Em vésperas da montagem do circo eleitoral é bom lembrar as ações daqueles que estão a pedir o seu aval para continuar com o show. Na primeira parte, comentei sobre a Frente Parlamentar contras as Unidades de Conservação. Criada por uma trupe de mais de 200 engravatados – 42% do parlamento – eleitos com nosso voto e que agora fazem uso contra nós. Não é um exagero colocar desse modo quando se trata nosso patrimônio ambiental.

A ONG WWF divulgou que 162 parlamentares – 75% da Frente – receberam doações para campanhas eleitorais de empresas ligadas ao agronegócio, energia e infraestrutura. Não poderíamos esperar menos. Afinal, são os setores mais interessados na exploração dos recursos naturais e eles estão indo atrás do que querem. Mas, passou da hora de abrirmos os olhos e percebermos que não podemos deixar a biodiversidade brasileira, o nosso bem mais precioso, nas mãos de gananciosos exploradores para fazerem dela o que bem entendem e repassarem o saldo negativo para nós. Vale antes de apertar botõezinhos na máquina eleitoral consultar se o seu candidato faz parte dessa Frente Parlamentar.

Em publicação na Science do mês de abril, pesquisadores apontam que o novo Código Florestal brasileiro isentará de punição 29 milhões de hectares de florestas que haviam sido destruídos ilegalmente. Também irá possibilitar o desmate de mais 88 milhões de hectares. Como disse no texto anterior, a nossa matemática nem sempre ajuda entender quanto essas áreas representam, então vamos usar o estado do Rio de Janeiro para comparação:

– 29 milhões de hectares, que deveriam ser recuperados e não serão, correspondem a 6,6 RJ;

– 88 milhões que poderão ser cortados, correspondem a 20,1 RJ

hectares

Não tem volta, não adianta lamentar: as campanhas pelo veto foram feitas – e negligenciadas. Isso lembra um pouco as manifestações de 2013 que só tardaram a realização da vontade política dos gestores públicos.

Na Conferência Estudantil em Ciência da Conservação (Student Conference on Conservation Science) realizada em março desse ano na Universidade de Cambridge, Inglaterra, muito foi debatido sobre o código florestal brasileiro. Jose Ochoa‐Quintero da Colômbia, disse: “é a medida que vai contra tudo o que se diz respeito a conservação do planeta”. Lucy Garrett, especialista em Política Florestal, apresentou as tentativas de dialogar com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), do Meio Ambiente (MMA) e com as bancadas ruralistas do governo brasileiro. Foram sumariamente rejeitados e com uma resposta pouco simpática: “Agradecemos o interesse da comunidade internacional, mas sabemos cuidar do que é nosso”. Quanto aos parlamentares estou realmente convencido que eles sabem cuidar do que é deles, mas e do que é nosso?

Agora é tudo lavoura.
Agora é tudo lavoura.

O que se perde com o desmatamento?

Pode ser difícil imaginar que, que ao desmatar uma área, perdemos muito mais do que árvores com décadas, algumas séculos de existência. Quando a floresta cai, vai-se ao chão, muito mais do que as valiosas plantas, uma imensa quantidade de biodiversidade. Perdida. Irrecuperável. Muitas vezes desconhecida.

Enquanto nós fazemos um minuto de silêncio a biodiversidade continua morrendo.

Quantas novas espécies de plantas e animais resultantes de milhões de anos de experimentos da seleção natural deixarão de ser conhecidas por nós e pela ciência? Esse conhecimento não é apenas uma mera curiosidade dos cientistas, e sim um elemento fundamental para a compreensão do funcionamento de um ambiente ecológico equilibrado. Que por sua vez apenas é possível se a biodiversidade for mantida.

Prezar pela conservação das riquezas naturais também não é apenas um capricho daqueles que preferem passar o tempo em ambientes naturais ao invés de centros urbanos. Inerente à conservação da biodiversidade se encontra a manutenção dos serviços prestados pela natureza. Embora não compartilhe a visão de que a natureza exista para satisfazer nossas necessidades, vamos visualizar como esses serviços, chamados ambientais, são essenciais para a viabilidade da nossa vida.

Imagine um cenário comum a todos nós: é de manhã, saímos da cama com os olhos cheios de remela, acendemos a luz do banheiro, jogamos água na cara, o espelho informa que continuamos com a beleza de ontem. Então, vamos à geladeira retiramos o queijo, o suco e o leite. Colocamos à mesa pão, doce de figo, mel e algumas frutas. Apenas nessa primeira hora da manhã já usufruímos de pelo menos uma dúzia de serviços ambientais.

Entre esses serviços que terceirizamos para a natureza incluem a polinização de plantas, a purificação da água, a ciclagem de nutrientes, a estabilidade climática, o controle de doenças e a extração de matérias primas.

Como seria seu café da manhã sem os serviços da natureza?
Como seria seu café da manhã sem os serviços da natureza?

