Caramba, como tem gente prevendo a chegada do apocalipse! Os mais calmos falam em demissão de Temer e convocação de uma assembleia constituinte. Os mais radicais, em golpe militar e ditadura. Estão dando de barato que a Lava Jato acaba nos próximos dias e que todos os larápios ficarão belos e soltos, na esteira de uma mega-operação de abafa capitaneada por Lula, Temer e Renan.

Há ainda os que veem no horizonte a prisão de Lula seguida de uma insurreição popular, embalados por uma tirada de Temer, que falou que uma eventual prisão de Lula seria socialmente contestada. A onda de “ocupações” cresceria sem cessar e incendiaria o país, na mais autêntica “primavera brasileira”.

Os que ainda falam em golpe contra a esquerda falam que tudo o que ocorre de horror hoje nada mais é que a tradução da maldade autoritária dos golpistas. Consideram-se profetas que veem o futuro com clareza completa. Batem desesperadamente em tudo que sai de Brasília, a começar pela PEC 55, sem parar um pouco para pensar. Quando pensam, não conseguem processar o turbilhão de coisas que se sucedem.

Às ruas todos, às ruas…

Os que acham que não houve um golpe, dizem que agora o golpe está chegando e que o massacre será completo. Aplaudiram Temer, agora vaiam. Os 50 malucos direitistas, vindos não se sabe de onde, que invadiram a Câmara falando em ditadura e em fechamento político são vistos como a prova final de que o golpe é questão de horas.

A imagem de um governo desorientado, composto por cupinchas que têm o rabo preso e nenhum talento, frequenta as mais variadas mesas de bar. Um governo de políticos, essa raça inferior que está acabando com o país. Nessa imagem, o país surge como sendo prejudicado de forma sádica e deliberada, com os pobres sendo pisoteados e morrendo pelas ruas. Pau nos culpados: os políticos, as elites, os rentistas, as polícias, os corruptos, a grande mídia oligopolizada.

Uns detonam o Moro, outros o endeusam. Uns querem ocupar e veem nisso a mais pura expressão da violência revolucionária. Outros são contra as ocupações e se dizem dispostos a lutar para terminar com elas. Há ocupações de direita e ocupações de esquerda, e as diferentes tribos que as protagonizam se consideram iluminadas. Funcionários públicos atacam a Assembleia Legislativa do Rio, e entre eles estão policiais, todos revoltados com as medidas anunciadas pelo governador do estado.

No meio de uns e outros, uma gigantesca maioria de brasileiros querendo seguir com a vida sem muitos sobressaltos, longe dos incendiários. Os prognósticos são quase doentios, como se nosso destino fosse o sofrimento sem-fim. A entrevista de Temer no Roda Viva é o prato preferido de todos e a crítica a ela alcança o presidente e os jornalistas que o entrevistaram, todos devidamente vistos como mancomunados em torno do projeto de prejudicar a população mais pobre e entregar o país aos estrangeiros.

Falam mal da Marcela (acho que é de inveja) e do Michelzinho, dos cacoetes do Temer, do seu ar sinistro e das artimanhas retóricas de que se vale para escapar de questões incômodas. A mídia venal, sempre ela, estaria por trás de tudo, abraçada aos banqueiros. De repente, pegaram Caco Barcelos como saco de pancadas, numa das cenas mais grotescas e insanas deste Brasil varonil. A razão? Ora, ele é da Globo…

É bem mais que pessimismo: é alarmismo puro, construído a partir de muita especulação e de muitos desejos reprimidos. Nessa mixórdia de vozes dissonantes mas convergentes, há até quem preveja que o Palmeiras perderá o título na última rodada do Campeonato, devidamente roubado pelo juiz.

Posso estar errado (não seria a primeira nem a última vez), mas não consigo ver as coisas desse modo. Longe de mim defender o governo Temer, mas não posso analisá-lo como muito pior do que tínhamos até ontem, ou anteontem. É um desdobramento da mediocridade que assentou praça entre nós e não dá mostras de ser passageira. Há homens e mulheres, e há as circunstâncias, assim como as instituições. E onde há fumaça sempre pode haver fogo brabo.

Constatar que o quadro está ruim não me dá o direito de vê-lo como destinado a piorar indefinidamente, arrastando a tudo e a todos para o precipício. Precisamos olhar as coisas com mais discernimento, quem sabe com um pouco de serenidade. O mundo não vai acabar.

Fico então tentado a perguntar: se as coisas estão assim tão desgraçadamente ruins, não seria uma boa hora para reduzirmos as polarizações brutas feitas a partir de uma visão grosseira de esquerda e direita, nós e eles, e tentarmos fazer alguma coisa de útil, com os pés no chão?


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escrito por:

Marco Aurélio Nogueira

Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).


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