Não sei quem inventou o conceito de corno da realidade. Talvez tenha sido eu mesmo, talvez tenha sido um de vocês, já não me lembro. Em todo caso, creio que é uma categoria fundamental para se entender os rumos da esquerda nos últimos anos no Brasil.

O que é o corno da realidade? Bem, como diz o nome, o corno da realidade é o sujeito que sempre se sente traído quando o real se revela como o que ele é, e não como o mundo cor-de-rosa que o corno imagina. Ele tem políticos de estimação e acha que a realidade se pauta pela Constituição. Daí, quando políticos atuam como políticos, ou seja, defendendo os seus interesses, como sempre fazem, o corno brada indignado: “que absurdo! como podem me trair assim?”

Na verdade o político não o traiu coisa nenhuma. O político fez o que sempre faz. Foi ele, o corno, que construiu um castelinho imaginário e depois despencou da construção que ele próprio erigiu. Se você quiser o exemplo perfeito do que é a indignação do corno da realidade, é só clicar aqui.

Lula foi a Minas Gerais e declarou que “perdoa os golpistas”. Claro que Lula jamais acreditou que o seu partido tivesse sido vítima de um golpe. O seu partido foi partícipe de uma transação política na qual ninguém mais queria ficar com Rousseff, nem ele mesmo, Lula, cujas chances eleitorais para 2018 aumentaram exponencialmente com o impeachment.

Mas o corno acha que Lula está “errando”. Ele chama a fala de Lula de “alienada”. Lula pode ser acusado de qualquer coisa, menos de alienado. O alienado, obviamente, é o próprio corno, que não entende que Lula está jogando o jogo que sempre jogou, com muita habilidade, aliás. Mas o corno reclama que Lula não está enxergando a “violência do golpe”.

O problema é que as supostas vítimas da “violência do golpe” estão fazendo churrasco com os supostos golpistas, juntinhos, ambos tentando encontrar um caminho para se livrar da Lava Jato. Mas o corno insiste: “vocês estão sendo vítimas de uma violência!”, enquanto as supostas vítimas pedem mais uma rodada de picanha no Bistrô Expand de Brasília.

O corno da realidade bradará indignado que os pilantras do MBL já não estão batendo panelas contra a corrupção. “Onde estão os verde-amarelos agora?!”, grita revoltado o corno da realidade. A resposta é óbvia: os pilantras do MBL não estão batendo panelas porque já conseguiram o que queriam, que era derrubar a Rousseff, enquanto o corno da realidade choraminga que eles deveriam estar nas ruas.

Para usar a analogia de que mais gosto, a do futebol: o corno da realidade é aquele lateral-direito que corre ao banco para reclamar com o treinador “o ponta adversário está me enganando! Ele finge que vai abrir e corta pelo meio! Isso não vale!”.

A esquerda vive hoje em agudíssima crise de cornitude do real. E vai demorar um bom tempo para superá-la.

Idelber Avelar
Leciono literatura,escrevo ensaios. Editei o Biscoito Fino http://idelberavelar.com . Torcedor do Galo e membro do MPII (Minorias com Projetos Ideológicos Irreais)
  • Carlos Macedo

    Por esse e outros motivos que me afastei de questões políticas militantes. Isso só faz mal ao raciocínio minimamente lógico! Eu tenho minha preferência ideológica, sem fanatismo e muito menos sigo um “Grande Líder”, como o Lula, por exemplo.