Quando você pensa num especialista falando do nosso futuro, imagina um físico ou engenheiro aeroespacial descrevendo um cenário de ficção científica, ou um ambientalista descrevendo um mundo digno daquele descrito no livro The Road (Não viu ainda? Preserve sua paz de espírito e não veja).

Mas se perguntarmos qual será nosso futuro à uma equipe de economistas de origem internacional que estudou por 15 anos todos os dados relevantes da economia global nos últimos três séculos, o quadro que se descortina não tem nada de ficção científica. Na verdade, ele é ao mesmo tempo antigo e ruim. BEM ruim.

Para o coordenador dessa equipe, nosso futuro está todo descrito num romance do século dezoito.

Segundo o coordenador dessa equipe, Thomas Pikkety, nosso futuro será mais ou menos parecido com esse cenário nada futurista:

plebeu

E adivinha qual personagem você será, meu irmão?

 

A máquina formidável

Antes de prosseguir, vamos deixar claro dois pontos. Em primeiro lugar, é provável que nosso futuro seja uma mistura de coisas boas (evolução tecnológica) e coisas péssimas (tragédias ambientais). Em alguns aspectos, estamos melhorando a olhos vistos, e isso graças à economia de mercado. Então não prossiga a leitura se você ficou empolgado achando que este texto é uma crítica ao capitalismo. Longe disso. O capitalismo é uma ferramenta muito eficiente, o problema é que, como toda ferramenta complexa, a economia de mercado precisa ser calibrada e ter seu funcionamento corrigido de vez em quando.

O segundo ponto é tentar enxergar as coisas fora do enquadramento ideológico e teórico. Precisamos fugir disso um pouco, e analisar o mundo com inteligência, julgando as coisas não segundo o que diz essa ou aquela teoria, mas segundo a resposta à seguinte pergunta: “isso funciona eficientemente? e para que fins?”. Mais ainda, temos que treinar um olhar capaz de observar nosso mundo e a democracia com uma sobriedade desapaixonada, embora não desumana.

E o resultado desse exercício de inteligência sóbria são obras impressionantes como O Capitalismo no Século 21, de Thomas Pikkety, síntese do trabalho de uma equipe debruçada por 15 anos em 3 séculos de dados inquestionáveis sobre a economia global. 

Nesse livro, Piketty apresenta uma teoria geral do capitalismo que combina a análise do crescimento econômico a distribuição da riqueza pelo mundo. Indo além das desavenças ideológicas ele consegue comparar e superar duas visões do capitalismo, a da esquerda e a da direita, apresentadas por Marx e Simon Kuznets.

Para Marx, o capitalismo era um sistema de opressão que seria substituído logicamente por uma sociedade mais evoluída, a comunista. Já para Simon Kuznets, o capitalismo não só persistiria, mas solucionaria o problema da desigualidade social.

Piketty demonstra que ambos estavam errados. Apresentando dados rigorosos a respeito da situação mundial a partir do século 18 até nossos dias, ele prova que nada sustenta nenhuma dessas duas teorias. Não, ao contrário do que escreveu Marx, o capitalismo não é opressor e tampouco entrará em colapso. Não, ao contrário do que dizia Simon Kuznets, o capitalismo jamais resolverá ele próprio o problema da desigualdade social. Na verdade o capitalismo, apesar de ser uma ferramenta eficiente e formidável (e pode continuar a ser), quando funciona livremente tende a produzir uma enorme diferença na distribuição de renda, uma diferença que tornará em breve alguns poucos seres humanos pessoalmente senhores de uma riqueza superior ao produto interno bruto de algumas nações.

Nesse momento de sujeição de estados à riqueza de poucos detentores de multinacionais poderosas, aqueles tremendamente beneficiados por uma gigantesca desigualdade na distribuição de renda naturalmente tenderão a contaminar os assuntos do Estado com seus interesses. Começarão, de uma forma ou de outra, a influenciar governantes, até mesmo comprá-los, bem como outros funcionários de alto escalão de alguns governos. Aos poucos, o domínio econômico e o domínio político estarão unidos em poucas mãos. Nesse momento, pode haver uma ruptura com a democracia.

É uma tendência facilmente aferível analisando-se os rumos da economia ao longo dos últimos séculos, explica Piketty. Entre 1930 e 1975, por causa das duas Guerras Mundiais, essa tendência de ampliar a desigualdade social foi refreada, em parte por políticas públicas de distribuição de renda que tentaram compensar, nos países do hemisfério norte, as enormes perdas resultantes desses dois conflitos.

