Você já deve ter ouvido falar sobre os “novos ricos”, certo? Não queremos entrar no mérito do desenvolvimento econômico dos últimos anos, mas o fato é que esse rápido crescimento fez com que houvesse uma redefinição das classes sociais no país, na qual pessoas que antes não possuíam acesso a certos bens de consumo, por não estarem ao alcance da sua classe social, hoje ganham espaço dentro do mercado, tendo oportunidades de consumir de forma semelhante a quem nasceu em uma situação privilegiada. Basta um cartão de crédito.

Seguindo o padrão histórico, em que as classes baixas se inspiram no modo de vestir das classes mais elevadas, impulsionando o rico a trazer a novidade do exterior para se diferenciar, no mercado de luxo brasileiro, observamos um fenômeno interessante: junto com o novo rico, nasce o novo luxo, algo ainda mais inalcançável.

E o novo luxo não é formado por um conjunto de bens caríssimos. O novo luxo é o tempo que a classe mais alta tem para usufruir, enquanto os demais classes trabalham; Ao contrário do que conhecemos como luxo, o novo luxo é o simples, é aproveitar o que o dinheiro não pode dar de forma financiada, pois dinheiro essa classe social já possui.

Já para atender as novas demandas das outras classes sociais, surgem também novos segmentos de mercado. É quando começamos a ouvir falar sobre o fast fashion – marcas que possuem rápidas produções e mudanças de coleção em ritmo acelerado. Afinal, se existem consumidores, não faltam ideias para conquistá-los.

Uma das referencias de fast fashion no Brasil, a multinacional Zara, costuma transformar as tendências em roupas prontas e expostas nas vitrines de suas lojas pelo mundo todo em apenas 15 dias. Duas vezes por semana, ela traz novidades às suas araras e seus pedidos costumam ter um prazo de 2 dias de entrega para qualquer lugar do mundo. Além da forte identidade da marca, não há muita diferença – a não ser no preço – entre a Zara brasileira e a espanhola, por exemplo.

Em contraponto, marcas que vendem artigos exclusivos não perderam sua majestade. Grifes conceituadas aderiram a novos seguimentos de mercado de uma forma um tanto quanto diferente. Elas aumentaram a sua linha com novos produtos, que podem ser mais acessíveis a outras classes sociais. Se você não pode ter um vestido Chanel, então pode ter um perfume ou um esmalte, por exemplo. Assim, ela não perde suas características e continua exclusiva a certo nicho de mercado, mas, ao mesmo tempo, atende a demandas de grupos mais amplos de consumidores, que, em muitos casos, são quem sustenta a marca.

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Mas o que está acontecendo no caso específico do consumidor brasileiro? Esse excesso de informação e de opções está confundindo o que deveria ser a essência do que é moda: expressar sua opinião e características pessoais através das roupas.A roupa deixou de ser sua carta de apresentação, na qual você expressa suas preferências e características pessoais, para ser um boleto bancário, que revela o quanto você pode pagar por um produto. O consumidor passou a ser uma vitrine ambulante e a marca que ele veste vai dizer a que classe social pertence, ainda que para a vestir ele se afunde no cheque especial. Há uma necessidade de mostrar poder aquisitivo através do vestir, deixando o estilo em segunda opção.

Em uma entrevista a ELLE do mês de maio, Paulo Borges – CEO da Luminosidade, empresa responsável pelo SPFW e o Fashion Rio, afirmou que enfrentamos uma crise no processo entre marca e consumidor e, portanto, no planejamento e produção do produto. Com essa velocidade de mudanças, a indústria precisou atender rapidamente as necessidades do consumidor e não teve muito tempo para o planejamento. Ou seja, é tempo de nos reinventarmos, não só na moda, mas em todos os setores. Fato é que, nas ultimas décadas, o avanço da tecnologia e o excesso de informação resultaram numa “pane” no mundo da moda, e hoje muitos falam em crise.

