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No futuro, seremos todos neoplebeus?

Em Política por Victor LisboaComentário

Quando você pensa num espe­ci­a­lista falando do nosso futuro, ima­gina um físico ou enge­nheiro aero­es­pa­cial des­cre­vendo um cená­rio de fic­ção cien­tí­fica, ou um ambi­en­ta­lista des­cre­vendo um mundo digno daquele des­crito no livro The Road (Não viu ainda? Pre­serve sua paz de espí­rito e não veja).

Mas se per­gun­tar­mos qual será nosso futuro à uma equipe de eco­no­mis­tas de ori­gem inter­na­ci­o­nal que estu­dou por 15 anos todos os dados rele­van­tes da eco­no­mia glo­bal nos últi­mos três sécu­los, o qua­dro que se des­cor­tina não tem nada de fic­ção cien­tí­fica. Na ver­dade, ele é ao mesmo tempo antigo e ruim. BEM ruim.

Para o coor­de­na­dor dessa equipe, nosso futuro está todo des­crito num romance do século dezoito.

Segundo o coor­de­na­dor dessa equipe, Tho­mas Pik­kety, nosso futuro será mais ou menos pare­cido com esse cená­rio nada futu­rista:

plebeu

E adi­vi­nha qual per­so­na­gem você será, meu irmão?

 

A máquina formidável

Antes de pros­se­guir, vamos dei­xar claro dois pon­tos. Em pri­meiro lugar, é pro­vá­vel que nosso futuro seja uma mis­tura de coi­sas boas (evo­lu­ção tec­no­ló­gica) e coi­sas pés­si­mas (tra­gé­dias ambi­en­tais). Em alguns aspec­tos, esta­mos melho­rando a olhos vis­tos, e isso gra­ças à eco­no­mia de mer­cado. Então não pros­siga a lei­tura se você ficou empol­gado achando que este texto é uma crí­tica ao capi­ta­lismo. Longe disso. O capi­ta­lismo é uma fer­ra­menta muito efi­ci­ente, o pro­blema é que, como toda fer­ra­menta com­plexa, a eco­no­mia de mer­cado pre­cisa ser cali­brada e ter seu fun­ci­o­na­mento cor­ri­gido de vez em quando.

O segundo ponto é ten­tar enxer­gar as coi­sas fora do enqua­dra­mento ide­o­ló­gico e teó­rico. Pre­ci­sa­mos fugir disso um pouco, e ana­li­sar o mundo com inte­li­gên­cia, jul­gando as coi­sas não segundo o que diz essa ou aquela teo­ria, mas segundo a res­posta à seguinte per­gunta: “isso fun­ci­ona efi­ci­en­te­mente? e para que fins?”. Mais ainda, temos que trei­nar um olhar capaz de obser­var nosso mundo e a demo­cra­cia com uma sobri­e­dade desa­pai­xo­nada, embora não desu­mana.

E o resul­tado desse exer­cí­cio de inte­li­gên­cia sóbria são obras impres­si­o­nan­tes como O Capi­ta­lismo no Século 21, de Tho­mas Pik­kety, sín­tese do tra­ba­lho de uma equipe debru­çada por 15 anos em 3 sécu­los de dados inques­ti­o­ná­veis sobre a eco­no­mia glo­bal. 

Nesse livro, Piketty apre­senta uma teo­ria geral do capi­ta­lismo que com­bina a aná­lise do cres­ci­mento econô­mico a dis­tri­bui­ção da riqueza pelo mundo. Indo além das desa­ven­ças ide­o­ló­gi­cas ele con­se­gue com­pa­rar e supe­rar duas visões do capi­ta­lismo, a da esquerda e a da direita, apre­sen­ta­das por Marx e Simon Kuz­nets.

Para Marx, o capi­ta­lismo era um sis­tema de opres­são que seria subs­ti­tuído logi­ca­mente por uma soci­e­dade mais evo­luída, a comu­nista. Já para Simon Kuz­nets, o capi­ta­lismo não só per­sis­ti­ria, mas solu­ci­o­na­ria o pro­blema da desi­gua­li­dade social.