Porém, no final do século vinte e principalmente a partir do século vinte e um, a desigualdade social retomou seu ritmo. Na verdade, essa desigualdade está aumentando em uma progressão geométrica.

 

O Capitalismo Patrimonial

Vou poupar o leitor dos detalhes matemáticos da teoria de Piketty, embora ele se aprofunde o suficiente em sua obra. A conclusão é a de que, durante períodos de pequeno crescimento econômico como o atual, a economia deixa de prestigiar o trabalho em favor do capital, e disso resulta uma absurda acumulação de riqueza nas mãos de uma ridícula minoria de pessoas.

Portanto, a desigualdade aumentará de uma forma sem precedentes nos próximos anos.

Essa é uma situação já reconhecida e suficientemente comprovada: atualmente, 85 seres humanos detêm 46% da riqueza mundial. Entenda bem: oitenta e cinco indivíduos possuem quase a metade do patrimônio que os restantes sete bilhões de pessoas do planeta detêm.

No meio do século vinte, alguém viveria melhor ao ocupar o cargo de alguém que está entre os 10% mais ricos do que herdando o patrimônio dessa pessoa, pois a tributação estimulava o trabalho. Em meados de 1970, essa situação passou a igualar-se. A partir de então, economicamente é cada vez mais vantajoso herdar de alguém abastado do que trabalhar no cargo ocupado por essa pessoa.

Nos próximos anos, a tendência é que cheguemos a uma situação na qual a única forma de possuir uma grande riqueza será por meio da herança, pois os grandes patrimônios não terão a mesma mobilidade do passado — e disso resultará o nascimento de uma nova forma de “nobreza”.

Não haverá mais histórias como a de Bill Gates, um nerd esperto de classe média que se deu bem num ramo inovador e tornou-se um dos homens mais ricos do mundo graças a sua engenhosidade e excelentes oportunidades. Haverá apenas histórias como a de Paris Hilton — herdeiros desocupados que estarão por cima da carne seca apenas devido à sua origem. O resultado desse aprofundamento da desigualdade social será o surgimento de um novo tipo de capitalismo, que Piketty batizou de “Capitalismo Patrimonial”.

E que sociedade emergirá desse “capitalismo patrimonial”? Piketty acredita ter encontrado um exemplo dela no passado, e isso graças à literatura do século dezenove, que descreve uma sociedade muito parecida com aquela que emergirá em breve.

 

Você, o plebeu

Os Honoré de Balzac e Jane Austen descrevem em seus romances do século dezenove a sociedade patrimonial da antiga Europa, na qual um pequeno número de ricaços viviam de um modo extravagante graças à riqueza que herdavam de seus antepassados, enquanto as outras pessoas lutavam diariamente para poder sobreviver com um mínimo de decência.

Naquele período, as pessoas não valorizavam o trabalho e o empreendedorismo privado como forma de enriquecimento. Antes, preferiam casar com alguém rico ou então herdar uma propriedade. A educação era considerada uma forma de aumentar a possibilidade de conseguir um bom casamento, e trabalhar não era tido como uma atividade respeitável.

Pikkety e sua equipe oferecem uma obscena quantidade de dados para demonstrar que, no século 21, a sociedade ocidental retornará o à mesma estrutura social do século 19, mas em proporções mais absurdas.

Hoje, um típico trabalhador do Walmart ganha nos EUA menos do que 25 mil dólares por ano, enquanto Michael Duke,  principal executivo da rede de supermercados, recebeu mais de 23 milhões de dólares em 2012. Em 2011, Tim Cook, executivo da Apple, recebeu 378 milhões de dólares – o correspondente a 6.258 vezes o que recebe um empregado padrão (veja bem, não é o menor salário) da sua empresa.

Como demonstra Piketty, no capitalismo patrimonialista, o talento desses executivos não guarda nenhuma correspondência com o salário e outros benefícios financeiros que recebem. Seus ganhos não tem relação alguma com a qualidade de sua gestão, pois sua remuneração não é estabelecida segundo a sua competência, mas resulta de acordos realizados entre eles próprios, na mesa dos diretores das grandes empresas.