Agora, imaginamos quanto custaria aos agricultores fazerem manualmente todo o serviço de polinização, se não fosse feito pelas abelhas? Quanto custaria para transformar a matéria orgânica que existe nas florestas em nutrientes, se não fossem os decompositores? Quanto custaria para gerar oxigênio, se não fossem as algas e as plantas? Embora não chega à nossa casa um boleto para pagar por esses serviços eles são caríssimos. E apenas podem ser prestados com equilíbrio ecológico mantido pela biodiversidade preservada.

De quanta grana estamos falando?

Esses serviços não estão na bolsa de valores, mas é sabido serem um grande negócio. E já existem muitas empresas lucrando com o desiquilíbrio ecológico, uma vez que vários dos serviços podem ser industrializados. E de fato já o são. A água que consumimos já não chega à nossa casa sem tratamento, as frutas sem agrotóxicos, as lavoras sem fertilizantes. Já existem tecnologias, ou logo haverá, para oferecer todas as demandas ambientais que a espécie humana precisa. Porém quantos poderão pagar por elas?

As mudanças climáticas são um bom exemplo. Ainda desacreditada por alguns, mas percebida por todos, estão gerando menor estabilidade térmica, aumento da frequência de tempestades e verões cada vez mais quentes. Para quem pode pagar pelo ar condicionado ou pode passar as tardes no Shopping Center sem ser barrado isso não chega a ser um problema, mas e para quem não pode?

A manutenção da biodiversidade é valiosíssima. Conforme o relatório da The Economics of Ecosystems and Biodiversity (TEEB), áreas úmidas do planeta, como o Pantanal, que auxiliam na prevenção de tempestades geram cerca de 3,4 bilhões de dólares por ano. O TEEB também estimou que a perda da biodiversidade por meio do desmatamento custa à economia global 4,5 trilhões de dólares/ano. O valor total dos serviços ambientais presentes no mundo é de 44 trilhões de dólares!!!

Abaixo outros números interessantes gerados pelos serviços ambientais:

Fonte: http://www.unep.org/
Fonte: http://www.unep.org/

Nada mal, não é? Como disse o ecólogo E.O. Wilson “Destruir a floresta tropical para ganho econômico é como queimar uma pintura renascentista para cozinhar uma refeição”. E, enquanto não tivermos interesse na conservação vai continuar havendo políticos e empresários gananciosos se servindo dessa refeição, queimando arte natural e repassando a conta para nós.

Já possuímos evidências suficientes que a floresta original em pé vale muito mais do que em uma pilha de torras. Alguns países, a Costa Rica, por exemplo, pagam as propriedades privadas para manterem a floresta intacta. Nós, por outro lado, desprotegemos áreas que estavam, anistiamos infratores e liberamos novos cortes.

Nosso papel na conservação

Debater a conservação não esta entre nossos assuntos favoritos. Péssimo para a natureza, ótimo para quem a destrói – e, ganha dinheiro com isso. Limitamos nossas ações a alguns clics na semana do meio-ambiente, um curtir para uma imagem de bichinhos fofinhos ou para quando os fofinhos são mal tratados. Porém não estamos realmente preocupados com a conservação da natureza, aí é querer demais que os gestores públicos venham a fazer isso por nós.

O que será que havia nessa floresta? Alternativas de alimento? Medicamentos? Inspiração criativa?
O que será que havia nessa floresta? Alternativas de alimento? Medicamentos? Inspiração criativa?

Informamos-nos e discutimos muito pouco sobre a importância de manter o equilíbrio ecológico. Mas ao mesmo tempo percebemos as ações quando ele não está. Gastamos muito tempo reclamando se chove muito ou pouco, se faz muito ou pouco calor, se falta água em São Paulo, etc. Mas pouco nos dedicamos a entender as causas desses inconvenientes.

Debater a questão ambiental é uma urgente necessidade e deve (ria) ocupar boa parte dos nossos interesses. Enquanto acharmos que a conservação não precisa da nossa atenção, alguns gestores públicos fazem questão de se “preocupar” por nós. Alguns afirmam para que o povo tenha melhor qualidade de vida precisamos explorar mais os recursos naturais termos mais trabalho, alimentos e infraestrutura. Precisamos de muitas melhorias é verdade, mas não vamos crer que ações que alteram Unidades de Conservação, permitem desmatamento e cravam torres de petróleo tantas quantas forem possíveis, estão sendo feitas por estarem preocupados com o nosso futuro.

A importância da preservação ambiental nunca foi uma questão da falta de evidências científicas, mas sim uma disputa injusta entre a ganância econômica de políticos, e seus financiadores, contra um minúsculo grupo de pessoas preocupadas com a proteção da nossa e de outras espécies.

Nós somos ao mesmo tempo os principais destruidores da natureza e os únicos responsáveis pela sua preservação. Ninguém mais irá fazer em nosso lugar. Nossas possíveis ações são diversas e conhecer quem esta no governo atentando contra nossa biodiversidade é uma delas. Uma ação para nosso presente se estamos preocupados com nosso futuro.

 

escrito por:

Josmael Corso

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