Piketty demons­tra que ambos esta­vam erra­dos. Apre­sen­tando dados rigo­ro­sos a res­peito da situ­a­ção mun­dial a par­tir do século 18 até nos­sos dias, ele prova que nada sus­tenta nenhuma des­sas duas teo­rias. Não, ao con­trá­rio do que escre­veu Marx, o capi­ta­lismo não é opres­sor e tam­pouco entrará em colapso. Não, ao con­trá­rio do que dizia Simon Kuz­nets, o capi­ta­lismo jamais resol­verá ele pró­prio o pro­blema da desi­gual­dade social. Na ver­dade o capi­ta­lismo, ape­sar de ser uma fer­ra­menta efi­ci­ente e for­mi­dá­vel (e pode con­ti­nuar a ser), quando fun­ci­ona livre­mente tende a pro­du­zir uma enorme dife­rença na dis­tri­bui­ção de renda, uma dife­rença que tor­nará em breve alguns pou­cos seres huma­nos pes­so­al­mente senho­res de uma riqueza supe­rior ao pro­duto interno bruto de algu­mas nações.

Nesse momento de sujei­ção de esta­dos à riqueza de pou­cos deten­to­res de mul­ti­na­ci­o­nais pode­ro­sas, aque­les tre­men­da­mente bene­fi­ci­a­dos por uma gigan­tesca desi­gual­dade na dis­tri­bui­ção de renda natu­ral­mente ten­de­rão a con­ta­mi­nar os assun­tos do Estado com seus inte­res­ses. Come­ça­rão, de uma forma ou de outra, a influ­en­ciar gover­nan­tes, até mesmo com­prá-los, bem como outros fun­ci­o­ná­rios de alto esca­lão de alguns gover­nos. Aos pou­cos, o domí­nio econô­mico e o domí­nio polí­tico esta­rão uni­dos em pou­cas mãos. Nesse momento, pode haver uma rup­tura com a demo­cra­cia.

É uma ten­dên­cia facil­mente afe­rí­vel ana­li­sando-se os rumos da eco­no­mia ao longo dos últi­mos sécu­los, explica Piketty. Entre 1930 e 1975, por causa das duas Guer­ras Mun­di­ais, essa ten­dên­cia de ampliar a desi­gual­dade social foi refre­ada, em parte por polí­ti­cas públi­cas de dis­tri­bui­ção de renda que ten­ta­ram com­pen­sar, nos paí­ses do hemis­fé­rio norte, as enor­mes per­das resul­tan­tes des­ses dois con­fli­tos.

Porém, no final do século vinte e prin­ci­pal­mente a par­tir do século vinte e um, a desi­gual­dade social reto­mou seu ritmo. Na ver­dade, essa desi­gual­dade está aumen­tando em uma pro­gres­são geo­mé­trica.

 

O Capitalismo Patrimonial

Vou pou­par o lei­tor dos deta­lhes mate­má­ti­cos da teo­ria de Piketty, embora ele se apro­funde o sufi­ci­ente em sua obra. A con­clu­são é a de que, durante perío­dos de pequeno cres­ci­mento econô­mico como o atual, a eco­no­mia deixa de pres­ti­giar o tra­ba­lho em favor do capi­tal, e disso resulta uma absurda acu­mu­la­ção de riqueza nas mãos de uma ridí­cula mino­ria de pes­soas.

Por­tanto, a desi­gual­dade aumen­tará de uma forma sem pre­ce­den­tes nos pró­xi­mos anos.

Essa é uma situ­a­ção já reco­nhe­cida e sufi­ci­en­te­mente com­pro­vada: atu­al­mente, 85 seres huma­nos detêm 46% da riqueza mun­dial. Entenda bem: oitenta e cinco indi­ví­duos pos­suem quase a metade do patrimô­nio que os res­tan­tes sete bilhões de pes­soas do pla­neta detêm.

No meio do século vinte, alguém vive­ria melhor ao ocu­par o cargo de alguém que está entre os 10% mais ricos do que her­dando o patrimô­nio dessa pes­soa, pois a tri­bu­ta­ção esti­mu­lava o tra­ba­lho. Em mea­dos de 1970, essa situ­a­ção pas­sou a igua­lar-se. A par­tir de então, eco­no­mi­ca­mente é cada vez mais van­ta­joso her­dar de alguém abas­tado do que tra­ba­lhar no cargo ocu­pado por essa pes­soa.