O problema, claro, não é a impossibilidade de ficarmos ricos feito o Bill Gates. Afinal, nem todo mundo sonha em ser biliardário. O problema é a formação de uma super-elite que terá mais dinheiro do que o PIB de diversas nações, mandando e desmandando no mundo e assegurando para seus descendentes uma estrutura de dominação cada vez maior e mais consolidada.

No capitalismo patrimonial, os herdeiros daqueles 85 indivíduos e talvez uma centena de outros logo abaixo deles terão tal poder econômico que surgirá uma nova oligarquia mundial, uma linhagem de “nobres” que herdam seu poder pela consanguinidade. Você, eu, e todos os outros abaixo dessa super-elite não seremos apenas pobres (desprovidos de dinheiro), seremos também um novo tipo de “plebeu” (desprovido de “nobreza”) – os “neoplebeus” do século vinte e um.

Conforme alerta Piketty, um único indivíduo que possui tanto capital quanto um país inteiro pode facilmente afetar o futuro de toda uma nação. E é natural que as pessoas mais ricas tentem assegurar seu poder e seu status, soltando milionárias migalhas para asseclas que, submissos, acatam os desmandos de seus donos e fazem prevalecer sua vontade em todos os continentes. E numa época em que as campanhas políticas dependem cada vez mais de vultosos financiamentos, já podemos imaginar onde isso vai dar.

 

O capitalismo 2.0

Neste exato momento, você provavelmente está imaginando que Thomas Piketty é de esquerda e que escreveu seu livro na forma de um grande panfleto contra o capitalismo, com a intenção de comprovar que Fidel Castro, os Black Blocs e aquele seu tio chato que ainda mora com a mãe e chora ao ouvir o hino Comunista na vitrola em seu quarto abarrotado de livros estão absolutamente certos: o capitalismo é um grande vilão, um enorme dragão maligno a ser derrotado pelas forças do bem.

Nada mais errado. E muita gente por aí tem dito bobagens precipitadas sem ter lido o livro.

A solução proposta por Piketty passa longe daqueles que, lendo apressadamente as resenhas de sua obra, sonham com uma revolução que acabe com o capitalismo. O economista francês é um sujeito prático, e em recente entrevista deixou claro que jamais teve simpatia pelo comunismo e tampouco sonha em questionar a importância fundamental do livre mercado e da propriedade privada para nossa sociedade.

Segundo ele, o capitalismo deve prosseguir, mas devemos retomar seu controle, pois a questão é colocar o mercado ao serviço do bem comum e da democracia, e não a democracia ao serviço do mercado. Em suma, o problema não é econômico, e sim político.

Tenho um grande amigo que é liberal, um sujeito que está muito além dos Olavos de Carvalho e outras anedotas da direita conservadora nacional. Ele defende o capitalismo com a mesma convicção com que defende o feminismo, o ambientalismo, o Estado laico, a luta contra o racismo, a luta contra a homofobia e outras pautas progressistas — que, ele nunca me cansa de lembrar, sempre tiveram melhor sorte nos países liberais do que nos países socialistas.

E esse meu amigo certo dia me disse algo curioso, vindo de um liberal: o capitalismo ideal é aquele que atingiu 80% de seu potencial de realização. Acima desse potencial, o capitalismo realmente se torna algo nocivo para a sociedade e a democracia. Ele precisa, em suma, de um policiamento constante para que não ultrapasse esse patamar de desenvolvimento. Mas isso não significa que ele deva ser combatido — tem é de ser controlado.

É como se fosse uma máquina eficiente, inventada e aperfeiçoada aos poucos, colocada a prova no ringue junto ao comunismo e o totalitarismo durante o século vinte, período em que derrotou seus rivais. Essa máquina faz bem seu serviço, corresponde à certas características da natureza humana e historicamente mostrou conviver bem com a democracia — ao menos melhor do que seus rivais e desde que certos limites sejam impostos a seu funcionamento.

Por outro lado, se deixarmos tal máquina sem qualquer controle, ultrapassando o marco de 80% do seu potencial de realização, ela não fica parada nesse ponto de equilíbrio. Naturalmente, pelo seu próprio funcionamento interno, ela passa se aproximar dos seus 100%. A partir de então, cada passo na direção dessa plenitude tal máquina começa a escravizar seu próprio criador, o ser humano.

Como qualquer tentativa de trocar essa máquina por outra, jamais testada na prática e só supostamente eficiente “em teoria”, não poderia ser feita sem um grande trauma para todo o sistema na qual ela funciona, o mais razoável será criarmos instituições capazes de policiar seu funcionamento, aperfeiçoando suas características e evitando que a criatura se volte contra o criador.

