ti­dade, e esta­be­lece os limi­tes em que nos­sos sonhos são exequí­veis den­tro dessa mesma soci­e­dade.

Imagem 2 do artigo "O dinheiro tem alma", de Victor Lisboa para o portal Ano Zero | In-God-We-Trust-Dollar

Sendo assim, o dinheiro jamais se sub­mete à nossa von­tade. James Hill­man sali­enta que, sendo o dinheiro uma rea­li­dade psí­quica, sem­pre será ine­ren­te­mente pro­ble­má­tico, e por­tanto “os pro­ble­mas com dinheiro são ine­vi­tá­veis, neces­sá­rios, irre­du­tí­veis, sem­pre pre­sen­tes e poten­ci­al­mente, senão fac­tu­al­mente, esma­ga­do­res”.

Por ser uma ter­ceira ins­tân­cia entre o mundo real e o mundo oní­rico, a forma como lida­mos com o dinheiro revela, como num espe­lho, o nosso nível de matu­ri­dade emo­ci­o­nal e o quanto nossa cons­ci­ên­cia está des­perta. Por isso, demo­ni­zar o dinheiro, pro­pondo um sis­tema no qual ele não existe, é tão ima­turo e peri­goso como ido­la­trá-lo.

Nesse aspecto, é bem curi­osa a forma como a esquerda latino-ame­ri­cana trata a ques­tão do dinheiro, pois serve ape­nas para evi­den­ciar o quanto o dinheiro é enten­dido por nós como uma ener­gia aní­mica, isto é, uma forma de ener­gia que pode ali­men­tar ou des­gra­çar a alma humana.

Para a tra­di­ção cató­lica, dis­tin­ta­mente da visão pro­tes­tante tra­di­ci­o­nal, o dinheiro é algo “deste mundo” — e, sendo deste mundo, sem dúvida é uma força demo­níaca. Da mesma forma, para pes­soas da esquerda como aquela minha amiga que se decep­ci­o­nou ao saber que eu ganhava para escre­ver, ape­nas a ação humana que seja total­mente des­vin­cu­lada de qual­quer obje­tivo finan­ceiro é “pura”, é “nobre”, é “genuína”. O artista, o cri­a­dor e o visi­o­ná­rio devem fazer, tanto para a pers­pec­tiva do cato­li­cismo quanto da esquerda, um voto de pobreza.

Isso não é de se espan­tar, quando lem­bra­mos que todos os filhos da esquerda são, de regra, filhos tam­bém de famí­lias cató­li­cas de classe média. Ape­sar de terem recu­sado a sua tra­di­ção fami­liar, incons­ci­en­te­mente a car­re­gam em sua visão de mundo. Afi­nal, basta ver o dis­curso da can­di­data Luci­ana Genro na cam­pa­nha pre­si­den­cial de 2014 para per­ce­ber­mos que o modo como a esquerda trata o Mer­cado (assim, com maiús­cula) e o Grande Capi­tal res­soa muito da lita­nia cató­lica sobre o Diabo e a Grande Besta do Apo­ca­lipse: são os gran­des ini­mi­gos a serem der­ro­ta­dos, a causa de todo mal, os agen­tes ardi­lo­sos que nos afas­tam da ver­da­deira pureza. A usura (cobrar juros por dinheiro empres­tado, algo ele­men­tar ao nosso sis­tema ban­cá­rio e ao capi­ta­lismo) era con­si­de­rada um pecado capi­tal pela Igreja da Idade Média. E os movi­men­tos revo­lu­ci­o­ná­rios de esquerda foram, durante o ter­rí­vel período da Dita­dura Mili­tar no Bra­sil, apoi­a­dos por parte do clero, nota­da­mente pelos padres adep­tos da cha­mada Teo­lo­gia da Liber­ta­ção.

Tanto para o cato­li­cismo quanto para a esquerda, ter dinheiro é ter culpa, seja essa culpa her­dada pelos filhos do pecado ori­gi­nal de Adão e de Eva, seja essa culpa her­dada pelos filhos pri­vi­le­gi­a­dos da classe domi­nante e opres­sora. Não é de se espan­tar que a esquerda tenha tor­cido o nariz para aquela cam­pa­nha do Dia dos Namo­ra­dos, em que o boti­cá­rio home­na­geou os rela­ci­o­na­men­tos homo­a­fe­ti­vos: para essa pers­pec­tiva, que asso­cia dinheiro à culpa, toda ação, ainda que pro­du­tora de resul­ta­dos bené­fi­cos, é ine­ren­te­mente espú­ria se presta tri­buto àquele ter­ceiro campo da rea­li­dade psí­quica em que espí­rito e maté­ria, como disse Hill­man, exis­tem simul­ta­ne­a­mente.

Por isso é tão difí­cil, no Bra­sil, enten­der como alguém pode ser, a um só tempo, libe­ral em ter­mos econô­mi­cos (defen­sor do capi­ta­lismo e da inter­ven­ção esta­tal mínima) e libe­ral em ter­mos de cos­tu­mes (defen­sor dos direi­tos humano, dos direi­tos das mino­rias e da liber­dade sexual). Para a esquerda, libe­ra­lismo econô­mico é sím­bolo do Mal, e o mal ide­o­ló­gico é expresso na ima­gem do con­ser­va­do­rismo e do rea­ci­o­na­rismo. Capi­ta­lismo e opres­são sem­pre andam, segundo essa visão equi­vo­cada, de mãos dadas, por mais que os regis­tros his­tó­ri­cos con­tra­di­gam tal enten­di­mento: as con­quis­tas soci­ais das mino­rias são muito mais evi­den­tes em paí­ses de tra­di­ção eco­no­mi­ca­mente libe­ral do que em paí­ses que esta­ti­za­ram os meios de pro­du­ção. Mas os fatos são cons­tan­te­mente nega­dos.

Mas o dinheiro é isso. É con­tra­di­ção. É pro­ble­má­tico e ina­fas­tá­vel. É desa­fi­a­dor e neces­sá­rio. É espí­rito e maté­ria. É um pedaço de sonho e um pedaço de metal. É ele­tri­ci­dade que ilu­mina as estra­das, é ele­tri­ci­dade que expulsa a vida do corpo humano. Pode abrir nos­sos olhos, pode nos cegar.

Como disse Hill­man: “dinheiro é algo dia­bo­li­ca­mente divino”.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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