Nos pró­xi­mos anos, a ten­dên­cia é que che­gue­mos a uma situ­a­ção na qual a única forma de pos­suir uma grande riqueza será por meio da herança, pois os gran­des patrimô­nios não terão a mesma mobi­li­dade do pas­sado — e disso resul­tará o nas­ci­mento de uma nova forma de “nobreza”.

Não haverá mais his­tó­rias como a de Bill Gates, um nerd esperto de classe média que se deu bem num ramo ino­va­dor e tor­nou-se um dos homens mais ricos do mundo gra­ças a sua enge­nho­si­dade e exce­len­tes opor­tu­ni­da­des. Haverá ape­nas his­tó­rias como a de Paris Hil­ton — her­dei­ros deso­cu­pa­dos que esta­rão por cima da carne seca ape­nas devido à sua ori­gem. O resul­tado desse apro­fun­da­mento da desi­gual­dade social será o sur­gi­mento de um novo tipo de capi­ta­lismo, que Piketty bati­zou de “Capi­ta­lismo Patri­mo­nial”.

E que soci­e­dade emer­girá desse “capi­ta­lismo patri­mo­nial”? Piketty acre­dita ter encon­trado um exem­plo dela no pas­sado, e isso gra­ças à lite­ra­tura do século deze­nove, que des­creve uma soci­e­dade muito pare­cida com aquela que emer­girá em breve.

 

Você, o plebeu

Os Honoré de Bal­zac e Jane Aus­ten des­cre­vem em seus roman­ces do século deze­nove a soci­e­dade patri­mo­nial da antiga Europa, na qual um pequeno número de rica­ços viviam de um modo extra­va­gante gra­ças à riqueza que her­da­vam de seus ante­pas­sa­dos, enquanto as outras pes­soas luta­vam dia­ri­a­mente para poder sobre­vi­ver com um mínimo de decên­cia.

Naquele período, as pes­soas não valo­ri­za­vam o tra­ba­lho e o empre­en­de­do­rismo pri­vado como forma de enri­que­ci­mento. Antes, pre­fe­riam casar com alguém rico ou então her­dar uma pro­pri­e­dade. A edu­ca­ção era con­si­de­rada uma forma de aumen­tar a pos­si­bi­li­dade de con­se­guir um bom casa­mento, e tra­ba­lhar não era tido como uma ati­vi­dade res­pei­tá­vel.

Pik­kety e sua equipe ofe­re­cem uma obs­cena quan­ti­dade de dados para demons­trar que, no século 21, a soci­e­dade oci­den­tal retor­nará o à mesma estru­tura social do século 19, mas em pro­por­ções mais absur­das.

Hoje, um típico tra­ba­lha­dor do Wal­mart ganha nos EUA menos do que 25 mil dóla­res por ano, enquanto Michael Duke,  prin­ci­pal exe­cu­tivo da rede de super­mer­ca­dos, rece­beu mais de 23 milhões de dóla­res em 2012. Em 2011, Tim Cook, exe­cu­tivo da Apple, rece­beu 378 milhões de dóla­res — o cor­res­pon­dente a 6.258 vezes o que recebe um empre­gado padrão (veja bem, não é o menor salá­rio) da sua empresa.

Como demons­tra Piketty, no capi­ta­lismo patri­mo­ni­a­lista, o talento des­ses exe­cu­ti­vos não guarda nenhuma cor­res­pon­dên­cia com o salá­rio e outros bene­fí­cios finan­cei­ros que rece­bem. Seus ganhos não tem rela­ção alguma com a qua­li­dade de sua ges­tão, pois sua remu­ne­ra­ção não é esta­be­le­cida segundo a sua com­pe­tên­cia, mas resulta de acor­dos rea­li­za­dos entre eles pró­prios, na mesa dos dire­to­res das gran­des empre­sas.

O pro­blema, claro, não é a impos­si­bi­li­dade de ficar­mos ricos feito o Bill Gates. Afi­nal, nem todo mundo sonha em ser bili­ar­dá­rio. O pro­blema é a for­ma­ção de uma super-elite que terá mais dinheiro do que o PIB de diver­sas nações, man­dando e des­man­dando no mundo e asse­gu­rando para seus des­cen­den­tes uma estru­tura de domi­na­ção cada vez maior e mais con­so­li­dada.

