Brasília sendo atacada. Às ruas, às ruas, o apocalipse está chegando! capa

Às ruas, às ruas, o apocalipse está chegando!

Em Consciência, Política por Marco Aurélio NogueiraComentário

Caramba, como tem gente pre­vendo a che­gada do apo­ca­lipse! Os mais cal­mos falam em demis­são de Temer e con­vo­ca­ção de uma assem­bleia cons­ti­tuinte. Os mais radi­cais, em golpe mili­tar e dita­dura. Estão dando de barato que a Lava Jato acaba nos pró­xi­mos dias e que todos os lará­pios fica­rão belos e sol­tos, na esteira de uma mega-ope­ra­ção de abafa capi­ta­ne­ada por Lula, Temer e Renan.

Há ainda os que veem no hori­zonte a pri­são de Lula seguida de uma insur­rei­ção popu­lar, emba­la­dos por uma tirada de Temer, que falou que uma even­tual pri­são de Lula seria soci­al­mente con­tes­tada. A onda de “ocu­pa­ções” cres­ce­ria sem ces­sar e incen­di­a­ria o país, na mais autên­tica “pri­ma­vera bra­si­leira”.

Os que ainda falam em golpe con­tra a esquerda falam que tudo o que ocorre de hor­ror hoje nada mais é que a tra­du­ção da mal­dade auto­ri­tá­ria dos gol­pis­tas. Con­si­de­ram-se pro­fe­tas que veem o futuro com cla­reza com­pleta. Batem deses­pe­ra­da­mente em tudo que sai de Bra­sí­lia, a come­çar pela PEC 55, sem parar um pouco para pen­sar. Quando pen­sam, não con­se­guem pro­ces­sar o tur­bi­lhão de coi­sas que se suce­dem.

Às ruas todos, às ruas…

Os que acham que não houve um golpe, dizem que agora o golpe está che­gando e que o mas­sa­cre será com­pleto. Aplau­di­ram Temer, agora vaiam. Os 50 malu­cos direi­tis­tas, vin­dos não se sabe de onde, que inva­di­ram a Câmara falando em dita­dura e em fecha­mento polí­tico são vis­tos como a prova final de que o golpe é ques­tão de horas.

A ima­gem de um governo deso­ri­en­tado, com­posto por cupin­chas que têm o rabo preso e nenhum talento, fre­quenta as mais vari­a­das mesas de bar. Um governo de polí­ti­cos, essa raça infe­rior que está aca­bando com o país. Nessa ima­gem, o país surge como sendo pre­ju­di­cado de forma sádica e deli­be­rada, com os pobres sendo piso­te­a­dos e mor­rendo pelas ruas. Pau nos cul­pa­dos: os polí­ti­cos, as eli­tes, os ren­tis­tas, as polí­cias, os cor­rup­tos, a grande mídia oli­go­po­li­zada.

Uns deto­nam o Moro, outros o endeu­sam. Uns que­rem ocu­par e veem nisso a mais pura expres­são da vio­lên­cia revo­lu­ci­o­ná­ria. Outros são con­tra as ocu­pa­ções e se dizem dis­pos­tos a lutar para ter­mi­nar com elas. Há ocu­pa­ções de direita e ocu­pa­ções de esquerda, e as dife­ren­tes tri­bos que as pro­ta­go­ni­zam se con­si­de­ram ilu­mi­na­das. Fun­ci­o­ná­rios públi­cos ata­cam a Assem­bleia Legis­la­tiva do Rio, e entre eles estão poli­ci­ais, todos revol­ta­dos com as medi­das anun­ci­a­das pelo gover­na­dor do estado.

No meio de uns e outros, uma gigan­tesca mai­o­ria de bra­si­lei­ros que­rendo seguir com a vida sem mui­tos sobres­sal­tos, longe dos incen­diá­rios. Os prog­nós­ti­cos são quase doen­tios, como se nosso des­tino fosse o sofri­mento sem-fim. A entre­vista de Temer no Roda Viva é o prato pre­fe­rido de todos e a crí­tica a ela alcança o pre­si­dente e os jor­na­lis­tas que o entre­vis­ta­ram, todos devi­da­mente vis­tos como man­co­mu­na­dos em torno do pro­jeto de pre­ju­di­car a popu­la­ção mais pobre e entre­gar o país aos estran­gei­ros.

Falam mal da Mar­cela (acho que é de inveja) e do Michel­zi­nho, dos caco­e­tes do Temer, do seu ar sinis­tro e das arti­ma­nhas retó­ri­cas de que se vale para esca­par de ques­tões incô­mo­das. A mídia venal, sem­pre ela, esta­ria por trás de tudo, abra­çada aos ban­quei­ros. De repente, pega­ram Caco Bar­ce­los como saco de pan­ca­das, numa das cenas mais gro­tes­cas e insa­nas deste Bra­sil varo­nil. A razão? Ora, ele é da Globo…

É bem mais que pes­si­mismo: é alar­mismo puro, cons­truído a par­tir de muita espe­cu­la­ção e de mui­tos dese­jos repri­mi­dos. Nessa mixór­dia de vozes dis­so­nan­tes mas con­ver­gen­tes, há até quem pre­veja que o Pal­mei­ras per­derá o título na última rodada do Cam­pe­o­nato, devi­da­mente rou­bado pelo juiz.

Posso estar errado (não seria a pri­meira nem a última vez), mas não con­sigo ver as coi­sas desse modo. Longe de mim defen­der o governo Temer, mas não posso ana­lisá-lo como muito pior do que tínha­mos até ontem, ou ante­on­tem. É um des­do­bra­mento da medi­o­cri­dade que assen­tou praça entre nós e não dá mos­tras de ser pas­sa­geira. Há homens e mulhe­res, e há as cir­cuns­tân­cias, assim como as ins­ti­tui­ções. E onde há fumaça sem­pre pode haver fogo brabo.

Cons­ta­tar que o qua­dro está ruim não me dá o direito de vê-lo como des­ti­nado a pio­rar inde­fi­ni­da­mente, arras­tando a tudo e a todos para o pre­ci­pí­cio. Pre­ci­sa­mos olhar as coi­sas com mais dis­cer­ni­mento, quem sabe com um pouco de sere­ni­dade. O mundo não vai aca­bar.

Fico então ten­tado a per­gun­tar: se as coi­sas estão assim tão des­gra­ça­da­mente ruins, não seria uma boa hora para redu­zir­mos as pola­ri­za­ções bru­tas fei­tas a par­tir de uma visão gros­seira de esquerda e direita, nós e eles, e ten­tar­mos fazer alguma coisa de útil, com os pés no chão?


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Marco Aurélio Nogueira
Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).

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