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O Consumidor de Moda Brasileiro

Em Consciência, Sociedade por Amandha VianaComentário

Você já deve ter ouvido falar sobre os “novos ricos”, certo? Não que­re­mos entrar no mérito do desen­vol­vi­mento econô­mico dos últi­mos anos, mas o fato é que esse rápido cres­ci­mento fez com que hou­vesse uma rede­fi­ni­ção das clas­ses soci­ais no país, na qual pes­soas que antes não pos­suíam acesso a cer­tos bens de con­sumo, por não esta­rem ao alcance da sua classe social, hoje ganham espaço den­tro do mer­cado, tendo opor­tu­ni­da­des de con­su­mir de forma seme­lhante a quem nas­ceu em uma situ­a­ção pri­vi­le­gi­ada. Basta um car­tão de cré­dito.

Seguindo o padrão his­tó­rico, em que as clas­ses bai­xas se ins­pi­ram no modo de ves­tir das clas­ses mais ele­va­das, impul­si­o­nando o rico a tra­zer a novi­dade do exte­rior para se dife­ren­ciar, no mer­cado de luxo bra­si­leiro, obser­va­mos um fenô­meno inte­res­sante: junto com o novo rico, nasce o novo luxo, algo ainda mais inal­can­çá­vel.

E o novo luxo não é for­mado por um con­junto de bens carís­si­mos. O novo luxo é o tempo que a classe mais alta tem para usu­fruir, enquanto os demais clas­ses tra­ba­lham; Ao con­trá­rio do que conhe­ce­mos como luxo, o novo luxo é o sim­ples, é apro­vei­tar o que o dinheiro não pode dar de forma finan­ci­ada, pois dinheiro essa classe social já pos­sui.

Já para aten­der as novas deman­das das outras clas­ses soci­ais, sur­gem tam­bém novos seg­men­tos de mer­cado. É quando come­ça­mos a ouvir falar sobre o fast fashion – mar­cas que pos­suem rápi­das pro­du­ções e mudan­ças de cole­ção em ritmo ace­le­rado. Afi­nal, se exis­tem con­su­mi­do­res, não fal­tam ideias para con­quistá-los.

Uma das refe­ren­cias de fast fashion no Bra­sil, a mul­ti­na­ci­o­nal Zara, cos­tuma trans­for­mar as ten­dên­cias em rou­pas pron­tas e expos­tas nas vitri­nes de suas lojas pelo mundo todo em ape­nas 15 dias. Duas vezes por semana, ela traz novi­da­des às suas ara­ras e seus pedi­dos cos­tu­mam ter um prazo de 2 dias de entrega para qual­quer lugar do mundo. Além da forte iden­ti­dade da marca, não há muita dife­rença – a não ser no preço – entre a Zara bra­si­leira e a espa­nhola, por exem­plo.

Em con­tra­ponto, mar­cas que ven­dem arti­gos exclu­si­vos não per­de­ram sua majes­tade. Gri­fes con­cei­tu­a­das ade­ri­ram a novos segui­men­tos de mer­cado de uma forma um tanto quanto dife­rente. Elas aumen­ta­ram a sua linha com novos pro­du­tos, que podem ser mais aces­sí­veis a outras clas­ses soci­ais. Se você não pode ter um ves­tido Cha­nel, então pode ter um per­fume ou um esmalte, por exem­plo. Assim, ela não perde suas carac­te­rís­ti­cas e con­ti­nua exclu­siva a certo nicho de mer­cado, mas, ao mesmo tempo, atende a deman­das de gru­pos mais amplos de con­su­mi­do­res, que, em mui­tos casos, são quem sus­tenta a marca.

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Mas o que está acon­te­cendo no caso espe­cí­fico do con­su­mi­dor bra­si­leiro? Esse excesso de infor­ma­ção e de opções está con­fun­dindo o que deve­ria ser a essên­cia do que é moda: expres­sar sua opi­nião e carac­te­rís­ti­cas pes­so­ais atra­vés das rou­pas.A roupa dei­xou de ser sua carta de apre­sen­ta­ção, na qual você expressa suas pre­fe­rên­cias e carac­te­rís­ti­cas pes­so­ais, para ser um boleto ban­cá­rio, que revela o quanto você pode pagar por um pro­duto. O con­su­mi­dor pas­sou a ser uma vitrine ambu­lante e a marca que ele veste vai dizer a que classe social per­tence, ainda que para a ves­tir ele se afunde no che­que espe­cial. Há uma neces­si­dade de mos­trar poder aqui­si­tivo atra­vés do ves­tir, dei­xando o estilo em segunda opção.

Em uma entre­vista a ELLE do mês de maio, Paulo Bor­ges – CEO da Lumi­no­si­dade, empresa res­pon­sá­vel pelo SPFW e o Fashion Rio, afir­mou que enfren­ta­mos uma crise no pro­cesso entre marca e con­su­mi­dor e, por­tanto, no pla­ne­ja­mento e pro­du­ção do pro­duto. Com essa velo­ci­dade de mudan­ças, a indús­tria pre­ci­sou aten­der rapi­da­mente as neces­si­da­des do con­su­mi­dor e não teve muito tempo para o pla­ne­ja­mento. Ou seja, é tempo de nos rein­ven­tar­mos, não só na moda, mas em todos os seto­res. Fato é que, nas ulti­mas déca­das, o avanço da tec­no­lo­gia e o excesso de infor­ma­ção resul­ta­ram numa “pane” no mundo da moda, e hoje mui­tos falam em crise.