No capi­ta­lismo patri­mo­nial, os her­dei­ros daque­les 85 indi­ví­duos e tal­vez uma cen­tena de outros logo abaixo deles terão tal poder econô­mico que sur­girá uma nova oli­gar­quia mun­dial, uma linha­gem de “nobres” que her­dam seu poder pela con­san­gui­ni­dade. Você, eu, e todos os outros abaixo dessa super-elite não sere­mos ape­nas pobres (des­pro­vi­dos de dinheiro), sere­mos tam­bém um novo tipo de “ple­beu” (des­pro­vido de “nobreza”) — os “neo­ple­beus” do século vinte e um.

Con­forme alerta Piketty, um único indi­ví­duo que pos­sui tanto capi­tal quanto um país inteiro pode facil­mente afe­tar o futuro de toda uma nação. E é natu­ral que as pes­soas mais ricas ten­tem asse­gu­rar seu poder e seu sta­tus, sol­tando mili­o­ná­rias miga­lhas para asse­clas que, sub­mis­sos, aca­tam os des­man­dos de seus donos e fazem pre­va­le­cer sua von­tade em todos os con­ti­nen­tes. E numa época em que as cam­pa­nhas polí­ti­cas depen­dem cada vez mais de vul­to­sos finan­ci­a­men­tos, já pode­mos ima­gi­nar onde isso vai dar.

 

O capitalismo 2.0

Neste exato momento, você pro­va­vel­mente está ima­gi­nando que Tho­mas Piketty é de esquerda e que escre­veu seu livro na forma de um grande pan­fleto con­tra o capi­ta­lismo, com a inten­ção de com­pro­var que Fidel Cas­tro, os Black Blocs e aquele seu tio chato que ainda mora com a mãe e chora ao ouvir o hino Comu­nista na vitrola em seu quarto abar­ro­tado de livros estão abso­lu­ta­mente cer­tos: o capi­ta­lismo é um grande vilão, um enorme dra­gão maligno a ser der­ro­tado pelas for­ças do bem.

Nada mais errado. E muita gente por aí tem dito boba­gens pre­ci­pi­ta­das sem ter lido o livro.

A solu­ção pro­posta por Piketty passa longe daque­les que, lendo apres­sa­da­mente as rese­nhas de sua obra, sonham com uma revo­lu­ção que acabe com o capi­ta­lismo. O eco­no­mista fran­cês é um sujeito prá­tico, e em recente entre­vista dei­xou claro que jamais teve sim­pa­tia pelo comu­nismo e tam­pouco sonha em ques­ti­o­nar a impor­tân­cia fun­da­men­tal do livre mer­cado e da pro­pri­e­dade pri­vada para nossa soci­e­dade.

Segundo ele, o capi­ta­lismo deve pros­se­guir, mas deve­mos reto­mar seu con­trole, pois a ques­tão é colo­car o mer­cado ao ser­viço do bem comum e da demo­cra­cia, e não a demo­cra­cia ao ser­viço do mer­cado. Em suma, o pro­blema não é econô­mico, e sim polí­tico.

Tenho um grande amigo que é libe­ral, um sujeito que está muito além dos Ola­vos de Car­va­lho e outras ane­do­tas da direita con­ser­va­dora naci­o­nal. Ele defende o capi­ta­lismo com a mesma con­vic­ção com que defende o femi­nismo, o ambi­en­ta­lismo, o Estado laico, a luta con­tra o racismo, a luta con­tra a homo­fo­bia e outras pau­tas pro­gres­sis­tas — que, ele nunca me cansa de lem­brar, sem­pre tive­ram melhor sorte nos paí­ses libe­rais do que nos paí­ses soci­a­lis­tas.