Por isso, o que Piketty propõe não é a destruição do capitalismo. O que ele prega não é a substituição de um sistema efetivo por outro, até agora meramente teórico (um socialismo que conviva bem com as liberdades individuais). Ele é prático e propõe o ajustamento do sistema por meio de medidas pontuais como a taxação mundial das grandes fortunas combinada com um aumento dos tributos incidentes sobre as rendas mais elevadas.

Segundo a avaliação da equipe de Piketty, nos países desenvolvidos esses tributos deveriam ser de até 80% sobre a renda e a riqueza, em um percentual progressivo, como é o nosso imposto de renda.

Está parecendo algo de país socialista? Sabe de nada, inocente. Isso já ocorreu no passado em nações rigorosamente capitalistas como os EUA, sem qualquer problema. De 1945 a 1975, a economia dos países desenvolvidos progrediu de forma sem precedentes, enquanto a taxa de retorno do capital era baixa, pois sua tributação era alta, de modo que a distribuição de riqueza favorecia o trabalho, e não o capital. Para Piketty, essa foi a Era de Ouro do capitalismo, um evento isolado em sua longa história.

Nesse período, os EUA foi o primeiro país a aumentar a tributação acima de 70%, a fim de reduzir a concentração de riqueza. De 1932 a 1980, a tributação média sobre as rendas mais elevadas (acima de 500 mil dólares mensais) nos EUA foi de 81%. Isso não quebrou a economia americana — ao contrário, durante essas décadas o país se tornou uma das maiores potências mundiais.

Mas a Era de Ouro do capitalismo acabou no final da década de 1970, quando a tributação despencou para 30%, fazendo com que o número de executivos com salários astronômicos crescesse. E tudo desmoronou de vez quando Thatcher e Reagan viraram a mesa e, no início da década de 1980, derrubaram a tributação do capital, abrindo caminho para o nascimento do capitalismo patrimonialista. Mesmo o exagerado e rocambolesco Michael Moore, em seu documentário Capitalismo: uma história de amor, reconhece que o problema começou foi nessa época.

E a tributação sobre as grandes fortunas e os altíssimos rendimentos só não é elevada novamente hoje em dia devido a falta de integridade moral de todos os que estão envolvidos com a política econômica. Em suma: todos foram comprados por aqueles que se situam no topo da pirâmide.

No documentário Inside Job, o diretor Charles Fergunson demonstra como os grandes executivos americanos compram  economistas acadêmicos a fim de que elaborem justificativas teóricas para a ausência de tributação em operações financeiras. Em seguida, esses mesmos executivos compram autoridades com poder decisório para que impeçam qualquer mudança no atual estado das coisas.

Segundo Piketty, nosso futuro depende de intervenção estatal coordenada mundialmente, para que todas as nações consigam reduzir gigantescos patrimônios individuais em níveis que não ameacem a democracia. Na verdade, a solução é fazer com que a democracia avance sobre a riqueza.

Seria necessário uma total transparência no registro de todas as operações financeiras e da situação patrimonial dos indivíduos — seria preciso limitar o sigilo bancário e fiscal, ao menos no que diz respeito aos valores totais, pois esses sigilos não tem nada de democráticos e interessam apenas a uma minoria.

Isso, claro, exige que os Estados sejam fortes — e a palavra é “fortes”, e não “grandes”. O tamanho do Estado não tem necessária correspondência com sua força. Na verdade, um Estado inchado desperdiça recursos e não concentra sua atuação naqueles pontos em que sua presença deve ser firme e inflexível.

Um Estado burocratizado torna-se mais suscetível à influências escusas de quem detém poder econômico.

Isso tudo diz respeito diretamente a todos nós e a nossas vidas. Isso definirá se o futuro concretizará ou não aquilo que até hoje foi apenas delírio de paranóicos e adeptos de teorias conspiratórias. Afinal, as fábulas sobre Illuminatis, Maçons e outros grupos que controlariam secretamente os desígnios do planeta são apenas contos-de-fadas para ninar crianças, se comparadas com o cenário de um mundo no qual uma centena de famílias deterá mais da metade da riqueza de todo o globo e sete bilhões de indivíduos se tornarão meros fantoches, manipulados e controlados através de mecanismos tecnológicos cada vez mais sofisticados.

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escrito por:

Victor Lisboa