E, para supe­rar essa pos­sí­vel crise, acre­dito que as empre­sas devem se rees­tru­tu­rar de acordo com esse avanço, redes­co­brir suas deman­das e se fir­mar no mer­cado de acordo com as neces­si­da­des do con­su­mi­dor, ainda que, para isso, caia a velo­ci­dade da infor­ma­ção, a fim de asse­gu­rar tempo para o pla­ne­ja­mento. O que está acon­te­cendo é que, quanto mais se dimi­nui o tempo de con­cep­ção, pro­du­ção e venda, mais velo­ci­dade é exi­gida da indús­tria, e cada vez menos há qua­li­dade e iden­ti­dade da marca no pro­cesso.

Não é a toa que eco­no­mis­tas dizem que nosso país, ape­sar de ser con­si­de­rado a sétima maior eco­no­mia do mundo e a ter­ceira com rela­ção à indús­tria têx­til, ainda pos­sui falhas em seu pro­cesso de pro­du­ção e, seguindo o clás­sico jei­ti­nho bra­si­leiro, deixa tudo sem­pre para a última hora. Há juros abu­si­vos, impos­tos e uma pés­sima infra­es­tru­tura que ele­vam o custo no Bra­sil. Além disso, temos, no setor público, um hori­zonte de ges­tão que alcança ape­nas os qua­tro anos de man­dato dos elei­tos e, no setor privado,uma exa­ge­rada indu­ção ao con­sumo. Não existe pla­ne­ja­mento, não há estra­té­gias de longo prazo. O povo é indu­zido a con­su­mir desen­fre­a­da­mente, numa situ­a­ção em que o fator prin­ci­pal é o preço e não o pro­duto.

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Ainda usando a rede de lojas Zara como exem­plo, ela é conhe­cida mun­di­al­mente por seu modelo efi­ci­ente de ges­tão, con­se­guindo ter sem­pre os meno­res pre­ços e atuar, em 86 paí­ses, como uma marca de massa, con­su­mida pelas clas­ses bai­xas. No Bra­sil, porém, a mul­ti­na­ci­o­nal não esca­pou dos altos cus­tos e é clas­si­fi­cada como uma marca de luxo, com dife­ren­ças de 11% a 76% do seu valor em rela­ção a outros paí­ses.

Indo um pouco mais além, recen­te­mente a Zara foi alvo de escân­da­los por uso de tra­ba­lho escravo no desen­vol­vi­mento de suas peças, fica aqui então uma ques­tão a se pen­sar: se a Zara jus­ti­fica os pre­ços de seus pro­du­tos base­a­dos nos cus­tos em rela­ção aos demais pai­ses, o uso de tra­ba­lho escravo daria ao super­fa­tu­ra­mento das peças ape­nas cono­ta­ção de apro­vei­ta­mento daque­las carac­te­rís­ti­cas do con­su­mi­dor bra­si­leiro.


O recente lan­ça­mento da Fore­ver 21 e o bur­bu­ri­nho que cau­sou é outro grande exem­plo. Lá fora, essa rede de lojas fast fashion é conhe­cida por suas lojas de rua e por con­ter peças de pés­sima qua­li­dade, ven­di­das a pre­ços muito bara­tos. Aqui, ela não só faz parte do clo­set de milha­res de mulhe­res de classe média alta, como tam­bém está ao lado de mar­cas con­cei­tu­a­das no mer­cado da moda – como Prada, Valen­tino e Luis Vuit­ton – em shop­pings do Rio de Janeiro e São Paulo.

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Cli­en­tes espe­ram até 5 horas para conhe­cer a Fore­ver 21 no Shop­ping Morumbi.

Com todo esse deses­pero em con­su­mir, a eco­no­mia bra­si­leira dá pulos de ale­gria. As mar­cas grin­gas olham para essa “falta de per­so­na­li­dade” do con­su­mi­dor bra­si­leiro sor­rindo e que­rem cada vez mais entrar no país. Afi­nal, ape­sar dos altos pre­ços vigen­tes no mer­cado naci­o­nal, essas empre­sas podem se pre­o­cu­par ape­nas com a novi­dade, dis­pen­sa­das de pen­sar em para quem estão fazendo, pois não há uma carac­te­rís­tica que ligue o con­su­mi­dor à marca — há, ape­nas, um nome inter­na­ci­o­nal ven­dendo seu pro­duto. Além disso, quanto maior a frequên­cia na oferta de peças novas, maior é o con­sumo. Não há mais neces­si­dade de criar vín­cu­los com o con­su­mi­dor, basta ter novi­da­des que o atraia.

Ao con­trá­rio dos paí­ses euro­peus, no Bra­sil não se pode defi­nir um con­su­mi­dor pela marca que ele veste. Não existe rela­ção entre marca, pro­duto e con­su­mi­dor, pois os bra­si­lei­ros não com­pram por estilo ou por iden­ti­fi­ca­rem a sua per­so­na­li­dade com as carac­te­rís­ti­cas de deter­mi­na­das mar­cas. O con­su­mi­dor nos paí­ses desen­vol­vi­dos com­pram de acordo com o gosto, já o bra­si­leiro com­pra pelo bolso, pelo que é ou não aces­sí­vel e pela quan­ti­dade de par­ce­las.


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Amandha Viana
Amandha Viana estuda Negócios da Moda pela Universidade Anhembi Morumbi e atua na área comercial e de produção na Ana Cury Consultoria. Amandha usa a moda como meio de entender o mundo e até ela mesma, porque não? Assim como a moda, ela muda. Muda muito, e rápido.

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