Recentemente, testemunhamos diversos ataques à biodiversidade brasileira, todos ofuscados pela cobertura midiática da Copa. O último foi a criação de uma frente parlamentar composta por mais de 200 deputados federais, destinada a, como o documento oficial de criação da frente diz, “divulgar os problemas causados pela criação de áreas protegidas”, entre as quais se incluem “Unidades de Conservação e Terras Indígenas.

Em 1996, os  autores do polêmico livro  Our Stolen Future (Nosso Futuro Roubado) fizeram um alerta sobre os efeitos nocivos dos agrotóxicos e plásticos para a fertilidade humana, afetando a sobrevivência da espécie. Porém, o que realmente está sendo furtado não é nosso futuro, mas nosso presente.

Presente, aqui, em ambos os sentidos: temporal, de agora e não ontem – este exato momento, enquanto você lê esse texto; e de dádiva, de algo que nos foi entregue.

Creio que concordamos que a vida é uma espécie de presente, seja da Natureza ou, como alguns acreditam, de Deus. E compartilhar essa dádiva com diversas outras formas de vida diferentes da nossa (em estruturas, complexidade e organização) é outra dádiva ainda maior.

presente-roubado-1-terra

Na minha opinião, não se trata de um presente divino, nem celestial, mas do resultado de uma rodada incrível de possibilidades ao longo de milhões de anos que levaram cada espécie a ser como é – inclusive a nossa, a espécie sapiente, a tornar-se majoritária no planeta.

Porém, já rasgamos o pacote do presente, brincamos um pouco e o jogamos para o lado. Estamos fazendo beiço e querendo o próximo. E, de fato, há quem já esteja buscando outra bolinha azul em algum outro lugar do cosmos. E o desejo dessa busca é exatamente esse, de encontrar formas de vida, enquanto deixamos de nos preocupar com as que existem nesta bolinha.

Muita gente acha papo batido falar em natureza, biodiversidade e conservação da vida no planeta. É daquelas coisas que, de tanto ouvirmos falar, já não escutamos mais. Trata-se da mesma impressão que temos com aqueles outros assuntos em que achamos não caber a nós fazers algo (será que não cabe?). Acontece com a violência, com os impostos, com a corrupção e com as desigualdades sociais. Assim, involuntariamente, deixamos de perceber e questionar esses temas.

E o setor público também parece agir da mesma forma. Um levantamento recente alerta para o descaso de nossos gestores públicos com a conservação da biodiversidade. Não chega a ser uma novidade, reconheço. É, infelizmente, mais um alerta que cai na banalização e no esquecimento.

presente-roubado-1-grafico

Em apenas um ano, houve aumento de 28% no desmatamento da Amazônia. São 5843 Km² desmatados? Mas o que isso representa? Bem, já que a nossa matemática básica não ajuda muito (a mim, pelo menos, não), uma comparação pode nos dar uma mãozinha:

5843 km² corresponde à área do Distrito Federal – rapada, sem nada.

Ok, “grande coisa”. Afinal, temos a maior floresta do mundo, somos a quinta nação em território. E claro, com a quinta maior população, temos que fornecer recursos e alimentos para toda essa gente, não é? Então podemos cortar um pouquinho da cobertura vegetal. Mas não se engane, segundo relatório da FAO, um terço dos alimentos continuam a ser desperdiçados enquanto ainda há 800 milhões de pessoas passando fome. Além disso, essa destruição não está sendo feita pensando em você. Está sendo realizada pensando em tirar o seu dinheiro e produzir a sua miséria.

Além disso, se expandir é “inevitável”, quem sabe não custa proteger outro pouquinho da vegetação e assim deixar satisfeitos os “ecochatos”, ambientalistas e outros “petulantes”?

Bem, esse pouquinho que deveria ser protegido, deixou de ser protegido. O Brasil é o único país do mundo onde o status de uma área protegida – Unidade de Conservação – dança segundo a música do interesse político-econômico.

presente-roubado-1-rondonia

Nas ultimas três décadas, as Unidades de Conservação de 16 estados brasileiros passaram por quase uma centena de modificações. A grande maioria delas ocorreu entre 2008 e 2012, principalmente para geração e transmissão de energia, levando a perda de 5,2 milhões de hectares das Unidades de Conservação.

Novamente, quanto é isso? É uma área maior que o estado do Rio de Janeiro.

Porém, parece que isso ainda é insuficiente para alguns gananciosos gestores públicos e em nosso nome eles montaram, como vimos, a tal Frente Parlamentar em Defesa das Populações Atingidas por Áreas Protegida.

Utilizo o nome dado à “frente parlamentar” pelos seus membros, mas ela não passa de um conluio destinado a mutilar as poucas áreas de preservação que possuímos. No texto que oficializou esse conluio, há gritantes equívocos técnicos (explicitados aqui), deixando claro que não podemos permitir que questões dessa natureza fiquem a mercê da vontade dos políticos. Você também pode conferir a lista dos 214 integrantes dessa frente parlamentar aqui. Tem gente aí com meu voto, será que estão com o seu?

escrito por:

Josmael Corso

JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.