E, para superar essa possível crise, acredito que as empresas devem se reestruturar de acordo com esse avanço, redescobrir suas demandas e se firmar no mercado de acordo com as necessidades do consumidor, ainda que, para isso, caia a velocidade da informação, a fim de assegurar tempo para o planejamento. O que está acontecendo é que, quanto mais se diminui o tempo de concepção, produção e venda, mais velocidade é exigida da indústria, e cada vez menos há qualidade e identidade da marca no processo.

Não é a toa que economistas dizem que nosso país, apesar de ser considerado a sétima maior economia do mundo e a terceira com relação à indústria têxtil, ainda possui falhas em seu processo de produção e, seguindo o clássico jeitinho brasileiro, deixa tudo sempre para a última hora. Há juros abusivos, impostos e uma péssima infraestrutura que elevam o custo no Brasil. Além disso, temos, no setor público, um horizonte de gestão que alcança apenas os quatro anos de mandato dos eleitos e, no setor privado,uma exagerada indução ao consumo. Não existe planejamento, não há estratégias de longo prazo. O povo é induzido a consumir desenfreadamente, numa situação em que o fator principal é o preço e não o produto.

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Ainda usando a rede de lojas Zara como exemplo, ela é conhecida mundialmente por seu modelo eficiente de gestão, conseguindo ter sempre os menores preços e atuar, em 86 países, como uma marca de massa, consumida pelas classes baixas. No Brasil, porém, a multinacional não escapou dos altos custos e é classificada como uma marca de luxo, com diferenças de 11% a 76% do seu valor em relação a outros países.

Indo um pouco mais além, recentemente a Zara foi alvo de escândalos por uso de trabalho escravo no desenvolvimento de suas peças, fica aqui então uma questão a se pensar: se a Zara justifica os preços de seus produtos baseados nos custos em relação aos demais paises, o uso de trabalho escravo daria ao superfaturamento das peças apenas conotação de aproveitamento daquelas características do consumidor brasileiro.


O recente lançamento da Forever 21 e o burburinho que causou é outro grande exemplo. Lá fora, essa rede de lojas fast fashion é conhecida por suas lojas de rua e por conter peças de péssima qualidade, vendidas a preços muito baratos. Aqui, ela não só faz parte do closet de milhares de mulheres de classe média alta, como também está ao lado de marcas conceituadas no mercado da moda – como Prada, Valentino e Luis Vuitton – em shoppings do Rio de Janeiro e São Paulo.

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Clientes esperam até 5 horas para conhecer a Forever 21 no Shopping Morumbi.

Com todo esse desespero em consumir, a economia brasileira dá pulos de alegria. As marcas gringas olham para essa “falta de personalidade” do consumidor brasileiro sorrindo e querem cada vez mais entrar no país. Afinal, apesar dos altos preços vigentes no mercado nacional, essas empresas podem se preocupar apenas com a novidade, dispensadas de pensar em para quem estão fazendo, pois não há uma característica que ligue o consumidor à marca – há, apenas, um nome internacional vendendo seu produto. Além disso, quanto maior a frequência na oferta de peças novas, maior é o consumo. Não há mais necessidade de criar vínculos com o consumidor, basta ter novidades que o atraia.

Ao contrário dos países europeus, no Brasil não se pode definir um consumidor pela marca que ele veste. Não existe relação entre marca, produto e consumidor, pois os brasileiros não compram por estilo ou por identificarem a sua personalidade com as características de determinadas marcas. O consumidor nos países desenvolvidos compram de acordo com o gosto, já o brasileiro compra pelo bolso, pelo que é ou não acessível e pela quantidade de parcelas.


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escrito por:

Amandha Viana

Amandha Viana estuda Negócios da Moda pela Universidade Anhembi Morumbi e atua na área comercial e de produção na Ana Cury Consultoria. Amandha usa a moda como meio de entender o mundo e até ela mesma, porque não? Assim como a moda, ela muda. Muda muito, e rápido.


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