E esse meu amigo certo dia me disse algo curi­oso, vindo de um libe­ral: o capi­ta­lismo ideal é aquele que atin­giu 80% de seu poten­cial de rea­li­za­ção. Acima desse poten­cial, o capi­ta­lismo real­mente se torna algo nocivo para a soci­e­dade e a demo­cra­cia. Ele pre­cisa, em suma, de um poli­ci­a­mento cons­tante para que não ultra­passe esse pata­mar de desen­vol­vi­mento. Mas isso não sig­ni­fica que ele deva ser com­ba­tido — tem é de ser con­tro­lado.

É como se fosse uma máquina efi­ci­ente, inven­tada e aper­fei­ço­ada aos pou­cos, colo­cada a prova no rin­gue junto ao comu­nismo e o tota­li­ta­rismo durante o século vinte, período em que der­ro­tou seus rivais. Essa máquina faz bem seu ser­viço, cor­res­ponde à cer­tas carac­te­rís­ti­cas da natu­reza humana e his­to­ri­ca­mente mos­trou con­vi­ver bem com a demo­cra­cia — ao menos melhor do que seus rivais e desde que cer­tos limi­tes sejam impos­tos a seu fun­ci­o­na­mento.

Por outro lado, se dei­xar­mos tal máquina sem qual­quer con­trole, ultra­pas­sando o marco de 80% do seu poten­cial de rea­li­za­ção, ela não fica parada nesse ponto de equi­lí­brio. Natu­ral­mente, pelo seu pró­prio fun­ci­o­na­mento interno, ela passa se apro­xi­mar dos seus 100%. A par­tir de então, cada passo na dire­ção dessa ple­ni­tude tal máquina começa a escra­vi­zar seu pró­prio cri­a­dor, o ser humano.

Como qual­quer ten­ta­tiva de tro­car essa máquina por outra, jamais tes­tada na prá­tica e só supos­ta­mente efi­ci­ente “em teo­ria”, não pode­ria ser feita sem um grande trauma para todo o sis­tema na qual ela fun­ci­ona, o mais razoá­vel será cri­ar­mos ins­ti­tui­ções capa­zes de poli­ciar seu fun­ci­o­na­mento, aper­fei­ço­ando suas carac­te­rís­ti­cas e evi­tando que a cri­a­tura se volte con­tra o cri­a­dor.

Por isso, o que Piketty pro­põe não é a des­trui­ção do capi­ta­lismo. O que ele prega não é a subs­ti­tui­ção de um sis­tema efe­tivo por outro, até agora mera­mente teó­rico (um soci­a­lismo que con­viva bem com as liber­da­des indi­vi­du­ais). Ele é prá­tico e pro­põe o ajus­ta­mento do sis­tema por meio de medi­das pon­tu­ais como a taxa­ção mun­dial das gran­des for­tu­nas com­bi­nada com um aumento dos tri­bu­tos inci­den­tes sobre as ren­das mais ele­va­das.

Segundo a ava­li­a­ção da equipe de Piketty, nos paí­ses desen­vol­vi­dos esses tri­bu­tos deve­riam ser de até 80% sobre a renda e a riqueza, em um per­cen­tual pro­gres­sivo, como é o nosso imposto de renda.

Está pare­cendo algo de país soci­a­lista? Sabe de nada, ino­cente. Isso já ocor­reu no pas­sado em nações rigo­ro­sa­mente capi­ta­lis­tas como os EUA, sem qual­quer pro­blema. De 1945 a 1975, a eco­no­mia dos paí­ses desen­vol­vi­dos pro­gre­diu de forma sem pre­ce­den­tes, enquanto a taxa de retorno do capi­tal era baixa, pois sua tri­bu­ta­ção era alta, de modo que a dis­tri­bui­ção de riqueza favo­re­cia o tra­ba­lho, e não o capi­tal. Para Piketty, essa foi a Era de Ouro do capi­ta­lismo, um evento iso­lado em sua longa his­tó­ria.

Nesse período, os EUA foi o pri­meiro país a aumen­tar a tri­bu­ta­ção acima de 70%, a fim de redu­zir a con­cen­tra­ção de riqueza. De 1932 a 1980, a tri­bu­ta­ção média sobre as ren­das mais ele­va­das (acima de 500 mil dóla­res men­sais) nos EUA foi de 81%. Isso não que­brou a eco­no­mia ame­ri­cana — ao con­trá­rio, durante essas déca­das o país se tor­nou uma das mai­o­res potên­cias mun­di­ais.

