Ah, café, aquele café pretinho, dispersando seu odor por toda a casa, quentinho, uma delícia. Aquele nosso café tão brasileiro, tão nosso. Ele é simples, “humilde”, carece do requinte das mil faces do café italiano, suíço, francês. E ele é autêntico, é café como deve ser, não aquela coisa aguada americana e asiática.

Mas… o que significa dizer “café brasileiro”? Provavelmente, a forma mais unívoca disso é se referir aos cafezais plantados em território nacional e, talvez, à bebida produzida a partir deles (ainda, talvez, que não sejam preparadas em território nacional). Outra maneira seria se referir à bebida produzida à moda brasileira, este tal café simples e autêntico do primeiro parágrafo.

Só que esta forma muda. Muda com o tempo, muda com a região, muda com as preferências pessoais e muda de acordo com influências externas. Eu já preparei café gelado no verão e três ou quatro tentativas de reproduzir os requintados cafés europeus. Eu já criei minha própria versão de café batido com nozes e noz-moscada.

O café, como bebida, é disputado pelos persas e árabes como criação, a partir de uma planta típica das terras altas do leste africano, cujas sementes eram mascadas por pastores de cabras entediados, de forma semelhante ao hábito andino de mascar folhas de coca. O café apaixonou a Europa via a reinterpretação veneziana do café turco, que por sua vez modificaram o café persa, que aprenderam a preparar com os árabes (alegam os interessados). Alguém nesta história teve a idéia de preparar uma infusão a partir de um fruto selvagem da África Oriental.

cafehCafé é uma planta. Seu preparo exige materiais auxiliares. É servido em recipientes materiais. Tudo isso deixa reminiscentes materiais e documentais. Café é cultura material.

Café é maneira de preparo, é hábito de consumo, é como, quando e por que tomar ou não tomar café. É o nosso convite para deixar os hóspedes à vontade (“quer um cafezinho?”), é o apelo comercial de grandes franquias como Starbucks, é o motor de uma parcela do agronegócio, é a “bomba” pra deixar o plantonista acordado durante as madrugadas. Café é cultura imaterial.

O café foi introduzido na América Latina via assimilação local do hábito europeu de tomar café, em alta nos séculos XVI e XVII com as conturbadas relações venezianas, florentinas e espanholas com o Império Otomano, que sobrepujava seus súditos árabes, persas e bérberes com mãos-de-ferro, mas aprenderam a apreciar, à sua maneira, a tal bebida. No século XIX e início do século XX, o interesse era comercial, e São Paulo fez fama internacional com seus cafezais, inclusive assimilando muitos europeus na lavoura. Esta italianada que nos trouxe a Moóca e o Bexiga, as porpetas, as massas, a pizza e o movimento sindicalista industrial.

Ainda hoje alguns lembram do Brasil como o país do café, alegadamente o melhor do mundo, embora nosso tempo áureo tenha passado não só na quantidade de produção, mas também na qualidade. Mas nas manhãs tupiniquins o café reina absoluto, preto ou pingado, com pão francês ou de queijo, sozinho às vezes.

De “quem é” o café? De quem ele foi “apropriado”? Que grupo pode clamar direitos simbólicos sobre o café? Quando beber o café se torna ofensa? Ofendemos os árabes ao tomar seu típico café com borra? Ofendemos os italianos ao tomarmos um latte? Um americano com seu café aguado descafeinado de 700mL nos ofende? Quem tem a “história apagada” pelo hábito do outro tomar café desta ou daquela forma?

O café sustentou grande parte do tráfico negreiro e, antes disso, nos séculos XIV e XV, sustentou parte do imenso tráfico de escravos europeus abduzidos da costa mediterrânea por corsários bérberes e otomanos, cerca de dez mil por ano apenas do sul da Itália, por quase duzentos anos. Os cafezais paulistas foram postos a funcionar com mão de obra semi-escrava italiana, alemã e até japonesa antes do crash de 1929. O café foi disseminado à Europa pela espada genocida do Sultão otomano e trazido às Américas para ser campo de martírio de indígenas, negros africanos e mais tarde europeus empobrecidos, refugiados. Há sangue e aço na história do café.

Ensacadores de café no Brasil da República Velha.
Ensacadores de café no Brasil da República Velha.

O café proveio de adaptações sucessivas do hábito de pastores africanos mascarem uma frutinha estimulante e amarga. Pastores estes que estavam lá, sobrevivendo à base de seus rebanhos, animais e modo de vida introduzido nas terras altas e escarpadas do leste africano há quatro mil e quinhentos anos, por migrantes arábicos que levaram milênios pra povoar a faixa oriental do Mar Vermelho e depois cruzaram o estreito braço de mar, encontrando solo fértil para seu modo de vida. Estes pastores originais da Península Arábica adaptaram seu antigo modo de vida de caçadores-coletores ao entrar em contato com agricultores e pastores mesopotâmios, cujo modo de vida deriva de adaptações dos antigos povos à base de cadeias montanhosas como o Taurus e o Cáucaso.

Quanto mais se conhece do passado remoto da humanidade, de como diferentes populações trocaram incessantemente materiais, idéias e modos de vida, nem sempre de forma pacífica, cada vez menos se associa um grupelho a um hábito ou produto. Sociedades prósperas usufruíram da riqueza material e de idéias e de um elevado bem-estar ao assimilarem miríades de produtos e hábitos oriundos de locais distantes e populações diferentes.

A prosperidade material e intelectual — e inclusive a paz — se estabelecem com o amálgama contínuo de tradições e visões de mundo, com a adaptação impulsionando a inovação, com a constante partilha e inclusão de tradições e populações. O apartamento e o exclusivismo são caminhos rápidos para a ruína, material e intelectual.

E numa xícara de café deslumbramos uma longuíssima história do porquê desta história pós-moderna ser tóxica, nociva e, principalmente, mentirosa. Um não-assunto cujo único benefício, acidental, é o de nos dar consciência de quanto devemos o que somos aos fantasmas daqueles que, antes de nós, foram.

“Aquilo que somos devemos ao que os pretéritos foram”. Eis, numa frase curta, o resumo de todo o fenômeno de herança, partilha, adaptação e inovação culturais.

Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.
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