Mas a Era de Ouro do capi­ta­lismo aca­bou no final da década de 1970, quando a tri­bu­ta­ção des­pen­cou para 30%, fazendo com que o número de exe­cu­ti­vos com salá­rios astronô­mi­cos cres­cesse. E tudo des­mo­ro­nou de vez quando That­cher e Rea­gan vira­ram a mesa e, no iní­cio da década de 1980, der­ru­ba­ram a tri­bu­ta­ção do capi­tal, abrindo cami­nho para o nas­ci­mento do capi­ta­lismo patri­mo­ni­a­lista. Mesmo o exa­ge­rado e rocam­bo­lesco Michael Moore, em seu docu­men­tá­rio Capi­ta­lismo: uma his­tó­ria de amor, reco­nhece que o pro­blema come­çou foi nessa época.

E a tri­bu­ta­ção sobre as gran­des for­tu­nas e os altís­si­mos ren­di­men­tos só não é ele­vada nova­mente hoje em dia devido a falta de inte­gri­dade moral de todos os que estão envol­vi­dos com a polí­tica econô­mica. Em suma: todos foram com­pra­dos por aque­les que se situam no topo da pirâ­mide.

No docu­men­tá­rio Inside Job, o dire­tor Char­les Fer­gun­son demons­tra como os gran­des exe­cu­ti­vos ame­ri­ca­nos com­pram  eco­no­mis­tas aca­dê­mi­cos a fim de que ela­bo­rem jus­ti­fi­ca­ti­vas teó­ri­cas para a ausên­cia de tri­bu­ta­ção em ope­ra­ções finan­cei­ras. Em seguida, esses mes­mos exe­cu­ti­vos com­pram auto­ri­da­des com poder deci­só­rio para que impe­çam qual­quer mudança no atual estado das coi­sas.

Segundo Piketty, nosso futuro depende de inter­ven­ção esta­tal coor­de­nada mun­di­al­mente, para que todas as nações con­si­gam redu­zir gigan­tes­cos patrimô­nios indi­vi­du­ais em níveis que não ame­a­cem a demo­cra­cia. Na ver­dade, a solu­ção é fazer com que a demo­cra­cia avance sobre a riqueza.

Seria neces­sá­rio uma total trans­pa­rên­cia no regis­tro de todas as ope­ra­ções finan­cei­ras e da situ­a­ção patri­mo­nial dos indi­ví­duos — seria pre­ciso limi­tar o sigilo ban­cá­rio e fis­cal, ao menos no que diz res­peito aos valo­res totais, pois esses sigi­los não tem nada de demo­crá­ti­cos e inte­res­sam ape­nas a uma mino­ria.

Isso, claro, exige que os Esta­dos sejam for­tes — e a pala­vra é “for­tes”, e não “gran­des”. O tama­nho do Estado não tem neces­sá­ria cor­res­pon­dên­cia com sua força. Na ver­dade, um Estado inchado des­per­diça recur­sos e não con­cen­tra sua atu­a­ção naque­les pon­tos em que sua pre­sença deve ser firme e infle­xí­vel.

Um Estado buro­cra­ti­zado torna-se mais sus­ce­tí­vel à influên­cias escu­sas de quem detém poder econô­mico.

Isso tudo diz res­peito dire­ta­mente a todos nós e a nos­sas vidas. Isso defi­nirá se o futuro con­cre­ti­zará ou não aquilo que até hoje foi ape­nas delí­rio de para­nói­cos e adep­tos de teo­rias cons­pi­ra­tó­rias. Afi­nal, as fábu­las sobre Illu­mi­na­tis, Maçons e outros gru­pos que con­tro­la­riam secre­ta­mente os desíg­nios do pla­neta são ape­nas con­tos-de-fadas para ninar cri­an­ças, se com­pa­ra­das com o cená­rio de um mundo no qual uma cen­tena de famí­lias deterá mais da metade da riqueza de todo o globo e sete bilhões de indi­ví­duos se tor­na­rão meros fan­to­ches, mani­pu­la­dos e con­tro­la­dos atra­vés de meca­nis­mos tec­no­ló­gi­cos cada vez mais sofis­ti­ca­dos.

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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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